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Antes de Plantar O dia começou cedo

Lord_Gins

Conteúdo da publicação

BLACKWOOD
Capítulo 2 — Antes de Plantar
O dia começou cedo.
Felipe acordou antes do despertador, ainda sem
se acostumar com o silêncio da propriedade.
Por alguns segundos, permaneceu deitado
olhando para o teto.
Então ouviu alguma coisa do lado de fora.
Um pássaro.
Depois o vento.
Nada mais.
Pegou o telefone sobre o criado-mudo.
5h47.
— Cedo demais.
Levantou mesmo assim.
Vestiu uma calça jeans, uma camisa simples e a
jaqueta. Quando desceu, a casa ainda estava
mergulhada em uma luz azulada de começo de
manhã.
Na cozinha, preparou café.

Enquanto esperava a água aquecer, abriu
novamente a nota da noite anterior.
Não ter pressa.
Sorriu.
— Vamos ver se consigo obedecer a mim
mesmo.
Pegou uma caneca e saiu pela porta dos fundos.
O frio era mais intenso naquela manhã.
Felipe caminhou até o primeiro pasto.
A grama estava irregular. Em alguns pontos era
mais alta; em outros, havia áreas onde o solo
aparecia.
Ele agachou.
Pegou um pouco de terra entre os dedos.
Não sabia dizer se era boa ou ruim.
E essa constatação, embora simples, foi
importante.
Ele não precisava fingir que sabia.
Precisava descobrir.
Às oito da manhã, uma caminhonete branca

entrou pela estrada principal.
Felipe estava esperando perto da casa.
Do veículo desceu uma mulher de
aproximadamente trinta anos, cabelos presos,
botas de trabalho e uma pasta grossa de
documentos debaixo do braço.
Ela olhou para a propriedade antes de caminhar
até ele.
— Felipe?
— Emily Harper?
— Ela mesma.
Aperto de mão.
— Prazer.
— Igualmente.
Emily olhou novamente para o campo.
— Então essa é a famosa Blackwood.
Felipe sorriu.
— Famosa?
— Na região, uma propriedade desse tamanho
abandonada por quase dez anos acaba ficando

famosa.
— Imagino que não pelas melhores razões.
— Depende de quem você perguntar.
Ela abriu a pasta.
— Você pediu uma avaliação completa do solo.
— Pedi.
— E quer saber quais áreas podem receber
cultivo, quais culturas seriam mais adequadas e
o que precisa ser corrigido antes do plantio.
— Exatamente.
Emily fechou a pasta.
— Então precisamos caminhar.
Felipe sorriu.
— Samuel disse a mesma coisa.
— Samuel geralmente está certo.
— Ele vai gostar de ouvir isso.
Os dois começaram a caminhar.
Durante a primeira hora, Emily falou pouco.
Parava.
Observava.

Agachava.
Pegava terra.
Anotava.
Depois caminhava novamente.
Felipe acompanhava.
Finalmente, não resistiu.
— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— O que exatamente você está procurando?
Emily continuou andando.
— Tudo.
— Isso não ajuda muito.
Ela sorriu.
— Está procurando uma resposta simples para
uma pergunta que não é simples.
Felipe aceitou a provocação.
— Justo.
Emily apontou para uma área mais baixa.
— Veja ali.
Felipe olhou.

— Parece normal.
— Parece.
Ela caminhou até lá.
A vegetação era um pouco mais densa.
O terreno apresentava uma inclinação suave.
Emily fincou uma pequena haste no solo.
— Aqui existe uma diferença.
— De quê?
— Umidade.
Felipe se aproximou.
— Mesmo sem chuva?
— Mesmo sem chuva.
Ela abriu uma pequena amostra do solo.
— Essa área provavelmente recebe água de
outras partes da propriedade.
Felipe ficou olhando.
— Então isso é bom?
Emily levantou-se.
— Pode ser.
— E pode não ser.

— Exatamente.
Felipe sorriu.
— Estou começando a perceber que você gosta
muito dessa palavra.
— “Depende”?
— Essa.
— Porque quase tudo em agricultura depende.
Ela voltou a guardar as ferramentas.
— Uma área que retém água pode ser excelente
para determinadas culturas ou um problema
enorme para outras. Primeiro precisamos
entender o comportamento da água.
Felipe olhou para o terreno.
— Eu estava pensando em construir um poço.
Emily ficou séria.
— Onde?
Felipe apontou para a parte baixa.
— Mais ou menos naquela direção.
Ela balançou a cabeça.
— Não tome essa decisão ainda.

— Por quê?
— Porque precisamos estudar a propriedade
primeiro. Você pode ter água ali, mas isso não
significa que aquele seja o melhor lugar para
captar.
Felipe assentiu.
— Certo.
Emily sorriu discretamente.
— Você realmente vai me ouvir?
— Se você me explicar por que está dizendo não.
— Isso já é melhor do que a maioria dos
proprietários.
Perto do meio-dia, os dois estavam de volta à
casa.
Emily abriu o notebook sobre a mesa da sala.
Mapas apareceram na tela.
— Quero contratar uma análise de solo completa
— disse ela. — Textura, pH, matéria orgânica,
nutrientes, compactação, capacidade de
retenção de água e algumas outras

características.
Felipe puxou uma cadeira.
— Quanto tempo?
— Para a primeira leitura, alguns dias. Para um
diagnóstico realmente útil, vamos precisar
cruzar os resultados com o relevo e a água.
— E depois?
— Depois decidimos onde plantar.
Felipe assentiu.
— Milho?
Emily ergueu os olhos.
— Talvez.
— Cevada?
— Também pode ser.
— Soja?
— Possível.
Felipe riu.
— Você realmente não vai me dar uma resposta
hoje.
— Não.

Ele se recostou na cadeira.
— Está começando a ficar caro esse negócio de
aprender.
Emily fechou o notebook.
— Mais barato do que plantar errado.
Felipe ficou alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu.
— Fechado.
Naquela tarde, Samuel apareceu novamente.
Encontrou Felipe na varanda, tomando café.
— E então?
Felipe levantou a caneca.
— Ainda estou aqui.
Samuel assentiu.
— Ótimo começo.
Emily apareceu atrás dele.
— Samuel.
— Emily.
— Você já assustou o novo proprietário?
— Só um pouco.

Felipe apontou para uma cadeira.
— Sente-se.
Samuel sentou.
Emily colocou alguns papéis sobre a mesa.
— Estamos começando o levantamento da
propriedade.
Samuel olhou para Felipe.
— E ele já quer plantar?
— Ele queria — respondeu Emily.
Samuel riu.
— E você conseguiu convencer?
— Ele escutou.
Felipe tomou um gole de café.
— Eu estou tentando aprender.
Samuel ficou sério.
— Então aprenda uma coisa agora.
Felipe esperou.
— Terra não gosta de pressa.
Emily assentiu.
Samuel continuou:

— Você pode mandar nela, porque é dono. Pode
comprar máquina, contratar gente, construir
cerca, cavar poço. Mas se ignorar o que ela está
dizendo, ela cobra.
Felipe olhou para o campo.
— Quanto?
Samuel sorriu.
— Às vezes dinheiro.
Fez uma pausa.
— Às vezes um ano inteiro.
Felipe ficou em silêncio.
Pegou o telefone.
Abriu a nota que havia criado naquela noite.
Acrescentou:
7. Escutar a terra antes de tentar fazê-la produzir.
Guardou o aparelho.
Emily percebeu.
— Está fazendo uma lista?
— Estou.
— Posso ver?

Felipe virou o telefone para ela.
Emily leu.
Quando terminou, devolveu.
— Está faltando uma coisa.
— O quê?
Ela apontou para a última linha.
— Pessoas.
Felipe olhou para Samuel.
Depois para Emily.
— Pessoas?
— Você vai precisar de gente para transformar
tudo isso em realidade.
Samuel sorriu.
— Agora estamos chegando a algum lugar.
Felipe levantou-se.
Olhou para a imensidão diante da casa.
A Blackwood ainda estava vazia.
Sem gado.
Sem plantações.
Sem máquinas.

Sem funcionários.
Mas, pela primeira vez, já não parecia
abandonada.
Parecia estar esperando.
E Felipe começava a entender que construir uma
fazenda não seria simplesmente colocar coisas
dentro dela.
Seria descobrir o que aquela terra poderia se
tornar.
E, principalmente, encontrar as pessoas certas
para ajudá-lo a descobrir.

Thoughts

  • Romildo

    Daí o Felipe quer furar poço no primeiro dia e escolher entre milho, cevada e soja antes do almoço kkk ainda bem que a Emily segurou

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  • Petronilha

    Terra parada quase dez anos não esquece quem largou ela, e o Samuel fala como quem viu essa história de perto, meu filho. Aposto que ele conheceu os donos de antes da Blackwood, e que a Emily sabe mais do que conta quando diz que a fama depende de quem a gente pergunta.

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