1800 - Brasil Colônia
Uma família de grande prestígio vinda de Portugal acaba de se estabelecer em Belém. Trata-se da família Andrade de Vasconcelos.
O patriarca, Dom Fernando Andrade de Vasconcelos, chegou acompanhado de sua esposa, Dona Isabel de Vasconcelos, e de seus três filhos: Ariadne, Miguel e Tomás.
Adquiriram a fazenda vizinha à de minha família, situada a pouca distância de nossas terras.
Ainda não tive ocasião de conhecer nenhum deles pessoalmente. Contudo, toda a cidade parece falar de uma única pessoa: Ariadne, a filha mais velha de Dom Fernando.
Os comentários acerca de sua beleza espalharam-se por toda Belém.
Nesta manhã, cavalgava pelas proximidades de sua propriedade, movido pela curiosidade de avistar a jovem de quem todos falavam.
Foi então que a vi.
Caminhava serenamente pelos jardins da fazenda.
Meu coração acelerou-se ao contemplá-la.
Jamais meus olhos haviam repousado sobre criatura tão formosa.
A jovem voltou o rosto em minha direção e ofereceu-me um gentil sorriso.
Apeei imediatamente de meu cavalo e aproximei-me dela.
- Tenha um bom dia, senhorita. - disse eu, fazendo uma breve reverência.
- Bom dia, senhor. - respondeu ela com certa cautela. - Perdoe minha indiscrição, mas quem sois vós?
- Sois porventura filha de Dom Fernando Andrade de Vasconcelos? - perguntei sem conseguir desviar os olhos de seu rosto.
- Sim, senhor. Sou sua filha. - respondeu ela com um leve rubor nas faces.
Meu coração aqueceu-se.
Era ela.
Ariadne.
Os rumores não exageravam.
Sua beleza parecia saída de um sonho.
- Permiti que me apresente. Sou Álvaro Montenegro, filho de Dom Augusto Montenegro. Nossa família reside na fazenda vizinha à vossa. - respondi.
- É uma honra conhecê-lo, senhor Álvaro. - disse Ariadne, oferecendo-me um sorriso ainda mais belo que o primeiro.
Naquele instante, tive a estranha sensação de que jamais esqueceria aquele sorriso.
E, pela primeira vez em minha vida, suspeitei estar me apaixonando.
- Devo confessar uma coisa, senhorita. - disse eu, sem conseguir conter-me. - Sois deveras a mais formosa dama que meus olhos já contemplaram.
Movido por um impulso pouco prudente, tomei delicadamente sua mão e depositei um leve beijo sobre ela.
Ariadne imediatamente recolheu a mão.
- Não me recordo de ter concedido tal liberdade, senhor Álvaro. - respondeu ela com firmeza.
Senti o rosto aquecer de vergonha.
- Perdoai-me, senhorita. Fui demasiadamente atrevido. Não era minha intenção ofendê-la.
Ela nada respondeu de imediato, apenas me observou por alguns instantes.
Nesse momento, uma voz interrompeu nosso breve encontro.
- Minha senhora.
Voltei-me e vi um criado aproximando-se apressadamente pelo jardim.
- Com licença, senhor Álvaro, mas devo retirar-me agora. - disse Ariadne, afastando-se alguns passos.
- Compreendo. - respondi, ainda encantado.
Observei-a partir.
Havia algo em sua maneira de caminhar que prendia meu olhar. A forma delicada como erguia levemente as saias do vestido para atravessar o jardim, a postura elegante e os movimentos graciosos faziam-na parecer uma personagem saída de um romance.
Permaneci imóvel por alguns instantes, acompanhando-a com os olhos até que desaparecesse entre as árvores.
E, naquele momento, tive a estranha sensação de que minha vida jamais voltaria a ser a mesma.
Já era noite, e eu jantava com minha família na grande sala de refeições da fazenda. Contudo, por mais que tentasse prestar atenção à conversa, meus pensamentos voltavam sempre para a mesma pessoa.
Ariadne.
Seu sorriso.
Sua voz.
Sua beleza.
- Hoje tive a oportunidade de conhecer Dom Fernando Andrade de Vasconcelos. - disse meu pai enquanto levava uma taça aos lábios. - É um homem honrado e de excelente reputação.
- Eu conheci sua filha mais velha. - respondi sem conseguir esconder o sorriso.
Minha mãe arqueou uma sobrancelha.
- Nossa Senhora... que expressão é essa, Álvaro? - perguntou ela, surpresa. - Pareces um homem enamorado.
- Nem precisa perguntar, mamãe. - brincou minha irmã. - Basta olhar para ele.
Meu pai soltou uma breve risada.
- Então também caíste sob os encantos da senhorita Ariadne?
- Estou apaixonado por ela, papai. - declarei com firmeza. - Desejo torná-la minha esposa.
Minha mãe quase deixou o talher cair.
- Álvaro! Conheceste a jovem apenas esta manhã. Como podes falar em casamento tão depressa?
- Quando um homem encontra a dama destinada ao seu coração, ele o sabe. - respondi sem hesitar.
Meu pai sorriu, divertindo-se com minha convicção.
- Pois talvez a Providência esteja a teu favor. Dom Fernando comentou que sua filha mais velha já se encontra em idade apropriada para o matrimônio.
Meu coração acelerou imediatamente.
- Está falando sério?
- Estou. - respondeu ele. - Se teus sentimentos forem sinceros, poderás começar a cortejá-la como convém a um cavalheiro.
- Mas comporta-te com prudência. - acrescentou minha mãe. - Uma moça de boa família não se conquista apenas com palavras bonitas.
- Não vos preocupeis. - respondi. - Farei tudo da maneira correta.
Meu pai assentiu.
- Primeiro conquistarás a confiança da jovem. Depois, se ela corresponder aos teus sentimentos, falarei com Dom Fernando sobre tuas intenções.
Baixei os olhos para o prato, tentando conter o sorriso.
Mas era impossível.
Pela primeira vez em muito tempo, sentia-me verdadeiramente feliz.
Os dias passaram-se lentamente.
Todas as manhãs eu fazia questão de cavalgar pelas proximidades da fazenda dos Andrade de Vasconcelos, na esperança de tornar a ver Ariadne.
Todavia, a jovem jamais aparecia.
Com o passar das semanas, comecei a acreditar que aquele encontro no jardim havia sido um capricho do destino que não se repetiria.
Numa tarde, encontrava-me na praça da vila em companhia de alguns amigos quando um deles apontou para o outro lado da rua.
- Olhai! É a senhorita Ariadne! - exclamou ele, entusiasmado.
Senti imediatamente o coração acelerar.
Virei-me depressa para olhar.
Porém, ao avistar a moça, senti uma estranha decepção.
Não.
Aquela não era a jovem que eu conhecera.
Não possuía o mesmo olhar.
Nem o mesmo sorriso.
Nem a mesma presença.
- Estais enganados. - respondi, balançando a cabeça. - Aquela não é ela.
- Claro que é. - insistiu um de meus companheiros. - É a filha mais velha de Dom Fernando.
Franzi a testa.
Aquilo não fazia sentido.
Observei a jovem atentamente.
Então resolvi aproximar-me.
- Tenha um bom dia, senhorita. - disse eu ao chegar.
- Bom dia, senhor. - respondeu ela com certa timidez.
- Porventura vos chamais Ariadne? - perguntei.
- Sim. - respondeu ela. - Sou Ariadne Andrade de Vasconcelos.
Fiquei perplexo.
- Como podeis ser Ariadne? - perguntei sem conseguir esconder minha confusão. - Tenho certeza de que já conversei com a filha de Dom Fernando.
A jovem pareceu intrigada.
- Creio que estais equivocado, senhor. Sou a única filha mulher de meu pai.
Meu espanto apenas aumentou.
- Perdoai-me. Talvez eu realmente tenha cometido um engano. - respondi, afastando-me constrangido.
Nesse instante, a jovem ergueu a mão e acenou para alguém.
- Miguel! Estou aqui!
Ao ouvir aquele nome, voltei-me na direção indicada.
E então senti o mundo parar por um instante.
Era ele.
A mesma pessoa que eu encontrara no jardim.
Os mesmos olhos.
O mesmo sorriso.
Os mesmos cabelos escuros.
Contudo, agora vestia trajes masculinos.
Uma camisa clara, colete escuro e calças de montaria.
Meu coração quase saltou do peito.
- Bom dia, senhor Álvaro. - disse ele com um sorriso cordial.
Fiquei completamente sem palavras.
Ariadne observou-nos, surpresa.
- Já vos conheceis?
- Sim. - respondeu Miguel. - Tivemos a oportunidade de conversar nos jardins de nossa fazenda há alguns dias.
Seu sorriso alargou-se.
- É muito bom revê-lo.
Olhei para ele, depois para Ariadne, e novamente para ele.
Minha mente recusava-se a compreender o que meus olhos viam.
- Que espécie de brincadeira é esta? - perguntei atônito. - Então... não sois Ariadne?
Miguel soltou uma breve risada.
- Não, senhor.
- Sou Miguel Andrade de Vasconcelos.
- E, como podeis ver... sou um homem.
Por alguns instantes, permaneci imóvel.
A jovem por quem acreditava estar apaixonado jamais existira.
Ou talvez tivesse existido.
Apenas não da forma que eu imaginava.
- Mas por que fingistes ser vossa irmã? - perguntei, ainda atônito com toda aquela situação.
Miguel arqueou uma sobrancelha.
- Em momento algum afirmei ser Ariadne. - respondeu com tranquilidade. - Foi Vossa Senhoria quem chegou a tal conclusão.
Fiquei sem palavras por um instante.
- Dom Fernando possui apenas uma filha mulher. Encontrei-vos trajando vestes femininas... naturalmente imaginei que fôsseis a senhorita Ariadne. - retruquei, ainda tentando compreender o ocorrido.
Ariadne soltou uma breve risada.
- Houve um pequeno contratempo durante nossa viagem. - explicou ela. - Nosso irmão mais novo resolveu divertir-se às custas de Miguel e lançou suas malas ao rio.
- Não foi uma experiência agradável. - acrescentou Miguel, balançando a cabeça. - Grande parte de minhas roupas ficou inutilizada.
- E, enquanto novas vestes não eram providenciadas, meu irmão viu-se obrigado a usar algumas das minhas. - concluiu Ariadne.
Miguel pareceu um tanto constrangido.
- Peço-vos perdão se vos causei algum embaraço, senhor Álvaro.
- Embaraço? - repeti, sem graça. - Não foi bem isso...
Ariadne voltou a rir.
- Não vos atormenteis com isso, senhor Álvaro. Meu irmão sempre possuiu feições muito delicadas.
Enquanto falava, ela levou a mão aos longos cabelos escuros de Miguel.
- Vede estes cabelos. - disse ela. - E observai seu rosto.
Miguel afastou a mão da irmã com evidente resignação.
- Ariadne...
- Ora, é a verdade. - respondeu ela divertindo-se. - Se o vestirdes novamente com um vestido, metade da cidade acreditará tratar-se de uma jovem dama.
Senti o rosto aquecer imediatamente.
O pior era admitir que ela tinha razão.
Ao recordar o instante em que o vira no jardim, compreendi que qualquer homem teria cometido o mesmo engano.
E, para meu desespero, ainda não conseguia afastar da memória aquele sorriso.