Aquela era a sua nova casa. Ainda havia caixas por abrir, pequenos detalhes por organizar, mas ela já reconhecia naquele lugar uma espécie de refúgio. Foi ali que, treze anos depois, ele apareceu novamente. Era o primeiro dia do ano.
Ele entrou carregando no rosto o tempo que havia passado, mas os olhos eram os mesmos. Aquele olhar penetrante que ela reconheceria entre milhares.
Ele sabia o que a vida havia feito com ela. Sabia que agora ela trabalhava como garota de programa. Não havia surpresa em seu rosto, apenas uma curiosidade silenciosa que se tornou mais evidente depois de algumas cervejas.
— E como é o seu trabalho?
Ela sorriu de maneira quase irônica.
— Eu trabalho com o tempo.
Ele a observou.
— E quanto custa o seu tempo para você ficar comigo?
A pergunta a deixou envergonhada. Baixou os olhos por um instante. A verdade era que, desde que ele entrara naquela casa, ela já sabia que não queria medir aquela noite em dinheiro. Havia saudade demais entre os dois para caber em uma tabela de preços.
— De você? Nada. Eu jamais cobraria você.
Então o convidou para a sala.
Escolheu a música que mais lembrava os dois, Change Your Mind, de Neil Young. Quando os primeiros acordes preencheram o ambiente, parecia que a casa desaparecia e, por alguns instantes, eles estavam novamente naquele passado que nunca havia terminado completamente.
Ela segurou as mãos dele.
Depois olhou para sua boca.
Aquela mesma boca que, treze anos antes, havia sido responsável por fazer seu coração descobrir um sentimento que ela ainda não sabia nomear.
Ela o beijou.
E foi justamente naquele instante que o medo chegou.
Não era medo dele. Era medo do que estava acontecendo dentro dela. O beijo despertara algo que ela havia passado anos tentando manter adormecido.
Ela se afastou.
— Eu vou ter prejuízo emocional com isso.
Ele permaneceu em silêncio.
— Foi por isso que passei tantos anos evitando me envolver.
Ele a encarou com delicadeza.
— Então eu posso ir embora.
Aquela possibilidade doeu mais do que ela esperava.
Dessa vez, porém, ela não fugiu.
Talvez amar novamente significasse exatamente aquilo: aceitar que o futuro poderia machucá-la e, ainda assim, ter coragem de viver o presente.
Ela voltou para perto dele.
O restante daquela noite pertenceu somente aos dois. Houve desejo, entrega, saudade e a intimidade de duas pessoas que carregavam treze anos de distância dentro do peito. Quando a emoção finalmente a atravessou por inteiro, ela chorou nos braços dele.
Não era tristeza.
Era o peso de reencontrar, depois de tantos anos, algo que ela acreditava ter perdido para sempre.
Naquela noite, ela compreendeu que certas emoções não se repetem. Podem existir outros amores, outros corpos, outros encontros e outras noites, mas há sentimentos que acontecem uma única vez na vida.
E aquele tinha acabado de acontecer novamente.