Ao retornar daquela noite maravilhosa ao lado de seu amado, aquela mulher não imaginava que o ex-marido pretendia lhe dar um bote.
Assim que seu amor estacionou o carro em frente à casa, o ex-marido, enfurecido, chutou o veículo, gritou e fez um verdadeiro escândalo. Temendo que a situação terminasse em algo pior, ela levou o ex-marido para dentro de casa e pediu que ele fosse embora imediatamente.
Quando finalmente ficou a sós com o ex-marido, perguntou:
— Por que você ainda está nesta casa? Eu me separei de você.
Mas, em vez de se retratar ou demonstrar arrependimento, ele respondeu algo completamente diferente:
— Você vai me trocar por um homem que anda numa Fiorino?
Aquilo foi suficiente para romper o silêncio que ela havia sustentado durante anos. Tudo o que guardara dentro de si veio à tona.
— Estou com ele porque o amo. E o amo porque ele é um gênio! Enquanto você me envergonha com a sua ignorância. Você não estuda, não lê, não sabe conversar com ninguém e é sempre grosseiro. As pessoas não respeitam você. Elas têm medo de você.
Depois daquela explosão, ele finalmente foi embora.
Ela acreditou que, enfim, estava livre.
No dia seguinte, porém, procurou seu gênio. Precisava vê-lo, precisava explicar, precisava encontrar nele algum sinal de que tudo ainda poderia continuar.
Mas ouviu apenas:
— Querida, eu não quero problemas.
E, naquele instante, tudo pareceu acabar.
A tristeza foi tão grande que se transformou em raiva. Ferida, ela afastou-se dele. Dias depois, ele a procurou para conversar. Disse que queria ficar com ela, que ainda desejava aquela relação.
Mas ela já havia sofrido demais.
O amor, machucado e sufocado, começava a se transformar em ódio.
Ela recusou.
— Voltei para o meu ex-marido.
Era mentira.
Nove meses se passaram.
Nesse período, algo inesperado aconteceu. O ex-marido havia começado a estudar. Criara o hábito da leitura e, talvez tentando tornar-se o homem que ela um dia desejara que ele fosse, voltou a procurá-la e pediu uma nova chance.
Carente e fragilizada, ela aceitou.
Mas havia uma lembrança que o tempo não conseguira apagar.
No primeiro encontro com aquele homem que ela chamava de gênio, os dois haviam discutido sobre um determinado assunto. Ela apresentara um argumento que ele considerara equivocado. Em vez de simplesmente corrigi-la, ele lhe dera um livro que explicava, com precisão, aquilo sobre o qual haviam discutido.
Aquele livro ainda estava ali.
Era o primeiro livro da estante.
E, por treze anos, tornou-se muito mais do que um livro.
Era uma lembrança.
Uma lembrança capaz de arrancar dela, ao mesmo tempo, sorrisos e lágrimas.