CAPÍTULO 2: Ruídos na Penumbra
A poeira de vidro flutuou no ar avermelhado como neve tóxica. O grito que se seguiu não foi de dor, mas de horror puro.
Três figuras desfiguradas atravessaram a moldura quebrada da porta. Suas roupas estavam rasgadas, a pele marcada por lacerações profundas e mordidas profundas que deveriam ter matado qualquer ser humano instantaneamente. Eles não andavam; tropeçavam e avançavam em explosões de velocidade insana, movidos por uma fome cega.
— Para trás! — gritou Gabriel, puxando Elena pelo braço no exato segundo em que uma das criaturas se lançou sobre a balcão da recepção, agarrando um dos seguranças.
O som dos dentes rasgando a carne do homem fez o estômago de Elena revirar. Ela já tinha visto a morte dezenas de vezes na UTI, mas aquilo não era a morte. Era a profanação do corpo humano.
— O depósito de suprimentos! Por aqui! — Elena assumiu a liderança, agarrando a mão de Gabriel.
A sensação do toque dele — forte, quente e áspero — foi a única âncora de realidade em meio ao pesadelo. Eles dispararam pelo corredor lateral, desviando de leitos abandonados e poças de sangue recente. O som de passos pesados e grunhidos nos calcanhares indicava que estavam sendo seguidos.
Elena virou a chave na porta de aço escovado do almoxarifado assim que Gabriel passou, batendo-a com força e girando a tranca dupla.
O silêncio caiu sobre eles como uma marreta.
Apenas a respiração arfante dos dois preenchia o espaço escuro, perfumado com o cheiro de álcool 70% e caixas de papelão. Do outro lado da porta, punhos e cabeças começaram a golpear o metal. Baque. Baque. Baque.
Gabriel encostou as costas na porta, deslizando até o chão. Ele cobriu o rosto com as mãos, as articulações dos dedos brancas pela pressão.
— Meu irmão... — sussurrou ele, a voz embargada pela primeira vez. — Ele estava no centro comercial. Eu tentei ligar, mas as torres de celular caíram antes de eu chegar ao hospital.
Elena aproximou-se devagar. O instinto médico a mandava manter o distanciamento profissional, mas o instinto humano de sobrevivência falou mais alto. Ela se ajoelhou ao lado dele na escuridão.
— Qual o nome dele? — perguntou suavemente.
— Leo. Ele tem dezessete anos.
Elena pegou uma lanterna de clínica no bolso do jaleco e a acendeu, apontando o feixe para o chão para não cegá-los. A luz suave iluminou as feições de Gabriel: o maxilar tenso, a dor estampada nos olhos e a poeira cobrindo suas roupas.
— Nós vamos encontrar uma forma de sair daqui — disse ela com uma determinação que nem sabia que possuía. — Mas se sairmos em pânico, viramos comida antes de cruzar o estacionamento.
Gabriel olhou para ela. A luz da lanterna refletia nos olhos verdes de Elena, revelando uma força rígida, construída por anos lidando com a vida e a morte, mas que agora tremia nas bordas.
— Você é sempre fria assim quando o mundo acaba? — perguntou ele, dando um sorriso fraco e sem humor.
— Eu sou pragmática. Se eu chorar agora, minhas vias aéreas fecham e meu ritmo cardíaco sobe. Isso gasta oxigênio.
Gabriel soltou um riso baixo, um som curto e genuíno que pareceu quebrar a tensão sufocante da sala.
— Um romance de emergência com uma médica robô. Pelo menos o apocalipse tem senso de humor.
— Não é um romance — respondeu Elena, embora o calor do braço dele encostado no seu trouxesse um conforto absurdo naquele quarto escuro. — É uma aliança temporária de sobrevivência.
— Justo — Gabriel estendeu a mão para ela. — Prazer em conhecê-la, parceira.
Elena olhou para a mão dele e a apertou. O aperto dele era firme, transmitindo uma promessa silenciosa de que, não importava o que estivesse batendo do outro lado daquela porta de metal, nenhum dos dois enfrentaria a escuridão sozinho.
Lá fora, os ruídos da cidade morrendo continuavam a ecoar.