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Capítulo 01 - Das concessões a um dragão

VictorRikelmy
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“Há muito se apregoam as guerras entre os senhores do Canto Sul."

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“Há muito se apregoam as guerras entre os senhores do Canto Sul."

O Epidodendron.

A soalheira do sol lançava seu cálido resplendor nos olhos cansados de lorde Faroé — o experiente rei de Thajillyca — que, de cima do cavalo, murmurava os cânticos antigos de sua casa. Entoava a cantoria num murmúrio que ecoava pelos ouvidos de sua cavalaria — todos homens empoleirados nos lombos dos cavalos, com armaduras surradas e olhar pesaroso. Mestre Therhorr, o conselheiro, ia ao lado, no cavalo marchador anão de Cerce, o ferramenteiro, acompanhando seu senhor e compartilhando de sua murmurante cantoria.

— Os ventos murmuram seu canto triste. As lágrimas das mães por seus filhos profetam a miséria. Nosso senhor, o rei, não mais existe — cantarolava o rei em tom lamurioso.

Eram cânticos antigos, que remontavam à criação da casa de Thajillyca, senhores dos Altos Ermos, os platôs verde-escuros que seguem a leste do Mormorro. Este contava a história do primeiro rei, coroado após a morte. Todos ali sabiam que este cântico poderia ser um prelúdio da morte de seu senhor; por isso, a maioria seguia calada. Alguns estavam assustados, outros repletos de medo, mas nenhum demonstrava, pois, caso o fizessem, seriam mortos pelo próprio rei.

O respaldo de descanso das aliras — as únicas aves que permanecem no inverno — são os galhos retorcidos das faias e dos vidoeiros repletos de neve. A barba branca de Therhorr coçava. Seus joelhos certamente estariam dormentes, pensou. Desde que caiu do cavalo certa vez, não costumava sair em longos passeios — tampouco em uma jornada no inverno para atravessar o reino a cavalo.

Lorde Faroé de Thajillyca, todo repimpado no lombo do cavalo, ponderava sobre o que estava por vir. A pesada veste de couro negro de touro lhe apertava o peito, e o cinturão onde estava a espada lhe apertava a barriga. Os cabelos brancos se enroscavam pelo vão entre a cabeça e a coroa prateada — gelada por conta do clima. Suas longas sobrancelhas cobriam os olhos do vento gelado numa grossa cortina. A mão direita guiava Gramanor, seu cavalo, com pulso forte nas rédeas; já a outra mantinha dentro do grosso casaco de pele de carneiro — como que carregando algo.

O galope da armada cada vez mais se tornava um passo lento, pois a neve do fim do inverno ainda estava alta nessa parte de Abdstante, o extremo leste dos Altos Ermos. Segundo os Passadissos — os mensageiros do rei —, as terras ao final do Cone Sul quase nunca perdem seu cobertor nevado, mantendo-se brancas grande parte do ano. Graças aos deuses, os cavalos marchadores da guarda real estão preparados para lidar com o frio e a neve alta — no entanto, seria um sacrilégio dizer que os cavaleiros compartilham da mesma competência.

Iam uns doze na frente, formando uma fila, guiados por mestre Galgo — o fiel general do rei, de ombros largos e semblante sério —, abrindo caminho. Usava as mãos nuas para manejar a rédea e a espada que nomeou em homenagem à filha — Palim —, de porte robusto e corte fino. Lorde Faroé vinha logo atrás, ao lado do conselheiro e mais nove.

Mesmo que o inverno ainda reinasse, a vinda da primavera era clara. As turfeiras já destoavam nos charcos ali próximos a um lago onde as árvores acabavam. Haveriam de tutelar suas passadas para que um cavalo não metesse a pata numa toca de lebre — mas, de certo, uma lebre cozida não lhes seria inconveniente.

Finobranco, o cavalo de mestre Galgo, ao passar por uma grande faia, deu um solavanco e ergueu-se sobre as patas traseiras, como por um susto. O cavalo escorregou, a barrigueira se arrebentou e os demais animais assustaram-se, mas, com um ato de exímia maestria — digna de um senhor brônquo —, mestre Galgo puxou o arreio e caiu do cavalo de pé. Tamanho susto pôs os demais cavalos em demasiado frenesi; deste ponto em diante, não se puseram mais a marchar.

— Alto! — exclamou mestre Therhorr lá de trás. — Deste ponto adiante iremos apenas o rei e eu — disse, ao apressar o pequeno cavalo, dando-lhe uma chicotada e pondo-se a andar à frente da comitiva.

Mestre Galgo se atrepou em Finobranco novamente e assentiu.

— Pois bem, que os deuses guiem vossa senhoria — deu uma pausa, inspirou profundamente. — E, Therhorr, quem dá as ordens a meus homens sou eu. Preocupe-se apenas em aconselhar o rei.

Ele arrancou um galho da faia e o atirou na direção do velho.

— Leve isto. Você está velho demais para andar sem uma bengala.

O conselheiro pensou em responder à medida. Encheu os pulmões com o ar gelado, mas ponderou um instante e decidiu ignorar o brônquo; afinal, o destino do rei estava apenas a uma pouca descida dali. Como esperado, seus joelhos estavam dormentes. Desajeitadamente, desceu do cavalo e foi de encontro ao rei.

Lorde Faroé desmontou. O manto negro, feito da pelagem de carcaju, estendia-se por suas costas e o mantinha aquecido na neve. A coroa prateada apertava-lhe a cabeça — trouxera-a apenas por Therhorr ter aconselhado a se mostrar como figura imponente, um rei de fato.

— Meu senhor, Tirana estará depois daquela turfeira, creio — disse.

A floresta descongelando se abria numa enorme clareira, onde um charco se formava nos meses quentes, ainda meio congelado.

— Se é pelo bem de Thajillyca e o fim de Classitude, que os deuses nos protejam — falou o rei, ajeitando seu cinturão. — Mestre Galgo — chamou —, confio a vós meu cavalo, pois, se seu rei não voltar, será sua função levar Gramanor para meu filho.

— Sim, meu senhor — mestre Galgo fez uma mesura do alto do cavalo.

Lorde Faroé seguiu em frente, descendo a encosta do charco com cuidado. Mestre Therhorr vinha logo atrás, usando o galho para se apoiar. Ao ver aquele velho arrogante se apoiando num galho seco, mestre Galgo não pôde deixar de gargalhar, mas, ao receber um olhar fulminante do rei, calou-se.

Desciam ambos pela encosta. Chegando mais abaixo, as turfeiras seriam uma passagem segura, acreditavam. Um passo de cada vez, os dois velhos iam pisando com cuidado para não quebrar o gelo. Por um descuido, Therhorr quase escorregou, mas, apoiando-se no galho, manteve-se firme.

Ao passar pelo charco congelado, começava ali a encosta de Mormorro, a fronteira mais distante de Karka, a capital do reino. Mais ao longe, no horizonte, a montanha Mor se erguia sobre todas as outras. Segundo as lendas mais antigas sobre a criação do mundo, esta montanha seria o sepulcro de Obeolodon, a prole horrenda do matrimônio da própria morte com o senhor do desespero. As lendas divergem em confirmar a morte deste dragão terrível.

Circundando mais a leste da encosta de Mormorro, surge a figura de Tirana, a antiga fortaleza consumida pelo gelo. Esta é a morada de outro dragão, tão temível quanto o outro. As rochas e o gelo criaram uma caverna, num túnel escuro que apresenta ser a única passagem para adentrar a antiga fortaleza tirana.

— Meu rei, temo que este seja o caminho — pondera Therhorr.

O rei respira profundamente. Antes que entrasse, removeu o cinturão, onde mantinha a espada de punho curto, e entregou ao conselheiro. Os Passadissos alertaram que este inquilino da caverna não suporta o fio da espada.

— Velho amigo, espere aqui. Deste ponto sigo eu — disse.

— Meu senhor, jamais poderia...

O rei interrompe:

— É uma ordem, Therhorr. Sabes que daqui sairei vivo — ele para um instante — ou não sairei mais.

O velho assente, sorri modestamente e se cala por fim, mas se põe firme em guardar a entrada.

A pouca luz que penetra na caverna vem do dia, que reflete no gelo e rebrilha num nacarado brilho reluzente em tons azulados. O rei, com a mão direita dentro do manto, segue adiante com cautela. O sibilar de algo ressoa nas paredes gélidas da antiga fortaleza — o dragão não está longe, pensa.

O degelo da primavera já atinge o cume da montanha com o ar do Sul; das estalactites brota água num eterno gotejar. Faroé desceu pelo caminho tortuoso. A caverna era alta, nove metros de altura entre o chão e o teto, e repleta de rochas congeladas. Ouvia o vento gritar. Tremia, não de medo, mas de frio. Contava com a sorte de que a ganância de um dragão valeria mais que sua própria vida.

Da completa escuridão surge uma voz:

— Os ventos da primavera já sopram quentes nas montanhas, mas a realeza ainda rasteja no inverno — diz, num tom sarcástico, o dragão, serpenteando pela caverna.

O rei fica imóvel por um instante. A voz penetrante daquela terrível criatura perfurava seus ouvidos.

— Oh, lorde dragão — diz, fazendo uma pequena reverência. — Venho em sua morada com um propósito apenas: oferecer-lhe uma proposta.

O dragão gargalhou. Seu riso era estridente e ecoava por toda a caverna, como um prelúdio da morte.

— Uma proposta — diz, em tom sarcástico. — Você tem coragem, “sua alteza”. Pois bem, diga sua proposta e, talvez, não perca sua coroa.

Fazendo mais uma pequena reverência, inicia:

— Vossa excelência sabe que...

O dragão o interrompe:

— Poupe-me de sua bajulação e vá direto ao ponto, “sua alteza”.

— Sim, meu senhor — toma fôlego. — Venho pedir para que lute numa guerra ao lado de meu povo.

O riso de escárnio do dragão ressoa na caverna novamente.

— O que eu ganharia com isso, “sua alteza”? Além de sua coroa.

Lorde Faroé infla o peito, cerrando os dentes para conter sua fúria.

— Meu senhor, ganhará algo que o senhor deseja tanto quanto eu desejo o sangue daquele rei.

Ele remove a mão esquerda do peito e revela o que segurava.

— O senhor ganhará isto!

Retira de lá uma joia verde brilhante.

— O Olho de Adalice.

A joia ilumina a caverna com seu brilho — o mesmo brilho que causou a degeneração de séculos e que humilhou milhares —, invadindo a caverna e fazendo com que os olhos cinza-azulados do dragão, vendo aquela luz, encham-se da mais pura ganância do mundo.

— Um rei sedento por sangue — ponderou, ao se contorcer por entre as rochas —, vindo até minha morada para suplicar minha ajuda; ainda me oferecendo um generoso presente. Como poderia recusar tal oferta...

O dragão aproxima sua grande cabeça do rei.

— “Sua alteza”, permita que eu veja minha joia mais de perto. Aproxime-a de meu olho.

Faroé hesita um momento, mas aproxima a pedra do olho do dragão, que, no mesmo instante, vê um garoto magro, com os cabelos desgrenhados, com uma cabeça decepada e uma espada nas mãos.

— Este não é o direito, mas...

É interrompido pelo dragão.

Com um golpe rápido como um relâmpago, a cauda do dragão, como um chicote, açoita a mão do rei, arrancando-a. A joia cai no chão. Faroé cai de joelhos, gritando num tom lancinante e segurando o braço junto ao peito.

O dragão enche-se com o ar gélido e começa a serpentear pela caverna com mais rapidez, fazendo-a tremer e desaparecendo na escuridão.

— Acha que pode me ludibriar?! — diz, cheio de fúria. — Acha que não conheço a lenda?! “Sua alteza” — repete com escárnio.

Acima da cabeça do rei, o dragão surge com a boca aberta, pronto para cuspir seu fogo gelado.

— Espere! — grita Faroé. — Lorde dragão, eu não tenho o outro, ainda!

Ele acende sua chama na garganta.

— Mas sei onde está! — trovejou o rei, por fim.

A boca do dragão se fecha, e ele se abaixa novamente.

— Conseguiu minha atenção novamente, “Sua Alteza”.

Faroé se levanta, tremendo. Com dificuldade, fica de pé, na altura dos olhos do dragão, e diz:

— Meu lorde dragão — a dor é excruciante. — Não tenho o outro olho ainda, mas, com sua ajuda, terei! E...

O dragão interrompe:

— EU terei.

— Sim. Sim, meu senhor — faz outra pequena reverência. — Sim, o senhor terá. Se conceder a mim vosso poder e astúcia em batalha.

O dragão pondera por um instante, olhando fixamente para o ponto brilhante na caverna, e então encara o rei.

— Tem um acordo, “sua alteza”. Mas o que teria como garantia?

— Ah, certamente, o senhor pode tomar como garantia minha palavra, pois sou um rei de dignidade — diz, orgulhoso.

— A palavra de um rei nunca me garantiu nada.

A cauda do dragão move-se até o rei e se mostra com uma escama faltando.

Lorde Faroé pensa um instante.

— O senhor pode tomar como garantia, portanto, minha vida.

— Muito bem. Uma vida por outra. Justo. Ademais, tenho mais uma exigência.

— Sim, meu senhor, e qual seria?

— Para alguns, eu sou Phiabad, a morte. Para outros, eu sou Lékio, o maldito. Mas, para o seu povo...

Ele serpenteia pela caverna enquanto pensa.

— Para o seu povo, “sua alteza” — repete —, para o seu povo eu serei Saffanon, o Tênebro.

Disse o dragão enquanto sorria e observa o rei.

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