"Finado complacente, quando passares na Mortalha e as Lastras te atalharem perguntando o que é que levas... dize que levas cera, capuz e cordão: mais a Chama de Convenção.
Finado complacente, quando passares na Mortalha e as Lastras te atalharem perguntando o que é que levas... dize que levas somente coisas de não: fome, dor e privação.
Finado complacente, quando passares na Mortalha e as Lastras te atalharem perguntando o que é que levas... dize que coisas de não, ocas, leves: como a alma que nunca teve.
Finado complacente, quando passares na Mortalha e as Lastras te atalharem perguntando o que é que levas... dize que levas terra, minhoca e dívida: a parte que mais lhe coube em vida.
Finado complacente, quando passares na Mortalha e as Lastras te atalharem perguntando o que é que levas... dize que coisa em vão: seu sangue dourado na mão.
Finado complacente, quando passares na Mortalha e as Lastras te atalharem perguntando o que é que levas... dize que levas trabalho, suor e negação: seu corpo despido no chão.
Finado complacente etc..."
O Epidodendron.
Entretidos como por encanto pela cantoria dos fábulos empoleirados nas torres da muralha, os cavaleiros da Guarda-de-Cima não perceberam quando a barra do dia começou a empurrar para longe o escuro da noite. Permaneceram imóveis sobre as ameias, envolvidos pela música distante, enquanto o primeiro fio de claridade surgia por detrás das montanhas e se derramava lentamente sobre a Baía dos Andorinhões. A madrugada ainda guardava o frio da noite, e uma névoa fina repousava sobre a água, escondendo parcialmente os barcos dos pescadores que retornavam das margens mais distantes. Acima deles, os fábulos continuavam a cantar, empoleirados nos altos da muralha, e suas vozes se espalhavam pelo ar como uma oração antiga que ninguém mais sabia ao certo quando começara.
A velha fortaleza era testemunha solitária da alvorada. Erguida sobre a encosta escarpada dos penhascos da Dorsal do Mundo, Forte-Real dominava a paisagem como se tivesse sido colocada ali para vigiar o mundo inteiro. Abaixo das muralhas, a cidade se espalhava pela encosta em ruas estreitas e tortuosas, com casas de pedra, telhados escuros e pequenas chaminés que começavam a soltar os primeiros fios de fumaça. Quanto mais a luz avançava, mais os contornos da capital se revelavam: os mercados ainda fechados, as pontes de pedra sobre os canais menores, as praças vazias e as torres das antigas capelas despontando entre os telhados. Ao longe, para além das últimas casas, começavam os campos que cercavam a baía, ainda cobertos pelo orvalho.
Forte-Real, porém, permanecia acima de tudo aquilo. Seu castelo era feito quase inteiramente de alabastro, embora os séculos houvessem transformado o branco original da pedra em um amarelo pálido, semelhante à cor dos ossos antigos. Sob a luz da manhã, as paredes adquiriam um brilho suave, enquanto as sombras das torres se projetavam sobre os pátios internos e escorriam pelas encostas. Mais de duzentas janelas se abriam pelas fachadas, todas ornamentadas com vitrais coloridos que representavam santos, reis, animais fantásticos, batalhas e histórias que já não eram contadas nas praças. No alto das abóbadas, os estandartes de Alches tremulavam com o vento do Sul: branco, azul e uma larga listra dourada ao centro. O tecido estalava contra os mastros, e o som se misturava ao canto dos fábulos e ao rumor distante da cidade que despertava.
A primavera já se aproximava, mas o inverno ainda não havia desistido do reino. O vento que descia do Sul atravessava as torres, penetrava pelas frestas das muralhas e fazia estremecer os estandartes. Trazia o cheiro úmido da baía, o sal da água e o aroma de lenha queimando nas primeiras cozinhas acesas. Nas partes mais altas do castelo, onde as pedras permaneciam frias mesmo sob o sol, os cavaleiros apertavam os mantos contra o corpo e observavam o horizonte. Era uma manhã bonita, se alguém pudesse ignorar o fato de que todas as cortinas azuis das janelas reais permaneciam fechadas.
Havia dias que as fenestras dos aposentos da família real não recebiam luz. Todos os cidadãos do reino sabiam o que aquilo significava. O rei estava prestes a morrer.
Muranil, o velho rei, encontrava-se acamado desde que retornara da viagem que fizera ao extremo Sul no ano anterior. Desde então, sua presença havia se tornado quase uma coisa abstrata dentro do próprio castelo. Poucos o viam. Menos ainda falavam com ele. O rei não recebia súditos, não aparecia às janelas e havia se recusado a pronunciar-se sobre qualquer assunto do reino. Sua doença havia transformado Forte-Real em um lugar de vozes baixas e portas fechadas, onde até os criados pareciam caminhar com cuidado para não despertar aquilo que repousava atrás das paredes.
Em tempos de incerteza, o trono deveria passar ao filho mais velho. Thurimil, o príncipe errante.
Entretanto, Thurimil não governava e tampouco se encontrava em Forte-Real. O príncipe regente havia partido em uma cavalgadura acompanhado por oito de seus homens mais fiéis e seguia rumo às profundezas obscuras do Tintanel, a última fronteira do Cone-Sul. Tratava-se de uma floresta enorme, inebriante e cercada pelo mistério; tão antiga, diziam os homens, quanto o próprio mundo. Suas árvores eram tão altas que em determinadas regiões a luz do sol jamais alcançava o chão, e havia rios que desapareciam sob raízes tão largas quanto casas. Caçadores voltavam de lá contando histórias de criaturas que não possuíam nome e de caminhos que mudavam de lugar durante a noite. Porém, acima de todas as histórias havia uma única criatura cuja sombra parecia acompanhar o Tintanel desde antes dos primeiros reis.
O Quírion.
Para alguns, era um monstro que precedia desastres; para outros, uma criatura milagrosa capaz de curar os homens da própria morte. Para Thurimil, não havia dúvida alguma sobre o que ele representava. O Quírion era seu milagre. As lendas contavam que se tratava de uma corsa de pelagem dourada, marcada por manchas brancas como estrelas, com chifres dourados e cascos do mais fino bronze. Diziam que corria tão depressa quanto a Salta de Nove Léguas, a carruagem aberta puxada por nove corcéis virgens, e que nenhuma criatura viva era capaz de alcançá-la. Alguns juravam que sequer era possível olhar diretamente para ela sem perder alguma coisa da própria alma. Outros diziam que bastava tocá-la para que a morte esquecesse o caminho até o corpo.
Thurimil acreditava na segunda versão. E assim, enquanto o herdeiro do trono procurava uma criatura que talvez sequer existisse, Alches permanecia nas mãos de seu irmão mais novo.
Sarril era o segundo na linha de sucessão, um rapaz de aproximadamente dezesseis anos, de rosto arredondado e expressão quase sempre enfadada. Herdara da mãe os traços suaves e o rubor rosado das faces, que se tornava particularmente evidente quando estava irritado, envergonhado ou simplesmente havia bebido demais. Ainda não possuía a imponência dos homens que passavam a vida aprendendo a parecer reis, e talvez fosse justamente por isso que sua presença na corte parecesse tão deslocada. Sarril destacava-se por sua impunidade sublime; dizia o que queria, fazia o que queria e, quando alguém se atrevia a questioná-lo, bastava-lhe lembrar que era príncipe.
Entre todos os homens de Forte-Real, porém, havia um com quem Sarril parecia disposto a conversar por horas. Cer Cravo, o olho-astuto.
Cravo tinha vinte e poucos anos e possuía as feições ovaladas e severas, características dos Juba-dourada, além da opacidade e palidez de sua pele, que lhe davam um ligeiro ar de superioridade. Seus olhos eram a parte mais admirada de seu rosto. Eram olhos astutos, como diziam os turfos, capazes de enxergar em meio à noite um rato roendo raízes na relva. Cravo viera das terras longínquas de Abdistante, pertencente ao povo dos Arminhos, os habitantes originários das antigas terras do Cone-Sul. Eram hábeis caçadores, de baixa estatura e acostumados a viver sob o domínio de Alches, pois jamais haviam conquistado independência ou autarquia própria. Entre eles, os mais galardoados eram justamente aqueles que possuíam maior estatura e os olhos astutos, características que os turfos admiravam com uma mistura de fascínio e desprezo.
Cravo havia alcançado sua posição de destaque como cortesão depois de se deitar com membros das comitivas reais e, posteriormente, ser dado como presente pelos Juba-dourada ao próprio rei. Desde então, sua presença em Forte-Real tornara-se uma espécie de ornamento da corte. Era bonito, jovem, exótico e, sobretudo, útil.
Naquela manhã, entretanto, Cravo tinha preocupações mais imediatas.
As cortinas azuis dos aposentos do príncipe regente permaneciam fechadas, e Sarril encontrava-se costumeiramente desmaiado em meio às almofadas coloridas de sua cama. O quarto era amplo e excessivamente adornado, como se todos os objetos que a corte considerasse belos tivessem sido colocados ali sem que ninguém tivesse se preocupado em perguntar se combinavam entre si. Tapeçarias cobriam as paredes, baús entalhados permaneciam aos pés da cama, pequenas esculturas de animais fantásticos ocupavam nichos e velas perfumadas queimavam em castiçais de prata. O cheiro adocicado das essências misturava-se ao odor das roupas usadas e ao calor abafado dos corpos escondidos sob os lençóis.
A manhã mal havia sido anunciada pelos fábulos do jardim quando Cravo adentrou o aposento acompanhado de três jovens camareiros, cada qual carregando as vestes reais dobradas sobre os braços. Um deles trazia a camisa de linho; outro, as calças e as botas; o terceiro carregava o gibão de couro e o manto destinado ao príncipe. Cravo atravessou o quarto sem hesitar, aproximou-se das janelas e, com um único movimento, arrancou as cortinas.
A luz invadiu o aposento de uma só vez. Os vitrais espalharam manchas vermelhas, verdes e douradas pelo chão, pelas paredes e sobre os próprios rapazes. Sarril apertou os olhos e puxou o lençol até o rosto.
— Vossa Alteza deves saber que o sol já brilha alto — comentou Cravo com seriedade.
— Sua Alteza não sabes — respondeu Sarril, ainda enterrado nos lençóis —, pois mal consegue pregar os olhos. Esta noite as Lastras me atalharam.
O príncipe levantou-se de repente, assustado pela própria lembrança, e ficou sentado na beirada da cama, respirando de maneira ofegante. Cravo cruzou os braços diante do peito.
— Sabes, sim, pois os fábulos do teu jardim lhe anunciam há tempos.
— Eles cantam demais.
— E tu dormes demais.
Cravo puxou os lençóis para longe dele.
— E deixa teus lençóis! Tens sono pois passas as noites fornicando! Levanta-te e deixa teus servos te aprontarem. Hoje tens decretos em demasia para ler, e há de se perceber por que as Lastras te atalharam.
Sarril levantou-se com grande dificuldade, esfregando as mãos no rosto antes de se sentar completamente à beira da cama. Exibia o corpo nu e a pele rosada de sua barriga saliente sem qualquer constrangimento. Debaixo dos lençóis caramelados, uma noviça de cabelos desgrenhados virou-se para o outro lado e fingiu – claramente – continuar dormindo; outra permanecia imóvel junto à cabeceira, esperando que ninguém se lembrasse de sua existência.
— Sei muito bem — retrucou o príncipe em meio a um bocejo. — Sabei tu também que haverei de promulgar a lei de danação que tornará caça a estes bichos livre de multas e penas ainda esta manhã.
Cravo lançou um olhar para as jovens na cama e depois voltou os olhos para o príncipe.
— Admiro-me ao saber que teus olhos não enganam.
Sarril percebeu a expressão de Cravo e sorriu.
— O que deveras me consome é a dúvida em saber o porquê meu irmão não levou estes belos olhos para sua terra natal.
O comentário, proferido com absoluta seriedade, provocou nos meninos mais jovens um leve tom de desespero. Um deles chegou a olhar para o chão, como se ali pudesse encontrar salvação. Cravo, por sua vez, apertou os lábios para conter a mais verdadeira das gargalhadas. De certo que os noviços ainda não haviam se acostumado à íntima relação entre o olho-astuto e o príncipe regente, mas já começavam a compreender que certas coisas em Forte-Real não eram feitas para serem questionadas. À noite, quando a dor do rei se tornava intensa e os corredores eram tomados pelos murmúrios dos criados, os rapazes costumavam se esconder entre os travesseiros para cochichar sobre os dois. Depois, como se para compensar a culpa, uniam-se em ladainhas pelo rei moribundo, embora quase sempre passassem mais tempo cochichando durante as orações do que rezando.
Quando finalmente estava pronto, o regente ergueu-se da cama vestindo as roupas reais. O gibão de couro apertado se incumbia de esconder seu corpanzil, enquanto o tecido pesado das mangas e o manto escuro lhe conferiam uma dignidade que seu rosto sonolento ainda não possuía. Sarril deixou o quarto acompanhado pelos camareiros e seguiu pelo suntuoso corredor de Forte-Real, onde as paredes de pedra eram decoradas por arabescos, esculturas e tapeçarias antigas. Candelárias de ferro pendiam do teto, algumas ainda carregando velas acesas apesar da manhã já ter chegado. O chão, formado por grandes placas de pedra polida, refletia a luz que entrava pelas janelas altas, e cada passo do príncipe produzia um eco prolongado que desaparecia nas galerias laterais.
Quanto mais avançavam, mais a música se tornava audível. Era uma melodia tênue, quase escondida atrás das paredes. Sarril parou diante de uma enorme porta de madeira escura, sobre a qual estava esculpida a face de um alce de longos chifres. Havia alguma coisa peculiar naquele lugar. A fechadura vibrava levemente, como se a própria madeira respondesse ao som que vinha do outro lado. Os noviços se apressaram em – com dificuldade – abrir as pesadas portas, e a música cresceu imediatamente, preenchendo o corredor. Era o Salão dos Aereiros.
O salão ocupava uma das partes mais antigas de Forte-Real. As paredes subiam em colunas largas até uma abóbada tão alta que a fumaça das lamparinas desaparecia antes de alcançá-la. Vitrais enormes ocupavam as janelas, mas, ao contrário dos aposentos reais, encontravam-se completamente despidos de cortinas. O sol podia atravessá-los livremente, derramando pelo chão círculos e manchas de cores vivas. Azul, vermelho, amarelo, verde e violeta se misturavam sobre a pedra clara, formando uma espécie de mosaico luminoso que se deslocava lentamente à medida que o dia avançava.
No centro do salão, dezenas de jovens permaneciam dispostos em fileiras. Eram os Aereiros, treinados durante anos para transformar a voz em instrumento de orientação e cura. Cantavam sem instrumentos e quase sem movimento, sustentando uma melodia contínua que parecia possuir mais peso do que o próprio ar. Seus peitos se elevavam juntos, os lábios se moviam em perfeita harmonia e, quando uma voz ameaçava falhar, outra imediatamente assumia seu lugar. Eram treinados até a exaustão para cantar sem precisar parar para respirar e, através daquela melodia, concebiam o curso pelo qual os guerreiros regeneravam seus corpos. Mas havia algo maior naquele canto. Algo que não se podia explicar apenas pela magia. Esperança.
Era esse o feitiço mais poderoso que os Aereiros conheciam. À frente deles encontrava-se Zaygira, a exímia professora. Era uma bruxa velha de pele retinta e astúcia capaz de causar inveja ao maior dos mentirosos. Tinha quase dois metros de altura, era magra e aparentava ser muito mais jovem do que os cinquenta anos que carregava. Seu corpo parecia ter sido esticado pela própria disciplina, e seus movimentos eram precisos, quase econômicos. Vestia uma túnica escarlate com bordados dourados que refletiam a luz dos vitrais, e não possuía cabelos. Tampouco permitia que seus alunos os possuíssem. Segundo ela, assim como o lavrador poda os brotos desgrenhados de suas parreiras, os Aereiros deveriam raspar os cabelos para que toda sua força fosse direcionada à voz.
Ao adentrar o salão, Sarril inspirou profundamente. O ar era diferente ali. Havia cheiro de pedra aquecida pelo sol, incenso queimado nas pequenas tigelas junto às colunas e suor dos jovens que cantavam havia horas. Ainda assim, por trás de todos aqueles aromas havia alguma coisa difícil de identificar, uma sensação quase física que parecia permanecer suspensa no ambiente. A melodia atravessava seu peito e fazia vibrar alguma coisa dentro dele.
Sarril abriu um largo sorriso. Os vitrais encontravam-se despidos e o brilho do sol tocava sua pele como seda, transformando o salão inteiro em um abraço quentinho e silencioso, uma saudação bem-vinda depois de uma noite de intensa movimentação. Por um breve instante, o príncipe regente esqueceu os decretos que o aguardavam, esqueceu o pai acamado atrás das cortinas azuis, esqueceu o irmão perdido nas profundezas do Tintanel e até mesmo as palavras das Lastras.
Ali dentro, enquanto os Aereiros cantavam, parecia possível acreditar que a morte ainda podia ser convencida a esperar.