Capítulo 05 - A Última Tentativa
Ao romper da quarta aurora, já não restava esperança,
Pois o rei, com olhos flamejantes, afiava a guilhotina:
- Basta de truques, de farsa e ladainha!
Quero a voz da tua esposa ou será tua cabeça na bacia!
Nem poço. Nem vento. Nem ave da serra!
Quero o sangue que grita, não eco que erra!
O príncipe curvou-se, mas não em reverência,
Era peso, era mágoa, era amor em penitência.
E saiu sem palavras, sem capa, sem coroa,
Com a alma costurada por angústia que ecoa.
A bruxa o aguardava entre ervas e fumaça,
Com olhos tão antigos quanto o véu da desgraça:
- Pois vá, belo mentiroso, já não tens mais ousadia,
A última voz será a de tua amada senhoria.
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Mas o príncipe não a levou.
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Em vez disso, cobriu-se de sombra e espinho,
Pintou-se com cinza e carvão, feito um espírito sozinho,
De fera pela noite adentro, sem nome, sem caminho.
Foi ao quarto da princesa, onde a irmã dormia,
E viu seu rosto pálido, da infância que dividiam.
Ali não havia culpa, nem coroa, nem rainha,
Apenas a carne o sangue da mesma linhagem antiga.
Com mãos trêmulas e breves, armou sua artilharia,
Puxou o arco com uma flecha negra e fria:
- Irmã, não acorde agora,
Pois quebro o juramento que lhe fiz outrora.
Mas entre matar a vida que me deu alegria,
Prefiro perder o trono e sua tirania...
Do escuro de seu manto, atirou sem hesitar,
A flecha rasgou a noite, sem sequer silvar.
Atingiu a garganta da moça, não ouve tempo pra chorar,
Com olhos de pranto, tombou sem reclamar.
No salão, o sangue gritou, qual trombeta vadia,
E o grito da princesa – este sim! – se soltou em agonia...
Ecoou por todos os cantos, puro, alto, cristalino:
- Irmão... por que me tiras a vida?
A bruxa ergueu-se em gozo, dançando a profecia:
- Eis a voz verdadeira! Eis a alma que renascia!
Não há canto mais puro que o canto da despedida.
E com essa voz farei nascer o dia
Em que os fábulos cantarão sua eterna melodia!
Mas o príncipe chorou enquanto o mundo amanhecia,
Pois o corpo de sua irmã agora jaz quieto, desfeito em ternura,
Sem trono, sem voz, sem mais estrutura.
A bruxa, entre ervas e dentes,
Recitou estes versos antigos, roucos e ardentes:
- Oh, tu, que foste flor e ferida,
Que foste sangue, a escolhida...
Toma agora tua forma verdadeira,
E rasga os céus com tua alma inteira!
Lançou sobre o corpo um véu de penas,
Negras, douradas, azuis e serenas.
Do sangue brotou uma flor de groselha,
E do peito um suspiro em forma de centelha.
A pele trincou feito rica porcelana,
E surgiu de dentro, começando a voar;
Uma ave de brilho sonâmbulo,
Com olhos de estrela e bico de oráculo.
Era um fábulo, o primeiro a nascer,
Da dor que escolheu não se desfazer.
De penas que mudavam com o sabor da lembrança,
Trazia em cada nota a memória da criança.
Rodopiou pelos céus do castelo em ruínas,
Cantando mil vozes, umas antigas outras divinas.
Cantava com a voz da irmã assassinada,
Cantava com a voz da mãe desesperada,
Cantava com a voz da avó soterrada,
E com a voz que ainda nem fora formada.
O rei, ao ouvir o canto, caiu de joelhos:
- Que mal fiz eu aos meus filhos?
Em cada nota, eu me revejo,
Em cada tom, um novo erro e outro desejo...
A bruxa gargalhou, pela promessa cumprida:
- Eis tua filha, falando como quem volta à vida,
Mas não para obedecer ou servir,
Agora canta para nunca mais partir.
O príncipe, envolto pelas cinzas, cambaleante e só,
Assistiu ao milagre com olhos feitos em pó...
Chorou, sem saber, se era culpa ou alívio,
Pois a Morte lhe deu, por castigo, convívio...
E o fábulo, então, pousou em seu ombro,
Como quem entende e perdoa o assombro.
Seu canto cessou, mas o silêncio dizia:
- Eu vivi, por isso, sou melodia.
Desde então, dizem artistas e velhas tias:
“Há um fábulo que canta nas noites vazias.
E quem escutá-lo, se alma boa tiver,
Se lembrará quem perdeu e também quem quer...”