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A Princesa e o Fábulo

VictorRikelmy
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Capítulo 05 - A Última Tentativa

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Capítulo 05 - A Última Tentativa

Ao romper da quarta aurora, já não restava esperança,

Pois o rei, com olhos flamejantes, afiava a guilhotina:

- Basta de truques, de farsa e ladainha!

Quero a voz da tua esposa ou será tua cabeça na bacia!

Nem poço. Nem vento. Nem ave da serra!

Quero o sangue que grita, não eco que erra!

 

O príncipe curvou-se, mas não em reverência,

Era peso, era mágoa, era amor em penitência.

E saiu sem palavras, sem capa, sem coroa,

Com a alma costurada por angústia que ecoa.

 

A bruxa o aguardava entre ervas e fumaça,

Com olhos tão antigos quanto o véu da desgraça:

- Pois vá, belo mentiroso, já não tens mais ousadia,

A última voz será a de tua amada senhoria.

.

.

.

Mas o príncipe não a levou.

.

.

.

Em vez disso, cobriu-se de sombra e espinho,

Pintou-se com cinza e carvão, feito um espírito sozinho,

De fera pela noite adentro, sem nome, sem caminho.

 

Foi ao quarto da princesa, onde a irmã dormia,

E viu seu rosto pálido, da infância que dividiam.

Ali não havia culpa, nem coroa, nem rainha,

Apenas a carne o sangue da mesma linhagem antiga.

 

Com mãos trêmulas e breves, armou sua artilharia,

Puxou o arco com uma flecha negra e fria:

- Irmã, não acorde agora,

Pois quebro o juramento que lhe fiz outrora.

Mas entre matar a vida que me deu alegria,

Prefiro perder o trono e sua tirania...

 

Do escuro de seu manto, atirou sem hesitar,

A flecha rasgou a noite, sem sequer silvar.

Atingiu a garganta da moça, não ouve tempo pra chorar,

Com olhos de pranto, tombou sem reclamar.

 

No salão, o sangue gritou, qual trombeta vadia,

E o grito da princesa – este sim! – se soltou em agonia...

Ecoou por todos os cantos, puro, alto, cristalino:

- Irmão... por que me tiras a vida?

 

A bruxa ergueu-se em gozo, dançando a profecia:

- Eis a voz verdadeira! Eis a alma que renascia!

Não há canto mais puro que o canto da despedida.

E com essa voz farei nascer o dia

Em que os fábulos cantarão sua eterna melodia!

 

Mas o príncipe chorou enquanto o mundo amanhecia,

Pois o corpo de sua irmã agora jaz quieto, desfeito em ternura,

Sem trono, sem voz, sem mais estrutura.

 

A bruxa, entre ervas e dentes,

Recitou estes versos antigos, roucos e ardentes:

- Oh, tu, que foste flor e ferida,

Que foste sangue, a escolhida...

Toma agora tua forma verdadeira,

E rasga os céus com tua alma inteira!

 

Lançou sobre o corpo um véu de penas,

Negras, douradas, azuis e serenas.

Do sangue brotou uma flor de groselha,

E do peito um suspiro em forma de centelha.

A pele trincou feito rica porcelana,

E surgiu de dentro, começando a voar;

Uma ave de brilho sonâmbulo,

Com olhos de estrela e bico de oráculo.

Era um fábulo, o primeiro a nascer,

Da dor que escolheu não se desfazer.

De penas que mudavam com o sabor da lembrança,

Trazia em cada nota a memória da criança.

 

Rodopiou pelos céus do castelo em ruínas,

Cantando mil vozes, umas antigas outras divinas.

Cantava com a voz da irmã assassinada,

Cantava com a voz da mãe desesperada,

Cantava com a voz da avó soterrada,

E com a voz que ainda nem fora formada.

 

O rei, ao ouvir o canto, caiu de joelhos:

- Que mal fiz eu aos meus filhos?

Em cada nota, eu me revejo,

Em cada tom, um novo erro e outro desejo...

 

A bruxa gargalhou, pela promessa cumprida:

- Eis tua filha, falando como quem volta à vida,

Mas não para obedecer ou servir,

Agora canta para nunca mais partir.

 

O príncipe, envolto pelas cinzas, cambaleante e só,

Assistiu ao milagre com olhos feitos em pó...

Chorou, sem saber, se era culpa ou alívio,

Pois a Morte lhe deu, por castigo, convívio...

 

E o fábulo, então, pousou em seu ombro,

Como quem entende e perdoa o assombro.

Seu canto cessou, mas o silêncio dizia:

- Eu vivi, por isso, sou melodia.

 

Desde então, dizem artistas e velhas tias:

“Há um fábulo que canta nas noites vazias.

E quem escutá-lo, se alma boa tiver,

Se lembrará quem perdeu e também quem quer...”

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