Capítulo 04 - A Terceira Tentativa
Na mata funda e cerrada, onde o tempo esquece o dia,
Morava um velho papagaio, rei das rimas e da folia.
Comendo figo e goiaba, cantava em melodia
Frases de reis e poetas, ditos de muita alegoria.
O príncipe ali chegou, entre espinhos e euforia,
Oferecendo um ramo de pitanga e uma lagrima que escorria.
Curvou-se à ave ilustre com toda a delicadeza que sabia:
- Oh mestre de tantas falas, empresta-me tua poesia
Preciso enganar meu pai, salvar minha esposa daquilo que ela não merecia.
O papagaio, comovido, soprou-lhe uma artilharia
De palavras doces e bem polidas: graça e sabedoria.
Guardou a fala no cesto, selado por bruxaria,
E correu ao castelo com a pressa da ousadia.
No salão de tapeçaria, com olhar de valentia,
Entregou à velha bruxa dizendo com garantia:
- Eis aqui, senhora das trevas: a voz da minha senhoria!
A bruxa, ergueu uma mão com maestria,
Traçou uma linha no ar denso e soprou cinzas na travessia.
Destampou o tal cesto com um gesto de feitiçaria,
E a voz saltou para fora em floreios num voo leve de magia:
- Não sei o que fazer sem você,
Não há, quiçá, sombra que desfaça minha alegria.
Perdoe tal senhora, que por honra perderia,
Mas eu não sei se aguento estar onde você não me vê.
Contou sonetos, recitou versos – imitou até cantoria,
Mas a bruxa... fechou os olhos e sorriu com ironia.
Depois, trovejou junto de toda sua magia,
E berrou com voz tão funda que rachou toda a galeria.
- ISSO É VOZ DE AVE TOLA QUE REPETE POR MANIA!
NÃO TEM CHEIRO DA LEMBRANÇA, NEM DA DOR QUE CONTAGIA!
NÃO TREME AO SER CHAMADA, NÃO GEME DE MELANCOLIA!
NÃO CARREGA O PESO DA CARNE, NEM DA ALMA QUE PRECEDIA!
TOLA É TUA ESPERANÇA, PRÍNCIPE DE FANTASIA...
ISSO É ECO DE BICHO BURRO, NÃO DA BOCA QUE VIVIA...
O rei, de fúria inflamado, socou a mesa com aspereza:
- Chega de truques e farsas! Que venha já a cabeça!
Mas a bruxa ergueu um dedo, com sorriso de esperteza:
- Alto, senhor da espada, ainda lhe resta uma beleza.
Deixarei que traga mais uma, se a sorte ainda o acalenta,
Pois a quarta, mando que traga a alma sedenta.
E se errar, que a lâmina leve sua cabeça...
Nesta dourada bacia, sem lamento nem clemencia...