Capítulo 03 - A Segunda Tentativa
Foi-se o príncipe errante por colinas ressequidas,
Onde o vento assobia lendas e embala noites perdidas,
Nas dobras do velho monte, o vento dança, sem partida,
Mas quem lhe rouba a fala traz a maldição por vida.
Subiu o moço solitário por trilhas há muito esquecidas,
Onde árvores mortas cochicham memórias adormecidas.
Em cada sopro nas pedras, a lembrança ressoava,
Velhos crimes e paixões, em canto que ecoava.
Ali, de pés bem fincados, envolto em sombra e vigília,
Ergueu aos céus seu pedido no idioma da arcaica magia:
- Oh vento que tudo escuta, oh sopro de velha heresia,
Dá-me a voz duma donzela que por amor jamais morreria!
O vento, em fúria dançante, arrancou-lhe a capa fria,
Sussurrou-lhe aos ouvidos: eis a minha cortesia!
E por puro jogo e riso, girando feito harpia,
Entrou dentro do frasco de vidro que ele trazia.
Desceu o monte o moço cansado, com o frasco que tilintava alegria,
Mas o coração em segredo pensava: mais que ousadia!
No salão de pedra escura, fingiu firmeza e simpatia:
- Aqui trago, velha bruxa: a voz da minha senhoria!
A bruxa, de olhos cerrados e com lenta feitiçaria
Pôs o frasco sobre a mesa, dentro de um círculo de sal e de magia.
Ascendeu três velas, soprou cinzas no centro da travessia,
E com seus dedos de raízes, destampou a ventania.
A voz saiu em assovios leves e cheios de melodia:
- Não chores, meu bem... não chores... farei teu pranto poesia...
O rei, de punho cerrado, fez estremecer a alvenaria:
- Isso é truque! É só vento e brisa vazia,
Quero voz de carne quente, não sopro de zombaria!
A bruxa então gargalhou, com riso que tudo partia:
- Isto é voz de cousa oca, de alma que nunca ardia...
É canto de corrente leve, de sombra que não existia!
A voz da tua esposa, príncipe, ainda falta neste dia...
O rei, rubro de ira, bradou e tremeu a galeria:
- Que truque danado... que truque safado!
Vai e traz-me a voz da tua esposa,
E a quero neste cesto encantado!
E com o dedo encurvado, apontou-lhe com ironia:
- Agora ouve com teus ossos: na tua próxima ousadia,
Quero a voz verdadeira, da mulher que tanto bem te queria!
Ou tua cabeça, por tua culpa, será a próxima que se partia.