Capítulo 02 - A Primeira Tentativa
No brejo velho do mundo, onde o sol jamais se insinua,
Há um poço de boca larga, de água escura, fria e nua.
Ali moram ecos, alma pura, dor contínua,
Vozes presa entre musgos, de uma era já extinta – tão antiga quanto a lua.
O príncipe seguiu sozinho pela trilha corrompida,
Pisando em lama que engolia a própria sombra, a própria vida...
Ouviu lamentos nas pedras... ouviu gemido, cantiga...
Até que a água lhe chamou com vazia e antiga:
- Quem clama à beira do poço com tão doída visita?
O príncipe debruçou-se nas pedras, pedindo por aquilo que necessita:
- Oh dama do poço sem fundo, oh senhora das lágrimas do mundo,
Sou herdeiro de um trono vazio, de reino algum, moribundo.
Marido duma bela senhora, me fez feliz e profundo.
Preciso da fala duma donzela, para enganar meu pai, nem que por um segundo...
O poço então suspirou com lenta melancolia,
E deu-lhe uma gota de sombra: voz molhada e quebradia,
Rouca como a de uma dama, mas sem sangue, sem alegria...
O príncipe guardou-a no jarro junto a algas e pedraria,
E voltou ao castelo em silêncio com a sua falsaria.
No salão de pedra fria, falou como quem anuncia a aurora:
- Aqui está velha bruxa: a voz da minha senhora!
A bruxa tomou-lhe das mãos o jarro, girando-o com ironia,
Verteu a voz numa tigela cheia de cal e água fria.
E voz, na espuma surgia, fez-se como névoa, se expandia:
- Mãe... irmã... amor... – dizia com doçura, mas sombria...
Mas a bruxa, com olhos vidrados, soprou cinzas na alquimia,
Fez o líquido ferver e a voz esmaeceu em gritaria!
Depois, cuspiu ao príncipe estas palavras com tamanha zombaria:
- Isto é voz de mundo morto... lamento de cova sombria,
Não pulsa com sangue vivo, não tem dor, nem poesia!
É lamento de quem se afoga, de quem não ama, só sofria,
Essa voz não é da tua esposa príncipe, não é de quem ainda vivia...
A bruxa, então, de entre as ervas e o escuro de seu manto, tirou um frasco escondido,
De vidro grosso e turvo, com o fundo enegrecido.
- Leva isto, rapaz teimoso, pra guardar o que te desafia,
Mas não minta, pois até a esperança vicia.
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