livro (trinta dias para a última lua)
A escolta observava a cena com máxima atenção. O tio de Luiz abriu um sorriso malicioso e bateu palmas pausadamente, duas vezes, perto da têmpora.
Aquele som soou como um gatilho. No mesmo instante, dezenas de servos começaram a surgir das sombras em movimentos perfeitamente sincronizados. Com uma agilidade e precisão que beiravam a magia, arrumaram o salão silencioso em segundos. Uma imensa mesa de jantar foi posta para um grande banquete. Humanos, demônios escravizados, servos entravam e saíam, depositando arranjos de flores, frutas raras, sucos, tortas e carnes assadas fumegantes.
— Como não fomos devidamente apresentados à nossa convidada, oferecerei um banquete em sua homenagem com todos os pratos que humanos, demônios, bruxas e feiticeiros tanto apreciam — disse Constantino, sorrindo e caminhando até a cabeceira da mesa. E, voltando-se para o jovem vampiro: — E para você, sobrinho.
Um garçom vestido com roupa preta de gala, de olhar submisso parou ao lado do Lorde, oferecendo-lhe uma taça adornada de rubis, transbordando de sangue espesso. Constantino a pegou elegantemente pela haste.
— Você ainda bebe sangue, meu sobrinho? — perguntou, a voz aveludada pingando veneno. — Ou essa sua mutação peculiar já lhe tirou o gosto pela nossa natureza?
Luiz olhou assustado para o tio, que exibia um sorriso zombeteiro no canto dos lábios. O garoto apertou a mão de Hadria com força. Os olhos de ambos já haviam voltado ao normal, mas era óbvio que a efêmera mudança nas íris de Luiz não passara despercebida pelo vampiro milenar.
Luiz abriu a boca, mas as palavras não vieram. Não queria dizer absolutamente nada; sabia que qualquer informação entregue seria transformada em uma arma contra ele e Hadria.
— Achou mesmo que eu não perceberia? — Constantino soltou uma risada baixa. –— crianças ... Por favor, sentem-se. Vamos fazer uma pequena comemoração, pois esse feito — ele gesticulou para Luiz com a taça —, essa sua mutação, é raríssima.
Com um gesto sutil, a escolta de vampiros puro-sangue tomou seus lugares ao redor da mesa. Cada um pegou silenciosamente uma taça de sangue.
Hadria soltou a mão de Luiz e puxou uma das pesadas cadeiras estofadas. O arrastar da madeira ecoou estridente no salão. Ela se sentou sem a menor cerimônia, como se nada tivesse acontecido a minutos antes.
— Minhas aias, me disseram para ser cautelosa com os velhos. — comentou a garota. Ignorando a tensão mortal, ela esticou o braço, pegou uma grande coxa de faisão assada da travessa central e se preparou para morder.
Constantino riu.
Luiz aproximou-se rapidamente e sussurrou em desespero.
— Não coma. Aqui não é seguro. Temos que ir, não é seguro. Pode estar envenenada essa comida.
— Se ele quisesse nos matar já teria feito, senta logo, Luiz. Eu estou com fome — cortou Hadria, decidida, agindo como se nada tivesse acontecido minutos antes. Ela deu uma mordida enorme na coxa de faisão, mastigando com vontade e lançando um olhar firme para o amigo, como se dissesse: não se preocupe.
Com passos inaudíveis, um garçom se aproximou de Luiz e lhe ofereceu uma taça de prata reluzente.
O jovem vampiro encarou o lorde na cabeceira, que o assistia com superioridade. Luiz pegou a taça. Ele não tomava uma gota de sangue desde o dia fatídico em que quase secara as veias de Hadria no rio subterrâneo.
Constantino ergueu sua própria taça em um brinde silencioso no ar e sorriu, com a prepotência de quem já havia vencido uma guerra antes de as espadas se tocarem.
Luiz aproximou o cálice do rosto. Sentiu o cheiro acobreado. Olhou para o fundo; o líquido era de um vermelho intenso, rico e espesso. Seu coração começou a bater mais forte. Até mesmo Hadria parou de mastigar por um segundo para observá-lo; ele parecia aterrorizado com a ideia de provar o sangue. Hadria agia como se nada tivesse acontecido, mas ela estava com os olhos de dragão de Luiz em sua mente e varias perguntas surgir como isso poderia ter acontecido, e por que a escuridão dos olhos de dragão dele a chamaram.
— Você prefere beber o sangue direto da fonte, sobrinho? — provocou Constantino, ainda sorrindo, dominando completamente a situação.
O lorde estalou os dedos. O eco reverberou pelo salão e, no mesmo instante, três mulheres surgiram por trás das cortinas de veludo. Aparentavam ter no máximo vinte anos de idade e usavam vestidos brancos e transparentes de seda. Eram deslumbrantemente lindas: uma loira, uma morena e uma ruiva.
Caminharam em direção a Luiz com passos leves e flutuantes. Aproximaram-se perigosamente, inclinando os pescoços imaculados para o vampiro. Passaram as mãos trêmulas ao redor do rosto do rapaz, roçando em seus ombros em uma coreografia silenciosa e perigosa de sedução e sacrifício. Elas circulavam ao redor dele, tocando seu tórax e aguardando submissamente, pedindo sem palavras que ele cravasse as presas em suas gargantas e sugasse suas vidas.
Hadria observava a cena com atenção, arrancando outro pedaço de uma paleta de porco assada. Será que eu vi certo minutos atrás? Ele realmente estava com o mesmo olhar de um dragão ancestral... Será que ele não é mais vampiro?, ponderava a garota.
— Meu sobrinho sempre foi um tanto peculiar — comentou Constantino, desviando os olhos do ritual das mulheres e fixando-os, de forma afiada e fria, em Hadria. — Mas você, garota... você é um verdadeiro achado.
— Eu? — retrucou Hadria de boca cheia, sem tirar os olhos de Luiz, que continuava sendo assediado pelas servas humanas.
No centro da roda, Luiz respirou fundo. Ignorou os pescoços sedutores e virou a taça de prata de uma só vez, bebendo todo o líquido espesso. O gosto do sangue não estava diferente, e isso trouxe um alívio sombrio à sua mente. O corpo de Luiz exigiu sua verdadeira herança biológica: as presas rasgaram suas gengivas de forma agressiva, descendo pontiagudas, e seu coração descompassado começou a desacelerar lentamente, voltando ao ritmo morto e frio de um imortal.
Ele passou as costas da mão nos lábios avermelhados e sustentou, de igual para igual, o olhar predatório de Constantino.
— Formidável — murmurou o lorde, analisando a recuperação das características vampirescas no sobrinho.
Com um aceno imperceptível de mão, as três mulheres recuaram e saíram do salão tão silenciosamente quanto haviam entrado.
Constantino, então, voltou sua atenção exclusiva para a hóspede.
— O que você veio buscar em minha modesta casa, senhorita? Qual é o seu nome?