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Simulacro de Liberdade - Parte 1

aleroz

Conteúdo da publicação

Ceres esperava pelo trem blindado na estação, sozinha. Eram treze horas.

Impaciente, revoltada, observava ao longe Theo se aproximar com um sorriso no rosto. Ele ainda usava aquele cabelo comprido até os ombros, e a mancha do lado direito parecia renovada naquela manhã.

Ceres levou a mão ao próprio cabelo, tocando a mancha do lado esquerdo, como se imitasse o gesto de Theo diante de um espelho. A dela, porém, parecia um pouco mais fraca, menos intensa. Havia algo desconcertante naquela diferença, algo que a incomodava mais do que deveria.

Theo também tocou a própria mancha.

Era assim que os dois haviam aprendido a se reconhecer. Seus nomes tinham sido apresentados em LIBRAS, a língua oficial do silêncio. Mas Ceres balançou a cabeça, contrariada. Não era aquilo que queria comunicar. Não estava imitando Theo por carinho, nem demonstrando qualquer espécie de cumplicidade. O que a incomodava era a mancha, a maneira como ele parecia renovado enquanto a dela enfraquecia. E, ainda assim, ele continuava sendo seu espelho.

Theo parou diante dela.

Os dois se olharam.

Ceres tinha olhos azuis intensos, daqueles que pareciam procurar alguma coisa mesmo quando encaravam alguém com ódio. Theo ergueu a mão lentamente, como se pretendesse tocar seu rosto, mas ela recuou bruscamente.

Ele deu um passo à frente.

Dessa vez, Ceres não se afastou. Theo passou os dedos pela mancha em seu cabelo, enquanto ela mantinha os olhos fixos nele. Pequenos reflexos azulados pareciam se mover em suas íris, procurando alguma coisa que nem ela própria sabia nomear.

— Chamei você porque sei que nunca me chamaria para ir ao silo.

Ceres sentiu o ódio crescer. Havia também aquela obediência estranha, uma espécie de vínculo simbiótico e doentio que a mantinha perto dele mesmo quando tudo o que desejava era afastá-lo.

Theo tirou a mochila cinza-escura dos ombros e a abriu diante dela.

Lá dentro havia frutas frescas, entre elas alguns pêssegos maduros.

— Demorei para roubar isso da sala dos professores. Sempre tem o bastante por lá... Sei que você gosta.

Ceres olhou para as frutas e depois para ele.

Pêssegos.

Ele havia trazido pêssegos.

Nunca tinham perguntado um ao outro sobre suas frutas favoritas. Ela nunca lhe contara aquilo. Nunca havia demonstrado interesse suficiente para que alguém pudesse descobrir. E, ainda assim, Theo sabia.

Aquilo a desconcertava. Não era gratidão o que sentia, muito menos ternura. Era ódio. Um ódio incômodo, quase humilhante, por ele ter descoberto algo que ela jamais lhe oferecera.

— Quem me contou foram seus olhos — disse Theo. — Seus olhos são lindos, Ceres. Você é uma ceresciana!

Ceres conhecia a agressão. Conhecia a força dos golpes, a dor, a ameaça e o medo. Sabia como reagir quando alguém a enfrentava. Poderia socá-lo, quebrar uma de suas costelas ou fazer alguma coisa que o obrigasse a recuar.

Theo estava ali, falando com ela em meio ao silêncio, diante daquele chumbo líquido que parecia preencher tudo o que Ceres não conseguia expressar.

Ela queria revidar.

Não conseguia.

E isso a fazia sentir ainda mais ódio.

Ao fundo, o trem blindado apitou.

Os dois continuaram se olhando.

Por um instante, Ceres se lembrou de outra ocasião. Depois do sequestro, quando quis matar Dark, Theo havia se colocado diante dela para impedi-la. Dark estava gravemente ferido, e o helicóptero de resgate pairava sobre eles. Naquele dia, Theo não hesitaria em enfrentá-la com toda a força necessária para fazê-la obedecer. Ele precisava deixar claro quem era o líder ali.

Ceres se lembrava daquele olhar.

Theo não teria pena dela. Não recuaria. Se precisasse derrubá-la para impedir que desobedecesse, faria isso. Naqueles olhos havia a intenção de quebrá-la, de obrigá-la a reconhecer uma autoridade que não admitia contestação.

Agora, porém, ele sorria.

Era um sorriso torto, cínico, quase despreocupado. Como se nada tivesse importância. Como se até a antiga rivalidade com Dark tivesse deixado de existir.

Não porque os dois tivessem passado a gostar um do outro. Eles se evitavam, reconheciam-se e, quando podiam, ignoravam-se. Mas alguma coisa havia mudado em Theo.

Ele não tinha sido quebrado.

Ou, se tinha, não fora por uma surra, por um castigo ou por alguma demonstração de força. Havia outra coisa ali, algo que Ceres não compreendia. Talvez tivesse sido a própria Mãe Ceres. Talvez fosse alguma coisa que ela ainda não conseguia enxergar.

O trem se aproximava.

Os dois se esconderam e esperaram.

A composição avançava lentamente, trocando de trilhos. Naquele horário, costumava seguir em direção ao silo. Era uma oportunidade que não duraria muito.

Ceres e Theo permaneceram juntos, respirando quase no mesmo ritmo.

Ela o odiava.

Ele continuava com aquele sorriso torto, como se soubesse tudo o que estava prestes a acontecer.

Quando o trem passou diante deles, ainda lento, Theo subiu primeiro. Estendeu a mão e puxou Ceres para cima. Os dois se acomodaram sobre a composição, e, pouco depois, o trem começou a ganhar velocidade.

Theo olhou para a frente.

Ceres olhou para ele, sem entender por que o acompanhava, por que aceitara aquela mão estendida, por que ainda estava ali.

Então ele se aproximou de seu ouvido.

— Liberdade! — sussurrou.

Ceres lhe acertou um soco na boca.

Theo riu.

Mesmo com o golpe, continuou sorrindo. Puxou-a para junto de si, ainda tomado por uma alegria quase infantil, enquanto ela o encarava com ódio, como se estivesse decidindo se deveria golpeá-lo novamente.

Mas não o fez.

Permaneceu ali, olhando para ele, até que a paisagem começasse a acalmá-la.

A cidade foi ficando para trás. Ao redor, as fazendas se estendiam em grandes áreas de cultivo, com os sistemas de irrigação espalhando água sobre as plantações. Acima deles, Ceres II brilhava no céu diurno, imponente e distante.

Os dois ergueram os olhos para a estação suspensa no horizonte.

— A Mãe nos olhando! — disseram ao mesmo tempo.

Houve um instante de silêncio.

— Mãe Ceres, que nos alimenta... que nos educa... e nos devora!

A paisagem continuava a exibir a eficiência da Cidade de Ceres. Tudo parecia obedecer a uma ordem precisa, calculada, quase perfeita. Mas, quanto mais se afastavam, mais aquela perfeição parecia uma promessa da qual ninguém poderia escapar.

O silo surgiu cerca de meia hora depois.

Quando o trem reduziu a velocidade, os dois desceram e se embrenharam pela plantação de soja, que terminava mais adiante, dando lugar a um campo de trigo. Caminharam até se afastarem dos trilhos e seguirem por um caminho de pedras cobertas de musgo, com o mato crescendo alto entre as frestas.

O velho silo estava desativado.

A entrada enferrujada rangia com o vento. Por dentro, o lugar permanecia vazio, ocupado apenas por lonas dobradas, algumas rasgadas e espalhadas pelo chão. No alto, algumas aves sobrevoavam seus ninhos, entrando e saindo pelas aberturas da estrutura.

Sob a cúpula intacta, uma fresta deixava passar um feixe de luz que atingia um pequeno pedaço do chão.

Ali, no meio da poeira e das sombras, crescia uma muda de pessegueiro.

Pequena, mas forte.

Foi naquele lugar que os dois se encontraram pela primeira vez. Tinham dividido um fruto, e algumas sementes haviam caído no chão sem que percebessem. Do acaso nascera aquela muda, um pedaço de vida que nenhum dos dois planejara.

Um pouco de liberdade.

Ceres odiava admitir isso, mesmo em pensamento. Mas, naquele lugar, os símbolos pareciam falar por ela. Theo os compreendia sem que precisasse explicar nada. Era como se o chumbo líquido que borbulhava dentro dela se tornasse sólido ali, contido pelas paredes do silo, incapaz de transbordar.

Não havia câmeras.

Não havia regras.

Não havia ninguém observando.

Apenas Theo, acompanhando-a em silêncio, sem exigir uma palavra sequer.

Ceres se aproximou da muda.

Fazia tempo que Theo não a chamava para ir ao silo. Ela tocou delicadamente uma das folhas, observando o pequeno tronco e os ramos que se erguiam em direção à luz. A planta parecia mais forte do que na última vez.

Theo permaneceu calado.

Só então percebeu que talvez não devesse ter provocado Ceres daquela maneira. Poderia ter esperado que ela o chamasse. Poderia ter deixado que a iniciativa partisse dela, em vez de obrigá-la a encarar o fato de que ele ainda sabia como alcançá-la.

A garota de olhos azuis não conseguia dizer o que sentia.

Theo sabia disso.

E, mesmo assim, tinha sido cruel com ela.

Ceres continuou observando a muda com admiração, sem alterar a expressão. Para qualquer outra pessoa, aquele gesto talvez não significasse nada. Mas Theo conhecia o silêncio dela. Conhecia suas pausas, seus movimentos mínimos, a maneira como seus olhos se demoravam nas coisas que não conseguia expressar.

Ceres ergueu o rosto e olhou para ele.

Não disse nada.

Mas Theo compreendeu.

Está forte.

Era o que havia naquele olhar.

Ela se sentou entre as lonas velhas e voltou a observar a planta. A fresta no alto do silo projetava sobre o chão uma faixa de luz que parecia abrir uma janela para outro mundo. Ao longe, por aquela abertura estreita, era possível distinguir as silhuetas de montanhas altas, cobertas de gelo. Atrás delas, uma tempestade avançava lentamente.

As montanhas pareciam dizer que os dois jamais conseguiriam sair dali.

Que, por mais que corressem, por mais que encontrassem brechas, sempre haveria alguma coisa além do alcance deles.

Como se dissessem: Vocês nunca irão embora.

Mas Ceres não podia ir até o silo sempre que quisesse. E Theo também não podia chamá-la sem consequências.

A liberdade deles tinha limites.

Theo se aproximou lentamente e se abaixou ao lado dela. Não tentou falar, não fez perguntas. Apenas se deitou junto a Ceres, deixando que ela decidisse o que fazer.

Por alguns instantes, ela permaneceu imóvel.

Então deitou a cabeça no peito dele.

Sentiu o cheiro de Theo, familiar e difícil de explicar. Manteve os olhos voltados para a fresta, para as montanhas geladas e para a tempestade que se formava ao longe.

Theo também olhou para a paisagem.

Passou a mão pelos cabelos dela, acariciando-os com cuidado.

Ceres parecia em paz.

Não resmungou. Não se mexeu para afastá-lo. Não tentou transformar aquele gesto em uma disputa, nem procurou uma razão para se levantar.

Apenas permitiu que ele continuasse.

Os dedos de Theo percorriam seus cabelos sem malícia, sem exigência, sem a intenção de obter alguma coisa em troca.

Naquele momento, não havia liderança, obediência ou rivalidade. Não havia Dark, nem a cidade, nem a Mãe Ceres observando cada movimento.

Havia o velho silo, as lonas empoeiradas, a pequena muda de pessegueiro crescendo no chão e a luz que entrava por uma fresta estreita demais para oferecer uma saída.

E havia os dois.

Sozinhos.

Por algum tempo, Ceres não precisou odiá-lo.

E Theo não precisou fingir que sabia todas as respostas.

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Thoughts

  • arquivo_da_cidade

    Os dois recitando de novo a reza da Mãe que alimenta, educa e devora, agora em coro, olhando pra Ceres II lá no céu, uai. Nem fugindo de trem eles largam a cidade; o silo me parece uma fuga de coleira.

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  • conto_mesmo_assim

    O Theo roubando pêssego da sala dos professores pra agradar a menina que mais odeia ele. Plano perfeito, nada pode dar errado kkkk

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