Pular para o conteúdo
Carregando…

Simulacro de Liberdade - Parte 2

aleroz

Conteúdo da publicação

Por vários minutos, permaneceram assim, como dois animais em silêncio, sem cobranças, sem regras. Apenas respiravam, sentindo a presença um do outro, enquanto o mundo continuava existindo do lado de fora.

Theo quebrou o silêncio.

— Gostaria de um dia, se possível, conhecer Silencium.

Ceres virou ligeiramente o rosto para ele, desconfiada.

— Você nunca irá para lá.

— Ué, por quê?

— Você fala demais.

Theo ficou sério. Os dois continuavam deitados na mesma posição, olhando para o horizonte. Ele mordeu os lábios, tentando conter alguma coisa. As bochechas se contraíram, e um som abafado escapou pelo nariz.

Segurou o riso.

Respirou fundo e voltou a olhar para a paisagem, tentando se recompor.

Naquele instante, um pássaro passou rapidamente pela fresta do silo, bateu contra a borda e caiu no chão. Ficou atordoado por alguns segundos, as asas abertas sobre a poeira, até recuperar o equilíbrio e voar novamente.

Theo não aguentou.

Começou a rir de verdade, sacudindo a cabeça, o que fez Ceres se mover junto com ele.

Ela lhe deu um soco no peito.

Theo riu ainda mais.

Ceres o golpeou novamente, agora convencida de que ele estava zombando dela. Quanto mais ela batia, mais ele ria, até que Theo a segurou pelos braços, ainda sorrindo, e os dois começaram a se embolar sobre as lonas velhas.

Ela tentou se soltar, mas ele a segurou com firmeza.

— Eu nunca riria de você — disse Theo, entre risos. — Você foi engraçada. Isso me provocou o riso.

Ceres parou.

Olhou diretamente nos olhos dele.

Theo ainda a segurava, mas seu sorriso começava a desaparecer. Não por medo, nem porque tivesse perdido a vontade de rir. Apenas percebeu que alguma coisa havia mudado.

Os lábios de Ceres se entreabriram. Por um instante, ela mostrou discretamente os dentes e a ponta da língua.

Era um sinal.

Theo conhecia aquele gesto.

E a beijou ali mesmo.

Não houve resistência, provocação ou disputa. Ceres não tentou afastá-lo, e Theo não precisou insistir. O beijo aconteceu com a naturalidade de algo que ambos poderiam ter feito muito antes, se soubessem como chegar até aquele momento sem transformar tudo em uma batalha.

Por algumas horas, permaneceram no silo.

O tempo passou sem que nenhum dos dois se preocupasse em medi-lo. A luz que atravessava a fresta mudou de posição, e a tempestade continuou avançando sobre as montanhas.

Quando finalmente se sentaram, Theo pegou a mochila e retirou dois pêssegos maduros.

Entregou um a Ceres e ficou com o outro.

Ela observou a fruta em sua mão. Depois olhou para o pêssego de Theo.

O dele era maior.

Ceres não disse nada. Apenas estendeu a mão, tomou o pêssego dele e lhe entregou o próprio.

Theo deixou que ela fizesse a troca.

Aquela pequena vitória pareceu satisfazê-la.

Ele riu baixinho.

— Você é idêntica à imagem da sua mãe, Assum. Acho fantástico vocês duas terem o mesmo dom...

Ceres permaneceu em silêncio.

Theo mordeu o pêssego, mastigou devagar e voltou a observá-la.

— Queria aprender mais LIBRAS com você. É disso que sinto falta.

Ceres ergueu os olhos.

Dessa vez, não precisou de palavras para responder.

Os dois começaram a conversar em língua de sinais.

Os gestos de Ceres eram leves, precisos. Ela se comunicava muito mais com Theo do que costumava fazer com qualquer outra pessoa. Ele, por sua vez, acompanhava os movimentos com uma atenção quase admirada, surpreso com a facilidade com que ela compreendia seus sinais e com a maneira como corrigia cada erro sem interromper a conversa.

Belos olhos.

Minha mãe que me deu.

Theo sorriu.

Você só canta no silo?

Sim. Somente aqui.

Ele observou a resposta por alguns segundos.

Canta para mim?

Não.

Theo baixou a cabeça, disfarçando um sorriso.

Ceres continuou comendo o pêssego, indiferente à insistência que ele nem sequer tivera tempo de demonstrar.

Depois, Theo voltou a sinalizar.

Como eram as paisagens de Silencium?

Ceres pensou antes de responder.

São belas e silenciosas.

Theo tentou formular outra pergunta. Seus movimentos, porém, saíram imprecisos, e Ceres corrigiu a posição de seus dedos. Tocou de leve sua mão, ajustando o gesto, e o orientou até que ele conseguisse reproduzi-lo corretamente.

Ele parecia satisfeito em deixá-la ensinar.

O que tem lá?

Ceres respondeu com uma expressão diferente, como se a lembrança tivesse aberto uma janela dentro dela.

Existe uma caverna cheia de cachoeiras onde o silêncio é quebrado.

Theo ergueu as sobrancelhas.

Tem um vulcão ativo lá?

Ceres corrigiu o sinal de vulcão, fazendo-o repetir o movimento.

Sim. É magnífico. As pedras negras, as obsidianas, a lava e o magma.

Por alguns instantes, ela pareceu estar novamente naquele lugar. Não explicou o que sentia ao lembrar-se de Silencium. Não precisava. Suas mãos continuaram se movendo, descrevendo uma paisagem que Theo jamais vira, mas que começava a imaginar através dos olhos dela.

Então ele fez um sinal diferente.

Mesmo que você tenha nascido em Silencium, você pertence à Cidade de Ceres.

As mãos de Ceres pararam.

Ela ficou pensativa, com o pêssego esquecido entre os dedos. Depois olhou para Theo.

Quase sorriu.

Foi um movimento tão pequeno que outra pessoa talvez nem percebesse. Mas Theo percebeu.

Aquilo não era apenas uma frase. Para Ceres, parecia um selo de aprovação.

Pertencer.

Era isso que ela procurava.

Theo começou a compreender algo que antes lhe escapava. Ceres havia sido renegada ainda na infância, em Silencium. Passara seus anos de crescimento em Pietá, sabendo que não pertencia inteiramente à cidade que a acolhera, mas carregando a certeza de que sua terra natal também a rejeitara.

Aprendera a amar a Cidade de Ceres. Aprendera a amar a Mãe Ceres com uma devoção que, para os outros, talvez parecesse excessiva. A cidade lhe dera abrigo quando Silencium lhe negara um lugar.

Mas acolhimento não apagava a rejeição.

Na adolescência, Ceres voltara a Silencium. E fora renegada novamente.

Dessa vez, a rejeição viera do próprio pai, que tentara matá-la e quase lhe cortara a língua por ela possuir o mesmo dom de sua mãe, Assum.

Ceres sobrevivera, mas voltara destruída.

A guarda de Silencium a deixara na fronteira, obrigando-a a percorrer a pé o caminho até a torre. Quando finalmente apareceu no colégio militar, Theo estava lá.

Sorte ou azar.

Theo diria que havia sido mais azar do que sorte, dependendo do dia.

Mas foi ele quem a encontrou naquele estado. E, desde então, alguma coisa os mantinha ligados de uma maneira que nenhum dos dois sabia explicar por completo.

Agora, olhando para Ceres, Theo começava a entender também a importância da mancha em seu cabelo, a maneira como ela o enfrentava e a intensidade com que reagia a qualquer sinal de fraqueza ou rejeição.

Não porque a tivesse decifrado.

Ceres continuava imprevisível.

Theo sabia muito bem que não podia demonstrar confiança demais. Aquela garota ainda poderia arrancar uma de suas orelhas se julgasse necessário. Quase lhe quebrara as costelas no beco, e não havia razão para acreditar que tivesse perdido a capacidade de fazê-lo.

O reconhecimento entre os dois era estranho, quase assustador.

As regras do colégio militar não pareciam suficientes para explicar aquela relação. Eles agiam como arruaceiros, desafiavam limites e, por vezes, pareciam obedecer apenas a uma lógica que existia entre eles.

Mas Theo começava a compreender por que Ceres não precisava se encaixar completamente naquelas regras.

Ela era a filha e herdeira legítima de Silencium, embora a própria cidade tivesse tentado apagá-la. Havia nela uma contradição que não se resolvia com disciplina, hierarquia ou punição.

Theo, por sua vez, era o elo social que a mantinha ligada ao colégio militar. Era também uma espécie de passagem para o lado disfuncional dela, aquele que não se submetia às convenções e que parecia encontrar prazer em desafiar tudo o que tentava controlá-la.

Talvez fosse por isso que Ceres o enfrentasse com tanta intensidade.

Talvez fosse por isso que, às vezes, permitisse que ele se aproximasse.

E talvez fosse por isso que nunca conseguia decidir se queria mantê-lo por perto ou afastá-lo para sempre.

Theo olhou para as mãos dela, ainda repousadas sobre o pêssego, e depois para seus olhos azuis.

Ceres voltou a comer, como se nada tivesse acontecido.

Mas ele já havia entendido uma coisa.

Ela não precisava que alguém lhe dissesse de onde vinha.

Precisava saber que, apesar de tudo, havia algum lugar ao qual ainda pudesse pertencer.

E, por alguns instantes, naquele silo abandonado, entre uma fruta roubada e uma muda que crescera por acaso, Theo lhe dera essa resposta.

Sem promessas.

Sem regras.

Sem exigir que ela dissesse uma única palavra.

Lá fora, a tempestade continuava avançando sobre as montanhas geladas.

E nenhum dos dois sabia quanto tempo ainda teria aquele pequeno pedaço de mundo só para si.

#distopia #ficcaocientifica #maeceres #escritoramador #worldbuilding #liberdade #historias #ditaduradobemestar #autorindependente #indieauthor #indiebooks #lore #scifibooks #drama #literatura

Thoughts

  • argumento_frouxo

    Tô desconfiado do Theo nessa. Ele diz que ela pertence à Cidade de Ceres justo quando ela tá mais aberta, e a cidade é da Mãe Ceres. Aposto que essa frase volta contra os dois.

    Permalink
  • conto_mesmo_assim

    O Theo engolindo o riso até o pássaro bater na borda do silo, e depois apanhando por isso kkkk. Mereceu cada soco.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 3 conversas 5 pensamentos 52 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Por vários minutos, permaneceram assim, como dois animais em silêncio, sem cobranças, sem regras. Apenas respiravam, sentindo a presença um do outro, enquanto o mundo continuava existindo do lado de…

Em séries

Temas

Em grupos