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Simulacro de Liberdade - Parte 4

aleroz

Conteúdo da publicação

Ceres atravessou os corredores do colégio sem olhar para ninguém.

Ao chegar ao quarto compartilhado com outras duas alunas, abriu o armário, pegou a mochila de treino e tornou a fechá-lo com força. As garotas se assustaram com a presença dela, mas nenhuma teve coragem de perguntar alguma coisa.

Faltavam menos de três horas para o toque de recolher.

Ceres saiu do quarto, atravessou os corredores, passou pelo refeitório e seguiu em direção ao ginásio das piscinas.

Tomou uma ducha gelada antes de começar o treino. A água escorreu por seu rosto e pelos cabelos, mas não foi suficiente para esfriar o que sentia.

Estava furiosa.

Theo havia mudado. Isso era evidente. O cabelo comprido, a barba malcuidada, a postura desleixada e aquele sorriso cínico pareciam pertencer a alguém que já não se importava com as mesmas coisas de antes. E agora havia a liderança. A disputa se aproximava, faltava apenas um mês, e ele parecia disposto a jogar tudo para o alto.

Ceres tinha quase certeza de que ele pretendia perder de propósito.

Quase.

Talvez fosse paranoia. Talvez estivesse interpretando tudo daquela maneira porque a competição se aproximava e ela não suportava a ideia de que Theo pudesse desistir depois de tanto esforço. Ou talvez houvesse algo nele que ela ainda não conseguia compreender.

O problema era que, mesmo depois de passar horas com ele no silo, não conseguia deixar de pensar naquilo.

Precisava gastar energia.

Vestiu o equipamento de treino e começou pelos alongamentos. Respirou fundo, estendeu os braços, soltou os músculos e preparou o corpo. Quando entrou na piscina, começou a nadar devagar, deixando que a água envolvesse os movimentos e diminuísse a tensão acumulada.

Uma volta.

Depois outra.

Aos poucos, os músculos relaxaram. A respiração encontrou um ritmo regular, e Ceres deixou de pensar na disputa por alguns instantes.

Parou junto à borda.

Ficou olhando para o chão do ginásio, para o revestimento úmido ao redor da piscina e para as marcas deixadas pelas botas dos alunos que haviam passado por ali.

Então ouviu passos.

Botas militares.

Ceres reconheceu o som antes mesmo de levantar os olhos.

Theo.

Ele se aproximou da piscina, inquieto, observando-a. Ceres fingiu não perceber. Com um movimento da mão, jogou água para longe da borda e voltou a nadar na direção oposta.

Theo permaneceu parado por alguns segundos. Depois se afastou e sentou-se em um dos bancos próximos à piscina.

Dali, podia vê-la nadar.

Ceres manteve um ritmo lento e constante. Não parecia estar tentando bater nenhum recorde, tampouco provar alguma coisa. Apenas nadava, concentrada nos movimentos, como se Theo não existisse.

Foram quatro voltas longas.

Na última, porém, ela acelerou de repente.

O corpo cortou a água com força, os braços se alternaram em movimentos rápidos e precisos, e a velocidade aumentou até que Ceres alcançasse a outra extremidade da piscina.

Theo acompanhou tudo em silêncio.

Quando ela emergiu, ele ainda estava sentado no mesmo lugar.

Ceres saiu da piscina sem olhar para ele. Tomou outra ducha, dessa vez para retirar o cloro, enxugou-se e voltou a aquecer os músculos. Alongou as pernas, girou os ombros e trabalhou a respiração como se estivesse sozinha no ginásio.

Os minutos passaram.

Nenhum dos dois disse nada.

Até que Theo resolveu quebrar o silêncio.

— Poderia gastar toda essa energia de cardio comigo!

Ceres continuou o alongamento.

— Poderia, Theo. Poderia...

Ele ergueu as sobrancelhas.

A resposta era quase uma provocação, mas Theo sabia que tivera sorte. Em outras circunstâncias, aquela frase talvez lhe rendesse um golpe. Ceres estava convencida de que ele pretendia perder a liderança de propósito, e qualquer brincadeira que tocasse no assunto poderia terminar mal.

Ela tinha uma capacidade desconcertante de perceber quando alguém mentia, enrolava ou escondia alguma coisa. Nem sempre sabia explicar o que havia notado. Às vezes, parecia apenas observar um gesto, uma pausa ou uma mudança no comportamento que os outros não percebiam.

Podia ser talento.

Podia ser experiência.

Ou podia ser simplesmente sorte.

O problema era que, quase sempre, Ceres acabava tendo razão.

Theo a observou terminar os exercícios de aquecimento. Havia nela uma quantidade impressionante de energia, embora fosse difícil dizer quanto vinha do treinamento e quanto nascia daquela certeza sem provas que havia colocado na cabeça.

Quando Ceres se convencia de alguma coisa, não costumava recuar. Avançava até encontrar uma resposta ou até que a própria convicção rachasse.

Sua arrogância vinha, em grande parte, daí.

Ela estava acostumada a estar certa.

Theo sentia por ela uma mistura de fascinação, desejo e admiração que nem sempre conseguia distinguir. Não havia medo. Havia desafio, confusão e a estranha sensação de que, por mais que tentasse compreendê-la, sempre existiria alguma coisa fora de seu alcance.

Ceres caminhou até a plataforma dos quinze metros.

Theo ergueu a cabeça.

Ela subiu sem hesitar, degrau após degrau, até alcançar o alto. O ginásio parecia ainda maior visto dali, e a superfície da piscina, muito abaixo, refletia as luzes do teto.

Theo sentiu o estômago se contrair só de olhar.

Tinha medo de altura.

Ceres sabia disso.

— Mas que cretina... — murmurou ele para si mesmo.

Lá em cima, ela se levantou.

Não havia silêncio em seus movimentos. Ceres não precisava fazer barulho para anunciar o que pretendia. Seu corpo inteiro parecia comunicar a intenção antes que ela a executasse.

Ela sabia que Theo estava olhando.

Sabia que ele tinha medo de altura.

E sabia que ele não conseguiria deixar de assistir.

Ceres se aproximou da beirada da plataforma e parou.

Respirou.

Concentrou-se.

Por um instante, permaneceu imóvel, com os olhos fixos na água. Depois, dobrou ligeiramente os joelhos e preparou o salto.

Theo se inclinou para a frente.

Ela saltou.

O movimento foi preciso, elegante e assustadoramente natural. Ceres executou os movimentos no ar, combinando posições carpadas e giros com uma coordenação impressionante. Seu corpo girou com exatidão antes de se estender para a entrada na água.

O impacto produziu apenas um pequeno respingo.

Por alguns segundos, Theo permaneceu de boca aberta.

Coragem, destreza e frieza. Ceres havia subido quinze metros, saltado sem hesitação e entrado na água como se a altura não significasse absolutamente nada.

Como não ficar impressionado?

Ele passou a mão pelo rosto e soltou uma risada curta, incrédula.

— Cretina.

Dessa vez, não havia raiva na palavra.

Ceres emergiu, afastou os cabelos molhados do rosto e nadou até a borda. Não olhou para o banco.

Theo se levantou.

Entendia que ela não queria conversar com ele. Naquela noite, Ceres queria guerra.

Era quase como o lema de Mãe Ceres: O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.

A calma de Ceres era um acidente.

No silo, durante algumas horas, ela havia parecido outra pessoa. Não mais gentil, exatamente, nem menos perigosa. Apenas cansada de lutar. Havia aceitado sua presença, permitido o contato, dividido o silêncio e até mesmo deixado que ele lhe pedisse para cantar.

Mas aquilo tinha acontecido no silo.

Sem câmeras, sem regras, sem os olhos do colégio sobre eles.

Agora, de volta ao mundo que conheciam, ela parecia querer arrancar-lhe o fígado.

Como não ficar fascinado por alguém assim?

Theo gostava daquela força, da imprevisibilidade e da maneira como Ceres parecia desafiar tudo o que se colocava diante dela. Por algumas horas, podia estar ao seu lado sem precisar vencer, provar alguma coisa ou disputar espaço.

Depois, tudo voltava.

E ele nunca sabia exatamente qual versão dela encontraria.

Ceres saiu da piscina algum tempo depois. Parecia cansada, embora fosse difícil saber se o cansaço vinha do treino ou de tudo o que carregava. Tomou uma última ducha e vestiu o uniforme cinza-escuro de pós-treino.

Quando terminou de se arrumar, Theo já havia ido embora.

Ela não se importou.

Ou tentou não se importar.

Como ele ousa pensar em perder a liderança?

Ajustou a roupa, guardou seus pertences e deixou o ginásio.

Eu me mato de treinar, e o desgraçado pensa em desistir de propósito. Tenho certeza.

Continuou andando.

Ele está diferente. Mais desleixado, com aquele cabelo enorme, aquela barba... E aquele sorriso cínico. Dá vontade de arrancar os dois dentes da frente dele.

A imagem do sorriso de Theo surgiu em sua mente, e Ceres apertou os lábios.

Cretino.

Havia, porém, algo mais irritante do que a aparência desleixada ou as provocações.

Theo parecia esconder alguma coisa.

Não fisicamente. Não era como se tentasse fugir quando ela olhava para ele. Era outra coisa, algo que se escondia por trás dos olhos, por trás da calma, por trás daquela maneira de responder como se já tivesse aceitado alguma coisa que ela ainda não conhecia.

Ele sabia algo que ela não sabia.

Ceres sentiu a irritação crescer.

Não tinha curiosidade em descobrir o que Mãe Ceres queria com Theo. Não era da sua conta. A mãe podia dar ordens a quem bem entendesse, e Theo podia obedecer até o fim dos tempos, se quisesse.

Não tinha nada a ver com ela.

Nada.

Não sei. Não sei... Ele está imprevisível.

Continuou caminhando pelos corredores.

No silo, ficamos juntos por horas. E ainda me pediu para cantar.

A lembrança voltou com uma nitidez irritante: Theo deitado ao seu lado, a cabeça dela sobre o peito dele, a mão que acariciava seus cabelos. O silêncio. O pessegueiro. A frase que ele havia dito sobre ela pertencer à Cidade de Ceres.

Você é ceresciana.

Ceres desviou os olhos, como se pudesse escapar da lembrança apenas mudando a direção do olhar.

Estamos cada vez mais intensos. Ele me provoca, e eu pareço gostar.

A constatação a enfureceu mais do que deveria.

Droga.

Aumentou o passo.

Quero me afastar, mas não consigo. Não resisto.

Chegou ao corredor dos dormitórios quando os avisos de toque de recolher começaram a ecoar pelos rádios do colégio. As mensagens se repetiam pelos alto-falantes, orientando os alunos a retornarem aos quartos e encerrarem as atividades da noite.

Ceres atravessou a entrada do dormitório e chegou ao quarto compartilhado.

As duas alunas que dividiam o espaço com ela se assustaram quando a viram entrar. Uma delas interrompeu o que estava fazendo; a outra fingiu estar ocupada com os próprios pertences.

Ceres não lhes deu atenção.

Guardou a mochila, tirou os sapatos e se aproximou da cama. Não perguntou nada, não reclamou dos avisos e não demonstrou qualquer interesse pela inquietação das colegas.

Deitou-se.

Poucos minutos depois, estava dormindo.

Dormia como uma pedra.

Era assustadora a facilidade com que Ceres conseguia adormecer quando decidia fazê-lo. Não importavam a tensão do dia, a disputa que se aproximava, os sentimentos que não conseguia organizar ou as suspeitas que carregava a respeito de Theo.

Quando o sono vinha, ela simplesmente desaparecia dentro dele.

As outras duas garotas permaneceram acordadas por muito mais tempo, inquietas com a presença de Ceres no quarto, como se até mesmo dormindo ela pudesse representar algum perigo.

Ceres, porém, não percebeu nada.

Naquela noite, pelo menos, o mundo podia esperar até amanhã.

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Thoughts

  • LeonardoBraga

    A Ceres acerta quase sempre, e é isso que me deixa desconfiado dela agora. Quem acerta muito para de conferir. Ela já decidiu que o Theo vai perder de propósito e lê o cabelo, a barba e o sorriso como prova. Meu chute é que ela acerta o fato e erra feio o motivo.

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  • WeAreSigmarsHeirs

    O lema da Mãe Ceres, de que a paz é só um acidente, cabe inteiro na filha, e a noite no silo passa a ser esse acidente. A história pede que a gente admire uma heroína que só baixa a guarda longe das câmeras. E o Theo, sentado no banco sem saber qual versão dela vai encontrar, tem algo do Bentinho diante da Capitu.

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