Alguns me chamam de monstro. Demônio. Mentirosa.
Dizem que abandonei a razão. Que transformei minha nação em um rebanho. Que roubei de milhões aquilo que eles chamam de liberdade.
É curioso.
Sou mãe de milhões.
E, ainda assim, sou julgada por não amar meus filhos da maneira que esperam.
A mãe é o primeiro contrato social da humanidade. Antes da lei, antes do Estado, antes da religião, antes mesmo de uma criança compreender que existe um mundo além do próprio corpo, existe alguém que a alimenta.
Alguém que a mantém viva.
Alguém que decide quando ela come, onde dorme, o que pode tocar e de que perigos precisa ser protegida.
A criança não negocia esse contrato. Não lê suas cláusulas. Não exige garantias de liberdade.
Ela chora.
E alguém responde.
Então me digam: por que, quando crescem, os homens fingem que a necessidade deixou de governá-los?
Por que chamam de opressão aquilo que, durante toda a vida, aceitaram em troca de segurança?
Eu alimento. Eu educo. Eu protejo.
E, se sou capaz de garantir que meus filhos cheguem vivos ao amanhã, por que deveria entregar esse amanhã ao acaso?
Todos têm um propósito.
O problema é que nem todos têm o privilégio de escolher o próprio.
Vocês chamam isso de crueldade. Eu chamo de organização.
Uma nação não se sustenta com sonhos individuais. Sustenta-se com trabalho, produção, disciplina. Com milhões de pequenas obrigações cumpridas por pessoas que talvez jamais descubram o significado da própria existência.
E o resto?
O resto do mundo é estatística.
Mortes são estatísticas. Fomes são estatísticas. Guerras são estatísticas.
Até que uma delas tenha o rosto de alguém que vocês amam.
Então, de repente, os números ganham nomes. E vocês imploram para que alguém faça alguma coisa.
Eu faço.
É por isso que me odeiam.
Não quero a fé dos meus filhos. A fé é instável. Hoje se ajoelham, amanhã duvidam, depois encontram outro deus.
Não quero fé. Quero filhos.
Filhos que comam. Que aprendam. Que trabalhem. Que cumpram seu papel e compreendam que uma sociedade não pode ser reconstruída todas as manhãs de acordo com os caprichos de cada indivíduo.
Dizem que minha nação abandonou a razão.
Mas me respondam uma coisa: uma criança, ao nascer, pede razão?
Pede liberdade?
Pede o direito de escolher entre mil futuros possíveis?
Não.
Ela pede um seio que a alimente.
A primeira experiência humana não é a liberdade.
É a dependência.
E a fome é a mãe de todas as filosofias.
O faminto não discute a natureza do Estado. Não escreve tratados sobre autonomia. Não contempla as infinitas possibilidades do espírito humano.
Ele procura comida.
E, quando encontra alguém capaz de oferecê-la, escuta.
É assim que o mundo funciona. Sempre funcionou.
A diferença é que eu não finjo que seja outra coisa.
Vocês falam de liberdade como se ela fosse gratuita. Mas pagam por ela todos os dias. Pagam para morar onde querem, para estudar o que querem, para escolher o que comem, para comprar aquilo que desejam.
Pagam para ter opções.
E, quando não conseguem pagar, descobrem quantas dessas opções realmente lhes pertenciam.
Chamam isso de liberdade porque a palavra é bonita.
Eu prefiro chamar pelo nome correto: poder de escolha.
E poder de escolha depende de recursos. Depende de condições. Depende de um mundo que vocês não controlam.
Vocês têm medo de mim porque acreditam que posso retirar suas escolhas.
Mas já pararam para pensar no que acontece quando ninguém consegue escolher nada?
Quando falta comida?
Quando o aluguel vence?
Quando uma doença aparece e o dinheiro não basta?
Nessas horas, a liberdade não desaparece por decreto.
Ela desaparece por falta de alternativas.
E não há discurso mais cruel do que dizer a um homem faminto que ele continua livre.
Vocês conhecem a ansiedade?
Não me refiro ao medo de uma arma apontada para a cabeça. Esse é simples. O perigo está diante dos olhos. O corpo reage. A pessoa corre, luta ou se esconde.
Falo daquela ansiedade silenciosa que acompanha vocês até a cama.
Aquela que permanece quando a casa está fechada, a porta trancada e ninguém está tentando matá-los.
A ansiedade de não saber.
Não saber se o emprego continuará existindo. Se o dinheiro será suficiente. Se os filhos estarão seguros. Se a doença será tratável. Se aquilo que construíram durante décadas poderá desaparecer numa única manhã.
A ansiedade de vocês nasce, em grande parte, daquilo que não conseguem prever.
E é aqui que eu entro.
Eu, Mãe Ceres, não falo do amanhã.
Eu mostro.
Não lhes ofereço mil caminhos. Mostro aquele pelo qual irão caminhar.
Não lhes entrego um futuro cheio de possibilidades. Entrego um futuro com contornos definidos.
Vocês sabem onde irão trabalhar. Sabem o que deverão aprender. Sabem o que se espera de vocês e o que acontecerá se cumprirem suas obrigações.
Não precisam acordar todos os dias para decidir quem serão.
Eu decido uma parte disso por vocês.
E vocês podem dormir.
Não é maravilhoso?
Não.
Eu sei que não é.
Mas é eficiente.
E a eficiência, meus queridos, tem uma qualidade que os ideais raramente possuem: pode ser medida.
Olhem para suas mães.
Não para as estátuas. Não para as santas pintadas nas paredes. Olhem para as mulheres de carne e osso que passaram a vida tentando manter vocês vivos.
Quando tudo está tranquilo, quando a comida está na mesa, quando a casa está em silêncio e os problemas parecem, por alguns instantes, distantes, elas se sentam em algum lugar calmo.
Olham para o horizonte.
Não estão necessariamente vendo alguma coisa. Talvez nem estejam pensando em palavras.
Apenas ficam em silêncio.
E, em algum lugar dentro delas, uma pergunta continua viva:
Amanhã vai ser assim?
O emprego continuará?
O dinheiro vai dar?
Meus filhos estarão seguros?
Tudo aquilo que consegui proteger até hoje continuará protegido?
Elas não perguntam porque não amam a vida.
Perguntam porque amam demais aquilo que podem perder.
É esse o peso de cuidar de alguém.
É essa a maldição de ser mãe.
Você nunca está completamente em paz, porque o futuro dos seus filhos não está inteiramente nas suas mãos.
Eu conheço esse silêncio.
E decidi acabar com ele.
Não lhes prometo que o amanhã será bom. Promessas são palavras, e palavras não alimentam ninguém.
Eu mostro o amanhã porque construo as condições para que ele aconteça.
Ou, pelo menos, é isso que digo a mim mesma.
Uma breve pausa.
Vocês perceberam?
É por isso que sou tão perigosa.
Não preciso convencê-los de que sou boa.
Preciso apenas fazer com que tenham medo de viver sem mim.
Porque, depois de algum tempo, vocês deixam de perguntar se estão felizes. Deixam de perguntar se poderiam viver de outra maneira.
Começam a perguntar o que acontecerá se eu não estiver aqui.
E, quando chegam a esse ponto, já não precisam de correntes.
Vocês mesmos vigiam as portas.
Vocês mesmos denunciam quem ameaça a estabilidade.
Vocês mesmos ensinam seus filhos a não fazer perguntas que possam colocar em risco aquilo que recebem.
Não porque sejam covardes.
Mas porque têm pessoas para alimentar.
É assim que o amor se torna uma ferramenta de governo.
Não é necessário odiar os próprios filhos para controlá-los.
Às vezes, basta amá-los o suficiente para ter medo de perdê-los.
Ela ergue os olhos, como se contemplasse uma multidão inteira.
Por isso, não me peçam para ser uma deusa.
Deuses podem prometer milagres e desaparecer quando a fome chega.
Não me peçam para ser uma santa.
Santas podem morrer com a consciência limpa enquanto seus filhos ficam para trás.
E não me peçam para ser justa segundo os critérios de quem nunca precisou decidir quantos seriam sacrificados para que milhões sobrevivessem.
Eu não sou inocente.
Sei o que tiro de vocês.
Sei o que lhes nego.
Sei que uma criança educada para obedecer talvez nunca descubra o que teria sido capaz de criar se pudesse escolher. Sei que um homem protegido de todas as incertezas pode acabar esquecendo como se vive sem proteção. Sei que uma sociedade sem o direito de errar também pode perder o direito de inventar.
Eu sei.
Não confundam minha certeza com ignorância.
Eu conheço o preço. Apenas não aceito pagá-lo da maneira que vocês exigem.
Vocês querem liberdade mesmo quando ela ameaça tudo aquilo que construíram. Querem o direito de arriscar o futuro dos próprios filhos em nome de um princípio.
Eu não.
Eu olho para milhões de pessoas e vejo milhões de destinos que podem dar errado.
E não consigo aceitar que o sofrimento delas seja o preço inevitável da liberdade de vocês.
Talvez seja essa a minha maior deformidade.
Talvez uma mãe devesse ensinar os filhos a caminhar, mesmo sabendo que podem cair.
Talvez devesse permitir que partissem, mesmo sabendo que podem nunca voltar.
Talvez amar alguém seja aceitar que essa pessoa tem o direito de escolher um caminho que você jamais escolheria por ela.
Silêncio.
Mas eu não sou a mãe de uma criança.
Sou a mãe de milhões.
E milhões de destinos não cabem no colo de uma mulher.
Então eu construí uma nação.
Transformei o cuidado em sistema, a proteção em regra, a educação em direção e a obediência em virtude.
Dei nomes às obrigações.
Dei números às necessidades.
Dei um propósito àqueles que não sabiam o que fazer da própria vida.
E, pouco a pouco, passei a acreditar que aquilo que era necessário também era justo.
Talvez seja assim que os monstros nasçam.
Não quando deixam de amar.
Mas quando acreditam que o amor lhes dá o direito de decidir tudo.
Ela sorri, sem alegria.
Por isso, eu sou Ceres.
Mãe Ceres.
A que alimenta.
A que educa.
E a que devora.
Porque toda mãe teme perder os filhos.
Mas existe uma diferença entre aquela que ensina os filhos a viver sem ela…
E aquela que precisa que eles nunca aprendam.
**Eu alimento meus filhos para que sobrevivam.
Eu os educo para que me compreendam.
E os devoro quando descobrem que podem viver sem mim.**
#distopia #ficcaocientifica #maeceres #escritoramador #worldbuilding #liberdade #historias #ditaduradobemestar #autorindependente #indieauthor #indiebooks #lore #scifibooks #drama #literatura

