Theo sabia demais.
Cumpriria os pedidos de Mãe Ceres. Não havia mais espaço para dúvidas, tampouco para voltar atrás. Às vezes, enquanto Ceres olhava para o horizonte, ele desviava os olhos para ela. Queria contar-lhe. Ela estava ali, ao seu lado, presente, mesmo que não precisasse gostar dele. Não precisava perdoá-lo, tampouco compreender suas escolhas. Naquelas horas, bastava que estivesse ali.
A calma de Theo era um abismo sem fim, profundo o bastante para esconder tudo o que se passava dentro dele. Diante de si estava Ceres, a herdeira de Silencium. Às vezes, quando analisava friamente a situação, a ideia chegava a ser assustadora. Ainda assim, os pedidos de Mãe Ceres não tinham nada de ruim. O problema eram as consequências.
Theo pertencia a Mãe Ceres.
A mãe mandava.
E ele cumpriria.
Ao longe, o som do trem blindado rompeu o silêncio. Era hora de voltar ao colégio.
Os dois esperaram a aproximação lenta da locomotiva. Quando ela finalmente chegou, aproveitaram a passagem pela estação e subiram sem serem vistos. Instalaram-se no alto do trem, onde o vento frio cortava o rosto e o barulho das rodas abafava qualquer tentativa de conversa.
O entardecer se estendia sobre a paisagem, melancólico, como se cada pedaço do mundo estivesse perdendo a esperança diante dos olhos deles.
Mas, na Cidade de Ceres, a esperança já havia morrido havia muito tempo. Fora enterrada e transformada em amanhã. Não um amanhã incerto, sujeito às vontades do mundo, mas algo que a cidade aprendera a produzir por conta própria, algo que nenhum outro lugar conseguiria reproduzir da mesma maneira.
Como o trigo.
Colhia-se o trigo, moía-se o grão, preparava-se a massa. O pão nascia do que havia sido destruído e, ainda assim, carregava consigo a possibilidade de alimentar o dia seguinte.
Na Cidade de Ceres, a esperança havia se tornado mecânica. Previsível. Não precisava mais ser sonhada, porque já fazia parte do funcionamento da cidade.
No alto do trem, Theo e Ceres permaneceram em silêncio, abraçados enquanto a locomotiva avançava. Nenhum dos dois precisava dizer nada. O ruído do motor preenchia o espaço entre eles.
Ceres não olhava para Theo. Seus olhos acompanhavam o horizonte, mas sua mente permanecia presa a uma frase que ele havia dito no silo.
Você é ceresciana.
Não era uma conquista. Não era uma vitória sobre Silencium, tampouco uma declaração capaz de apagar o passado. Era apenas uma frase.
Ainda assim, alguma coisa dentro dela havia se aquietado quando a ouvira.
Pela primeira vez em muito tempo, o ódio e os sentimentos de chumbo que carregava não precisaram se dissolver em violência. No silo, ela pudera deixá-los quietos. Não haviam desaparecido; apenas deixaram de exigir alguma coisa dela.
Agora, porém, o colégio se aproximava.
E, a cada quilômetro percorrido, o chumbo voltava a endurecer.
A competição retornaria. As regras, as disputas e a liderança voltariam a ocupar seus lugares. Theo e Ceres voltariam a ser aquilo que todos esperavam deles.
Ceres começou a se afastar.
Primeiro, deixou de apoiar o corpo contra o dele. Depois, soltou o abraço. Theo não tentou impedi-la. Conhecia aquele movimento e sabia o que significava. Quanto mais perto chegavam do colégio, mais ela precisava recuperar a distância entre os dois.
Ele compreendia.
O trem diminuiu a velocidade ao se aproximar da estação. Quando a locomotiva passou lentamente pela plataforma, os dois saltaram e desapareceram antes que alguém pudesse reparar neles.
O céu já estava no crepúsculo. Ao fundo, a torre surgia como uma pequena silhueta escura, observando a estação e o caminho que levava ao colégio.
Theo e Ceres seguiram pelo corredor que ligava os dois lugares. Ela caminhava à frente, com passos firmes. Ele vinha alguns metros atrás.
Então Ceres parou.
Virou-se de repente.
— Você vai perder de propósito!
Theo ergueu os olhos.
— Não entendi.
— Como assim, não entendeu?
— Não entendi o que você está dizendo, Ceres.
Ela ficou imóvel por alguns segundos. O rosto parecia tranquilo, mas o ódio já voltava a borbulhar por baixo da pele.
— Você vai perder de propósito a liderança.
Theo franziu ligeiramente a testa.
— Como assim, Ceres?
Ela não respondeu de imediato. Seus olhos se estreitaram, tentando encontrar nele alguma coisa que confirmasse suas suspeitas. Theo permaneceu diante dela, sereno demais, como se nada daquilo tivesse importância.
Aquela calma a enfureceu ainda mais.
— Eu sei que você vai perder de propósito, seu desgraçado!
— Não sei do que você está falando.
— Sabe, sim!
Ceres deu um passo em sua direção.
— Se você perder e eu ganhar a liderança, vou fazer da sua vida um inferno! Está me ouvindo? Vou machucar você. Muito!
Theo não respondeu.
Olhou diretamente nos olhos dela.
Poucas horas antes, aqueles mesmos olhos haviam repousado no horizonte enquanto ela permanecia deitada sobre seu peito. No silo, Ceres havia permitido que ele lhe tocasse os cabelos. Havia aceitado sua proximidade, compartilhado o silêncio e escutado palavras que pareciam ter encontrado um lugar dentro dela.
Agora, o ódio estava de volta.
E Theo continuava calmo.
Ceres sentia aquela indiferença. Não era exatamente desprezo, tampouco medo. Ele parecia simplesmente não se importar com o que ela pudesse fazer. Como se as ameaças já não tivessem força suficiente para alcançá-lo.
Havia alguma coisa maior escondida por trás daquela mudança.
Ela não sabia o quê.
Sabia apenas que tinha relação com Mãe Ceres.
Não se importava com o que a mãe pretendia fazer com Theo. Ou, pelo menos, era isso que tentava dizer a si mesma. Mas sabia que os pedidos de Mãe Ceres haviam modificado o garoto que um dia se esforçara tanto para ser o filho correto.
E não suportava não saber até onde aquela mudança chegaria.
— Você... — começou.
A frase morreu antes de se completar.
Naquele instante, eram dezenove horas.
Uma música começou a tocar no rádio de algum lugar próximo. A voz de Assum atravessou o crepúsculo, espalhando-se pelo corredor da estação junto às notícias da Cidade de Ceres.
Ceres reconheceu a música imediatamente.
O rosto mudou.
Por um instante, o confronto deixou de existir. A ameaça, a disputa pela liderança e a presença de Theo perderam o lugar diante daquela voz. Era como se algo antigo tivesse encontrado uma fresta na muralha que ela acabara de erguer.
A música continuou.
Ceres sentiu o peito apertar. A vontade de socar Theo voltou, intensa e absurda, sem que ela conseguisse explicar por que ele deveria receber aquele golpe. Talvez porque estivesse ali. Talvez porque tivesse mudado. Talvez porque, durante algumas horas, ela houvesse permitido que ele se aproximasse demais.
Ou talvez porque ele soubesse alguma coisa que ela não sabia.
Ela desviou os olhos.
Sem dizer mais nada, virou-se e seguiu pelo corredor, deixando Theo para trás.
Ele não a chamou.
Permaneceu parado, ouvindo a voz de Assum até que a música se misturasse às notícias e, depois, ao ruído distante da cidade.
Ceres continuou caminhando. Sabia que Theo perderia de propósito. Sabia que ele abriria mão da liderança para que Kan vencesse a disputa — ou, pelo menos, era nisso que acreditava.
Não sabia por quê.
E não fazia ideia do que Theo havia prometido a Mãe Ceres.
Atrás dela, Theo retomou o caminho para o colégio.
Os pedidos seriam cumpridos.
A mãe havia mandado.
E Theo, que antes desejava ser o filho correto, já não precisava que ninguém compreendesse suas escolhas.
#distopia #ficcaocientifica #maeceres #escritoramador #worldbuilding #liberdade #historias #ditaduradobemestar #autorindependente #indieauthor #indiebooks #lore #scifibooks #drama #literatura