A Catedral Vermelha
Omni Opus possuía extensas áreas de terra, uma indústria mineradora consolidada e uma produção de fertilizantes considerada uma das melhores do mundo. Ainda assim, a nação não comercializava seus produtos diretamente com Ceres. As exportações eram realizadas por meio de portos secos flutuantes, que serviam de intermediários em uma cadeia comercial cuidadosamente organizada para evitar qualquer vínculo político direto.
Oplan comprava os fertilizantes de Omni Opus e os revendia a Ceres.
Era uma hipocrisia conveniente. Uma nação religiosa vendia seus produtos a uma nação racista, que, por sua vez, os fornecia a uma terceira nação, oficialmente neutra. A burocracia garantia que os interesses econômicos fossem atendidos sem que os governos precisassem confrontar publicamente suas próprias contradições ideológicas.
Omni Opus havia destruído a estação espacial CERES I, mas não conseguira eliminar todos os vestígios de sua existência. Fragmentos da estação continuavam orbitando a Terra, resíduos de uma destruição ocorrida vinte anos antes.
Embora Omni Opus não compartilhasse fronteiras com Ceres, seu ódio por Mãe Ceres era profundo. Não se tratava apenas de divergências políticas ou religiosas. Havia algo que tornava aquela mulher particularmente difícil de enfrentar: discutir com ela.
Quando o assunto envolvia necessidades essenciais, Mãe Ceres falava com o estômago vazio. Omni Opus, por sua vez, falava com uma mente esvaziada pela própria religião. As discussões logo se transformavam em confrontos acalorados, gritos e acusações. O fígado parecia assumir o comando, enquanto a razão era expulsa da conversa. O diálogo tornava-se impossível.
Mesmo depois da destruição da CERES I, Mãe Ceres permanecera em silêncio. Não houve grandes discursos, ameaças ou promessas de vingança. Ela engoliu o orgulho e aceitou a derrota direta, enquanto Omni Opus celebrava o que considerava uma vitória sobre sua maior inimiga.
Entretanto, Ceres não havia parado.
A CERES II já existia, patrocinada por Silencium e compartilhando conhecimentos com a República de Fiúme. Outras nações também demonstravam interesse no projeto. Especialistas eram treinados em Ceres, e novas iniciativas de exploração espacial avançavam mesmo quando o clima da região parecia desafiar qualquer lógica conhecida.
A terra, antes considerada amaldiçoada, tornara-se próspera. As colheitas alcançavam recordes de produção, apesar das condições climáticas imprevisíveis.
Para Omni Opus, aquilo era difícil de suportar. A nação havia tentado enfraquecer Ceres, mas sua antiga inimiga continuava se desenvolvendo. Atacar novamente significava enfrentar não apenas Ceres, mas também a proteção do Conselho do continente e o interesse crescente de outros países.
A derrota da CERES I não havia encerrado o conflito. Apenas o transformara.
O Conselho Vermelho
No coração de Omni Opus erguia-se a Catedral Vermelha, sede do Conselho Vermelho e centro do poder religioso da nação.
Seus governantes eram conhecidos como os Oráculos do Oito Alado, referência ao símbolo sagrado que ocupava o centro da fé nacional. Vestiam máscaras vermelhas, ornamentadas com bordados dourados, e ninguém jamais vira seus rostos.
O poder e a soberba haviam se confundido com a religião. O ódio contra Mãe Ceres era tão intenso que cegava parte da população para a corrupção, os abusos e os assassinatos cometidos pelo próprio regime.
Os opositores eram classificados como hereges. Muitos eram presos, torturados e mortos nas chamadas Delegacias Vermelhas, instituições que empregavam métodos de tortura conhecidos e desenvolviam novas ferramentas para prolongar o sofrimento dos prisioneiros.
Até Oplan, apesar de sua própria ideologia racista, demonstrava admiração pela eficiência dos métodos de repressão de Omni Opus.
A população contribuía mensalmente com ofertas religiosas, além de pagar os impostos incidentes sobre o comércio. Não havia eleições convencionais. A ascensão dos governantes dependia da adoração popular, da imagem de liderança e da capacidade de impor autoridade. A bondade não era necessariamente o que atraía a população: muitas vezes, era a demonstração de força, a certeza transmitida pelos discursos e a habilidade de fazer a multidão obedecer.
O Conselho apontava os culpados pelas mazelas do país. A população, acostumada a aceitar suas declarações, seguia as acusações.
Assim, Mãe Ceres tornara-se uma explicação conveniente para os problemas de Omni Opus. A pobreza, as dificuldades econômicas e as contradições internas podiam ser atribuídas à existência de uma inimiga externa. Enquanto os cidadãos olhavam para Ceres, os responsáveis pelo poder permaneciam protegidos por suas máscaras.
Era um fascismo religioso sustentado pela perseguição aos diferentes, pela fabricação de inimigos e pela transformação da fé em instrumento de obediência.
Fraternidade, Família e Fé.
Esse era o lema de Omni Opus.
Entretanto, a fraternidade tinha limites definidos pelos governantes, a família estava submetida às normas da instituição religiosa e a fé era exigida como demonstração de lealdade.
O país mantinha praças de flagelação onde pessoas vestidas com túnicas vermelhas e chapéus cônicos da mesma cor eram expostas à punição pública. As vestimentas ocultavam seus rostos, mas não a vergonha imposta diante da comunidade.
Na concepção religiosa de Omni Opus, a dor podia ser oferecida em troca de milagres. O sofrimento era tratado como uma forma de devoção, uma prova de obediência e, por vezes, uma condição para receber as graças divinas.
O ouro e as pedras preciosas, entretanto, também ocupavam um lugar importante naquela sociedade.
A austeridade exigida dos fiéis não impedia que a instituição acumulasse riquezas.
As trevas nunca foram tão escuras quanto as autoridades afirmavam. E o vale das sombras jamais pareceu tão claro quanto sob a luz das cerimônias oficiais. A violência não se escondia apenas nos becos ou nas prisões: era exibida em praças públicas, justificada por discursos sagrados e incorporada à rotina da população.
A vida sob as máscaras
A Catedral Vermelha era construída em mármore branco, seguindo o estilo clássico, com grandes colunas, abóbadas e cúpulas ornamentadas por detalhes vermelhos.
Seu interior, porém, era dominado pelo ouro, pelas joias e pela ostentação. Os sacerdotes que ouviam as confissões dos fiéis exibiam adornos luxuosos, enquanto pregavam uma moral rigorosa à população.
O celibato era defendido publicamente, mas nem todos os sacerdotes respeitavam as regras que proclamavam. Por trás das cerimônias, existiam espaços ocultos onde ocorriam orgias, práticas de flagelação e outras formas de depravação, protegidas pelo silêncio daqueles que temiam denunciar os responsáveis.
A população vivia sob vigilância constante.
Havia toques de recolher e rondas pelas ruas. Meninas e mulheres estavam sujeitas a restrições ainda mais severas: deveriam retornar para casa até as dezessete horas, antes do horário estabelecido para os homens.
Durante as patrulhas, pessoas eram abordadas e levadas às catedrais. Algumas nunca mais eram vistas.
O medo fazia parte da rotina. A obediência era apresentada como virtude, e o silêncio, como sinal de respeito.
Mãe Ceres nunca havia declarado guerra à fé. Seu confronto era com a ignorância que, em sua visão, a religião podia produzir quando deixava de ser uma escolha pessoal e passava a determinar o que as pessoas podiam pensar, questionar ou fazer.
Em Ceres, a palavra fé dera lugar a outra: suportar.
Não havia promessa de recompensa divina, garantia de justiça universal ou certeza de que os bons seriam favorecidos. A vida não precisava ser justa para continuar exigindo decisões, trabalho e resistência.
A filosofia de Ceres podia ser resumida em uma frase:
O mundo não é de quem merece, mas de quem suporta!
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