Capítulo 01
Chorava a rainha, chorava na porta da camarinha,
Chorava pela filha que não falava, nem cantava, pobre princesinha.
Era suspiro de peito quebrado, qual sopro de quem definha,
Timbrado no coração partido, alegria não tinha...
O rei, de punho cerrado, ergueu-se feito trovão:
- Se a voz não nasce na boca de minha filha... que venha por maldição!
Mando chamarem a bruxa, pela minha escravaria,
Cujo riso quebra espelhos, cujas palavras são heresia...
Se minha herdeira não canta, que outra pague essa agonia!
Mal as palavras findavam, a bruxa já aparecia:
Dos confins da mata espessa, sob um véu de ventania,
Velha de nariz arrebitado, da pele sombria,
Vestida em pura feitiçaria.
De dedos longos como raízes, com olhos de noite vazia,
Trazia no manto sombras e nos cabelos salgada maresia.
Suas roupas eram neblina, sua voz... melancolia,
E em sua boca nasciam nomes que há séculos ninguém dizia.
Parou frente ao trono, e proferiu firme em sua valentia:
- Que desejas, ó rei louco, da minha arcana magia?
- Mando que minha filha cante, como canta a freguesia!
Se falhares, tua cabeça tomba nesta dourada bacia.
E juro, por ferro e trono: não há perdão, nem anistia!
A bruxa, sorriu de lado e cuspiu no rei poesia:
- Voz de seda é possível, mas... de sangue se faz harmonia...
Canção que nasce do nada só engana por um dia,
Se queres tua filha em canto que ao céu inteiro alumia,
Com timbre de aurora acesa e mel que ninguém copia,
Não basta querer milagre, há dor na alquimia.
E a bruxa segui com sua palestra com palavras de maestria:
- Há preço pra tal encanto... que não cabe em prata fria.
É tributo de coração – não de fantasia,
Pois a vida é corda tensa, é régua, é teimosia.
Quem canta o faz por perda, por espanto ou agonia.
Se queres tua filha a cantar com a força da alvorada,
Com voz que desfaz o medo, que nunca mais seja calada,
Então ouve, rei de ferro: TRAZ-ME A ALMA ENCANTADA!
Traz-me a voz da tua nora... tua nora tão amada...
O rei trovejou de ira, com o rosto em labareda,
Seus olhos relampejaram, feito deus de alma azeda,
Então disse como quem anuncia uma contenda:
- Filho meu, sangue nobre, herdeiro de minha lenda,
Ouve minha sentença, e que da honra não se renda!
Tua esposa, doce moça, será o preço da oferenda...
Que se cale o teu amor, se minha filha terá voz tão bela!
Selada neste jarro, mando que traga a fala da donzela.
Ou tua linhagem tornara-se lama, tua fama...
Por minha espada juro, por cada batalha vencida,
Se falhares neste intento, teu nome farei ferida!
E tua coroa partirei, como jarro ateado na lousa,
Pois príncipe covarde não terá trono e nem esposa.
O príncipe, pálido e jovem, partiu ao lumiar do dia,
Mas jurou sob a lua, que ainda no céu se via,
Que a esposa jamais feria, nem pela irmã ou pela honraria.
- Buscarei por outras vozes, com astúcia e fantasia,
E três vezes tentarei... salvarei minha esposa com a força da ousadia!
Mas a bruxa... de trás de seu manto... já via a trilha sombria,
E em sua língua secreta, sussurrava à ventania:
- Vejo três mentiras, vejo três caminhos, três histórias de próprio cunho e autoria,
Mas o amor não canta enganado, a verdade eu sempre saberia... #conto #contos #magia #mistery #historia #contodefadas #rei #rainha #medieval #principeseprincesas #castelo #rimas #fábula