E a levam para longe de mim, mas nem tanto. Como tantos e tantos faz um bom tempo. Recusam a muito tempo meus abraços, tenho por aqui apenas três patas mas meu gesto requer apenas duas, e fora de minhas terras, essas almas não me compelem. Mais um roedor. Abocanho-o, mais um pouco e... perfuro seu abdômen. Como fica rígido. Não faço tal tratamento aos homens, misericórdia seria, eles quem decidem a crueldade que vão empregar em seus atos. Eles pensam que saboreio, esses pequenos corpos, apenas os devolvo. Meus rituais, aqui isolados. Lambi sua mão, enquanto ainda esfriava. Ainda não convertia-se ao resfriado que me dedicam. Ainda era fresco. Tentei tranquilizá-la, ela nada entendia, e num grito exauriente adormeceu, em seu novo e próprio estado e, até o momento, pelo que vejo, não despertou para esse seu fim. E quanto esforço, quanto foi feito para se preservar aquela carcaça sem vida. Ainda longe, quando contemplei a situação, saído da ínfima oblação que aqui me oferecem a frente do grande homem ao qual acabo tendo de me ajoelhar perante, percebi o autor do ato, muito fora de si, muito afetado, tendo de sair de seu transporte ou máquina de destruição, muito alta para se enxergar os que estão abaixo, muito embaçada para que mesmo em altura de algo se apercebesse, para ver o que havia feito. E, nem o vendo, parecia entender, acreditar, nem funcionais seus olhos pareciam. São fortes e, independente do ângulo, verdes os meus. Mesmo deslocalmente debilitado, reduzido. Uma vista e posição lamentáveis. Minutos de terra silenciosa e mente aniquilada se passaram. Quespsiquis vai embora e tudo permanece estático. Em realidade, nunca aqui esteve. Me encarrego de poucas coisas por poucos. Em certo ponto, por qualquer motivo: choque termal, a primeira piscada em muito, farfalhar de folhas, um sopro de Rá, o responsável parecia retornar a si mesmo; e o que antes eram movimentos desgovernados ridículos não justificados como os meus ou leves tentativas desfalecidas de algo, tal qual a sua recém falecida faria muito, muito longe pouco depois, tornaram-se em um nímio surto. Os olhos, ainda desclaros, encaravam o retrato, logo rápido desviava o olhar, tentava olhar mais e mais uma vez, logo retraía, fechava os olhos débeis que abertos ou fechados não tem a menor diferença para os vesgos e arrependidos. Suas pernas não tardam, hesitam, ponderam, seus cabelos não demoram a oscilar, seus braços mal terminam de tremer, sua mente não protraça em fugir, para onde os limites de seu pesar, de seu corpo e de seus arredores permitissem. Cambaleante e moribundo, até poderia eu alcançá-lo, levá-lo, tê-lo eviscerado e colocado seu coração à balança e à pena, mas meus julgamentos se fazem não obsoletos, mas indesejados. E assim se passa e assim se chamam e assim a acham, e fazem tudo que um outro, uno, indefinido, absoluto, pede com ternura que o façam. E cá estamos, sem aprofundamento, sem embalsamento, sem sarcófagos calcários, sem Ankhs, e que ninguém ouse, sob nenhum aspecto material ou divino, chamar aquela coisa de mausoléu como o de meus, em parte, parentes. Sem antropomorfia, eu sinto. Rejeitem meus psicopompos e eu os deixarei em paz, a chance é única. Mais um. Rápido. Pulo, minhas garras lhe fazem um corte em sua gordura famélica. desacelera, desacelera, cai. Quebro a espinha. Como duros ficam. Faltam muitos. Enxergo 𓂀. Outros aqui veem, outros aqui habitam, aqueles aqui vivem, morrem, nascem, crescem, voltam. Imagino como seria se precisassem de mim por aqui, fazer com que precisassem eu poderia, rápida, indolor e facilmente. Mas o que seria dos outros? De cada um para cada um e o que quer cada um? Não me contento, porque contentar-se é concluir, logo vazio; sou conforme se excede, falta, oscila: meu trabalho sempre acaba na balança. Agora não há ninguém a me ver, deve ou pode haver apenas vigias, deturpados pelos limites dos astros, desacreditados à própria loucura. Posso abusar do bipedismo, estar de pé. Que alcancem os justos, verdadeiros, nos métodos quaisquer que creditem, suas pazes. 𓃠, 𓃣, 𓁢.
Nós e Osíris II - O Braço Esquerdo: III
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Thoughts
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PermalinkOs ratos que ele quebra e devolve duros são o corpo da mulher em miniatura. Com bicho o gato faz o serviço completo, com gente fica olhando de longe, e me parece que o capítulo inteiro mora nessa diferença.
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PermalinkO gato preto do fim do capítulo anterior ganhou voz, e é um Anúbis aposentado à força, caçando rato. Lambe a mão da mulher enquanto ela esfria e deixa o motorista ir sem pesar coração nenhum. Acho que essa morte ainda vai bater em alguém que a gente já conhece.
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