Göttlicher Einfall (2)
Adentrando o centro do Boötes Void, na extremidade da região vazia do universo, manifestou-se uma das relíquias divinas de Deus: o espelho negro de obsidiana.
Saindo do espelho negro, o Rei de Preto surgiu. O rei que era rei sem ter povo ou coroa; o rei que não ia além de nada mais que o preto, o escuro.
Partindo junto ao Rei de Preto, um sorriso largo, frio e artificial, que nunca pertencera ao seu rosto, despontou.
O dado fora jogado e a escolha deveria ser feita. Assim que a decisão foi tomada, os escolhidos avançaram. Abrindo a porta branca, um rei os saudou.
Emergindo das profundezas, um vasto corredor de colunas de ouro sustentava, acima, o céu policromático. Ao centro, um lago flutuava sem gravidade e, de suas águas, um líquido amarelado de ouro cintilava. No horizonte, as colunas se perdiam como pontos no deserto.
『Esta é a geleia real: o último passo para a transcendência total!』 — declarou, estendendo a palma da mão para a passagem da grande geleia real.
Passo a passo, um a um em cada canto separado pelo espaço, receberam a geleia real — borbulhando, explodindo e voando para a convergência de cada borda, preenchendo um copo.
— Isto é o último passo, Grão-Mestre?
『Sim. Para cada um dos três, um copo deve ser tomado e bebido, dando, ao fim, o passo derradeiro da transcendência total.』
— …
Todos ficaram em silêncio, refletindo sobre suas palavras por horas até que, finalmente, um deles deu um passo à frente.
— Eu sempre considerei extraordinária uma
dádiva à qual eu jamais tocaria; mas agora, esta mesma dádiva surge à minha frente, a um toque de distância. Vamos logo! O que estamos esperando? Estamos diante do Santo Graal da fantasia…
— Compartilho do mesmo sentimento que você; mas, ainda assim… quais são os riscos que vêm com este poder, Grão-Mestre?
Abrindo um leve sorriso no rosto, o Grão-Mestre acenou com a cabeça em aprovação ao questionamento.
『Tua preocupação é uma criança razoável, possui fundamentos válidos. Para tuas dúvidas, aqui está a resposta: da força que vem com a ingestão da geleia real, grande autoridade te será concedida; mas pesado também será o fardo que carregarão.』
Com um olhar confuso, ele moveu os lábios:
— Quão grande será esta missão?
『O peso do céu jogado às tuas costas e a terra afundando os teus pés.』
— Eu… — mas, antes que pudesse fazer sua escolha, o terceiro avançou sem perguntas, agarrando o copo e bebendo até a última gota.
『Fizeste tua escolha.』
— Bleh… Amarga!
『Uma bebida preparada com sementes de cacau fermentadas, torradas e moídas, misturadas com água: uma bebida de guerreiros.』
E, mesmo receoso com o peso de tamanho fardo, o segundo escolhido deu um passo à frente. Tomando o copo, olhou com temor para o líquido roxo que se assemelhava ao vinho, levando-o cautelosamente ao encontro dos lábios. Parou por uma breve hesitação, mas logo tomou coragem e o bebeu de uma só vez.
— Hmm… Hã? Tem um sabor que eu não esperava.
— Como assim?
— Tem um tom amargo, mas ao mesmo tempo… Aaaaaaaaah!
Ambos os escolhidos caíram no chão.
Com a carne lacerada e a garganta seca, sentindo a dor pulsar em cada fibra do seu ser, eles experimentaram a agonia da morte. O sangue escorria tingindo o espaço de vermelho; tamanha era a dor que os gritos escapavam por suas bocas silenciosas — um som inaudível de puro sofrimento.
Quando as rachaduras se alastraram por todos os seus corpos, a escuridão engoliu suas consciências. Algo se aguçou em seus interiores: podiam sentir a pulsação de cada célula e músculo. O mundo tornou-se mais lento; este era o domínio de suas mentes. O tempo acelerou dez vezes mais rápido, expandindo a percepção.
Os músculos pulsavam, os tecidos se moviam e o sangue fluía nas veias: eles estavam finalmente livres das restrições do corpo mortal.
Como se um novo mundo tivesse se aberto, um pequeno santuário interno se revelou — um espaço mental rodeado por um oceano tranquilo que lhes trouxe paz.
Consciência… este é o meu domínio interno?
Não; para ser preciso, aquilo se tornara familiar. Em seu subconsciente, as mutações do corpo haviam sido assimiladas. A verdadeira consciência havia surgido.
Movendo o corpo sem parar, ele se desfez; mas, em determinado momento, a mente e o físico, antes separados, harmonizaram-se.
Uma obsessão que ultrapassa a consciência
— isso resolve o dilema.
Obsessão: o desejo unificado à vontade. Somente ao alcançar a unidade total através dessa fusão é que o verdadeiro eu se completa.
Retornando do encontro com o vazio — a ausência de tudo —, uma força vibrante e onipresente que permeia a existência jorrou, pulsando no cerne de cada célula e tecendo a forma de um poder jamais imaginado em bilhões de anos.
Com o abandono da casca terrena, libertaram-se das amarras da mortalidade, moldando formas através do plano dos sonhos, da vontade e do pensamento. A mente, agora unificada, tornou-se soberana.
Levantando-se das profundezas, surgiu algo além da compreensão humana. A vastidão do cosmos estendia-se à sua frente, infinita e implacável; bestas caminhavam carregando em seu cerne a missão do aguardo — a espera pelo retorno Dele.
Um rio sem fim de cores: esta foi a visão concedida ao terceiro escolhido. Dominado por dúvidas, o copo de mel reluzia em duas cores — amarelo e azul —, gradualmente substituídas por raios de luz de cinco cores: o elemento Metal (ouro-dourado), o elemento Madeira (ciano), o elemento Água (azul), o elemento Fogo (vermelho) e o elemento Terra (amarelo-terra). O cruzamento das cinco cores transformou o interior daqueles corpos. Cobertos por uma densa e violenta camada turbulenta, o caos dividiu-se em Yin-Yang, e o Yin-Yang nos cinco elementos, retrocedendo tudo ao vazio.
『Este pequeno mestre logo vos diz: o passado Assis contemplará, o passado a você o ditará e o presente Victor anotará… Eu já tive muitas vidas e nomes, assim como presenciei muitas coisas; mas hoje, a este mundo, deixo o meu testamento. Dúvidas sei que todos têm, mas entendam que, a este ponto, passado, presente e futuro convergem para um único centro. Os fluxos infinitos se unem em ramificações, espalhando-se como complexas e densas teias de aranha. As atitudes movidas pela vontade sem fim daqueles dotados de um instinto inerente e de um completo desapego e desprezo pelo mundo detêm aquilo que chamamos de potencial de transcendência — a chance de ir além da fronteira, escapar do ciclo e romper as dimensões, escalando passo a passo rumo ao trono que todos almejam: o trono dos céus! O trono pertence a (######); e assim, teu rancor contra ele se mantém de pé, mundo? Ou prefere que lhe chame de Yggdrasil?』
Como um clarão em meio à escuridão, uma presença que exalava toda a vida da criação manifestou-se sem forma física ou tangível — apenas um amontoado de vozes que se alternavam entre masculina, feminina e
infantil:
— Coisa estúpida… pecado!
— A punição deve ser applieda…
— Concordo.
『Humph… punido por dizer a verdade? Ódio movido por saudades ou ódio do pai que escolheu ceder ao próprio egoísmo e partiu? Bom, no fim, isso não importa para mim. Yggdrasil, você querendo ou não, o trono há muito tempo vazio será ocupado, minha amiga. Eu sei, eu sinto, eu vejo.』
— Eis um tolo, Noé Kass. O trono jamais será…
『Eu sou tua mente, aquele que observa. Mesmo diante de mil homens, ajoelho-me apenas a um. Não me insulte, Yggdrasil; eu sei porque vejo, e vejo a vinda daquele que ocupará o trono, retornando a criação de volta ao seu eixo original, retomando o impasse eterno entre os deuses criadores e realizando o Olgridru Abiss!』
Calada, em completo silêncio pelas ações do velho amigo, Yggdrasil pôde apenas partir de volta; e, junto dela, tudo desmoronou e aos poucos se desfez, retornando ao nada.
Preso à própria contemplação, o Grão-Mestre observou:
『Vazio: dita-se ser a ausência de tudo, o nada. Mas estas regiões mostram que o universo não é uniforme, mas organizado em uma teia cósmica. Para algo existir, uma ideia teve que surgir. Será este o segredo da criação? Tudo não passava de um quadro vazio até que um pensamento e uma ideia deram vida a tudo.』
Surgindo à sua frente, os três reis, quatro oradores e um visionário divino reuniram-se, aguardando o fim que logo veio: pacífico, calmo e indolor.
『E assim como em um teatro, o primeiro ato se encerra e a cortina do segundo ato se abre! Que comece o Ciclo dos Sonhos!』