A notícia da traição havia se espalhado por Varanasi, mas, para Amara, aquela vitória não significava o fim de sua jornada.
Durante três dias, ela permaneceu em silêncio.
Sentia que alguma coisa a chamava.
Não era uma voz.
Era uma lembrança.
O cheiro das flores de hibisco.
O som dos sinos.
As grandes portas de madeira.
Aquelas mesmas portas que, anos antes, haviam se fechado diante de uma jovem pobre que desejava apenas servir.
O templo.
Amara sabia que precisava voltar.
— Você tem certeza? — perguntou Arjun.
— Tenho.
— Depois de tudo que aconteceu?
— Justamente por causa disso.
Meera aproximou-se.
— Podemos ir com você?
Amara sorriu.
— Se quiserem.
Na manhã seguinte, uma pequena procissão deixou a Casa da Compaixão.
Não havia cavalos.
Não havia riquezas.
Não havia bandeiras.
Havia apenas pessoas caminhando.
Centenas.
Camponeses.
Crianças.
Viúvas.
Doentes recuperados.
Antigos moradores de rua.
Pessoas que um dia haviam sido rejeitadas por outros templos.
Todos seguiam Amara.
Ela não os conduzia como uma rainha.
Caminhava entre eles.
Quando chegaram à cidade onde ficava o templo de sua infância, Amara sentiu o coração acelerar.
Reconheceu as ruas.
A antiga árvore onde costumava descansar.
O pequeno mercado onde trabalhara.
E finalmente viu os portões.
As mesmas portas.
Por alguns segundos, ficou imóvel.
Meera segurou sua mão.
— Está com medo?
Amara respirou profundamente.
— Estou lembrando de quem eu era.
Então caminhou.
As pessoas abriram espaço.
Quando chegou diante dos portões, um grupo de sacerdotes saiu para recebê-la.
A sacerdotisa que anos antes havia tomado suas flores também estava ali.
Agora era uma mulher idosa.
Seus cabelos estavam completamente brancos.
Ao reconhecer Amara, seus olhos se encheram de lágrimas.
— Você...
Amara inclinou a cabeça.
— Eu voltei.
A velha sacerdotisa aproximou-se.
— Pensei que nunca mais a veria.
— Eu também.
A mulher olhou para a multidão.
— Eles vieram com você?
— Vieram.
— Por quê?
Amara respondeu:
— Porque descobriram que a fé não deveria expulsar quem tem fome.
A sacerdotisa abaixou a cabeça.
— Nós erramos.
Amara permaneceu em silêncio.
— Eu errei — continuou a mulher.
— Quando você veio aqui anos atrás, eu deveria ter perguntado por que desejava servir.
Mas perguntei quanto dinheiro possuía.
Amara sentiu as lágrimas surgirem.
— Eu não vim cobrar uma dívida.
— Eu sei.
A velha sacerdotisa estendeu as mãos.
— Vim pedir que entre.
Amara olhou para as portas.
Desta vez estavam abertas.
Ela poderia simplesmente atravessá-las.
Mas não o fez.
Olhou para trás.
Centenas de pessoas permaneciam do lado de fora.
Então disse:
— Primeiro eles.
A sacerdotisa ficou surpresa.
— Todos?
— Todos.
A mulher olhou para a multidão.
— Este é um templo.
— Então que seja um templo onde os necessitados também possam entrar.
Depois de alguns segundos, a sacerdotisa abriu completamente os portões.
As pessoas começaram a entrar.
Algumas choravam.
Outras permaneciam em silêncio.
Amara foi a última.
Quando seus pés tocaram o chão do templo, sentiu uma emoção profunda.
Não era vingança.
Não era triunfo.
Era paz.
Caminhou até o altar.
Colocou diante da imagem da deusa uma única flor de hibisco.
A mesma flor que, anos antes, havia sido lançada ao chão.
Então fechou os olhos.
— Mãe, eu voltei.
Uma brisa atravessou o templo.
As chamas das lamparinas oscilaram.
Por um instante, Amara sentiu novamente aquela presença.
Não como uma figura diante dela.
Mas como uma força silenciosa dentro do coração.
A chama azul brilhou.
Todos perceberam.
Um murmúrio percorreu o templo.
Amara, porém, não levantou as mãos nem proclamou possuir um poder especial.
Apenas permaneceu ajoelhada.
A antiga sacerdotisa aproximou-se.
— Amara...
A jovem levantou o rosto.
— Você gostaria de se tornar sacerdotisa?
Por alguns segundos, Amara não respondeu.
Era o sonho de sua infância.
Aquilo que havia desejado acima de tudo.
Mas agora a pergunta parecia diferente.
Ela olhou para as pessoas que a acompanhavam.
Olhou para as crianças.
Para Meera.
Para Arjun.
Para Dev, que havia vindo silenciosamente atrás dos demais.
Então respondeu:
— Sim.
Mas não quero ser sacerdotisa para ficar acima de ninguém.
Quero ser sacerdotisa para servir.
A velha mulher sorriu.
— Então talvez tenha sido você quem nos ensinou o que essa palavra significa.
Naquele dia, Amara foi recebida como discípula do templo.
Mas estabeleceu uma condição:
As portas jamais deveriam voltar a ser fechadas para os pobres.
A administração do templo deveria ajudar os necessitados.
As cozinhas seriam abertas para quem tivesse fome.
E ninguém seria impedido de rezar por não possuir dinheiro.
A antiga sacerdotisa aceitou.
Assim nasceu uma nova tradição dentro daquele templo.
Não porque Amara quisesse mudar a fé dos outros.
Mas porque acreditava que a compaixão deveria caminhar junto com a devoção.
Meses depois, a Casa da Compaixão e o templo começaram a trabalhar juntos.
O lugar que antes representava a maior rejeição de Amara tornou-se uma extensão de sua missão.
Mas a felicidade não duraria muito.
Certa noite, um mensageiro chegou correndo.
— Amara!
Ela saiu para encontrá-lo.
— O que aconteceu?
O homem estava ofegante.
— Há notícias do norte.
— Que notícias?
— Um grupo poderoso está reunindo homens.
— Para quê?
O mensageiro olhou ao redor.
— Estão procurando você.
Amara ficou imóvel.
— Quem?
— Não sabemos.
Mas dizem que possuem influência entre governantes, comerciantes e sacerdotes.
Arjun aproximou-se.
— Então a perseguição recomeçou.
Amara olhou para o céu.
A lua estava parcialmente encoberta por nuvens.
A chama azul brilhou sobre seu peito.
E, pela primeira vez desde a visão no penhasco, Amara sentiu algo diferente.
Não medo.
Mas uma espécie de chamado.
Ela sabia que sua missão estava entrando em uma nova fase.
Até então, havia enfrentado a fome.
A pobreza.
A rejeição.
A mentira.
A traição.
Agora teria de enfrentar algo maior:
o poder.
E, naquela mesma noite, em um palácio distante, um homem recebeu um relatório sobre a jovem sacerdotisa.
— Então ela voltou ao templo?
— Sim.
— E agora possui ainda mais seguidores?
— Sim.
O homem ficou diante de uma janela.
— Então não podemos mais ignorá-la.
— O que deseja que façamos?
Ele demorou a responder.
Finalmente disse:
— Descubram quem ela realmente é.
O mensageiro hesitou.
— E se ela for realmente protegida pela deusa?
O homem sorriu.
— Então descobriremos se até uma deusa pode proteger uma mulher contra o poder dos homens.
No templo, muito longe dali, Amara despertou repentinamente.
Seu coração batia acelerado.
A chama azul brilhava intensamente.
E uma certeza atravessou sua alma:
A próxima batalha não seria pela sobrevivência.
Seria pela liberdade.