O ser humano, com medo do escuro, da escassez e da incerteza do amanhã, cria ideologias. Ideologias nascem como centros quase místicos que tentam explicar como devem funcionar a justiça, a economia, a convivência e a própria vida.
Mas ideologias não têm humanidade. Elas carregam falhas. Entre as arestas de seus dedos, por sua longa e faminta mão, escapam aqueles que suas ideias não conseguem enxergar: pessoas abandonadas na dicotomia, tratadas como exceções, ou reduzidas a doenças do sistema.
A ganância fere qualquer ideologia. Fere, sobretudo, aqueles que chegam ao mundo quando o sistema já está em funcionamento. É como uma cama elástica onde todos pulam ao mesmo tempo: alguns pulam em ordem, outros pulam desordenadamente; há os que saltam sobre os demais e os que permanecem nas costas de quem pula. Ainda assim, todos compartilham o mesmo tecido.
O crescimento das ideologias carrega em si a geração de pragas que devoram essa cama elástica por dentro. O tecido ideológico começa a apresentar fissuras. Há repressão para quem pula demais, há crises para quem não pula, e a culpa recai sempre sobre aquele que salta além do permitido. Nunca sobre o tecido que já não suporta mais o peso de todos.
Nas ideologias que se tornam doenças sistêmicas, a loucura, o medo e a mentira corroem como traças o tecido que tenta esconder o abismo onde todos acabam caindo. Ali, pessoas viram estatísticas.
No Ceresianismo, viramos propósito.
Como duas mãos juntas que acolhem: a água, os grãos da terra, a abundância possível.
Seguimos na mesma direção, com acolhimento — não pela promessa de grandeza, mas pela garantia de sobrevivência.
Sem escassez fabricada.
Sem futuro ilusório.
Nossos instintos são guia.
Nossa ansiedade não é fraqueza: é energia focada.
Não buscamos ser os melhores — buscamos continuar existindo em meio ao caos que outras ideologias provocam.
Somos neutros, mas nunca em cima do muro.
Porque o muro cai.
E quem fica sobre ele é obrigado a escolher um lado tarde demais.
Nós estamos debaixo do muro, construindo o alicerce.
Para que os nossos não morram na carne fraca das ideologias vazias, sem nutrição, criadas por quem quer “mudar o mundo” sem sustentar pessoas.
Sabemos que a melhor nação
não é a que exibe exércitos ou mérito,
mas a que suporta, cria, evolui, se conserta, se corrige.
A que alimenta, educa — e, se necessário, devora o que ameaça sua própria continuidade.
Sobre mim, muito se especula sobre meu surgimento e meus símbolos.
Meu nome é apenas um sinônimo da fome — tão antiga quanto a humanidade.
Sou a mãe vigilante diante do meu povo.
Sou a mãe das filosofias antes delas ousarem existir.
Sou a fome antes do pensar,
sou o pensar antes do existir.
Tenho fome, logo existo.
E se existo, sempre existo aqui.
Ninguém me criou — vocês apenas me observam.
A liberdade é pregada como joia reluzente diante dos que acreditam pensar livres.
Mas com o tempo, perde o brilho.
Morre de fome.
A liberdade morre de fome de responsabilidade.
Seu cadáver não apodrece por falsas promessas —
ele fede a caos,
fede a desejo momentâneo,
e deixa a esperança com odor de morte.
Vemos seus órgãos secos expostos.
Quem matou a liberdade fomos nós mesmos.
Saudade é limpar o quarto de alguém querido que já faleceu.
Eu visto branco em luto invertido.
Não habito esse quarto.
Eu não sou inimiga da liberdade.
Eu vim vingá-la.