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Alma de Chumbo - Parte 2 final

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O trem seguiu adiante, sumindo no escuro. Theo e Ceres saltaram perto do silo abandonado — o mesmo de antes, entre galpões e ervas altas. Agora o lugar estava diferente: a ferrugem parecia mais…

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O Retorno ao Silo

O trem seguiu adiante, sumindo no escuro. Theo e Ceres saltaram perto do silo abandonado — o mesmo de antes, entre galpões e ervas altas. Agora o lugar estava diferente: a ferrugem parecia mais viva, o ar mais denso, como se a noite tivesse voltado para cobrar algo deixado ali.

Theo entrou primeiro. As paredes circulares devolviam o som de seus passos.
A luz das velas tremulava no metal gasto, refletindo lembranças.
Ceres olhou em volta — reconheceu cada mancha, cada sombra.

— Voltamos? — ela perguntou.

— Sim — disse Theo, enquanto tirava as velas da mochila. — O dia guardou o som da tua voz. Quero ouvir o que a noite faz com ela.

O fogo espalhou sombras dançantes. Ele colocou dois pêssegos sobre o chão frio, como antes.
Ceres sorriu de leve. — Sempre pêssegos?

— É o que a gente divide quando o mundo parece prestes a desabar. — Theo respondeu, acendendo a última vela.

Ela se aproximou. O som dos passos ecoou mais profundo que da outra vez. A acústica do silo parecia diferente à noite — mais grave, mais viva.
Theo sentou-se no chão, cruzando as pernas, e olhou para ela com calma.

— Canta de novo, Ceres.

— Já não basta o que ouviu da última vez?

— Não. Aquela foi uma lembrança. Hoje eu quero o que ficou.

O silêncio se estendeu. As chamas tremiam, como se escutassem também.
Ceres respirou fundo. A voz saiu mais contida, mais madura — menos menina, mais mulher.
Era a mesma voz de Assum, mas agora com algo de sombra e saudade.

O som preencheu o silo, subindo pelas paredes, escorrendo até o chão.
Theo permaneceu imóvel, o olhar preso a ela — não à voz, mas ao que havia nela de ferido.
A música parecia vir de outro tempo, de uma vida que eles não viveram.

Quando ela terminou, o eco demorou a morrer.
Theo disse, quase sussurrando:
— A noite muda tudo. Até a tua voz parece mais humana... e mais distante.

Ceres se sentou ao lado dele.
— É o mesmo lugar, Theo. Só ficou mais escuro.

— Às vezes é só isso que muda — respondeu ele, com um sorriso que não era de alegria.

Theo cortou um pêssego ao meio, entregando a parte dela.
— Da primeira vez que viemos aqui, eu queria fugir. Agora, só quero ficar um pouco mais.

Ceres o olhou, sem resposta. O som das velas queimando misturava-se ao canto ainda preso nas paredes.
Theo mordeu o fruto, e o suco escorreu pelos dedos.
— Estranho — disse ele. — O ódio ainda tem gosto de pêssego.

Ceres riu. O eco devolveu a risada como se o silo lembrasse — e, por um instante, tudo pareceu inteiro de novo.

O silêncio entre eles era tão espesso quanto o ar do silo.
Theo olhava para as velas derretendo, depois para ela.

— Estou brincando — disse, com um meio sorriso. — Você canta bem.
Fez uma pausa. — Mas é tão linda quanto este pêssego.

Ceres desviou o olhar. O gesto, o tom — tudo a fez lembrar do beijo roubado, tempos atrás, quando ele havia tomado o pedaço da fruta direto de sua boca.
Theo pareceu ler o pensamento dela.

— Não sei… — murmurou, olhando o pêssego na palma da mão. — Pêssego agora será meu gosto. O gosto doce do ódio.
Sorriu de canto. — Mas sem o seu sabor junto, deixa de ser ódio. Vira antídoto.

Ceres permaneceu em silêncio. Theo estava diferente.
Mais solto, mais radiante — e, ao mesmo tempo, mais perigoso.
Parecia ter atravessado uma fronteira invisível.

— Senta aqui — ele disse.

Ela obedeceu, sem saber por quê. Theo passou a mão pelas costas dela, um toque lento, sem intenção aparente. Só o calor de estar perto.

— Por que você está assim? — perguntou ela. — Intenso. Sempre foi, mas agora parece… livre.

Theo riu. Um riso estranho, quase sádico.

— Você é divertida, Ceres. Sabe disso? Divertida demais.
Olhou para ela. — Queria ser tão intenso quanto seus olhos.
Depois, murmurou com ironia:
— Mas deixa pra lá. Aqui somos humanos, não precisamos questionar. Não tem Mãe Ceres, nem colégio, nem briga por liderança.
Ergueu o olhar para o teto escuro do silo. — Um simulacro de liberdade. Fajuto. Enferrujado.
Sorriu. — Não tão diferente do mundo lá fora.

Ceres o encarou. — Você já desejou isso, seu imbecil.

— Sim, sua cretina. — Theo respondeu com calma, quase doce. — Mas eu era tolo.
Fez uma pausa longa. — Eu amo nossa Mãe.

Ceres recuou um pouco. — Às vezes você me assusta.

— Não tanto quanto seus olhos zangados — retrucou ele, rindo. — Você é muito bravinha.

— Não preciso das suas observações e elogios tolos.

— Tem razão — disse ele, abaixando o tom. — Mas posso sentir você me olhando.

O silêncio voltou, denso. As velas estalavam.
Theo ergueu os olhos, pousando neles um brilho sereno e cruel.

— Pessoas de olhos azuis são tão profundas...
Sorriu. — Profundas tipo piscina: lindas, mas cheias de cloro. Difíceis de enxergar o fundo.

Ceres manteve o olhar firme. — O que você quer, Theo?

— Só companhia — ele respondeu, encostando a cabeça no ombro dela.
— Não fazer nada hoje.

O silo agora era outro. As paredes, antes mornas e poeirentas sob o sol, pareciam respirar à luz fria da lua. Ceres já estivera ali — lembrava-se do eco da própria voz quando cantou, quando o ar ainda era claro e havia risos nas janelas quebradas. Agora, a mesma melodia parecia impossível.

Theo subiu primeiro, como se conhecesse cada degrau corroído. Havia nele algo diferente — uma calma perigosa, quase luminosa. Ceres o observava, sem saber se era medo ou fascínio. O silêncio se estendia entre os dois, denso como pó suspenso.

Então, ao longe, o som do trem cortou a noite — um lamento metálico que vinha das trocas de trilhos. Era o mesmo trem, sempre no mesmo horário, arrastando o ferro e o tempo. Ceres e Theo permaneceram imóveis, ouvindo o som desaparecer.

— Ele vai passar de novo amanhã — disse Theo, sem olhar para ela.
— Sempre passa — respondeu Ceres, quase num sussurro.

E o silêncio voltou, mas diferente — como se agora o silo, o trem e os dois compartilhassem um segredo.

O trem vinha devagar, arfando no trilho como um bicho cansado. Era sempre o mesmo horário — o mesmo instante em que o mundo parecia desacelerar para deixá-los passar. Theo subiu primeiro, puxando Ceres pela mão. Os dois se ajeitaram no topo do vagão, sentados, os olhos cortando a noite e o vento.

— Se chegarmos antes do toque, dá tempo — disse ela, ajeitando o cabelo que o vento insistia em bagunçar.
— Dá tempo pra tudo — respondeu Theo, rindo.

Ceres percebeu que ele estava diferente. Havia uma calma perigosa nele, uma alegria estranha, quase infantil.

De repente, Theo se levantou, caminhando pelo meio do vagão.
— Desce daí, idiota! — gritou ela.
— Calma, tô só vendo o vão. —

Havia um espaço entre dois vagões carregados de caixas. Theo fingiu escorregar e sumiu. O coração de Ceres gelou.

— THEO! — gritou, se erguendo.

Antes que pudesse pensar, uma mão a puxou. Ela caiu no vão, o corpo colidindo com o dele.

— Calma, tô brincando! — sussurrou ele, segurando-a firme.

— Seu imbecil! Estúpido! Desgraçado! Idiota! —

— Isso mesmo — riu Theo, encostando a testa na dela. — Cada palavra um elogio.

Ficaram em silêncio. O vento soprava em rajadas, o som do ferro se misturava à respiração dos dois. Então o apito do trem ecoou sobre o colégio — o sinal do toque de recolher.

Ambos saltaram, rolando na beira da linha. Ceres partiu pra cima dele, socando-lhe os ombros.
— Eu quero passar o trem em cima de você!

Theo ria, tentando desviar.
— Tá me machucando, Ceres!

Mas o riso dele era sincero, livre, quase doce.

Ela tentou empurrá-lo de novo — mas ele a abraçou, com a mesma respiração, o mesmo desespero. O beijo veio no meio do movimento, quente, inevitável.

Quando se afastaram, Theo murmurou, ainda sorrindo:
— Meu ódio foi embora. Até mais.

E saiu andando na direção do colégio, deixando Ceres parada entre o trem, o vento e o gosto do ferro na boca.

Na manhã seguinte, o refeitório estava calmo. As bandejas, os passos, os sons metálicos dos talheres — tudo seguia a mesma rotina de sempre.
Theo, porém, parecia saborear o café da manhã como se fosse uma dádiva. Havia algo diferente nele — uma serenidade quase ofensiva.

Daime, sentado à frente com Ana, observava.
— Nossa, olha a cara do Theo... parece que está provando o café pela primeira vez. Que paz acidental, invejável até.
Fez uma pausa, riu.
— Sequestraram o Theo, colocaram imposto novo, não é possível. Olha essa cara de cínico. Um infeliz alegre.

Ana ergueu o olhar do prato.
— Foda-se o Theo. Certo ele está.
— Certo em quê?
— Em fingir liberdade. Nesse colégio, é o máximo que dá pra sentir.

Daime soltou uma risada seca.
— Que sabedoria, hein. Será que você é uma impostora? Se for, a original que me perdoe, mas você é mais gostosa.

Ana deu um tapa rápido na nuca dele.
Daime apenas sorriu e desviou o olhar. Viu Ceres atravessando o salão.
— Olha lá... a olhuda.

Ceres caminhava sozinha, o rosto fechado. Sentou-se à mesa de Theo, sem pedir nada.
Theo ergueu os olhos, com o mesmo sorriso cínico da noite anterior.
— Nem vai me pedir por favor pra sentar comigo?

— E eu preciso disso? — retrucou, fria.

Theo manteve o olhar sobre ela, provocando.
— Não, claro que não... tô te zoando. Mas seria bom ouvir você pedir.
Soltou uma risada curta.

— Está rindo da minha cara?
— Não, imagina. Tô rindo de você. Quer dizer, com você. Relaxa.

Ele apontou para o prato dela.
— E esse bolinho aí?

— Quer?
— Quero.
— Como se diz?
— Por favor, eu quero um pedaço do seu bolo.

Ceres arqueou uma sobrancelha, surpresa com o tom ácido. Cortou um pedaço e empurrou para ele.
Theo pegou, olhando nos olhos dela.
— Mas seria mais gostoso se eu roubasse de você.

— Tenta.
— Tentador.

Os dois riram, brevemente — e por um instante, o refeitório inteiro pareceu dissolver em volta deles.

Theo mastigou o bolo, lento, satisfeito.
— É... definitivamente, o gosto do ódio é doce.

No fundo do refeitório, afastados do barulho das bandejas e das conversas dispersas, Dark e Dru ocupavam sempre a mesma mesa. Entre eles, um pequeno monte de quinquilharias se espalhava como um altar improvisado: fios torcidos, cacos de vidro, engrenagens enferrujadas, um relógio sem ponteiros e três moedas de latão polidas até refletirem o teto branco.
Dru girava uma delas entre os dedos finos, orgulhosa.

— Fiz o lastro delas com papel do meu caderno verde — disse ela, sem disfarçar o sorriso. — Cada moeda tem dentro um pedaço de palavra. É o que dá peso.

Dark observava em silêncio, os olhos quase inertes, deixando que a luz das moedas tremesse sobre a pele pálida.

— Palavras não têm peso — murmurou, mexendo na pilha de objetos. — Só quem acredita nelas.

— Você fala como se nada tivesse valor — respondeu Dru, franzindo o cenho.

— E tem? — perguntou ele, devolvendo o olhar com a calma de quem desmonta o outro por dentro.

Ela riu sem graça, nervosa, o som escapando entre os dentes como um soluço.

— Às vezes acho que você fala assim só pra me irritar.

— Às vezes falo assim só pra te ouvir tentar me contrariar.

Dru o fitou por um instante. O sorriso de Dark era um risco de sombra, uma linha fina que nunca chegava aos olhos.

— Você é horrível — disse ela, quase sussurrando.

— E ainda assim você continua sentando aqui todo dia — respondeu ele, com naturalidade, como quem constata um fato.

Ela desviou o olhar, mexendo nas moedas.

— É que você entende as coisas. Diferente deles.

Dark inclinou levemente a cabeça. — Eu entendo como as coisas funcionam. As pessoas... só uso.

— Você me usa também?

Dark sustentou o olhar, sereno. — Uso tudo o que me serve. Mas não se ofenda, Dru. Você é... útil de um jeito bonito.

Ela ficou em silêncio por um tempo. As moedas de latão tilintaram entre os dedos, frágeis como promessas.

— Às vezes acho que você quer ser odiado — disse, quase num tom de pena.

— Não. Só quero ver até onde vai o seu amor.

O som do refeitório desapareceu ao redor deles. Não havia mais vozes, nem talheres, nem risadas. Apenas o tic-tic do relógio quebrado que Dark girava entre os dedos, marcando um tempo que já não existia.

— Você não sente nada, sente? — perguntou Dru.

— Sinto curiosidade — respondeu ele. — É o mais próximo que cheguei de sentir algo real.

Ela respirou fundo, o olhar preso às moedas. — E sobre Theo? Ainda quer provocar ele... comigo?

Dark ergueu o rosto, a voz suave e sem peso. — Eu não quero nada. Eu observo. Theo é uma ferida aberta. Você é o sal.

Dru baixou a cabeça. Havia raiva, mas também fascínio.

— Um dia você vai ficar sozinho.

Dark riu, baixo. — Um dia? Eu já estou.

O riso dele ecoou no metal do refeitório e se apagou, engolido pelo ar. Por alguns segundos, os dois pareceram existir fora de tudo — como se aquele canto fosse o mundo inteiro, feito de latão, silêncio e mentira.

Dru ficou sentada por um tempo, o coração pesado e o rosto queimando. Olhou para a moeda de latão nas mãos — o metal frio, o brilho opaco — como se pudesse encontrar ali algum sentido. Dark já havia ido embora. Sempre ia. E sempre voltava.

Ela sabia que ele não sentia nada. Ou talvez sentisse, mas de um jeito que só servia a ele mesmo — como quem acende fogo pra se aquecer e esquece que o outro também queima.
Mas ainda assim, ela o procurava. Queria se sentir viva. E Dark, com aquele olhar tenso, aquela calma que escondia algo feroz, a fazia acreditar por alguns instantes que o mundo ainda a percebia.

Fechou os olhos, lembrando do dia em que tudo começou — meses atrás, quando Theo e Dark quase se mataram. O refeitório inteiro ouviu.
Dark havia falado o nome de Tycho com desdém, rindo, como se zombasse de um morto. Disse coisas que ninguém ousaria repetir. Theo partiu pra cima dele como um animal solto, a mesa voando, pratos caindo, o som seco dos golpes.
E Dru… Dru agiu antes de pensar.
Agarrou um tubo de ferro e atingiu Theo pelas costas. Um som oco, um grito. Ele caiu, atordoado.
Ela se lembra do olhar de Theo — a confusão, a dor e a incredulidade. Depois, o silêncio.

Salvou Dark. E, de alguma forma, se prendeu a ele naquele mesmo instante.
Agora ele a olhava como quem observa uma ferramenta útil — um brinquedo que respira.
Nas noites em que se encontravam, Dark dizia que ela era “sua anestesia”, e ela fingia não entender.
Fazia o que ele pedia. Aceitava. Se deixava tocar. Queria esquecer o som do golpe que deu em Theo, o peso do ferro nas mãos, o cheiro metálico do sangue.

Dark era tenso, intenso demais. Às vezes, ela pensava que ele sentia prazer em vê-la quebrar — e talvez fosse verdade.
Mas havia momentos em que ele a olhava de um jeito quase humano, como se estivesse testando a própria capacidade de sentir.
E era por esses breves segundos que ela continuava.

Dru encostou a testa sobre o caderno verde, o mesmo onde registrava o lastro das moedas, o mesmo que sustentava a ilusão de valor.
O cheiro do metal, das velhas páginas e do suor se misturava, formando uma única lembrança.
Suspirou, e sussurrou para si:
— Eu o salvei… mas quem vai me salvar dele?

O refeitório estava cheio, mas o som das vozes parecia distante, como se tudo acontecesse dentro de um aquário. Theo se levantou da mesa de Ceres, atravessando as fileiras de bancos com aquele passo calmo que precedia a violência.

Perto da parede, um aluno mais velho pressionava uma garota nova contra o bebedouro. Theo não pensou. Puxou o garoto pelo colarinho e o ergueu com facilidade, o rosto a centímetros do dele.

— Se você encostar nela de novo — disse, com voz baixa, sem precisar gritar — eu vou socar sua cara até os ossos da minha mão saírem pra fora.

O garoto gaguejou algo que ninguém entendeu. Theo o largou, empurrando-o para o chão.
— Estamos entendidos? — completou.

O silêncio se espalhou rápido. Até o barulho dos talheres pareceu se encolher.

Theo se virou para a garota, que ainda tremia.
— Tá bem? — perguntou.
Ela assentiu sem voz.
— Se o desgraçado te incomodar de novo, me chama.

Do outro lado, Dark começou a bater palmas, lento, irônico, os olhos fixos em Theo.
O som ecoou como insulto e provocação.

Theo o encarou, o cansaço antigo trocado por uma frieza nova, lapidada.

— Achou que ia passar sem cumprimentar, muralha? — provocou Dark, o sorriso cortante.

Theo parou. Virou-se devagar. Um meio sorriso, quase gentil.
— Você tinha razão, Dark. Somos quase iguais.
(pausa)
— Só que eu sou mais bonito. E mais simpático.

Dark soltou uma risada curta, seca.
— Bonito até alguém quebrar seu nariz de novo.
E simpático? Você nem sabe o que essa palavra significa.

Theo inclinou a cabeça, como quem confessa um segredo:
— Significa que ainda deixo você andar por aí.
Alguns chamariam isso de simpatia.
Eu chamo de… tédio.

Ele virou as costas e saiu. As botas ecoaram no chão como marteladas.

Dark ficou parado, tenso, o maxilar travado.
Havia algo diferente ali.
Algo que ele ainda não sabia se era respeito — ou aviso.

O refeitório inteiro prendeu a respiração.
Todos esperavam uma briga.
Mas nada aconteceu.

Daime cuspiu o leite.
— Eu tô chocado — disse, limpando a boca. — Eles tão se entendendo. Isso é… afinidade sexual, certeza.

Ana ergueu as sobrancelhas.
— Você precisa rever suas teorias, Daime.

— Nada disso — ele rebateu. — É assim que começa. Um ódio bem colocado, uma troca de olhares, um toque de ameaça… e pronto, já estão trocando fluidos.

Ana riu, apesar de si mesma.
Ambos se inclinaram sobre a mesa, fofocando como se tivessem visto o prenúncio de uma guerra — ou de um romance.

Dru observava de longe, os dedos brincando com uma das moedas de latão que ela mesma fundira. A moeda girava devagar sobre a mesa, riscando um som leve, metálico, quase um tique nervoso.

Ela não riu. Não comentou nada. Apenas o olhou — Theo — com aquele mesmo misto de arrependimento e orgulho ferido.
Ele ainda tem essa mania de salvar os outros. Como se não fosse o mesmo que destrói tudo depois.

Dark, sentado ao lado, cruzou os braços, satisfeito com o caos que havia provocado sem mover um músculo. Tocou o ombro dela com os dedos, lento, como quem doma um bicho assustado.
— Viu só? — murmurou, perto demais do ouvido. — O seu herói agora fala minha língua.

Dru afastou a mão dele, sem força.
— Ele fala a dele. Você só acha que é o tradutor.

Dark sorriu, aquele sorriso sem calor.
— Então por que você ainda está aqui, se não acredita em mim?

Ela hesitou. Quis responder. Não respondeu.
Dark sabia. Sabia que ela precisava daquilo — da intensidade, do risco, do toque que a fazia sentir-se viva. E usava isso como uma coleira.

Do outro lado do salão, Ceres fingia não olhar.
Mantinha o queixo erguido, o olhar fixo no prato vazio à sua frente. Mas cada palavra, cada movimento de Theo, se cravava nela.

O refeitório, o trem, o beijo — tudo voltava como um eco abafado.
A raiva, o medo, o quase-amor.

Ela respirou fundo e se levantou, os passos medidos, a voz fria:
— É sempre assim. Os mortos têm mais paz que os vivos.

Daime arregalou os olhos.
— Opa, lá vem tempestade.

Ana o cutucou.
— Cala a boca.

Ceres passou por Theo sem olhar para ele.
O ar pareceu endurecer entre os dois, denso, magnético.
Theo não disse nada. Apenas a seguiu com os olhos, até ela desaparecer no corredor.

Dark percebeu.
— Viu só, muralha? — disse baixinho, só para si mesmo. — A tua guerra favorita ainda tá viva.

Dru ouviu, mas fingiu que não.
Sabia que Dark falava mais do que parecia — e menos do que sentia.

O refeitório ainda fervia de cochichos. O som metálico das bandejas e o murmúrio dos alunos preenchiam o ar como um campo elétrico prestes a estourar. Theo estava encostado na parede, com o mesmo olhar tranquilo que todos temiam. O gesto simples — o modo como ele mastigava devagar, o corpo relaxado — parecia uma afronta. Um ato político.

Ceres o observava. Sabia que Theo fazia tudo de propósito. O jeito que olhava o nada, o sorriso torto, o cinismo ensaiado — tudo era cálculo. E isso a irritava. Ou pior: a atraía.

Na mesa ao fundo, Dark soltou uma risada seca. Dru estava ao lado, girando uma moeda de latão entre os dedos, distraída. Dark se inclinou e murmurou algo que só ela ouviu:
— Quer ver? Ele vai olhar pra cá.
Dru respondeu sem levantar os olhos.
— Ele nem te nota mais, Dark.
Dark sorriu, inclinado na cadeira.
— Todos notam o que ameaça.

Theo olhou. De relance, rápido. Mas olhou. Dark ergueu o copo no ar, brindando ao nada. Dru apenas revirou os olhos.

Ceres levantou de repente. A cadeira arrastou no chão com um som agudo, chamando atenção demais. Ela fingiu que não notou, pegou a bandeja e passou por Theo sem olhar. Mas ele olhou.
— Sério que vai sair sem terminar o café? — perguntou, a voz calma, quase provocante.
— Sério que vai continuar fingindo que é um santo? — respondeu Ceres, sem parar.
Theo sorriu.
— Santos não beijam.

Ceres parou. A respiração falhou por um instante.
— Nem roubam pêssegos — completou ele, sem tirar os olhos dela.

Ela o encarou, os olhos duros, o corpo tenso, e seguiu. Daime, de longe, cutucou Ana com o cotovelo.
— O clima tá tão denso que dá pra cortar com a faca do bolo dela — murmurou.
Ana suspirou.
— É só terça-feira e já parece o fim do mundo.

Dark observava Ceres sair. O olhar dele deslizava preguiçoso, mas atento. Dru percebeu.
— Ela te dá medo? — perguntou.
Dark virou o rosto devagar.
— Medo, não. Ela é só outro tipo de veneno. Theo bebeu primeiro.
— E você? — insistiu Dru.

Dark encostou o rosto perto demais, a voz baixa, quase um sussurro.
— Eu? Eu só coleciono os frascos.

O sino ecoou pelo colégio, arrastando o som por entre os corredores. Mas ninguém se levantou de imediato. A paz que Theo carregava era perigosa — e todos, de alguma forma, sabiam que aquilo ainda ia custar caro.

Ceres saiu do refeitório sem olhar para trás. O corredor cheirava a desinfetante e chuva antiga, como se o prédio suasse memórias. Passou pelo pátio vazio e atravessou o portão que levava às piscinas. Precisava de silêncio. Ou de afogá-lo.

A água parada refletia o céu branco e sem forma. Ceres tirou os sapatos, sentou na borda e deixou os pés mergulharem. As ondas pequenas se abriram ao redor dos tornozelos, como se o mundo inteiro respirasse em volta dela.

“Nem santos beijam.”
As palavras de Theo voltavam como ferrugem sob a pele. Ele parecia mais solto, mais vivo, mais perigoso. Aquela liberdade dele era um escândalo. Um pecado.

Ceres suspirou, olhando o próprio reflexo distorcido.
— Idiota… — murmurou.

Do outro lado do colégio, Theo caminhava em direção ao campo de Flagball. O vento cortava o gramado alto, levantando poeira dourada. O campo estava vazio, apenas algumas bandeiras esquecidas tremulando.

Ele chutou uma delas de leve, riu sozinho. A risada ecoou, rouca, curta.
Lembrou-se da noite no silo. Da voz dela. Daquela sensação absurda de paz que doía como febre.

Theo se agachou, pegou a bandeira caída e a girou entre os dedos.
— É, Mãe… — disse baixo, olhando o céu opaco. — Acho que entendi seu truque. A liberdade é só mais uma forma de obediência.

No alto, a estação espacial piscava entre as nuvens — o lembrete constante de que nada ali era realmente livre.

Enquanto isso, Ceres mergulhava.
A água a envolveu como se fosse um ventre. O som do mundo lá fora se calou. Ela abriu os olhos dentro d’água e viu a luz se fragmentar em mil pedaços sobre ela.

Theo, no campo, ergueu a bandeira e fincou-a no chão, firme, como um gesto de desafio.
Ceres emergiu, os cabelos colados ao rosto, o peito arfando.
Dois corpos em pontos diferentes do colégio, respirando o mesmo ar e o mesmo silêncio.

Era como se, mesmo distantes, ainda estivessem dentro da mesma respiração — a de Mãe Ceres.

Aquela manhã começou com o som dos apitos e o cheiro de grama sintética quente. O céu ainda estava cinza, mas o campo brilhava como se fosse feito de vidro. Os alunos se alinhavam em grupos, ajeitando as faixas e os capacetes.

Daime esticava os ombros, falando sozinho. Vanks reclamava de tudo — da bola, do vento, do uniforme. Cors berrava com qualquer um que respirasse errado. Mas algo estava diferente.

Theo e Dark estavam rindo.
Não muito, mas o suficiente para o campo inteiro perceber.

O jogo começou. As jogadas fluíam com uma precisão quase absurda — Theo e Dark se moviam como se compartilhassem o mesmo reflexo. Daime corria pelo meio, recebia os passes, desviava, lançava de volta. Era como se todos lessem a mente uns dos outros.

— O que tá acontecendo? — perguntou Kan, ofegante, depois de uma jogada limpa. — Desde quando esses dois se entendem?

Daime apenas riu, ainda correndo. — Milagre. Ou tédio.

Dark lançou uma bandeira direto para Theo, que agarrou no ar e girou com elegância quase debochada.
Daime gritou: — Eu vi, muralha! Tá jogando bonito demais pra quem dorme de armadura!

Theo sorriu, respirando fundo.
— E você tá falando pouco demais pra quem acha que é comediante.

O time inteiro ouviu e começou a rir. Até Dark — que apenas abaixou o capacete e respondeu com um aceno.

Por alguns minutos, não havia rivalidade, nem política, nem provocações. Só o som dos passos no campo e o estalo da bola cortando o ar.

Daime, cansado, sentou-se na borda e olhou os dois do centro, balançando a cabeça.
— Eu tô sonhando… ou o inferno tá de férias?

Theo passou por ele, suando, o olhar tranquilo.
— Relaxa, Daime. Quando o inferno volta, ele avisa.

Daime riu alto. — Ah, ótimo! Me manda um bilhete antes, tá?

O campo parecia outro. A rivalidade antiga agora soava como eco distante — e, pela primeira vez, todos pareciam jogar pelo prazer de jogar.

Ceres observava de longe, encostada na grade metálica que cercava o campo. Havia deixado o treino de natação para entender o que estava acontecendo ali. Theo estava diferente — mais veloz, mais confiante, até a mecha branca no cabelo fora retocada com cuidado. Ele parecia outro.

Ela o seguiu com o olhar enquanto ele corria, driblava e ria. Aquele Theo não era mais o mesmo garoto inquieto e desorganizado que ela conhecia.
“Ele evoluiu”, pensou, sentindo algo apertar no peito.

E, naquele instante, percebeu que também precisava evoluir — não para alcançá-lo, mas para continuar sendo digna do mesmo mundo em que ele começava a brilhar.

Theo tirou o capacete com um gesto rápido, o cabelo ainda úmido de suor, e começou a assobiar alto com os dedos — um som estridente que ecoava por todo o campo. Era impossível ignorá-lo. Ele fazia aquilo apenas para se exibir, e todos sabiam.

Daime revirou os olhos e correu até ele.
— Para de bancar o pavão, Theo! — gritou, antes de empurrá-lo com força.

Theo caiu de costas no gramado sintético, mas em um movimento ágil, fez um kip up perfeito, voltando a ficar de pé como se nada tivesse acontecido. O público — os colegas e curiosos nas arquibancadas — reagiu com risadas e aplausos.

Theo se aproximou de Daime com um sorriso provocador, o olhar faiscando entre deboche e prazer.
— Calma, campeão... — disse, erguendo o amigo do chão.

E antes que Daime pudesse reagir, Theo deu um tapa firme na bunda dele, mordendo o lábio inferior com um ar descaradamente insinuante.

Daime riu, empurrou Theo de leve, mas Ceres, lá de cima, congelou. O gesto de Theo — aquele toque, aquele sorriso — a irritou profundamente. Não era apenas provocação. Era domínio. Um jogo que só ele sabia jogar, e Ceres sabia que ele a estava testando.

Daime ajeitou o capacete, ainda rindo da cena, e lançou um olhar rápido para as arquibancadas.
— Seu exibido... — disse, ofegante. — Ceres tá olhando, hein... saquei tudo.

Theo passou a mão no cabelo, ainda com aquele sorriso de canto que misturava ironia e certeza.
— Sim — respondeu, sem tirar os olhos de Ceres. — Ela me ama... e eu sei disso.

Os dois riram, cúmplices, enquanto Ceres, lá de cima, cerrava os punhos. O sol refletia no campo sintético, e Theo sabia exatamente o que estava fazendo — cada gesto, cada olhar, cada risada era um movimento no jogo que só ele e Ceres entendiam.

Ceres observava em silêncio. Tinha deixado o treino só pra ver o que estava acontecendo — Theo mais veloz, mais vaidoso, mais seguro do que nunca. A cada jogada ele parecia mostrar o quanto evoluíra… talvez por ela.

Quando Theo derrubou três oponentes com um jogo de corpo preciso e depois acenou em sua direção, Ceres odiou a provocação. Sentiu o coração bater rápido, não de amor, mas de raiva e admiração misturadas.

Tentou desviar o olhar, mas o fez um segundo tarde demais. Theo já tinha visto o rubor subir-lhe ao rosto.

Ele sorriu.
Ela cerrou o punho.

E o jogo, agora, deixava de ser apenas em campo.

Kan fixa os olhos em Theo. Cada músculo do líder se tensiona, a respiração acelerada. Há algo nos olhos de Kan que desperta o instinto predador em Theo, algo que exige resposta imediata.

— Você vai ficar aí parado? — provoca Kan, com um sorriso que corta.

Theo sente o calor subir pelo corpo. Não é ódio, é adrenalina, é aquela necessidade de confronto que não se acalma. Ele vê em Kan não um inimigo, mas um reflexo do próprio passado: impulsivo, implacável, selvagem.

Dark se encosta na parede, braços cruzados, sorriso divertido.
— Vai deixar, liderzinho? — provoca. — Igualzinho a você antes.

Theo fecha os olhos por um instante, controlando o impulso. Mas não dura. O clique interno se quebra. Ele parte. Kan não recua. Quer isso, sempre quis isso. A colisão é violenta, um choque de corpos e ferocidade. Punhos voam, cada movimento é calculado pelo instinto.

O mundo ao redor some. Apenas eles existem, como em um ringue invisível. A turma corre para separar, mas nada diminui a intensidade; cada empurrão carrega anos de tensão acumulada.

Theo vê Kan, vê Dark, vê a si mesmo em todos os reflexos. E mesmo quando são separados, a adrenalina pulsa, lembrando que em todos os anos, nunca deixaram de brigar. E naquele momento, sabia: não seria hoje que isso acabaria.

Daime não aguenta mais.
— Babaca! — grita, olhando diretamente para Kan.

O soco vem rápido, direto. Kan reage instantaneamente, acertando Daime. Mas Daime não se deixa abater; ele revida com força, e a faísca da provocação se espalha. Em segundos, a briga se generaliza: empurrões, socos, gritos. Cada um tentando se impor, cada movimento carregado de adrenalina acumulada.

O técnico, parado à beira do campo, apenas observa. Não intervém. Não diz uma palavra. Seu silêncio amplifica o caos, tornando cada golpe mais intenso, cada provocação mais perigosa.

Nas arquibancadas, Ceres observa, horrorizada. O coração dispara, mãos cobrindo a boca. Não é apenas a violência, é a intensidade, a falta de controle. Ela se afasta, decide ir embora, o rosto marcado pelo choque e pela decepção.

Kan, ainda respirando pesado, chama Theo.
— Só briga na presença da Ceres, né? — provoca, com um sorriso desafiador.

Theo sente algo estalar dentro de si. Cada palavra, cada provocação, é gasolina para seu fogo interno. Ele se vira, olhos faiscando, pronto para atacar.

Antes que qualquer punho acerte, a turma intervém novamente, separando os dois. Mas a tensão permanece no ar, elétrica, como se a violência tivesse deixado uma marca invisível que ninguém poderia apagar.

Piscina do Ódio

O eco dos passos de Ceres ressoa no ginásio das piscinas. Ela entra com o rosto fechado, ainda com raiva de Theo. Aquele assovio alto — irritante, provocador — e o kip up perfeito depois da queda de Daime. Tudo nela fervia por dentro, um misto de vergonha e desprezo disfarçado.

Sem dizer palavra, Ceres troca o uniforme. Cada movimento é contido, calculado, como se o próprio ar ao redor estivesse carregado. Começa o aquecimento devagar, alongando-se com precisão quase ritualística, tentando expulsar a raiva do corpo pela respiração.

Gris, já dentro da piscina, percebe algo diferente.
Ceres parecia resmungar sozinha, olhar distante, expressão tensa.
Gris a observa, intrigada — havia algo pessoal, íntimo, pulsando ali.

Ceres pensa em Theo.
Naquele teatro.
“Olha como sou livre, como sou forte e másculo, como sou belo.”
A encenação toda a irritava. A alegria repentina dele a parecia falsa, como se risse de tudo o que ela levava a sério.

Do outro lado, Ana desliza pela água, olhos semicerrados, mas atentos. Nota Gris observando Ceres. O pensamento vem rápido e venenoso:
“Vadias.”

Ela se concentra, empurrando-se com mais força. A água parece ferver em volta dela.
A piscina é grande, mas o espaço nunca parece suficiente. As três competem sem precisar dizer uma palavra.
Todas querem a liderança.
Mas Ceres — por talento, por instinto, por presença — era a líder.
E isso doía nelas como o cloro queimando os olhos.

Ceres mergulha sem aviso.
A água explode ao redor, fria, cortante. O impacto é um alívio, um choque que limpa a raiva da superfície da pele — mas não da mente.

Ela nada com força, cada braçada é uma descarga, cada respiração um grito submerso. O som do mundo se dissolve em bolhas e estalos. Só o corpo e a corrente, só o atrito e a memória.

Na mente, Theo ainda assovia.
“Olha pra mim, Ceres.”
E ela mergulha mais fundo, como se pudesse afogar o som, apagar a imagem daquele sorriso insolente.

Gris observa de longe, apoiada na borda, sentindo o mesmo incômodo crescer dentro dela. Há algo na forma como Ceres nada — tensa, precisa, quase agressiva — que mistura admiração e medo. Gris sabe que ali dentro há mais que técnica. Há dor. Há controle tentando não desmoronar.

Ana surge na raia ao lado, deslizando como uma flecha. Faz questão de ultrapassar Ceres. O movimento é limpo, mas a intenção é clara.
Ceres sente. Reage.
Acelera.

O ginásio se enche de respiração pesada e respingos.
Gris entra na água também, como quem não quer ficar de fora da guerra silenciosa.

Três corpos cortando a piscina — um duelo de ritmo e orgulho. Nenhuma fala, só o som dos braços rompendo a água.

Ceres se impõe no último mergulho, dominando a raia, vencendo o tempo e a tensão. Quando emerge, respira ofegante.
Por um instante, há silêncio.

Gris a encara.
Ana desvia o olhar.
E Ceres, ainda tremendo, sente que não venceu ninguém — nem a elas, nem a si mesma.

Ceres mergulha.
A água a engole inteira — fria, densa, purificadora.
Cada braçada é um soco contra a raiva, cada respiração uma tentativa falha de se acalmar.
Ela nada com força, sem ritmo, movida apenas pela fúria.
Theo ainda ecoava na cabeça dela — o sorriso debochado, o assovio alto, o corpo saltando do chão com aquela facilidade irritante.
“Olha como eu sou livre…”
Ceres fecha os olhos por um instante, afundando o rosto na água como quem quer silenciar uma lembrança.

Gris acompanha o ritmo.
Não tenta competir, apenas observa.
Os movimentos de Ceres são precisos, mas há um peso estranho — como se ela estivesse brigando com alguém invisível dentro da água.
Gris sente o impulso de nadar mais perto, mas recua.
Sabia que aquele era o tipo de tempestade que ninguém atravessa sem se afogar junto.

Ana, do outro lado da piscina, acelera.
Os olhos fixos na borda, mas a mente cravada em Ceres.
“A líder perfeita…”
Cada vez que respira, vê o reflexo de Ceres ao lado.
Não aguenta.
Aumenta o ritmo, até ultrapassar.
O som da água quebrando é sua forma de xingar sem palavras.

Ceres percebe.
Endireita o corpo, força ainda mais.
Agora a piscina se torna um campo de batalha silencioso — três mulheres nadando como se o ar dependesse da vitória.
Gris tenta manter o equilíbrio, Ana quer vencer, Ceres quer desaparecer.

No fim da raia, Ceres para.
Apoia as mãos na borda, respira fundo.
A água escorre do rosto como lágrimas que ela não permite cair.
O ginásio está silencioso.
Gris e Ana a observam de longe, sem disfarçar o cansaço nem o ressentimento.

Ceres olha para o teto, os músculos tremendo.
Theo, Kan, a briga, o assovio, tudo parece distante e presente ao mesmo tempo.
Ela fecha os olhos.
E pela primeira vez, sente medo não dos outros — mas do que estava nascendo dentro dela.


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