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Ninho de Cobras - Parte 1

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Aqueles olhos tão grandes em um bebê, pele pálida, os olhos azuis que eram de Assum — seu nome era Ceres. Todas as mães de aluguel, mães que perderam seus filhos no parto ou por fatalidade, ou…

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Aqueles olhos tão grandes em um bebê, pele pálida, os olhos azuis que eram de Assum — seu nome era Ceres. Todas as mães de aluguel, mães que perderam seus filhos no parto ou por fatalidade, ou aquelas que escolheram ser mães de crianças órfãs de mães que morreram no parto de Pietà, foram vê-la. Aqueles olhos azuis, lindos… todas sabiam de quem era aquele bebê: era de Assum, que infelizmente ficou em Silencium, filha do ditador cruel, mas aliada de Mãe Ceres. Assum fora trocada como mercadoria, mas mercadoria que hoje brilhava nos céus da cidade de Ceres — na estação espacial Ceres 2, a primeira destruída por Opus Omni por considerá-la blasfêmia, mas cujos preparos haviam sido dados por Arcadia como afronta à Mãe.

Os olhos da criança eram iguais aos de Assum: poderosos, envolventes. Ela era a cara da mãe. As mães observavam a pequena Ceres, assustadas, pois seu nome era o mesmo de Mãe Ceres. Contemplavam-na com admiração e fascínio, misturados ao medo. Não apenas no nome, o bebê parecia olhar para elas como quem reprova. Não esboçava sorriso com suas bochechas rosadas; apenas uma enfermeira, com uma secretária local, levava a criança. Algumas mães tentaram se aproximar no corredor lotado, mas a criança balançava a cabeça para quem chegasse perto. Parecia que só reconhecia a própria mãe, Assum.

Mesmo ainda bebê, Ceres sabia distinguir o que era mentira e o que apenas se fingia verdade. Os corredores, iluminados por uma luz agradável, tinham o cheiro de lar — um ambiente perfumado com aromas de mães. Mas a criança parecia reconhecer apenas sua mãe. Olhava, mesmo sem ser capaz de identificar rostos, mas sabia ler o padrão das sombras, sombras que jamais veria novamente: a sombra de Assum.

A criança foi colocada no berço. Ficou quieta, mas espiava as sombras, tentando encontrar Assum. A secretária sabia quem ela era e disse que precisava de uma mãe — não da melhor mãe, mas da mãe capaz de suportar aquela criança. A secretária sabia que, mesmo tão pequena, Ceres daria trabalho.

Então, escolheu a que podia suportar: aquela que carregava a cidade das mães nas costas, não por ser forte, hábil ou inteligente, mas porque suportava tudo em nome da grande Mãe. Chamou por Agar. Imediatamente, ela estava ali. A secretária disse:

— Mesmo que tuas tetas sangrem, não deixe ela com fome!

Agar, assustada, sabia que aquela criança tinha ódio no olhar. Era um bebê que nem sabia disso, mas os olhos dela caçavam mentirosos. Ceres fitou a sombra de Agar com algo indestrutível no olhar, um olhar que dizia que Agar teria que suportar aquela criança, qualquer que fosse o peso de sua presença.

Horas mais tarde, Ceres e Agar estavam alojadas nos andares superiores, em um quarto acolhedor das mães. Ceres estava no berço, e Agar tentava interagir, mas a criança apenas a observava, tentando memorizar sua sombra. Mesmo sem enxergar detalhes, apenas sombras, Ceres sabia que aquela era sua mãe. Mas parecia que, já dentro dela, havia a frieza e a impetuosidade de Chanceler Aquila, o ditador de Silencium, o sanguinário feitor de Dons.

O quarto era agradável, bem ventilado, com temperatura confortável. Cheio de brinquedos educacionais coloridos, na mesa toalhas limpas, frutas para as mães, chás, biscoitos e pães recém-saídos da cantina de Pietà. Era o quarto do sossego. A janela do teto ao chão dava para uma varanda, e a vista alcançava o lago, campos de areia, playgrounds e crianças brincando, sendo cuidadas e educadas pelas mães. O som dos risos ecoava pelo ambiente; crianças limpas corriam de um lado para o outro, outras estavam nos colos das mães. Ao lado, salas de aula pedagógicas ensinavam a sensibilidade às crianças em desenvolvimento, enquanto crianças de cinco a nove anos estavam em salas mais disciplinares, realizando atividades mais elaboradas, de acordo com o sistema da cidade de Ceres.

Ao fundo, um pequeno bosque; atrás dele, prédios grandes e retangulares, irregulares, sem janelas, feitos de mármore negro. O dia estava lindo, parecia que Deus desceu à terra e desenhou tudo… mas não se engane: foi Mãe Ceres quem fez.

No quarto, a pequena Ceres se irritou com Agar. Começou a chorar de fome. Agar a pegou no colo e tentou niná-la. Ceres ficou quieta por alguns segundos, observando com seus enormes olhos azuis os olhos negros de Agar, analisando seus cabelos, tentando identificar padrões. Era um pouco parecido com os de Assum, mas não era Assum.

Agar tentou amamentar a criança. Ceres levou uma mordida e começou a chorar ainda mais — sua fome era intensa, mas não era o peito de sua mãe. Foram longas tentativas. Ceres chorava, mordia e resistia. Agar então percebeu a lembrança da ordem da secretária: “Mesmo que tuas tetas sangrem, não a deixe com fome!”

Ceres se acalmou apenas quando finalmente mamava, mas não sem raiva e ódio. Sua fome era maior que qualquer sentimento que podia conter. A batalha daquela criança com sua mãe de aluguel era terrível. Desde cedo, Ceres já entendia: até o alimento que não era dela, precisava ser conquistado e dominado para que pudesse sobreviver.

Agar alimentava Ceres entre mordidas e revoltas. Às vezes a criança se acalmava. Agar se perguntava o que aquela criança havia passado, quem seria seu pai, como um bebê podia herdar comportamentos tão definidos. Ainda assim, começou a amar Ceres como se fosse sua. Agar nascera para ser mãe — cuidar dos filhos renegados, das crianças órfãs de mães falecidas.

Às vezes, Ceres brincava sozinha. Apenas Agar percebia que, ao pressentir sua presença, a criança se tornava calma e séria, reconhecendo padrões: cheiros, temperaturas, o ritmo do ambiente. Foram longos anos assim. Agar amava Ceres, mesmo entre mordidas e acessos de fúria. Com o tempo, a criança passou a se acalmar, aceitava o abraço, permitia o contato. Mas não havia ali o alívio comum da infância. Era tudo cálculo e paciência.

Quando Ceres abraçava Agar, mantinha o olhar sério, fixo, com aqueles grandes olhos azuis — olhos que julgavam. Agar sentia certo medo deles. Era como se a criança a lesse, como se dissesse, sem palavras: você não é minha mãe; eu apenas preciso de você para viver. Agar não se importava. Seu dom era ser mãe, cuidar, sacrificar-se por aquela criança importante demais para o mundo.

Agar sabia que, no futuro, Mãe Ceres teria a filha bastarda e excomungada de Silencium. Chanceler Aquila, o ditador ceifador de dons, não poderia ter filhos — mas o milagre aconteceu. Um milagre nascido da união com alguém cruel e sem escrúpulos; alguém que, se existisse um deus, teria vergonha de ter criado. Qualquer demônio seria mais simpático e sedutor do que Chanceler Aquila.

Ele queria o dom de Assum: sua voz e sua alma. Não conseguiu nenhuma das duas. Assum era outra força estranha. Agar sabia que ela fora a única a vencer Mãe Ceres — não com discursos, nem com lógica, mas com sua voz divina. A voz que hoje todos conhecem como A Voz de Ceres.

Todos os dias, às dezenove horas, os alto-falantes da Cidade de Ceres executavam a música de Assum. Não havia letras — apenas um cantarolar capaz de encantar até as criaturas mais bestiais. Como consequência, lágrimas escorriam, provando que as almas não sangram sangue, mas água salgada.

Assum era a favorita de Mãe Ceres. Vivia com ela na torre, exibida ao mundo por sua música. Cantou em vários países. E, ainda assim, mesmo rebelde e eloquente, amava profundamente Mãe Ceres. Antes de convencer a Mãe, implorou que a matasse, pois não suportava viver sem cantar; pediu que lhe arrancassem as cordas vocais.

Mãe Ceres foi vencida.
Ali, mostrou que ainda havia algo dentro dela.
Havia alma.

Agar observava o desenvolvimento de Ceres. A criança brincava sozinha, organizava os brinquedos e logo depois os desorganizava, como se testasse ordem e caos. Às vezes saía com sua mãe de aluguel, mas nunca se aproximava de outras crianças. Mantinha sempre a expressão séria, os olhos atentos, rastreando tudo ao redor. Não buscava interação.

Houve um momento no parque, no gramado próximo ao lago. Ao fundo, o burburinho das crianças sob a sombra de uma grande árvore frutífera. Ceres interrompeu a brincadeira, caminhou até Agar, olhou-a diretamente nos olhos e a abraçou. Não era um abraço de conforto. Era um apego sem apego, como se estivesse simulando um gesto aprendido. Fechou os olhos e encostou o rosto no dela, buscando um cheiro de mãe — não o de Agar, mas algo que carregava desde o nascimento: a memória de uma mãe que a reconhecia por dentro.

Agar a acolheu, mesmo com apreensão. Aquela criança parecia carregar o mundo nos olhos azuis, olhos que refletiam o próprio céu. Desenvolvia-se rápido, mas isolada. Falava pouco.

Havia, porém, algo que assustava Agar. Todas as vezes em que a Voz de Ceres era executada, a criança reagia. Um quase sorriso surgia, automático, como um relógio biológico despertado por aquele som. Ceres não sabia o que era a música. Não sabia de onde vinha. Mas seu corpo reconhecia.

Era a voz de Assum.

Aos sete anos, Ceres tornou-se rebelde e reclusa. Recusava-se a ir à escola, embrenhava-se no bosque, escondia-se entre as árvores, entrava no lago, sujava-se de lama. Parecia não reconhecer a Cidade das Mães. Atacava outras crianças quando a chamavam de demônio azul, por causa de seus olhos grandes e azuis. Quase arrancou o dedo de uma delas com uma mordida.

Agar a defendia com unhas e dentes. Às vezes recorria a correções arcaicas, duras, mas Ceres não cedia. Gritava:

VOCÊ NÃO É MINHA MÃE! NÃO FAÇA ISSO COMIGO! VOCÊ NÃO É MINHA MÃE!

Aquilo derrubou Agar. Mesmo assim, ela nunca se afastou. Ceres a magoava profundamente, atingia até seu ego, mas Agar permanecia. Lembrava-se das palavras da secretária, anos atrás: “Mesmo que tuas tetas sangrem, não a deixe com fome!”
Agora, dentro dela, a frase havia se transformado:
Mesmo que tuas mãos sangrem, não abandone Ceres.

Numa madrugada silenciosa, Ceres despertou lentamente. Da varanda onde sempre se refugiava desde que chegara ali, viu Agar chorando em silêncio, entre suspiros contidos. Ela murmurava uma reza interna, pedindo que Mãe Ceres consolasse o coração da criança. Dizia que Ceres não era boa nem má — apenas capaz. Capaz de sobreviver a qualquer custo, como sua verdadeira mãe, Assum, sobrevivera por Pietà.

Agar implorava que aquela criança tivesse uma chance de viver. Que ela própria pudesse suportar por amá-la demais, por carregar o nome sagrado da Grande Mãe. Que seu papel fosse apenas esse: ser mãe por Mãe Ceres — aquela que alimenta, educa… e também devora.

Ceres ouviu tudo.
Não disse nada.
Voltou para a cama.

A manhã chegava.

Naquela mesma manhã, sob sol forte e céu azul, Mãe Ceres surgiu pessoalmente, acompanhada de suas secretárias. Quase não havia homens ali — nem mesmo os Silenciadores entravam. O Útero de Chumbo era absoluto em sua proteção.

Toda Pietà ficou inquieta. As mães sabiam: a Mãe das Mães estava ali. Vestia branco, trazia o véu que parecia flutuar ao redor da cabeça. Não usava a coroa de cristal iridescente. Apenas a máscara oval de lente negra — ninguém jamais vira seu rosto.

Mãe Ceres apareceu sem aviso. Não perderia tempo. Foi direto ao que importava: o quarto de Agar e da pequena Ceres.

As duas estavam ali. Agar se assustou, levantou-se da poltrona onde lia para a criança, séria, quando viu Mãe Ceres atravessar o quarto aconchegante. As secretárias permaneceram do lado de fora, no corredor.

A pequena Ceres não demonstrou medo. Olhou para Mãe Ceres. As duas se encararam, frente a frente, em silêncio. Apenas o burburinho distante preenchia o fundo. Segundos que pareceram minutos.

Mãe Ceres então se ajoelhou, ficando à altura da criança.

— Sabe por que você tem o meu nome? O nome desta cidade? Sua mãe, Assum — aquela cuja voz você ouve todos os dias às dezenove horas — é sua verdadeira mãe. Assum me ama como mãe, e lhe deu o nome mais sagrado para ela. Agar é sua mãe de criação. Respeite-a. Não precisa amá-la, mas respeite-a.

Sem mentir, Mãe Ceres ergueu lentamente a mão — não em direção à criança, mas como quem confirma uma verdade. Ceres percebeu: mesmo sem rosto, ela não mentia. Apenas afirmava o que sempre esteve ali.

A pequena aproximou-se. Na mesma altura, tocou sua mão na mão maior de Mãe Ceres. Olhou para a lente negra da máscara, viu seu próprio reflexo e compreendeu a única verdade sem verniz que todos lhe haviam negado.

— Veja sua mãozinha na minha — disse Mãe Ceres. — Quando sua mão tiver o tamanho da minha, você conhecerá Assum. Até lá… use esse ímpeto herdado de seu pai para sobreviver. Você é importante para mim, minha filha. Muito importante.

Ceres sentiu a verdade. Sorriu. Abraçou Mãe Ceres e demonstrou um afeto que nunca mostrara antes — o afeto de uma criança que reconhece a verdade, não promessas vazias. Um mundo real.

Depois do abraço, voltou para sua escrivaninha e começou suas tarefas, sem olhar ao redor.

Mãe Ceres se levantou e disse a Agar:

— Não faço promessas. Quero ideias velhas para que novas ideias existam, em qualquer circunstância.

Agar sentiu alívio. Não fora uma reclamação. Fora reconhecimento.
Ser mãe já era um dom.
Ser mãe de criação presente… era ainda maior.

Sem mentiras, sem verniz, sem os pesos que esmagaram a criança, Ceres passou a se empenhar como quem cumpre um objetivo. Mãe Ceres lhe dera propósito: cuidar de si, tornar-se forte, competitiva, evoluir. A espera seria recompensada.

Ceres seguia o próprio destino como um manual. Tudo ao redor era ruído. Havia muitas crianças em Pietà, mas aquela criança-demoníaca fora moldada de outro modo. Substituía sentimentos por chumbo.

Sempre isolada, porém eficaz. Sozinha, mas cercada de livros. Silenciosa, enquanto a mente atravessava o inferno. Era o preço até que Mãe Ceres a chamasse novamente.

A idade ideal chegou. Aos dez anos, deixaria Pietà — a Cidade das Mães — rumo ao colégio militar. Vestia o uniforme cinza-escuro, boina simples e carregava uma pequena mala.

Na entrada de Pietà, ao fundo, erguia-se a estátua Imaculada de Mãe Ceres: bebês no colo, seios fartos como frutas maduras oferecidas aos filhos, dois ajoelhados aos pés pedindo colo.

Ceres e Agar estavam juntas. Agar ajeitou o colarinho da menina — o último gesto de cuidado, o último gesto de mãe. Diante delas, o ônibus militar aguardava, levando Ceres e outras crianças destinadas a colégios militares espalhados pela Cidade de Ceres.

O mármore branco de Carrara da estátua contrastava com o mármore negro ao fundo: poder e controle, doutrinação absoluta, sobrevivência acima da liberdade.

Ceres olhou lentamente para a estátua. Depois para Agar. Os olhos marejaram. Permaneceram em silêncio. Nunca mais se veriam. Nunca mais reconheceriam o cheiro uma da outra. Era a doutrina. Ninguém morreria. Todos sobreviveriam. Mas pagariam com a ausência.

Ceres abraçou Agar e disse em seu ouvido:

— Você foi uma boa mãe. Esse é o seu dom. Não é minha verdadeira mãe, mas, por esses anos, foi tão boa quanto ela. Seu dom é ser mãe.

Havia maturidade naqueles olhos, nos gestos contidos. Uma energia canalizada pela doutrina. Mas o ódio permanecia ali, intacto — herdado do pai.


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