Mãe Ceres queria ordem.
Não punia o sexo — mesmo quando havia gravidez. Pietá, mesmo protegendo todas as mães, era assustadora em sua lógica: o inferno dentro do paraíso.
O verdadeiro inferno era negar essa lógica.
O preço, todos sabiam — nada era de graça.
Nem os sentimentos.
Tudo era moldado em chumbo e ódio, concreto da alma.
Theo e Ceres não tinham solução.
Quando algo não tem solução, resta apenas intensificar o sistema implacável — replicar, espelhar, multiplicar até o limite.
Quando não falamos de amor com ninguém, pensamos saber o que ele é.
Mas quando alguém tenta nos dizer o que é amor, percebemos que não sabemos de nada.
Era amor?
Se era, tinha os mesmos alicerces: a construção, o cuidado, a lembrança.
Um amor de chumbo, concreto e aço — o sangue era a liga de tudo.
Theo e Ceres se olhavam, odiando e amando o mesmo jogo.
Mãe Ceres os codificou.
Eles estavam perdidos, e não havia saída.
Apenas a entrega à Mãe.
Só a morte os separaria.
Ou talvez, nem isso.
No outro lado do colégio, Kan cruzou com Gris nos corredores estreitos. A garota, nova do outro colégio, ergueu o olhar com desdém, quase desafiadora.
— O que foi? — provocou Kan, sem perder o sorriso. — Sua desavença está na enfermaria.
— Me poupe! — Gris respondeu, a voz firme, mas sem medo.
Kan deu de ombros e continuou, olhando-a nos olhos:
— Ceres vai te quebrar toda. Você é forte, sim, mas viu o que ela fez com Theo?
Gris suspirou, cruzando os braços:
— Theo é um imbecil enfeitiçado por ela. Se quisesse, quebrava o pescoço dela agora mesmo!
— Verdade — Kan riu — mas ela tem controle sobre ele, e ele a lealdade dela. Nem aliados você tem aqui, entende? Às vezes força não é tudo.
Gris o encarou, desconfiada. Kan, percebendo, continuou:
— Você é tão arrogante quanto ela. Também não vou com a cara de Ceres, mas paciência. Cada um no seu canto. Foda-se o resto.
As palavras foram um conselho silencioso, como quem marca território. Gris permaneceu em silêncio, absorvendo cada detalhe.
— O que você sugere? — perguntou finalmente.
Kan estendeu a mão. — Que sejamos aliados. Não precisamos nos gostar, mas alianças salvam. Você lidera as meninas, eu os meninos. Simples.
Gris olhou a mão dele, calculou o risco, e apertou firme. — Se me trair, eu arranco seus olhos!
— Ui, que medo! — brincou Kan, rindo. — Blefa tanto quanto Ceres, mas tem garra.
Ambos seguiram caminhos opostos. Gris manteve sua apatia característica, fria e calculista, observando o colégio com olhos de águia. A rivalidade com Ceres, desde o primeiro dia, nunca se apagara; agora aumentava com sua chegada. Ambas eram como espelhos distorcidos: comportamento bestial, arrogância, intensidade. Cada movimento, cada gesto, era um teste silencioso de força e paciência. Nenhuma cedia, nenhuma se apresentava. A batalha de olhares, de presenças e de decisões começava muito antes das palavras — e ninguém sabia quem piscaria primeiro.
Kan conhecia o jogo. Sabia das regras, das hierarquias, dos pequenos pactos que sustentavam o colégio. Ele precisava de Gris — fria, disciplinada, estrategista. Juntos, poderiam moldar as turmas, alinhar forças, conter as revoltas e estabelecer uma ordem funcional. No papel, era o plano perfeito.
Mas havia algo que nem Kan nem Gris podiam replicar: Theo e Ceres.
Eles não seguiam regras, criavam as próprias. Eram santos e monstros no mesmo corpo, caos e fé coexistindo. Em cada briga, em cada escândalo, em cada olhar trocado nos corredores, faziam a estrutura tremer — e Mãe Ceres não intervinha.
Era como se Ela observasse em silêncio, aprovando o desequilíbrio que produzia energia, crença e obediência.
Kan e Gris podiam conquistar cargos, aliados e reconhecimento. Mas nunca superariam a força invisível que unia Theo e Ceres.
Não era vitória, era fascínio.
Todos sabiam o porquê: Theo e Ceres tinham o coração do colégio. Mesmo feridos, odiados, desafiados, eram lembrados — símbolo de algo maior que qualquer título.
Era a química animalesca, inconsequente, irracional. A simbiose entre os dois era como fogo e aço: destrutiva, mas impossível de apagar.
Kan podia vencer batalhas. Gris podia arquitetar vitórias.
Mas Theo e Ceres eram o mito.
E contra um mito, não há estratégia que funcione.
Mãe Ceres não apenas venerava sua própria lógica.
Ela alimentava-se dela, como uma deusa que consome o raciocínio de seus filhos para manter o equilíbrio do mundo que criou.
Mas a lógica, sozinha, era fria demais para sustentar o fogo da fé.
Ela precisava de algo além: a alma.
Por isso, não bastava que seus filhos obedecessem.
Precisavam ser simbólicos, inspiradores, admirados — não por submissão, mas por devoção.
A ideologia de Mãe Ceres não era feita apenas de aço, mas de virtude política.
Cada um de seus filhos deveria refletir um ideal: a pureza da força, a ordem do sacrifício, a beleza da disciplina.
Theo e Ceres eram o espelho imperfeito desse ideal — e justamente por isso, os preferidos.
Mãe Ceres via neles o que nenhum código conseguiria traduzir: o desvio que valida a regra, o erro que prova a perfeição.
Eles sangravam, erravam, amavam, odiavam… mas seguiam em frente, sem negar o sistema, mesmo quando o desafiavam.
E isso os tornava sagrados.
Gris e Kan podiam construir alianças, planejar vitórias e controlar as massas.
Mas Theo e Ceres personificavam o que Mãe Ceres mais valorizava:
a contradição viva entre o instinto e a razão, entre o corpo que destrói e a alma que obedece.
Ela não queria apenas soldados.
Queria discípulos do espírito — filhos que ardessem em fé, mesmo sem acreditar em nada.
Por isso, enquanto o colégio girava em torno das novas alianças e rivalidades,
Mãe Ceres observava, silenciosa, de dentro das câmeras, das luzes, dos alto-falantes.
O som das sirenes era sua respiração.
O olhar de Theo e o ódio de Ceres, sua prece mais antiga.
Pátio Central — Colégio de Ceres
No pátio central, o vento carregava folhas secas e um frio metálico que vinha das grades e das bandeiras balançando nos mastros. Os alunos passavam em grupos apressados, mas Ana e Daime permaneciam ali, imóveis, como se o tempo hesitasse em atravessá-los. Vestiam o uniforme cinza-escuro de Mãe Ceres — camisa bege por baixo, coturnos gastos, a jaqueta semiaberta como quem desafia discretamente o regulamento. Eram disciplinados, mas havia neles um desleixo juvenil, uma ironia constante diante da ordem.
Daime estava sentado sobre o corrimão de ferro, girando o crachá entre os dedos. O emblema do colégio refletia a luz fraca do entardecer. Ana permanecia de pé, braços cruzados, olhando na direção do prédio médico — onde Dark ainda se recuperava.
— Theo é forte — disse ela, a voz baixa, quase num lamento —, mas até quando? Você viu o que ele fez com Dark.
Daime soltou um riso curto, sem alegria.
— Se o colégio está calmo agora, é só porque o inferno ainda não abriu as portas. Quando Dark sair dali, o colégio vai congelar.
Ana o olhou com reprovação.
— Você fala como se quisesse isso.
— Talvez eu queira — respondeu ele, ainda brincando com o crachá. — Mãe Ceres não cria filhos dóceis. Ela quer ver quem sobrevive ao desconforto.
Pausa. O sorriso se tornou mais sombrio.
— Posso ser tão forte quanto Theo, mas nunca serei líder. Eu rio de tudo. É o meu jeito de não enlouquecer.
Ana desviou o olhar. — Você ri... mas está com medo.
— Todos estamos — disse Daime, levantando-se. — Até ela.
Um grupo de estudantes cruzou o pátio, rindo alto. Entre eles estava Gris, recém-transferida. Ana acompanhou a figura com os olhos, o rosto tenso.
— Gris voltou. E Ceres continua reinando. Elas se odeiam. E eu... eu odeio as duas.
Daime ajeitou a jaqueta, olhou para o céu nublado.
— É isso que a Mãe quer — disse, com voz grave. — O caos.
Ela pega os alunos de todos os colégios e troca de lugar, só pra ver quem aguenta ficar de pé. Ela detesta filhos confortáveis.
O vento soprou forte, trazendo o cheiro de metal e terra molhada. Os dois ficaram em silêncio, olhando o horizonte cinza, enquanto o sino distante marcava o fim da tarde. Então, quase ao mesmo tempo, sem se olharem, repetiram o lema gravado na entrada da torre principal:
— O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.
O som do sino cessou. Apenas o vento continuou soprando, como se o próprio colégio respirasse antes da próxima tempestade.