Nas ruas, o trânsito era enorme. Um ônibus lotado percorria a rota da periferia até o centro, e lá estava ele: Tycho, segurando uma mochila que não podia colocar nas costas. Dentro, uma marmita da janta de ontem e um pão velho partido ao meio. No ônibus, todos estavam nervosos; passageiros gritavam com o motorista. Era apenas cinco horas da manhã.
Tycho ainda demoraria mais uma hora e meia para chegar à mecânica de eletrônica do Hefesto. Segurava firme a medalha dada por seu irmão em Ceres, lembrança de uma terra que parecia céu na terra. Cedes sua autonomia em troca da obediência a Mãe Ceres. Estava um pouco pálido, perdendo peso, decidido a sacrificar nutrição e conforto para ganhar alguns trocados em troca de liberdade.
Descobria que a liberdade fora de Ceres se paga com migalhas. A moeda era o deus dos homens que clamam por liberdade. Pagam para tê-la como uma droga viciante, que funciona sem nutrir, como macarrão instantâneo.
Uma mulher à sua frente segurava um filho no colo. Parecia preocupada; a criança tinha febre. Incrível como, naquele ambiente, qualquer resfriado se espalhava rápido, contaminando todos. Os cheiros se misturavam — perfumes cítricos, melancia, suor. Um ambiente estressante, uma amostra grátis de liberdade. Mas havia cidadãos à mercê da assistência, filhos doentes, sociedade doente, empregos doentes.
Tycho olhou para o teto: “Mãe Ceres tinha razão.” Sorriu. Sua mãe o vigiava, ou ele imaginava isso, uma esperança maior do que promessa de retorno a Ceres. Forjara uma identidade falsa — ou será que não era falsa? — e, naquele instante, imaginou um crânio rachado em duas partes. Tinha treze, quase quatorze anos. Tycho sorriu da imagem, por dentro pensou: “Este desgraçado mereceu!”
Olhando o horizonte pela janela rabiscada, leu: “Mãe Ceres, sua vadia!” Um desenho de um pênis atravessava a máscara da líder. Tycho sorriu novamente, porque vivera no céu e fora arrancado pela inveja alheia. Sentiu que inveja não é querer o que o outro tem, mas subjugar quem tem algo inferior.
Tycho se transforma. Mas tudo isso aconteceu enquanto o ônibus ainda nem saíra do ponto.
Horas depois, Tycho desceu do ônibus. Um outro jovem desceu junto, e esbarraram-se. Tycho não queria briga, mas o outro jovem falava cuspindo. Instintivamente, Tycho acertou a mochila velha, com a marmita de metal, na cabeça dele, deu um soco no olho e o apagou ali mesmo. Baixinho murmurou:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e que te soca!
Ninguém na rua parou; todos continuavam suas vidas. Afinal, tempo é dinheiro. Tycho olhou para a marmita intacta dentro da mochila e disse:
— Eu trabalho pra isso. Lutar por uma marmita metálica resistente, por tão pouco e quase nada.
Andava pelas ruas. Comerciantes começavam a abrir, ruas sujas, o cheiro de vapor e lixo misturado ao café matinal. Um homem abriu seu comércio e jogou água fria nos mendigos em frente à loja. A liberdade estava ali: o senhor queria que fosse algo inflamável, mas era só água. Os mendigos, assustados, lamentavam. Alguns choravam e gritavam:
— Por que você fez isso, cara? Eu só queria dormir! Não fiz mal a ninguém!
Homens como aquele escondem seu caráter neste sistema. Mas o verdadeiro cruel não é o sistema — ele é apenas um algoritmo da nossa mediocridade, das nossas desesperanças. O sistema garante apenas que você não morra de fome ou seja morto por alguém com mais fome que você.
Por isso, Tycho apagou o jovem da sua idade. Andava e imaginava o crânio aberto, rindo-se com deleite:
— O desgraçado merecia.
Na sua rota, Tycho atravessou pela lateral de um grafite impressionante: Mãe Ceres com as mãos estendidas, pintada em um muro de três metros de altura por trinta metros de largura. No meio, Tycho, sozinho, desejando que a Mãe o devolvesse. De frente para o grafite, a loja do Hefesto.
Tycho entrou e subiu as escadas. Era uma pequena loja no canto, especializada em consertos de rádios e eletrônicos em geral. Mas Tycho não era mais Tycho. Ali, era Alter Nomen. Retirou o crachá e bateu o ponto.
Hefesto Alencastro, dono da loja, olhou para ele:
— Bom dia, Alter.
— Bom dia, Hefesto! — sorriu, verdadeiro na aparência, mas por dentro podre.
— O cliente gostou do conserto daquele rádio antigo. É o xodó dele. Impressionado com a precisão e as peças novas que você criou.
— De nada. Foi o que dava pra fazer. As peças não existem mais.
— Conheci seu pai muito antes de morrer, naquela busca para destruir Ceres. Ele era como você: criativo, mas usou errado. — Hefesto fez uma pausa. — Tem café, se quiser, e um pão novo. Está servido.
Alter era Tycho, e o estômago roncou. Lembrou dos bolos que seu irmão guardava para ele comer quando pudesse. Recusou o café, mas disse que pegaria depois se houvesse tempo. Pilhas e pilhas de rádios esperavam conserto, até um liquidificador precisando de atenção.
Hefesto era um homem velho, 75 anos, cego de um olho. Justo, nascido num útero podre de Arcádia, trabalhava feito um condenado para pagar suas contas. As paredes da loja eram cheias de diplomas e qualificações — lápides de um talento que se tornara praga. O mercado não existe para velhos.
Havia um peixe no aquário. Às vezes, Alter limpava o tanque. O aquário era o útero podre; o peixe, Hefesto. E a limpeza feita por Alter era a ideologia de Ceres varrendo a sujeira do mundo: liberdade sem cuidado, mas ainda viva.
Hefesto pegou um lápis, o som da madeira rangendo contra o papel parecia ecoar pela loja silenciosa. Apontou, riscou linhas e começou a fazer contas. Cada cifra parecia carregar o peso do tempo.
— Recebi bastante pelo rádio que você consertou — disse, a voz firme, mas não dura. — Te dei 25% pelo serviço, e mais 5% de bônus. Esse conserto vai sustentar a loja por meses. Esse rádio estava aqui há anos. Era do xodó de um senhor que o guardava como amuleto, dado pelo pai dele durante as guerras.
Alter hesitou, recuou por instinto, mas acabou aceitando. Hefesto estava velho demais para a ganância; o mundo já havia cobrado seu preço. Não havia mais ninguém — os filhos haviam entrado para o exército de Arcádia, mergulhados nessa obsessão doentia por justiça, contra Ceres e contra Mãe Ceres.
Alter olhou em volta. O cheiro de metal queimado dos rádios, a poeira nas prateleiras, o leve cheiro do peixe no aquário — tudo parecia pulsar como lembranças distantes de Ceres. Ele perguntou, quase em voz baixa:
— E você, Hefesto, o que acha de Ceres?
O velho suspirou. Um respiro profundo, carregado de memórias e arrependimentos:
— Um sonho... um delírio. Pelo menos lá, os velhos não morrem abandonados. Têm hobbies, passatempo. Aqui, em Arcádia… agonia, desespero. Todo dia é lutar para se sustentar e ser humilhado pela vida.
Alter sorriu. Um sorriso raso, quase teatral, mas por dentro sentia o mesmo vazio que o velho descrevia:
— Amanhã será outro dia.
Hefesto olhou para ele, olhos cansados refletindo a luz do sol entrando pela janela suja da loja, entre rádios empilhados e liquidificadores esperando conserto:
— O mais próximo que tenho de filho agora é você, Alter. O resto… tem raiva. Por dez anos, namora a morte. Ou melhor, paga a prestação de um jazigo, onde quer ser enterrado. Mesmo com saúde de ferro, quer ser enterrado longe dos filhos, e nem pensa em avisá-los.
Alter baixou os olhos. Tocou a borda do aquário, limpando o vidro em movimentos precisos. O peixe nadava devagar, indiferente. O aquário era o útero podre do mundo, o peixe era Hefesto, e a limpeza que Alter fazia era a ideologia de Ceres passando por ali: liberdade limpa, mas sem cuidado. Cada rádio, cada peça, cada resíduo de pó parecia carregar ecos do céu que ele perdera.
E Alter, Tycho, sentiu no fundo: aquela loja, aquele velho, aquela rotina dura… eram o que restava de humanidade em um mundo que, fora de Ceres, cobrava a liberdade em migalhas de metal e suor.
Em meio a uma solda e outra, Alter perguntou:
— O que é jazigo?
Hefesto arqueou a sobrancelha.
— Como bom Arcadiano, você deveria saber.
Alter desconversou, lamentando:
— Não sei…
O velho riu, balançando a cabeça:
— É um lugar que compramos para sermos enterrados, de acordo com a religião. Pode ser no chão ou em gavetas, com espaço para três ou mais corpos, cada um em seu caixão de madeira. Vestimos os mortos com a melhor roupa, coroas de flores…
Alter franziu o cenho, soldando um capacitor:
— Como assim? Um caixão de madeira, um corpo dentro esperando decompor debaixo da terra ou numa gaveta, com roupa e flores? Não seria melhor a pessoa receber isso em vida?
— Exatamente! — disse Hefesto, com ironia. — E ainda paguei 30 mil por isso.
Riram juntos, o som ecoando entre rádios e liquidificadores esperando reparo.
Alter perguntou:
— Mas depois que morre, com quem fica o jazigo?
— Com os meus filhos. Fica como herança… provavelmente vão degladiar pelo pedaço de terra, ainda com meu corpo em decomposição — riram novamente.
Hefesto suspirou, olhando o aquário.
— Pelo que sei, em Ceres, os corpos viram compostagem. Crianças, jovens, adultos, velhos — transformados em adubo. O corpo morto ainda tem utilidade. É simbólico… Mãe Ceres acredita que até na morte se serve algo.
Alter ficou em silêncio, soldando capacitores, limpando uma placa de rádio e o liquidificador que esperava reparos.
— Vejo que Mãe Ceres mexe com o senhor — disse ele finalmente.
— Sim, meu querido Alter. Com certeza… Você não queria isso também?
O silêncio se alongou, entre o cheiro de metal, solda e óleo, enquanto Alter ponderava, imerso no trabalho, cada movimento preciso como quem mantém o controle sobre um mundo que Litus teima em desordenar.
Hefesto olhou para Alter, sério:
— Mais uma coisa, cuide do dinheiro que te dei. Seja esperto. Trate-o como trata sua medalha ovalada. Não fique com cara de bobo, achando que está livre da maldade do mundo. O correto é você andar assim, mas os outros não pensam assim. Cuidado. Não faça cara de trouxa, achando que a vida está ganha. Os ladrões seguem padrão; olhe para os lados, desconfie. Tem policiais na rua, mas os trouxas são os primeiros a serem roubados.
Alter assentiu:
— Vou tomar cuidado, sempre.
— Isso mesmo. Não dê mole com seu dinheiro suado. Você tem contas e fome para sustentar.
Alter olhou para o liquidificador industrial que esperava reparo. Viu seu reflexo na carcaça negra: olhos fundos, corpo magro, marcado pelo mundo que o cercava. Respirou fundo, abriu o aparelho, trocou as peças. No interior da carcaça, uma placa dizia: “Fabricado em Ceres.”
A dor da saudade apertou. Ao lado, o rádio recém-consertado trazia a mesma placa: “Feito em Ceres.” Alter engoliu o choro, sentiu como se a Mãe o chamasse, pedisse para voltar. Soltou o ar pelo nariz, tentando recuperar a compostura.
Hefesto, atento, disse:
— Tome cuidado. Tenho um remédio de gripe que fiz, um xarope que mais tarde te darei. É muito bom.
— Sim, irei tomar — respondeu Alter, em silêncio, ainda absorvendo a lembrança do que havia perdido e a responsabilidade do que ainda tinha que proteger.
Alter terminou o reparo no liquidificador e o deixou sobre o balcão. O cheiro de solda e ferro queimado enchia o ar da pequena loja. O som das ferramentas, o tique-taque de um relógio antigo e o zunido distante da cidade se misturavam numa sinfonia abafada — o ritmo da sobrevivência.
Ele lavou as mãos na pia ao fundo, a água saía marrom, escorrendo pelos dedos como se carregasse um pouco da cidade. Litus estava por toda parte — na poeira, nas frestas, na respiração.
Hefesto limpava o balcão, com calma. O movimento lento das mãos enrugadas parecia uma prece.
— Sabe, Alter — disse ele, sem erguer o rosto —, eu penso muito na utilidade das coisas. Esse rádio, esse liquidificador... tudo tem um propósito até quebrar. Depois, jogam fora. — Fez uma pausa. — Acho que a gente é igual.
Alter olhou para ele, surpreso com o tom.
— O senhor não é algo que se joga fora.
— Ah, menino... — Hefesto riu rouco. — Todos somos peças. Quando paramos de servir, o mundo troca. Eu só continuo aqui porque não sei fazer outra coisa além de consertar o que ainda tem conserto.
Alter abaixou os olhos. As palavras de Hefesto o atravessaram. Pensou em Mãe Ceres, em como lá nada era desperdiçado — nem os corpos. Lá, o fim também servia a um propósito. Aqui, o fim era apenas... fim.
Do lado de fora, uma sirene cortou o ar. Passos apressados. Gritos. Alguém foi pego roubando comida — de novo.
Alter suspirou.
— Hefesto... o senhor já pensou em ir embora daqui?
— Pra onde, meu rapaz? — O velho sorriu triste. — Fuga é coisa pra quem tem pra onde ir.
Alter secou as mãos, colocou a medalha no pescoço e ficou olhando para a rua pela vitrine da loja. O sol nascia, sujo, refletindo nos vidros rachados dos prédios.
Por um instante, ele imaginou o verde. O cheiro úmido das estufas, o som das crianças rindo nas colônias, os jardins suspensos de Ceres. A Mãe com as mãos abertas sobre o povo.
Mas a imagem se quebrou com o barulho de uma buzina.
Hefesto se aproximou, apoiando a mão no ombro dele.
— Voltar, né? — perguntou, como se lesse seus pensamentos. — Cuidado com o que deseja, Alter. Às vezes, o lugar que a gente quer voltar já não existe mais.
Alter apenas assentiu, com os olhos marejados.
A Mãe ainda o chamava — mas agora, ele não sabia se era um chamado real, ou apenas o eco de uma lembrança se desfazendo.