O refeitório ainda cheirava a café quando a confusão se formou. Era rotina do colégio militar transformar qualquer faísca em espetáculo; naquele dia não foi diferente. Theo caminhava com a bandeja na mão, passos medidos, olhar fixo no prato, quando uma onda de vozes o atravessou. O salão abriu-se como se abrisse uma cortina: todos se moviam em direção ao corredor, empurrando cadeiras, rindo com aquela fome de revanche que só as escolas têm.
Dark estava lá, parado como um animal atento. A cicatriz no lábio ainda lembrava a briga anterior — a que o deixara hospitalizado por dias — e havia nos olhos dele uma coisa feroz, de quem gostou da dor infligida e quer repeti-la. Ao lado dele, Dru fazia a figura de guardião: alto, impassível, mas pronto para intervir se a situação saísse do controle. O corredor, estreito, foi fechado dos dois lados; um túnel de corpos e vozes.
— O que você quer? — Theo perguntou sem levantar a bandeja. A voz era curta, contida, como um aviso.
— Ver você perder o controle — Dark respondeu, com um sorriso que cortava. — Foi dolorido, mas delicioso. Ver como você é de verdade. Igual a mim. Não esse fantoche de líder pomposo que todo mundo adora fingir que respeita.
Theo respirou fundo, as mãos firmes. — Não vou me permitir.
— Fiquei sabendo que apanhou da vadia da Ceres — cutucou Dark, sorrindo com veneno. — Vocês se merecem.
A menção incendiou o corredor. Alguém gritou, outros riram. Dru avançou, a voz baixa mas firme:
— Dark, esquece. Vamo embora.
— Calma, docinho — Dark fingiu afeto, língua afiada. — Vim só provocar um pouco. Hoje não tem luta. Embora eu tenha atacado pessoalmente— e sim, foi do teu irmão — foi cruel, confesso. Mas nem preciso repetir; sua cara denuncia, e isso te tira do sério.
Theo olhou para ele rente, tentando traduzir em silêncio a raiva que fervilhava. Era uma dança antiga: provocação, controle, ameaça. Ele não queria o confronto que todos queriam ver.
— O que você quer? — Theo repetiu, agora com menos paciência.
— Nada — Dark encolheu os ombros, como se estivesse entediado de si mesmo. — Só lubridiando a cabeça desses idiotas aqui. Ah, e dizem que os silenciadores estão chegando... — riu, alto, como se fosse a melhor piada do mundo.
A piada morreu quando o vão do corredor se abriu. Os silenciadores entraram com passos serenos, sem truculência, e o efeito era o mesmo de uma ordem: o burburinho cessou, as pessoas recuaram, o corredor ganhou espaço como um altar. De trás deles surgiu Amós, lento, impecável em seu uniforme cinza-escuro. O sorriso dele era de quem olha crianças aprontando.
— Será que virei babá desses fedelhos? — disse Amós, a voz bronzeada de desprezo e divertimento. — Não é o primeiro em meses.
Os jovens se encolheram diante do comando implícito. Amós fez um gesto que não precisava de mãos.
— Sigam-me. Mãe Ceres quer vê-los.
E assim, sem escândalo, como se todos fossem peças obedientes ao toque de um maestro, o corredor se abriu para conduzi-los — Theo à frente, Dark com o peito ainda quente da provocação, e Dru observando, tenso. A plateia se desfez, deixando no ar a expectativa de que algo — uma lição, uma humilhação, uma ordem — iria acontecer sob os olhos da cidade.
A estação de carga ao sul do colégio fervia em silêncio. Vagões alinhados como costelas de ferro, cheiro de óleo e grãos misturados, o trem recém-abastecido pronto para retornar à cidade. Era ali que terminava a disciplina e começava o que Mãe Ceres chamava de “reeducação prática”.
Theo caminhava ao lado dos silenciadores, as botas batendo em cadência sobre o piso metálico. Dark vinha logo atrás, com o mesmo ar provocador de sempre, mas agora mudo, como se a presença dos guardas fosse uma cerca elétrica. O som dos trilhos ainda não soava, e aquele silêncio antes da partida parecia ter um peso próprio.
Amós vinha logo atrás deles, mãos nos bolsos, expressão calma demais para a tensão que pairava. Sabia bem o que se passava entre os dois — o ódio mútuo, a rivalidade antiga, a forma como se espelhavam um no outro. Cérebro e fígado, pensava ele, dois cães de chumbo prontos para se devorar.
— Entrem — disse, quando o trem abriu as portas.
Os dois obedeceram.
Amós, antes de fechar o vagão, lançou o comentário com a voz preguiçosa, mas afiada:
— Quando um não quer, dois não brigam.
O vagão era estreito, janelas lacradas, bancos de madeira fria. O som da porta se trancando ecoou como um veredito. Ficariam ali por quase uma hora e meia, sem contato, sem vista, apenas o som do trem cortando o vento. Theo sentou-se no fundo, Dark na frente — distância suficiente para o ódio amadurecer em silêncio.
Amós seguiu para outro vagão, acompanhado dos silenciadores. Abriu sua pasta de couro negro codificada e espalhou os relatórios sobre a mesa dobrável. Fotos, anotações, registros de comportamento. Theo. Dark. Perfis distintos, mas idênticos na essência.
— Vocês me divertem — murmurou, rindo baixo.
Dentro da pasta, um livro confiscado, de capa gasta: Força Bruta — Comunicação Não Violenta.
O contraste fez Amós gargalhar.
— Estes garotos são violentos demais — comentou, folheando as páginas como quem lê poesia.
Enquanto isso, o trem avançava, o som das rodas em choque constante com os trilhos, como martelos de paciência. Theo mantinha o olhar fixo na parede à frente, tentando não pensar em Dark, mas sentia sua presença como um campo magnético. Dark tamborilava os dedos, provocando o silêncio como se quisesse desafiá-lo.
A viagem se tornou um experimento involuntário. Por vezes, bastava um ruído — uma respiração mais alta, um movimento brusco — para que o instinto de matar piscasse em ambos. Nenhuma palavra foi dita, mas a tensão respirava por eles.
Amós sabia o que estava fazendo. Não queria ordem, nem redenção. Queria ver qual dos dois sangraria primeiro. Um teste de força bruta.
Um sadismo calculado.
Era assim que ele aproveitava o sistema — transformando cada missão em um pequeno espetáculo da natureza humana, onde a obediência e a violência dançavam juntas, até se confundirem.
A Torre de Mãe Ceres era um cilindro de vidro e aço que atravessava as nuvens. Dali, a cidade se abria como um organismo vivo — os trilhos, as cúpulas, as fileiras de colégios e fábricas pareciam pulsar sob a luz dourada da manhã.
No centro, Mãe Ceres observava tudo de pé, vestida com seu traje branco imaculado, como se a pureza fosse parte da arquitetura.
— Meus filhos... meus favoritos — disse ela, com voz que soava entre carinho e censura. — Sabem por quê? Porque deposito ambições gigantes em vocês.
Theo e Dark permaneceram em silêncio. A lembrança da última briga ainda pairava entre eles — o sangue, o desmaio, a humilhação.
— Esperei Dark se recuperar... e você, Theo — prosseguiu Mãe Ceres —, como pôde quase matar seu irmão?
Levantou a mão antes que ele respondesse.
— Não diga nada. Eu entendo.
Ela deu um passo adiante e fixou o olhar em Theo, que sustentou a tensão como um soldado diante do veredito.
— Que fique sabendo por mim... o corpo encontrado em Arcádia não é de seu irmão.
Theo estremeceu. O alívio veio disfarçado de fôlego contido. Mãe Ceres observou cada microgesto como quem lê uma equação.
— Não é uma promessa de que esteja vivo — continuou —, mas é uma esperança. Eu também clamo pela vida de meu filho.
Virou-se lentamente para o horizonte.
— Depois do ataque e do sequestro dos meus, aprendi que posso ter milhares de filhos... mas poucos têm propósito.
Ela se virou novamente, a sombra da torre projetando-se sobre os dois.
— Theo e Dark... cérebro e fígado. O cálculo e o instinto.
Fez uma pausa e apontou para Dark.
— Saia.
Dark esboçou um sorriso torto. Saiu com o mesmo ar insolente com que entrara, quase orgulhoso. Sabia que Mãe Ceres não o punia mais: ela o compreendia, e isso o bastava.
Quando a porta se fechou, restaram apenas Theo e Mãe Ceres.
— Sei da sua relação doentia com Ceres — disse ela, sem rodeios. — Sei de coisas muito íntimas entre vocês dois.
Theo baixou os olhos, sem saber se aquilo era acusação ou confissão compartilhada.
— Que bom — continuou ela, com calma quase maternal. — Tenho ambições para vocês dois.
Andou em círculo, os passos ecoando na superfície metálica.
— É óbvio que você sabe de sua origem... e de quem é o pai dela.
Theo manteve o rosto impassível, mas o sangue gelou-lhe as veias.
— Pedirei dois favores — disse Mãe Ceres. — Um, você imagina. O outro... é pela evolução de nosso povo.
Ela se aproximou até que os olhos dela refletissem os dele.
— Quanto ao seu irmão mais velho, o major Tomas... não quero que ele saiba que o caçula está desaparecido. A missão dele é absoluta. Não há necessidade de distrações.
Theo assentiu. No silêncio, algo mudou no ar — uma vibração leve, como um campo magnético. Ele ergueu a cabeça.
— Mãe... — murmurou, desconfiado. — Há alguém aqui.
Mãe Ceres sorriu, um sorriso cheio de mistério.
— É o anjo de Ceres, meu filho.
Das sombras do salão, emergiu uma figura — passos silenciosos, roupa cinza-escura, pele branca quase translúcida. Os cabelos desciam como fios de gelo e os olhos ardiam em vermelho vivo.
Koee.
Theo recuou um passo, mas reconheceu-a. A mulher que dera o próprio sangue para que Daime voltasse a andar. Ajoelhou-se, instintivamente.
— Mãe — disse Koee, com voz firme. — É ele.
Theo levantou o olhar, confuso.
Mãe Ceres pousou a mão sobre o ombro dele.
— Sim. Ele é o Oito. O jogador número oito do Flagball.
Koee sorriu, e naquele sorriso havia algo de julgamento e de promessa.
— Quero que conversem — disse Mãe Ceres, recuando para a penumbra. — Eu me retiro.
Virou-se uma última vez para Theo.
— E, por favor, respeito com essa mocinha.
A torre respirava luz e silêncio. Theo subiu os degraus com passos pesados, o corpo ainda latejando da tensão, mas a mente suspensa num vazio estranho — a primeira vez em anos que não fora punido. Nenhuma cela, nenhum sermão. Apenas a voz calma de Mãe Ceres, dizendo para que ficasse. E agora, ali, entre o vidro e o vento, o mundo se abria em todas as direções.
Koee estava diante da janela panorâmica, imóvel como se esperasse o nascer de um deus. O cabelo branco se movia com a corrente de ar que atravessava a sala. Quando Theo se aproximou, ela não se virou de imediato — parecia sentir o ar mudar. Só então disse, suave:
— Eu te reconheci... lá de baixo.
Theo franziu o cenho. — Reconheceu?
— Sim. Não sei quando, nem onde. Mas já te vi, de algum modo. — Ela o olhou, e seus olhos vermelhos vibraram como se contivessem ecos de algo antigo.
Theo desviou o olhar, tentando entender. Estava ali, sozinho com ela, no alto da torre onde o vento parecia cantar o nome da cidade. Era a primeira vez que se sentia assim — sem a armadura, sem o peso de ser exemplo, sem o ódio de Dark rondando-lhe o corpo como sombra.
Koee deu um pequeno sorriso. — O que você faz, quando não está... espancando concorrentes à liderança do colégio?
Theo quase riu. — Tento sobreviver. E me manter em alerta. Sempre.
— Por quê? — perguntou ela, genuinamente curiosa.
Ele respondeu como se recitasse algo sagrado:
— O mundo está constantemente em guerra; e a paz é apenas um acidente.
Koee repetiu as palavras em voz baixa, como quem degusta uma verdade amarga. — É o lema de Ceres.
Theo assentiu.
Ela se virou completamente, agora de frente para ele. — Eu amo Mãe Ceres — disse. — Ela nos alimenta, nos educa... e nos devora.
Ele completou, quase num sussurro: — Nos devora.
Por um instante, ficaram em silêncio. A cidade se movia lá embaixo — ruas em ordem, colunas de luz, a cadência de um organismo vivo. Tudo pulsava em harmonia, e ainda assim Theo percebia o caos sob a superfície.
— Lá de cima — disse ele, olhando pela vidraça — tudo parece menor. O caos continua, mas... não está em mim. Aqui, o barulho se dissolve. O que sobra é só... silêncio.
Koee o observou com ternura contida. — Então é isso o que você sente quando baixa a guarda.
Theo desviou o olhar, envergonhado da própria calma.
Ela deu um passo à frente, até ficar ao lado dele. — Você realmente não lembra, não é?
— Do quê?
Koee suspirou, e um leve tremor cruzou sua voz:
— De onde a gente se conhece.
O vento soprou pelas aberturas da torre. Por um segundo, Theo pensou ouvir um som longínquo, um chamado — talvez da própria cidade, talvez de algo dentro dele. Ficaram lado a lado, encarando Ceres lá embaixo, onde tudo funcionava com perfeição mecânica, indiferente ao que eles sentiam.
E naquele instante, sem entender por quê, Theo sentiu que a guerra tinha dado uma trégua — não no mundo, mas dentro dele.
Pela primeira vez em muito tempo, Theo estava perto de alguém que não era Ceres.
E percebeu, em silêncio, o contraste inevitável: Ceres era a tempestade — ardente, imprevisível, consumidora. Koee, por outro lado, era a brisa leve antes da chuva, o sopro que acalma, o silêncio que antecede o estrondo.
Mas aquela sensação não era conforto. Era apenas um refúgio breve, um abrigo improvisado no meio da guerra. Talvez uma dessas “pazes acidentais” que tanto repetiam no lema da cidade.
Koee o observava, o olhar curioso e calmo, quase infantil.
— Tenho certeza de que já nos conhecemos — insistiu, com um sorriso paciente.
Theo tentou rir. — Eu realmente não me lembro.
— Se eu te desafiar, talvez lembre — disse ela, num tom suave demais para soar como provocação.
Ele franziu o cenho. — Enfrentar você? Não. Seria desrespeito...
— Por quê?
— Porque você vive com Mãe Ceres. Não vou lutar com uma deusa.
Koee sorriu de canto, com algo de travessura. — Se lutarmos aqui, você vai se lembrar.
Theo desviou o olhar, tentando encerrar o assunto. — Eu não quero medir forças com ninguém hoje.
Mas Koee deu um passo à frente, séria, confiante, ainda sorridente — não havia malícia, apenas certeza.
O gesto seguinte foi rápido demais para que Theo o previsse: ela avançou, o corpo leve como se o vento a empurrasse, e tentou golpeá-lo. Theo desviou no reflexo, surpreso com a velocidade.
Koee continuou, atacando com precisão e suavidade. Os movimentos eram firmes, mas não agressivos — havia graça no gesto, como se dançasse. Theo apenas se esquivava, medindo cada movimento, até que não resistiu e comentou entre um desvio e outro:
— Eu não vou bater numa mocinha. Mãe Ceres mandou cuidar de você.
Koee riu, e o som foi breve e vivo. Então acelerou.
Os golpes se tornaram rápidos, leves, quase brincadeira. Palmas abertas batendo contra o ar, um som seco de carne e vento. Ela acertava Theo de raspão, tocando-o só o suficiente para desestabilizá-lo, e a cada toque, um gemido escapava de seus lábios — um som suave, quase musical.
Theo começou a perceber esses sons. Eram familiares. Algo nele reagia, uma memória antiga presa ao corpo. Koee atacava, e ele desviava, rindo sem entender por que aquilo lhe parecia tão íntimo.
A brincadeira virou ritmo. O ar parecia vibrar entre os dois. E então, num golpe rápido, Koee girou o corpo e o derrubou com uma rasteira perfeita. Theo caiu, exausto, mas rindo.
Koee se aproximou, estendeu-lhe a mão. — Está tudo bem? — perguntou, ofegante.
Theo olhou para ela e, por um instante, viu outra coisa.
Os sons, o ritmo, o movimento — e a lembrança emergiu com clareza brutal: o jogo de flagball, o campo de Ceres, o jogador mais veloz do torneio, aquele que fez Ceres sangrar no campo.
Os mesmos gemidos. O mesmo ritmo.
Koee.
Ele sorriu, ainda no chão, com o espanto de quem acaba de resolver um mistério. Ela também sorriu, percebendo que ele enfim lembrara.
Koee se ajoelhou, inclinando-se até que o rosto quase tocasse o dele.
— É você... — murmurou, os olhos vermelhos brilhando.
Não havia paixão ali, nem desejo. Havia reconhecimento — uma conexão que não cabia em palavras, algo entre alma e memória.
Theo ficou quieto.
Enquanto ela o ajudava a se levantar, olhou-a de novo e, sem querer, comparou.
Ceres era o fogo, o caos que devora.
Koee era o vento, o sopro que resta depois que tudo arde.
E Theo entendeu, por um instante raro, que entre guerra e paz existe apenas um fio — e que ambos, talvez, estavam destinados a caminhar sobre ele.
Da torre mais alta, Mãe Ceres observava as telas se acenderem em tons azulados.
Nada escapava àquele olhar que era humano e máquina. Theo e Koee surgiam na imagem — duas silhuetas frente ao horizonte de vidro.
Ela aumentou o volume, o suficiente para ouvir o som dos corpos deslizando no ar, os golpes suaves, os risos.
— Bonito… — murmurou, apoiando o queixo sobre as mãos. — Eles se reconhecem.
Naquele instante, entendeu que o plano estava funcionando.
Koee era o primeiro favor: o elo perdido entre a origem e o futuro, a prova viva de que o sangue de Ceres podia ser aperfeiçoado.
Ceres, a garota, era o segundo — o corpo, a herdeira, o ventre que perpetuaria a cidade.
Theo seria o eixo.
O coração entre as duas.
O sacrifício que ela sempre esperou.
Mãe Ceres inclinou-se na cadeira, os olhos refletindo a imagem dos dois na tela — Theo, caído no chão, Koee oferecendo a mão.
Havia ternura naquele gesto, e isso a irritava um pouco.
— Cuidado, Koee… — disse baixo, como se pudesse ser ouvida. — Ele ainda não entendeu o que você é.
Por um momento, pareceu cansada. O rosto perfeito se tornou severo, os lábios finos, a voz quase um sussurro.
— Meus filhos são minhas guerras. Todos eles. Uns lutam por mim, outros contra mim. Mas no fim... todos voltam para o meu ventre.
Ela desligou as telas, mergulhou o andar inteiro em silêncio e olhou para o chão translúcido da torre, onde via a cidade pulsando como um organismo vivo.
O lema ecoou nela como uma oração particular:
“O mundo está em guerra; e a paz é apenas um acidente.”
Sorriu, amarga.
Koee e Ceres. Duas faces da mesma obediência.
Theo — o filho que não percebeu que o amor de sua Mãe era, antes de tudo, uma forma de controle.
— Dois favores, um destino — sussurrou. — E eu, que alimento, educo e devoro.
Mãe Ceres ficou só na sala, diante do painel translúcido que refletia o movimento das nuvens.
Na tela, Theo e Koee ainda conversavam, os rostos iluminados pela luz branca que entrava pelas janelas da torre.
Por alguns segundos, ela apenas os observou — uma mãe vendo dois filhos que não sabiam que faziam parte do mesmo cálculo.
O rosto dela não mostrava afeto, mas uma serenidade que nascia da certeza.
A cidade abaixo parecia viva, respirando com o mesmo ritmo que ela.
Um fluxo, uma corrente, tudo em harmonia.
— São jovens ainda... — disse para si. — Ingênuos demais para compreenderem o que carregam.
Deu meio sorriso e voltou-se para o espelho negro do chão, onde podia ver seu próprio reflexo.
— Dois caminhos... — murmurou. — Um favor... cada um. Mas não agora. Ainda não.
A voz dela saiu como se fosse vento, quase doce:
— Cresçam, meus filhos. Que o amor ensine a obediência. Que a liberdade ensine o medo. E que o medo, um dia, traga vocês de volta a mim.
Silêncio.
A torre pareceu suspirar junto com ela.
Mãe Ceres fechou os olhos e repetiu o mantra que ecoava pelos corredores da cidade:
“Eu alimento, educo e devoro.”
Theo observava Koee com curiosidade contida, ainda se acostumando com a presença dela sem a rigidez de Mãe Ceres ou a tensão do colégio militar. O sol refletia nas janelas da torre, espalhando faixas de luz pelo piso metálico, iluminando o cabelo branco dela e fazendo os olhos vermelhos parecerem pequenas chamas.
— Onde você mora? — Koee perguntou, a voz suave, quase brincando com a atenção dele.
— Num colégio bem ao leste, perto das fronteiras de Silencium e Arcádia — respondeu Theo, apontando mentalmente para o horizonte. — Entre campos de trigo, soja e milho, com tratores, irrigação… e logo em frente, um campo de flores.
Koee inclinou a cabeça, curiosa, sorrindo. — Quem plantou?
— Cora. — Theo disse com naturalidade. — Ela cuida de cães e gatos abandonados e soltos nos campos.
— E eles comem? — Koee perguntou, franzindo levemente a testa, quase como se tentasse medir o mundo pelo cuidado com os pequenos.
— Nunca ouvi falar que cães, gatos… ou ratos nunca morrem de fome em Ceres — respondeu Theo, com um sorriso discreto.
Koee riu. Um som leve, inesperado. — Um dia quero conhecer o seu colégio. Quando puder.
Theo olhou para ela, e por um instante, a confusão que sentira na torre cedeu a algo próximo de calma. Não era conforto, não era refúgio de guerra, apenas… uma brisa leve, diferente do turbilhão que sentia com a garota Ceres. Uma tempestade contra uma brisa.
Ela sorriu de novo, e Theo percebeu que, sem perceber, começava a comparar: uma é a tempestade que consome, a outra, a brisa que deixa respirar. E, por mais estranho que fosse, ele sentiu-se grato por poder reconhecer a diferença sem medo, sem culpa.
Koee permaneceu perto dele, mas sem invadir, como se respeitasse um espaço que Theo ainda não sabia que podia existir. E naquele instante, em meio à torre 360, à cidade de Ceres pulsando abaixo deles, ambos sabiam algo que não precisavam dizer em voz alta: aquele momento de amizade, de curiosidade, de reconhecimento mútuo, era uma pequena vitória de humanidade em meio à lógica brutal que os cercava.