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A Autópsia da Liberdade - Parte 3 final

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Mais Tarde no Ginasio das Piscina O vapor da piscina subia devagar, como um véu flutuante sobre a superfície azulada. As luzes frias do teto refletiam na água e recortavam os rostos das poucas…

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Mais Tarde no Ginasio das Piscina

O vapor da piscina subia devagar, como um véu flutuante sobre a superfície azulada. As luzes frias do teto refletiam na água e recortavam os rostos das poucas alunas que restavam ali.

Ceres boiava na beira, sem olhar para ninguém. As gotas escorriam dos cabelos até o queixo, e o cloro ardia em seus olhos. Ana nadava do outro lado, focada, como se o simples som do mergulho pudesse apagar a presença uma da outra. Nenhuma das duas trocava palavras.
Gris, já fora da piscina, alongava as pernas, os músculos firmes e tensos, mas Ceres nem a via.

O pensamento estava longe, preso na lembrança de Theo e do bolo dividido.
Ele sempre fora cuidadoso — com tudo. Com as armas, com os relatórios, com as palavras. Até quando a provocava, havia gentileza no tom. Era esse cuidado que mais a irritava.

Theo não era seu inimigo, e talvez por isso ela o odiasse tanto.
Gostava de controlá-lo porque ele carregava o mesmo nome de Mãe Ceres. E vencer Theo, de algum modo, era como desafiar a própria Mãe.

Ela murmurou para si mesma, olhando o reflexo na água:
— Aquele desgraçado… sempre tenta me dominar, aquele filho da puta.

O som ecoou leve no ginásio vazio. Ninguém respondeu.

Mais tarde, o toque de recolher se aproximava. O relógio marcava pouco antes das sete. Ceres tentou dormir cedo — o corpo exausto, a mente em torvelinho. Virou-se na cama, uma, duas, dez vezes. Não adiantava. A lembrança do olhar dele voltava como febre.

Levantou, vestiu o agasalho e saiu sem fazer ruído. As luzes do corredor piscavam em intervalos regulares, e o chão frio parecia vibrar sob seus pés.

O ginásio das piscinas estava silencioso, vazio — ou quase.
Theo estava lá, sentado à beira da água, as pernas mergulhadas até os joelhos. A luz líquida refletia no rosto dele, e o cheiro de cloro tomava o ar.

Ceres parou na entrada. Por um instante pensou em voltar, mas ficou.
Theo percebeu sua presença, mas não se virou.

Ela se aproximou em passos lentos e sentou-se ao lado dele, sem tocar.
Ficaram assim — dois corpos imóveis, duas órbitas distintas girando em silêncio.

Theo quebrou a quietude com a voz baixa, quase um sussurro:
— Mãe Ceres me disse que… não era o corpo de Tycho.

Ceres respirou fundo.
— O quê?

Theo manteve o olhar fixo na água.
— Ele deve estar vivo. Perdido em Arcádia.

As ondas leves tocaram o reflexo dos dois — e, por um instante, Ceres viu nela não a própria imagem, mas a sombra de um menino sorrindo, segurando um bolo embrulhado em papel marrom.

O relógio marcou sete horas.
As luzes do colégio piscaram uma única vez, como se o ar prendesse a respiração. Então, dos alto-falantes espalhados por Ceres, ecoou a VOZ DA MÃE — a VOZ DE CERES.

Um acorde suave antecedeu o anúncio. Era o canto de Assum, a mãe de Ceres. Uma melodia que flutuava entre o riso e o lamento, entre a ternura e o aço. A voz parecia antiga e viva ao mesmo tempo, como se atravessasse a cidade inteira e repousasse sobre cada ouvido.

— Boa noite, filhos e filhas de Ceres...

Ceres, a menina, estremeceu.
O som da voz materna atravessou-a como uma lâmina quente.
Sem resistir, começou a chorar — não um choro contido, mas um soluço antigo, profundo, que vinha das memórias e da saudade.

Theo, ainda sentado à beira da piscina, puxou-a para junto de si.
Ela tombou sobre o peito dele como uma criança ferida, e ele a envolveu com os braços, sem dizer palavra alguma.
Não havia o que dizer.
O corpo dela tremia, a respiração irregular, e as lágrimas desciam salgadas até o ombro de Theo.

Ali, no reflexo da água, a garota mais forte de Ceres parecia quebrada.
A líder, a soldada, a filha perfeita da Mãe… agora era apenas uma menina que ouvia a própria mãe cantar.

Theo olhou-a, tocou seu rosto e secou os olhos azuis com a ponta dos dedos.
Não havia raiva, nem desafio. Apenas silêncio e compreensão.

Em pensamento, ele falou consigo mesmo:

“Como alguém assim sente tanto e não diz nada?
Tudo o que ela é está nos olhos. Mas por que não diz o que sente?
Cada palavra minha parece feri-la, e ainda assim, quando a toco, ela se abre.
Diz que não sei nada sobre ela… mas como posso saber, se ela não me deixa perguntar?”

Theo lembrava-se dos pêssegos — da doçura breve, da fruta madura e do tempo que corrói tudo.

“Ceres trata os sentimentos como ouro sagrado…
mas pra mim eles são frutas.
E frutas apodrecem se guardadas demais.
O que você vai fazer, Ceres, quando envelhecer?
Vai levar tudo com você? Vai deixar tudo apodrecer junto?”

Ceres, ainda nos braços dele, ergueu a mão e deslizou os dedos pelos cabelos de Theo. Tocou a mecha branca que espelhava a sua. Um gesto leve, quase reverente.

Theo entendeu, enfim.
Ali, naquele instante, o jogo da Mãe havia começado de verdade.
Não havia saída.
E se não havia saída — a única escolha era aumentar a entrada.

O teatro estava armado.
Os dois favores que a Mãe exigia agora faziam sentido.
Dark seria a fúria dela sobre Arcádia. E Theo…
Theo seria o ferro, o instrumento, o filho obediente.

A alma dele, antes humana, começou a endurecer.
O chumbo corria por seus poros, subia pelas veias, alcançava o coração.

Quando o anúncio terminou, a voz doce de Assum entoou o lema de Ceres — e Theo o repetiu em voz baixa, com o peso de quem sela um pacto:

— O mundo está constantemente em guerra;
a paz é apenas um acidente.
A sobrevivência vem acima da liberdade.
Mãe Ceres que nos alimenta, educa… e nos devora.

O eco dessas palavras se misturou ao som distante dos alto-falantes.
A água da piscina permaneceu imóvel, refletindo apenas os rostos dos dois — um rosto de carne, outro de chumbo.


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