O refeitório do colégio militar do leste respirava como uma máquina viva. O som dos talheres batendo no alumínio se misturava ao cheiro de pão quente e desinfetante. Cada aluno movia-se em sincronia, como engrenagens de uma rotina sem falhas — mastigar, engolir, levantar, repetir.
Dark, encostado na parede de vidro que dava para o pátio, ria sozinho, zombando de tudo e de todos. Ele passou a mão pelo saco e mostrou para Theo, num gesto rude e provocador. Theo ergueu apenas o canto da boca — um riso de desprezo que dizia mais que qualquer palavra.
Ana, algumas mesas adiante, olhou para Daime, bocejando.
— Você é um idiota. — Mostrou a língua antes de rir.
Daime apenas balançou a cabeça, sorrindo.
— Cresce, Ana.
Ceres entrou no refeitório em silêncio, bandeja nas mãos, o semblante fechado. Caminhou até uma mesa vazia, isolada, como sempre. Não queria olhar para Theo — nem de longe. Era a forma dela de existir: se proteger fingindo indiferença. Daime observou e riu.
— Cara de poucos amigos. — murmurou para si mesmo.
Enquanto isso, Gris e Kan conversavam sobre a aliança, ignorando o mundo ao redor. Para eles, nada existia além da lógica política e dos números.
Dru surgiu do nada. Deslizou entre as mesas e sentou-se ao lado de Dark com um sorriso enviesado.
— Bom dia, guerreiro. — sussurrou, passando um pequeno embrulho por baixo da mesa.
Dark pegou o pacote sem olhar. Dru fingiu afeto; ele fingiu acreditar. Entre os dois, a mentira era o idioma mais natural. Ela vendia tudo o que pudesse enganar o tempo: bottons, pílulas, relíquias, memórias. Mãe Ceres a amava por isso — porque cada ilusão vendida era mais uma célula alimentando o corpo da ordem.
Daime atravessou o salão e sentou-se diante de Theo, que comia em silêncio.
— E aí, cara — disse ele, apoiando os cotovelos na mesa —, o que os caras queriam ontem? Os silenciadores levaram você e o Dark, e hoje vocês estão com essa cara de quem dormiu juntos. Dois animais! Deviam era se engalfinhar, não cochilar. Se beijaram, foi? Dormiram de coxinha? Eu pensei que seria o primeiro homem a dormir com você!
Theo soltou uma risada seca.
— Que bom, cara, tem que rir mesmo — continuou Daime, rindo junto. — Tá tudo calmo demais por aqui. E você sabe: a paz é só um acidente.
Theo baixou os olhos.
— O corpo encontrado ontem… não é do Tycho.
Daime piscou, surpreso. Depois sorriu largo.
— Eu sabia! Aquele desgraçado é foda. Sabia o manual de sobrevivência de cabo a rabo. Tá vivo, eu sinto. Meu palpite é forte.
Theo olhou para ele, curioso.
— E as suas pernas?
Daime riu, inclinando-se para trás.
— Engraçadinho. Quase ri. Mas falando nisso… tenho uma coisa pra te contar.
Theo arqueou a sobrancelha.
— Diz aí.
— Boa por cima, irmão — respondeu Daime, abaixando o tom. — Coisa grande. Daquelas que mudam tudo.
O som dos talheres voltou a dominar o ambiente, o murmúrio das vozes se dissolvendo como fumaça. Tudo no colégio parecia seguir um roteiro invisível, e ninguém percebia que a liberdade já estava sobre a mesa — aberta, dissecada, estudada.
Era a autópsia em andamento.
E todos ali eram o corpo.
Daime se inclinou sobre a mesa, com um brilho travesso nos olhos.
— Ontem à noite eu fui dar um cagão forte...
Theo arqueou a sobrancelha.
— Cara, você me chama atenção pra isso?
Ambos começaram a rir, sem conseguir conter o riso. Daime tentou continuar, mas a própria risada o traía.
— Deixa o pai falar, é sério! — disse ele, entre gargalhadas.
Theo balançou a cabeça, negando, mas ainda rindo. A gargalhada dos dois ecoou pelo refeitório, chamando olhares curiosos. Ceres, do outro lado, ergueu o rosto por um instante, intrigada com o motivo daquilo tudo.
— Brincadeira — disse Daime, disfarçando o riso. — Falei isso só pra chamar a atenção da Ceres.
Theo explodiu de novo, rindo alto.
— Você é um imbecil, cara.
Daime também riu, tentando recuperar o ar. Mas depois voltou a um tom mais sério — o tipo de seriedade que ninguém levava a sério.
— Ontem à noite eu fui dar um cagão forte...
Theo quase cuspiu o café.
— Você já disse isso!
Ambos voltaram a rir, rindo de si mesmos, rindo da repetição.
Daime limpou os olhos com as costas da mão e continuou:
— Mas é sério. Eu fui correndo pro banheiro, me aliviei, cara. Melhor sensação do mundo.
Theo apoiou a cabeça na mão.
— Eu não sei como ainda te escuto.
— Pera, não acabou. — Daime bateu no tampo da mesa. — Quando saí, percebi que tava correndo... sem as muletas.
Theo o olhou, surpreso.
— Daime... você tá sem as muletas!
Os dois se levantaram quase ao mesmo tempo. O abraço veio natural, apertado, genuíno. Um instante de verdade no meio da rotina militar.
— Cara — disse Daime, com a voz embargada —, esse abraço me emocionou. Se eu tiver que escolher um cara pra dormir comigo, é você, tá?
Theo riu, empurrando o amigo pelos ombros.
— Sério isso?
— Claro que não, nem fudendo! — retrucou Daime, gargalhando. — Prefiro gastar minha piaba com a Ana!
Os dois riram alto mais uma vez, o tipo de riso que o sistema não podia controlar.
E, por alguns segundos, entre a disciplina e o destino, existia apenas aquilo: dois garotos rindo da própria humanidade, antes que Mãe Ceres os lembrasse do preço da liberdade.
Ceres observava de longe, com o copo de leite ainda na mão. Fingiu desinteresse, mas seus olhos permaneceram presos nos dois. Theo ria com Daime de um jeito que ela nunca tinha visto — leve, quase infantil. Aquilo a irritava.
“Idiotas”, pensou, levando o copo aos lábios sem beber. A risada dos dois ainda ecoava. Ela virou o rosto, mas sentia o peito apertar — não de amor, mas de uma inquietação que não sabia nomear.
Ana, que percebia tudo, cutucou Daime com o cotovelo quando ele voltou à mesa.
— Vocês dois pareciam apaixonados, viu?
— É inveja — respondeu Daime, piscando. — O amor de macho é mais puro, sem compromisso, sem dor de cabeça.
Ana rolou os olhos.
— Ah, sim... até o dia que o macho te engravidar.
Theo, que ouvia de longe, soltou outra risada curta. Ceres desviou o olhar de novo.
O refeitório foi esvaziando aos poucos, as bandejas empilhadas, o som dos talheres cessando. Mas o clima leve deixado por aquela conversa permanecia — uma trégua breve entre as paredes austeras de Ceres.
No entanto, a Mãe sempre observa.
Theo sentiu o olhar dela antes mesmo de perceber. Um arrepio subiu-lhe pela nuca. O riso cessou. Olhou em volta — apenas o reflexo metálico das janelas e a brisa fria entrando pelos dutos de ventilação.
Ceres passava pelo corredor quando cruzou o olhar com ele. Nenhuma palavra. Apenas aquele silêncio que parecia carregar uma promessa — ou uma sentença.
Theo pensou em chamar, mas sabia que seria inútil. Ela era o tipo de pessoa que se alimentava da própria distância.
“Um dia”, pensou. “Um dia, talvez ela entenda.”
Mas ele mesmo não entendia.
Theo a encontrou no pátio interno, sentada no banco de concreto sob a sombra das torres de vigilância. Ceres olhava o chão, os olhos fixos em nada.
— Ceres... — ele chamou.
Ela não respondeu. Só o som distante das máquinas de irrigação ao longe.
— Eu sei por que você anda se afastando — disse ele, aproximando-se. — Mas eu não vim discutir, só quero entender.
Ceres respirou fundo, tensa.
— Você quer entender o quê? Você só me procura quando precisa de algo.
Theo se calou. Ela tinha razão. Ainda assim, ficou.
— Então me diz — ele insistiu. — O que você sente?
Ceres ergueu os olhos, e por um instante parecia que diria algo. Mas a voz não veio. Só o tremor leve nos lábios.
— Não sabe responder? — Theo perguntou, baixo.
— Eu... não sei — ela murmurou, desviando o olhar. — Quando você aparece, parece que tudo dentro de mim desaba. E eu odeio isso.
Theo se aproximou um passo.
— Eu fico confuso com as agressões, com esse seu jeito... Eu não sei lidar com você, Ceres.
Ela levantou as mãos, como quem se defende de algo invisível.
— Então não chega perto.
— Mas eu não consigo — ele respondeu, quase num sussurro. — Eu não consigo ler pensamentos, mas cada vez que olho pra você... parece que dói.
Os olhos de Ceres vacilaram. Havia raiva, mas também medo.
— Dói?
— Dói — disse Theo. — E não é medo, nem culpa. É como se... até o que é bom em mim te machucasse.
Ceres ficou em silêncio, os lábios tremendo.
— Talvez machuque mesmo — ela disse. — Porque você me lembra que eu ainda sinto.
Theo tentou tocá-la, mas ela recuou. Um instante depois, lágrimas começaram a cair — rápidas, contidas, como se ela tentasse escondê-las até de si.
— A paz é um acidente, Theo — ela disse, virando-se. — E eu não quero sobreviver a mais um.
Ceres saiu correndo, deixando-o parado, com o som distante das máquinas preenchendo o vazio que ela deixou.
Ceres atravessou o corredor como quem foge de um campo minado. Cada passo era uma tentativa de recuperar o controle, de apagar o que Theo tinha acendido dentro dela.
Entrou no laboratório vazio, fechou a porta com força, respirou fundo.
O espelho metálico da bancada refletia seu rosto — os olhos marejados, a respiração irregular.
Ela encarou o próprio reflexo como se ele fosse o inimigo.
— Você chorou — disse em voz baixa, entre os dentes. — Chorou na frente dele.
As palavras soaram como uma acusação.
Ela encostou as mãos na bancada, apertando o metal frio até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Juro... — murmurou. — Juro que ele vai pagar por isso.
Mas no instante em que disse, percebeu a contradição.
Pagar por quê? Por fazê-la sentir? Por ter olhado como se a entendesse?
O coração dela respondeu antes da razão: sim.
Ceres respirou fundo, tentando se recompor. Alisou o cabelo, limpou o rosto, endireitou o uniforme. O espelho voltou a mostrar uma imagem neutra, impassível.
A mulher de Ceres, a comandante, estava de volta.
A garota de antes, que chorou diante dele, tinha sido extinta.
Ou, pelo menos, era o que ela precisava acreditar.
Lá fora, o som distante de Theo treinando ecoava pelo pátio — o estalo dos passos, o ritmo, o foco.
Ceres cerrou os punhos.
— Continue sorrindo, Theo... — sussurrou. — Continue achando que a paz é um acidente.
E saiu, determinada a transformar o que sentia em algo que pudesse controlar: estratégia.
Naquela manhã, o som cortante das hélices rompeu o céu de Ceres.
Os alunos interromperam o intervalo. O chão tremeu sob o peso dos blindados. Pela janela, era possível ver colunas de tanques avançando, todos marcados com o emblema de Ceres. Nunca se vira tamanha presença militar no colégio.
Os helicópteros pairavam como abutres metálicos, e o vento que soprava de suas hélices carregava poeira, medo e... alívio. Alívio porque eram deles — eram de Ceres.
Os silenciadores se posicionaram por todo o pátio. A cena parecia um cerco.
De um dos tanques, desceu Amós — o diplomata, a figura que raramente aparecia fora da Torre Central. Ao lado dele, uma mulher de cabelos prateados, rosto sereno e olhar inumano: Koee Nahin, a deusa viva de Ceres.
O murmúrio se espalhou entre os alunos. Ninguém sabia o que ela fazia ali.
— É ela mesmo...? — sussurrou Ana.
— Não pode ser... — respondeu Gris.
— Pode, e é — disse Kan, baixo, sem tirar os olhos da janela.
A presença deles fez o caos se dissolver em silêncio. Os alunos foram empurrados de volta às salas. O som das bombas d’água e dos tratores se misturava ao zunido distante das hélices que ainda giravam.
Na sala principal, estavam todos: Theo, Ceres, Dark, Kan, Gris, Ana, Daime, Vanks, Cors e Dru. Todos menos Cora, que naquele instante se encontrava no laboratório de biologia, debruçada sobre flores e microscópios, distraída no que mais amava — a vida.
O ar na sala era pesado. Ninguém ousava falar.
Theo olhava pela janela, inquieto.
Dark mordia a unha, rindo sozinho de nervoso.
O som de botas se aproximando ecoou pelo corredor.
Quando a porta se abriu, Amós surgiu no batente — impecável, expressão dura, olhar que cortava.
— Theo — disse, sem rodeios. — Me acompanhe.
Theo levantou-se sem hesitar. O silêncio se tornou absoluto. Amós virou as costas e saiu.
Mal a porta se fechou, Dark falou alto:
— Vão comer o cu do Theo!
A sala explodiu em risadas nervosas.
— E o seu, Dark, já tá relaxado? — retrucou Daime, o que fez todos rirem ainda mais.
O professor bateu na mesa:
— Silêncio!
Mas até ele não conseguiu esconder o sorriso discreto. Dark apenas ergueu os ombros e soltou uma risadinha curta, sem culpa.
O helicóptero lá fora voltou a subir, fazendo vibrar os vidros da janela.
Theo seguia pelos corredores ao lado de Amós, sem saber se estava sendo levado para uma conversa... ou um julgamento.
O corredor do colégio parecia interminável. As botas de Amós batiam no chão com ritmo militar, e Theo o seguia em silêncio, dois passos atrás, sentindo o eco daquele som reverberar dentro do peito.
O homem à frente caminhava rígido, sem olhar para trás, e Theo percebia algo contido, um cansaço oculto — não físico, mas moral.
Babá de pirralhos..., pensava Amós. De todos os cargos que já ocupei, este é o mais humilhante. Eu, que já sentei à mesa com chefes de Estado, agora vigio adolescentes que nem chegaram a ser homens. Todos com suas pequenas arrogâncias, achando que o mundo termina no muro do colégio.
Ele suspirou, sem quebrar o passo.
Depois da segunda invasão e do sequestro dos alunos, minha vida virou um inferno. Vigilância, relatórios, discursos para conter pânico. E agora isso: trazer Koee Nahin aqui — como se este lugar fosse digno da presença dela. Mãe Ceres enlouqueceu ou quer me testar.
Theo seguia em silêncio, observando os uniformes impecáveis dos soldados no pátio. Helicópteros sobrevoavam o céu baixo. O som das hélices fazia vibrar o vidro das janelas, e o ar tinha cheiro de combustível e chuva.
Quando chegaram ao refeitório, o ambiente estava deserto. As mesas limpas, as bandejas recolhidas, as luzes frias refletindo no chão encerado.
No centro do salão, Koee Nahin estava em pé, sozinha, como uma aparição. O cabelo branco caía sobre os ombros, e o uniforme leve contrastava com o aço em volta. Ela olhou para Theo e sorriu — um sorriso que parecia compreender mais do que dizia.
— Eu disse que queria conhecer seu colégio — falou ela, suave, quase brincando.
Amós assentiu, impassível.
— O garoto é todo seu — disse, antes de virar as costas e desaparecer pelo corredor, deixando para trás o som seco das botas e o perfume frio da disciplina.
Theo permaneceu parado por um instante, tentando entender a presença dela ali. Depois se aproximou.
Silêncio. Apenas o zunido distante dos helicópteros.
— Mas isso foi ontem — disse Theo, confuso. — Pensei que nem queria conhecer nosso colégio.
Koee deu de ombros, o sorriso ampliando um pouco.
— Bem, você que pensou. Eu quero conhecer seu colégio.
Theo arqueou uma sobrancelha, riu de leve — aquele riso cínico e cansado.
— Então vou te apresentar o meu colégio. Mas... você tem tempo pra isso?
Por um segundo, o silêncio se impôs.
O som das hélices voltou a vibrar no teto, as janelas estremeceram, e os dois trocaram um olhar breve — rindo da ironia involuntária da situação.
Mãe Ceres havia movido exércitos inteiros...
...apenas para que Koee Nahin pudesse estar ali.
Koee olhou ao redor, os olhos brilhando diante da arquitetura austera.
— Seu colégio é enorme — disse, com um toque de fascínio. — Vi pelo pátio... aquele mastro gigantesco com a bandeira de Ceres.
Theo sorriu, orgulhoso e cansado ao mesmo tempo.
— Cantamos e juramos à Mãe Ceres todas as manhãs. É aqui, no refeitório, que fazemos isso... e também nossas brigas.
Koee riu, achando graça.
— Brigas?
— Ninguém aqui briga de barriga vazia — respondeu Theo, irônico. — As discussões à mesa trazem confiança e verdade. Ninguém fica longe da Mãe à mesa.
— Mãe Ceres é poderosa... — disse ela, observando o tom de reverência dele.
Theo acenou para que ela o seguisse.
— Me acompanhe. Vou te mostrar as salas, os auditórios, a recepção. Sorte que hoje temos uma aula no auditório principal. Tema: A Autópsia da Liberdade.
Eles caminharam pelos corredores longos e frios do colégio, passando por portas metálicas e janelas que deixavam ver o pátio vazio.
— A Autópsia da Liberdade? — repetiu Koee, arqueando uma sobrancelha. — Doutrinação?
Theo riu com o canto da boca.
— É preciso destruir ideias para criar novas. Você estuda na Torre, não é?
— Estudo. Muito. Viver na Torre às vezes é entediante, mas tem uma biblioteca imensa e alguns magistrados que me dão intensivos.
Ela hesitou, pensou antes de completar:
— Tive ensinamentos em Arcádia... mas eram desatualizados.
Theo assentiu, sem esconder a admiração.
— A Torre é fantástica. Fico feliz que esteja sendo ensinada. Todo o conhecimento que você aprende lá também é ensinado aqui. A qualidade é a mesma.
Koee sorriu.
— Sim, estou aprendendo rápido.
Ambos chegaram ao campo de Flagball, um imenso gramado sintético cercado por grades e torres de observação.
Não havia ninguém. O perímetro estava limpo. No céu, o barulho dos helicópteros cessara. Restavam apenas o som distante das bombas d’água e dos tratores.
Koee olhou o campo em silêncio por um instante, respirou fundo e disse:
— Então foi aqui... aqui que você treinava. E venceu os arcadianos.
Theo a observou, intrigado.
— Mas você é...
Ela completou antes dele.
— Arcadiana? Sim. Mas com ideias de Ceres. Inigualável.
Pausou, olhou o horizonte.
— Em Ceres, eu existo.
Theo sentiu um desconforto silencioso.
— O que aconteceu com você naquele jogo? Você estava nos destruindo. E, além do mais, mulheres são proibidas de jogar Flagball. Como alguém com tanta força... fica de repente fraca?
Koee desviou o olhar, um leve rubor subiu-lhe o rosto.
— É que você... me desarmou.
A voz saiu baixa, envergonhada.
Theo franziu a testa, sem entender.
— Eu?
— Em Arcádia — começou ela, olhando o chão — eu vivia num casulo. Fui tratada como escrava, uma arma contra Ceres. Sempre tive medo. Agia por medo. E transformava esse medo em força.
Theo se aproximou um passo, a voz suave:
— Se não quiser falar sobre isso, tudo bem.
— Não, eu quero — respondeu. — Guardar só aumenta minha dor. Afinal... você não sabe telepatia, né?
Theo a olhou, curioso.
— Você sabe?
Koee sorriu de leve.
— Sim. Quer ver?
— Quero. — Ele se ajeitou, empolgado. — Me mostra.
Ela fechou os olhos por um instante, depois os abriu com um brilho malicioso.
— Já sei o que você está pensando.
Theo ficou sério, concentrado.
Koee riu.
— Está pensando em Flagball. Acertei?
Theo bufou e desviou o olhar, tentando disfarçar o riso.
— Você é impossível.
— Ou humana demais — retrucou ela, divertida. — Zombar é um instinto humano, não?
Ambos riram, e por alguns segundos o silêncio se instalou de novo entre eles.
Um silêncio leve, quase íntimo.
Theo ergueu os olhos para o céu. Koee o acompanhou.
Acima das nuvens, uma estrutura metálica brilhava com o reflexo do sol — a estação Ceres 2, imóvel, colossal, observando-os como um olho divino.
Os dois permaneceram ali, lado a lado, sem dizer nada.
Era impossível não sentir que, mesmo rindo, estavam sendo observados.
Koee observava o céu, o reflexo pálido da Ceres 2 projetado em seus olhos vermelhos.
— Eu sei que seu irmão está lá em cima — disse, com voz calma, quase devocional.
Theo permaneceu em silêncio por um instante, sem tirar os olhos da estação.
— Sinto orgulho dele — respondeu enfim.
Koee sorriu. O olhar dos dois se cruzou. O contraste entre o castanho profundo dele e o vermelho translúcido dela criou um instante de suspensão — como se o tempo se retraísse para observar.
Theo quebrou o silêncio, incerto.
— Vamos ao ginásio de piscinas?
Ela assentiu, e caminharam lado a lado pelos corredores frios, até o grande ginásio.
O espaço estava vazio, limpo, o eco dos passos reverberando nas paredes de vidro.
Koee olhou em volta, encantada.
— Eu vi os números impressionantes da garota Ceres... — disse, aproximando-se da borda da piscina. — Ela é fantástica... e linda. Eu amo os olhos dela.
Theo desviou o olhar, o nome de Ceres o atingindo como um choque frio. Era inevitável compará-las — Koee, a brisa; Ceres, a tempestade.
Uma o fazia respirar. A outra, queimar.
Koee se virou para ele, sem perceber o turbilhão que provocava.
— Ela parece destemida. Você a conhece?
Theo respirou fundo.
— Sim. — Uma pausa. — Ela é excelente. Fantástica.
Koee sorriu, satisfeita com a resposta, sem suspeitar de nada. Caminhou até o centro do ginásio e observou o reflexo da água parada.
— Eu não sei nadar — confessou. — Mas sei prender a respiração por quinze minutos.
Theo riu, genuinamente surpreso.
— Quinze minutos? Então você é uma deusa.
O elogio escapou sem controle.
Ambos se entreolharam, envergonhados. Koee baixou o olhar; Theo tentou disfarçar, mas acabou sorrindo.
Ele pigarreou.
— Quer conhecer o campo de treinamento?
Koee balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Não precisa. Eu só vim aqui pra conhecer o colégio... e ver você.
O silêncio que seguiu foi mais profundo que o som da água imóvel.
Theo não respondeu — apenas observou o reflexo dela nas piscinas, pálido e sereno como uma lembrança que ainda não aconteceu.
Theo e Koee - No Refeitório
Theo e Koee estão novamente no refeitório, agora vazio. A luz branca escorre pelas janelas altas, refletindo nas bandejas limpas e nas mesas enfileiradas. Um silêncio quase sagrado paira no ar.
Theo se apoia no encosto da cadeira.
— E foi isso... o tour do colégio acabou. — Ele tenta sorrir. — Você é sempre bem-vinda aqui, Koee.
Ela o encara, os olhos vermelhos parecendo mais vivos do que nunca.
— Sinto muito pelo seu irmão mais novo.
Theo prende a respiração, como se o ar ficasse mais pesado. O olhar dele vacila, mas ele se recompõe.
— Eu acredito que ele está vivo.
Koee se aproxima, devagar.
— Você me desarmou naquele jogo — diz, com a voz baixa. — Quando perguntou se eu estava bem, sem nem ver meu rosto.
Theo a observa, confuso e atento.
— Você tem um bom coração, Theo. Mãe Ceres ama isso em você. Ela chora por Tycho todos os dias. Sempre.
Theo fecha os olhos por um instante, tentando conter algo que o atravessa.
Koee continua:
— Eu só queria... deixar o mundo um pouco mais confortável. Pra que ele possa viver. Pra que ela possa também.
O silêncio se torna insuportável. Os dois se olham por um tempo que parece suspenso.
Então Koee o beija.
É um beijo forte, urgente, quase trágico. Theo retribui — como quem se entrega àquilo que não entende, mas precisa.
O beijo ainda pairava no ar, quente e suspenso, quando a porta rangeu.
Cora estava ali.
Parada, com o avental sujo de pólen e um carrinho de madeira torto, mas firme, nas mãos.
A madeira gasta trazia inscrições rabiscadas: nomes engraçados, letras trêmulas, piadas infantis.
Theo recuou como se tivesse sido atingido.
Tossiu, ajeitou o uniforme, forçando naturalidade.
— Cora! — disse, nervoso. — Esta é Koee.
Koee apenas o observou por um instante, e então virou-se para a menina com um sorriso sereno.
— Theo me contou sobre você — disse, com voz doce. — Que cuida dos cães e gatos da região.
Cora piscou, atônita, sem entender se aquilo era um elogio ou uma provocação.
— Eu... estava no laboratório de biologia. Polinizando flores. Estudando culturas... — respondeu, hesitante.
Koee inclinou a cabeça, curiosa.
— Digo... no refeitório?
Cora abaixou o olhar.
— Vim recolher o lixo. Pra dar aos cães e gatos. Fiz uma pequena cabana pra eles se abrigarem.
Koee olhou para os latões enormes ao lado da menina — quase do tamanho dela.
Sorriu.
— Quer ajuda?
Cora, corando, abanou as mãos.
— Não! Você é o milagre de Ceres. Não pode carregar lixo!
Koee riu, suave.
— Eu insisto.
E, sem cerimônia, ajoelhou-se ao lado da menina.
As duas começaram a separar restos de comida dos papéis, o metal dos ossos. O som do lixo caindo nas latas soava como música dissonante num lugar que deveria ser sagrado.
Koee sorria, e Cora, tímida, acabou sorrindo também.
— Em Ceres — disse a menina, orgulhosa — nem cães, nem gatos, nem ratos morrem de fome.
— É por isso que Mãe Ceres vive em vocês — respondeu Koee, baixinho.
O carrinho estava cheio, pesando nas rodas tortas. Koee pegou o cabo de madeira e começou a puxá-lo.
Cora tentou impedi-la, mas Koee apenas riu e seguiu.
Ao saírem no pátio, o contraste era quase impossível de suportar.
Tanques imóveis. Helicópteros pairando como predadores metálicos. Soldados em silêncio, os silenciadores brilhando sob o sol.
E entre tudo isso — a cena absurda e sublime:
Koee Nahin, a deusa protegida de Ceres, puxando um carrinho de lixo sorridente, ao lado de uma menina de treze anos.
Cora, envergonhada, abaixava o rosto, mas Koee caminhava como se o mundo inteiro não a observasse.
Um dos silenciadores se aproximou, pronto para intervir.
Koee apenas sorriu e balançou a cabeça, negando ajuda.
O soldado recuou.
O som das rodas rangendo sobre o cimento ecoou como uma oração.
E enquanto avançavam em direção ao campo de flores, o sol recaiu sobre o carrinho capenga — e, por um instante, pareceu que até o ferro dos tanques se curvava diante daquela cena.
O campo de flores parecia outro mundo.
O ar cheirava a terra úmida e pétalas recém-abertas. Ao longe, ainda se ouvia o eco distante dos helicópteros, mas ali, naquela clareira, o tempo parecia suspenso.
Cães e gatos espreitavam entre as flores — ariscos, assustados pelo barulho dos tanques, mas atentos. Quando viram Cora, os rabos começaram a balançar, os miados se misturaram aos latidos, uma pequena sinfonia de saudade.
Koee e Cora seguiram por um caminho de terra, ladeado por arcos de flores e fitas coloridas feitas à mão. A cabana apareceu no fim da trilha: torta, mas viva, adornada de desenhos, galhos, e uma tabuleta improvisada com nomes escritos à tinta — alguns quase apagados.
Os animais vieram em enxame. Dezenas deles.
Koee ajoelhou-se na grama. Um cão de três patas aproximou-se, cheirando a sua mão. Outro veio atrás, depois um gato malhado subiu em seu colo, ronronando alto.
Logo ela estava cercada — pelos focinhos, pelas patas, pelos corpos que buscavam carinho.
Koee riu, primeiro baixinho, depois alto, desarmada, livre. Deitou-se no gramado e deixou que eles a escalassem, que a lambessem, que se aninhassem sobre ela. Cora se jogou ao lado, e as duas começaram a rir.
Riam até as lágrimas, entre os latidos e miados, como se não existisse Ceres, nem tanques, nem helicópteros — apenas aquele pedaço de mundo onde o amor era permitido.
Koee, ainda rindo, apontou para a cabana.
— O que são esses nomes? “Senhor Catinga”, “Princesa das Moscas”, “General Rabanete”?
Cora limpou as lágrimas dos olhos, tentando falar entre as risadas.
— São os nomes deles! Cada um tem um motivo!
Koee rolava de rir.
— “General Rabanete”?
— É porque ele comeu um monte de rabanete da horta da cantina — explicou Cora, ofegante. — E a “Princesa das Moscas” é a gata que nunca toma banho!
As duas caíram na grama outra vez, gargalhando como duas crianças.
O sol atravessava as flores e dourava os cabelos de Cora, o rosto de Koee.
Ali, naquela mistura de perfume, grama e risos, nada lembrava os silenciadores, nem a guerra, nem as bandeiras.
Somente duas almas — uma humana e uma criada para ser mais que humana — compartilhando um instante que Mãe Ceres, se pudesse, certamente invejaria.
Entre risos, Koee reparou em algumas pequenas placas de madeira fincadas na grama.
Eram toscas, cortadas em forma de “M”, e tinham nomes escritos com tinta azul e verde: “Mordedor”, “Caosinho”, “Senhor Espuma”.
Koee se aproximou curiosa, limpando as lágrimas que ainda restavam do riso.
— O que são essas plaquinhas, Cora? — perguntou, sorrindo. — Mais nomes engraçados dos seus bichos?
Cora, que até então ria sem freios, silenciou.
Seu rosto mudou.
Os olhos baixaram, a voz veio contida:
— Esse... — ela apontou para a placa em forma de M — era o nome de um cão bravo.
Quase matou todos os outros. Theo o matou.
Koee se enrijeceu. O riso cessou no instante.
— Ele... matou?
Cora assentiu, com um nó na garganta.
— Ele não precisava, mas... salvou os outros.
O cão não era daqui. Acho que... — ela hesitou — acho que ele nunca comeu da comida da nossa Mãe.
Por isso a raiva.
Koee observou a menina colocar um pouco de ração nos potes.
O gesto era suave, quase ritualístico.
As palavras de Cora ecoaram dentro dela — “nunca comeu da comida da nossa Mãe”.
— Theo não é ruim — continuou Cora, sem olhar para cima. — Nem cruel.
Mas naquele dia... parecia outro.
Tinha uma aura... de demônio.
O vento soprou entre as flores, curvando-as.
Koee se ajoelhou ao lado dela.
— E o que você faz, Cora, quando vem aqui?
— Oro. Todos os dias. Oro pra que ele se redima... e pra Mãe Ceres perdoar ele também.
Koee ficou em silêncio, olhando a menina. Havia algo de puro, quase sagrado, naquele pequeno gesto cotidiano.
Depois, com doçura, estendeu a mão.
— Podemos orar juntas?
Cora sorriu.
— Claro! Mas... não conta pra ninguém que você rezou comigo, tá? É o nosso segredo.
Koee sorriu também, encantada.
— Prometo.
Cora então abaixou a cabeça, como quem guarda um tesouro.
— E quero que você guarde um segredo meu também...
Koee inclinou-se, curiosa.
O campo se calou. Os cães e gatos também.
Tudo parecia esperar o que viria a seguir.
Cora olhou para o campo velho, os dedos ainda cheios de terra.
— Meses atrás, havia um avião aqui — começou, como se contasse um segredo antigo. — Eu nunca me interessei por ele. Sempre usei aquele velho depósito de sementes, colhendo e investigando cada pedaço desse chão. Estoquei sementes por um ano inteiro.
Ela fez uma pausa, olhando para o horizonte, como se pudesse ver novamente a cena que ninguém mais presenciara.
— Dois arcadianos invadiram aqui, fugindo para Aracadia… Estamos a apenas três quilômetros da fronteira. Eles me viram, e saíram desesperados. Pegaram o avião abandonado… parecia que ainda funcionava. Mas estava enferrujado, esburacado.
Cora respirou fundo.
— O avião levantou voo, o campo é grande, mas ele foi obrigado a voltar em direção ao centro de Ceres. Durante quinze quilômetros, sementes caíram pelo ar, até que o avião não aguentou mais e caiu, destruindo tudo.
Koee arregalou os olhos, incapaz de desviar o olhar.
— E… o que aconteceu depois? — perguntou, a voz baixa, quase reverente.
— Semanas depois, o rastro de quinze quilômetros estava coberto de flores de marigold — disse Cora, os lábios curvados num sorriso quase triste. — Chamaram de milagres de Mãe Ceres. Lindo… um rastro laranja que ninguém jamais esqueceu. Silenciadores vieram investigar, mas até hoje ninguém sabe de verdade.
Koee ficou admirada. A inocência de Cora, seu gesto simples de estocar sementes, tinha se transformado em algo que todos atribuíram à Mãe. Juara sorriu, chamando Cora de “Fofuchilda”, a chama fofa que guardava um lugar especial no coração dela, lembrando dos ataques de fofura dos cães e gatos.
— Melhor que seja assim — disse Cora, olhando a distância. — Tudo que faço hoje é pela Mãe, pela comida na mesa… e para poder ver minha mãe uma vez a cada quinze dias. Ela cuida dos terrenos aldios em torno de Ceres.
Cora se levantou devagar, e com um gesto suave chamou Koee.
— Vamos rezar.
Ambas se ajoelharam no campo, as mãos cruzadas, os olhos fixos na silhueta da torre que se recortava no horizonte. Parecia distante, mas naquela manhã, sua presença era imensa, quase íntima, e o vento carregava o cheiro da terra e da promessa de algo maior.