Meses se passaram.
No campo de flagball, o vento varria a grama sintética e levantava pequenas ondas douradas sob o sol. Os jovens corriam, gritavam, escorregavam, a bola girava como se tivesse vida própria. Dark recebeu o passe, driblou dois e lançou para Daime, que completou a jogada com um giro preciso. O apito soou. A risada de Daime ecoou como se o mundo ainda fosse simples.
Dark voltou a sorrir, algo raro. A bola foi devolvida, e Theo a recebeu com firmeza. Passou para Dark, que passou de novo para Daime — como antes, como nos dias em que nada ainda havia se quebrado.
— Theo, eu sou teu pai! Respeita! — gritou Daime, jogando os braços para o alto. — Yoooo!
Theo apenas riu, balançando a cabeça.
O treinador apitou, ordenando novas formações: ataque contra defesa. Theo tomou posição no meio-campo — o cérebro do jogo, o que decide o rumo de tudo. Dark ficou no mesmo time. Kan e Daime, no outro.
O apito cortou o ar. Kan avançou. Theo tentou o bote, mas Kan passou com uma finta seca, como se dançasse. Passou a bola para Daime, que veio em alta velocidade. Dark tentou interceptar, mas Daime girou o corpo e o deixou no chão.
— Ah, toma, toma, toma, toma! — Daime riu, vibrando. — Entortei um torto! Urruuuu!
Dark se ergueu com os olhos faiscando, agarrou o colarinho de Daime.
— Tá maluco? — Daime recuou, as mãos erguidas. — Eu sei que você é forte, mas eu sou mais rápido! Calma, é treino, porra!
Os outros tentaram separar. Theo gritou algo, mas o vento levou. Dark se virou para ele, os olhos quase pretos de raiva.
— Não deixa o Kan passar, entendeu? — disse, baixo, tenso.
A próxima jogada começou. Kan avançou outra vez, mas Theo interceptou no tempo certo. Ainda assim, a bola escapou e chegou a Daime. Dark veio como um raio e o derrubou no chão com violência.
— Tá maluco, porra! Assim você estraga meu material, seu animal boçal! — Daime esbravejou.
Dark apontou o dedo: — Daqui você não passa.
Daime, ainda sentado na grama, levantou as mãos em rendição. — Ô Dark... gasta essa raivinha com os adversários, vai. Aqui é treino! E se sobrar... — ele ia completar, quando uma sombra cruzou a arquibancada.
— ...manda pra Dru — terminou, sem perceber quem passava.
Dru ergueu as sobrancelhas, aparecendo com suas quinquilharias penduradas no cinto.
— O que você disse, Daime?
— Nada não! — respondeu rápido, apontando para Dark. — Foi ele que começou!
Dru apenas passou, como um presságio, e o silêncio voltou ao campo.
Theo agarrou Daime pelo braço, o arrastando para longe.
— Que isso, tá me querendo agora? — provocou Daime. — Tá com ciúme?
Theo suspirou. — Cala a boca, Daime. Vamo jogar.
— Tá bom, tá bom — respondeu, rindo. — Mas não precisa ficar irritada, pô.
O apito soou outra vez. A bola rolou. E, por um instante, entre o suor, o riso e a poeira dourada, parecia que nada em Ceres havia mudado — mas o chumbo já corria invisível nas veias de todos.
O treino acabou. O campo agora estava quieto, o som das risadas distantes se misturava ao vento e ao barulho das redes se movendo devagar. Alguns ainda trocavam piadas no vestiário, outros recolhiam o material. Nenhuma confusão séria — apenas o calor do jogo, o suor e os ânimos.
Theo, como sempre, subiu as arquibancadas. Ali, naquele concreto frio, havia feito seu altar particular. Gostava de ficar sozinho, observando o campo vazio — o mesmo campo onde tantas vezes sorriu, perdeu, venceu, e foi feliz. Agora, aquele retângulo verde era apenas um espelho rachado onde via o passado e o futuro se sobrepondo.
Sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos, os olhos fixos no nada. Tirou as luvas, desamarrou as chuteiras devagar, como um ritual. Sentia o ar frio nos dedos, o leve tremor, a contaminação invisível do chumbo percorrendo o corpo. A arquibancada era o seu túmulo — e também o velório da própria alma.
Por meses, Theo pensava nos dois favores que Mãe Ceres pedira. Quando ela o chamara, imaginou uma punição, um julgamento, talvez até a correção final. Mas não. Ela apenas o olhou, com aquela serenidade monstruosa, e não disse nada. O silêncio de Mãe Ceres era mais devastador do que qualquer castigo. E aquilo o corroía desde então.
Procurava uma saída. Mas como escapar, se não havia saída? Talvez a única resposta fosse aceitar — mergulhar mais fundo, deixar o chumbo preencher tudo.
Theo fechou os olhos. A lembrança do Flagball voltava como filme queimado: o momento em que perdeu a inocência, o instante em que compreendeu que o bem e o mal convivem no mesmo corpo, no mesmo campo, no mesmo gesto. A pureza do jogo havia morrido no mesmo dia em que ele entendeu o preço da obediência.
O amor, pensava ele, não era verbo — era substância. Pesada, metálica, e sempre contaminada.
E Ceres... Ceres era o reflexo desse amor. Mais perdida do que ele.
Uma garota que não sabia dizer o que sentia, mas deixava tudo à mostra nos olhos. Olhos belos, perigosos, fundos como o poço de onde ninguém volta. Ele se perguntava como podia se perder em alguém tão perdida.
O amor entre os dois era sangue, era faísca. A paz entre eles nunca existira — era, como dizia o lema, um acidente. Theo olhou para o próprio braço, a cicatriz da mordida dela havia sumido. Mas a marca ainda estava lá, por dentro.
Ele sorriu, sem alegria.
Amor entre ele e Ceres era acidente. Era violência. Era necessidade.
E sabia do que havia por trás de tudo.
Sabia quem era o pai dela — o Chanceler Áquila, ditador de Silencium. Sabia também o que Mãe Ceres queria: que ele a possuísse, que gerasse um filho que unisse as linhagens, um herdeiro biológico e político.
Era um teatro de sangue. Um favor disfarçado de missão.
“Ceres irá para Silencium”, pensou. “Com a mãe, se estiver viva.”
Theo baixou a cabeça.
“Sou danificado”, murmurou. “Falhei com meu irmão. Falhei com Mãe Ceres.”
Daime. Koee. Ceres. Todos fragmentos de algo que ele não sabia mais consertar.
Dois errados não fazem o certo, ele repetia, mas Ceres era o erro que ele queria cometer de novo.
Koee... tão diferente. Pura, leve, como o ar que falta. Ela era o contrário de Ceres — um acidente que trouxe paz. E talvez por isso Mãe Ceres também a desejasse em seus planos.
Theo suspirou.
“Estou num moedor de carne”, pensou. “Mas não sei em que parte estou — se entrando ou saindo. Ou talvez já seja parte da engrenagem.”
O pensamento seguinte veio como uma lâmina:
Um rebelde em Ceres é como uma bactéria gritando sua importância dentro de um corpo que nem sabe que você existe.
E nesse instante ele percebeu — não havia mais dor.
A alma, afinal, já era chumbo.
Monólogo de Theo — “A Fera de Chumbo”
Imagina se eu contasse pra Ceres e pra Koee.
Como Mãe Ceres reagiria?
Que nada.
Ela me escolheu por causa disso — por causa do medo.
Ela confia no meu medo.
Medo de perder tudo isso.
Medo do Daime na sua chance de voltar o jogo.
Medo de Ceres sentir e dizer o que sente.
Medo de Koee ter uma vida digna… mesmo sendo livre só dentro destas paredes.
Porque lá fora, ela seria caçada.
Esmagada pelo próprio sangue milagroso.
Sorte ou azar, está viva — e isso basta pra Mãe Ceres.
Meu irmão em Ceres.
Theo olha a estação no céu e lembra da carta:
“Não vou conseguir abraçar Tycho e Theo pessoalmente,
mas olhem pra cima — eu estou abraçando o mundo.”
Uma lágrima cai.
Nunca chorei antes.
Doa o que doer, foi meu último vestido de alma saindo,
e chumbo entrando no lugar.
Estou sozinho.
Sem cura.
Sem salvação.
Aprendi que o para sempre é biológico —
dura até o corpo apodrecer.
E mesmo enterrado, nem aí terei sossego:
serei adubo.
Se eu for sentir luto,
vai ser pelo amor que morreu em mim.
Sou a fera de chumbo que ama sua caçadora invisível: Mãe Ceres.
O amor é lindo —
mas é a morte da minha paz de espírito.
Koee… tomara que me esqueça.
Faz tempo que não a vejo — ainda bem.
Tomara que Mãe Ceres escolha outro.
Mas Mãe Ceres… nas escolhas, é implacável.
Se for pra me perder nelas,
que seja com força —
com toda a força —
pra ver se algo é maior que essa dor que não passa.
Theo ri.
Riso sádico, resignado.
Parece um pacto — selado em chumbo,
com a própria Mãe Ceres.
O campo estava vazio, apenas o som do vento entre os mastros e o eco das lembranças.
Theo ainda parado na arquibancada, a sombra do corpo se alongava sob a luz pálida do entardecer.
Ria baixo, um riso que não nascia da alegria — mas do desespero domesticado.
— Do que você está rindo? — perguntou uma voz atrás.
Theo não se virou. Sabia quem era.
Ceres surgiu no mesmo degrau de sempre, o mesmo lugar da primeira conversa entre eles.
O tempo parecia circular, mas agora o círculo tinha rachaduras.
— Estou rindo de uma piada que você não entenderia — disse Theo, ainda de costas.
— Sério? — Ceres respondeu num tom leve, mas com algo tenso nos olhos.
Theo se virou.
A olhou fixamente, e o silêncio entre os dois era quase palpável.
A luz refletia nos olhos azuis dela, e ele, por um instante, se viu dentro daquele brilho — o mesmo brilho que um dia o fez acreditar que havia salvação.
— Belos olhos, Ceres... belos olhos — murmurou.
Ceres percebeu algo.
Theo estava diferente.
Mais calmo, mais sombrio, mais... certo de si.
O que antes era dúvida, agora parecia comando.
— Qual é a graça? — ela perguntou, tentando entender o que se passava.
Theo deu um meio sorriso.
— Estou direcionando meu ódio em algo positivo da minha vida negativa.
Ceres não respondeu. Ficou apenas observando.
Theo se aproximou devagar.
O som dos passos dele sobre o concreto ecoava como um metrônomo.
Ficou tão perto que ela pôde sentir o calor da respiração dele.
Theo levantou a mão, e Ceres piscou, num reflexo involuntário.
Mas ele apenas tocou de leve o rosto dela e tirou um cílio solto.
— Seu pedido agora é meu — disse em voz baixa, quase num sussurro. — Se ajeita... daqui a meia hora, na estação de trem atrás do colégio. É uma ordem.
Theo virou as costas e desceu os degraus, deixando apenas o som dos passos e o vento.
Ceres ficou imóvel, tentando entender o que havia acontecido.
Algo nela vacilou — não era medo, nem raiva.
Era como se, pela primeira vez, Theo estivesse jogando o jogo dela... e vencendo.