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O Circo no Paraíso - Parte 1

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Semanas se passaram. Os treinos de flagball foram otimizados, mas o campo ainda fervia de rivalidades. Theo e Kan continuavam se enfrentando. Para Theo, era puro teatro — passatempo, um modo de…

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Semanas se passaram.
Os treinos de flagball foram otimizados, mas o campo ainda fervia de rivalidades.
Theo e Kan continuavam se enfrentando. Para Theo, era puro teatro — passatempo, um modo de testar os limites e distrair a mente.
Para Kan, era guerra. Cada golpe era sobre liderança, sobre provar quem dominava.

Dark, por outro lado, nunca estivera tão calado.
Parecia em paz, mas era um tipo de paz inquietante — a calma de um predador saciado.
Cuidava de Dru com uma devoção perturbadora, brincando com ela como um gato que brinca com sua refeição.
Dru se deixava envolver, acreditando que aquilo — aquele toque, aquele olhar — era afeto.
Talvez fosse. O tipo de afeto que dói, mas aquece.

Nas piscinas, o reflexo era o mesmo.
Ceres, Gris e Ana travavam uma guerra silenciosa pela liderança.
Cada braçada, cada olhar, era um confronto.
Ceres continuava sendo a melhor entre elas, mas algo estava fora do lugar — algo dentro dela.
Desde a briga, desde Theo.
Ele parecia mais solto, mais forte, mais… livre.
Nos treinos, ela sentia o olhar dele, firme, provocador, quase paternal.
“Você está lenta, Ceres. Não consegue me acompanhar.”
Ele nunca disse isso, mas ela ouvia.
E o que a incomodava não era o desafio — era a sensação de que ele podia estar certo.


Na sala de aula, o tédio reinava.
Theo se sentava três cadeiras atrás de Ceres, sempre à espreita, sempre rindo de algo com Daime.
As piadas eram ridículas, mas irresistíveis — desmontavam qualquer um.
Ceres fingia ignorar, mas sentia.
O olhar dele, o riso dele, a confiança irritante.
Theo nunca desviava o olhar, nunca hesitava.
Isso a desarmava mais do que qualquer palavra.

De repente, a rotina foi quebrada.
A porta se abriu com um som seco.
Dois silenciadores — oficiais — entraram primeiro.
Atrás deles, uma mulher de vestido cinza-escuro, impecável, de postura hierárquica.
Parecia uma patente abaixo de Mãe Ceres.
O murmúrio cessou.

Ela olhou em volta, firme, e pronunciou:
— Theo.

O nome ecoou como um tiro dentro da sala.
Theo congelou por um instante.
A palavra Koee atravessou sua mente como uma lâmina.
Fazia meses que não a via.
Não queria ver.

Mas ele se levantou, quebrando o silêncio com deboche:
— Me leve ao seu líder!

Fez menção de estender os pulsos, como se pedisse para ser algemado.
Risadas ecoaram, a tensão se dissolvendo em humor.
Mas a moça não sorriu.
Olhou para ele, séria, fria.

Theo manteve o gesto, indiferente.
Virou-se para Dark, que o observava com o mesmo sorriso cínico.
Ambos riram em silêncio — o riso cúmplice dos que partilham um segredo que ninguém entende.

Ceres observava a cena em silêncio.
O deboche de Theo não a irritava por causa de Mãe Ceres — não era sobre o sistema, nem sobre disciplina.
Era algo nele.
Algo que havia mudado.

Theo parecia diferente.
Mais cínico, mais consciente, como se tivesse descoberto a piada mais engraçada do mundo — e decidido nunca contá-la a ninguém.
Esse riso interno, esse brilho no olhar, a deixava desconfortável.
Era como se ele soubesse de algo que ela nunca entenderia.

Dentro dela, tudo se misturava: ciúme, inveja, raiva, controle, medo.
Uma ansiedade corrosiva.
Ela se sentia pequena, mesmo ao lado dele.

No colégio, eram vistos como líderes.
Modelos de comportamento, o casal de ferro da nova geração.
Mas, por dentro, Ceres sabia: algo estava fora de equilíbrio.

Os outros abaixavam os olhos quando ela passava.
Temiam aquele olhar ameaçador, aquele semblante de perfeição que escondia o caos.
Ela sempre fora sozinha, cercada de respeito e distância.

Theo, não.
Theo a encarava. Sempre.
Sem medo, sem desvio, sem reverência.
O olhar dele era direto, cortante — como uma placa de aviso.
E mesmo quando ela desviava, podia sentir: ele ainda estava olhando.

O Circo

Os trens blindados cruzavam as cidades de Ceres. Parar um deles era parar o continente — eram as veias do comércio, os condutores dos bancos, as artérias de uma civilização que respirava por ondas de rádio confiáveis.

No estádio central de Ceres, o som distante dos trilhos reverberava sob o campo sintético. A cidade funcionava como um relógio, e naquela manhã, o estádio parecia o coração pulsante da máquina.

Theo estava lá.
Uniforme oficial de Flagball, camisa 8, capacete nas mãos.
Admirava o campo vazio — o palco dos grandes, o altar onde, por algumas horas, homens e mulheres se tornavam maiores que a própria Mãe Ceres.

O alçapão se abriu.
Koee surgiu — também em uniforme, segurando o capacete e uma bola.
Andou até o ponto exato onde, meses antes, Theo a havia derrubado com força. O mesmo chão, o mesmo silêncio.

Theo se aproximou.
Sorriu de lado, lembrando do dia, do cheiro da grama sintética, do peso da queda.

— Quanto rancor? — perguntou.

Koee ergueu o queixo. — Doeu aquela queda.

— Era pra doer — respondeu Theo, rindo. — Você estava imparável... gemeu, bufou... eu senti o medo e a fadiga.

Koee estreitou os olhos. — Podemos jogar novamente. Mas dessa vez, você não vai me quebrar.

— Você é forte. Muito forte. — Theo girou o capacete na mão. — Mas não é dois.

— É, você mudou, não é? Está mais forte... e mais falastrão.

— E você continua eloquente demais, Koee. — Theo deu um meio sorriso. — Essa sua marra vai ser sua queda.

— Vamos ver. — Ela segurou firme a bola. — Sem capacete.

Theo riu. — A princesinha branquela de olhos vermelhos pode sangrar, hein. Mamãe Ceres não vai te proteger de mim.

— Verdade. — Koee sorriu, confiante. — Mas é você quem vai cair.

A partida começou.
Koee partiu com a bola, fez uma finta rápida — mas Theo interceptou com facilidade.

— Você é previsível demais — disse ele, com um sorriso provocador. — Seus olhos lindos te denunciam.

Ele passou por ela em movimentos lisos, rápidos, quase dançando.
Koee tentou acompanhar, mas ficou para trás, desarmada. Theo estava abusado, seguro, quase arrogante.

— Como você conseguiu isso? — ela perguntou, ofegante.

— Concentração e precisão — respondeu Theo, sem pausa. — A princesinha precisa aprender que superforça e velocidade não bastam. O trabalho duro supera o talento... quando o talento não trabalha duro.

Antes que Koee pudesse reagir, Theo executou uma finta desconcertante.
Ela caiu sentada no chão — exatamente no mesmo ponto onde se conheceram.

Theo se aproximou, estendeu a mão e sorriu:
— Você está bem?

Koee segurou a mão dele, levantou-se devagar.
O toque foi rápido, mas intenso — o tipo de toque que reabre lembranças e fecha feridas ao mesmo tempo.

O estádio estava silencioso.
E, por um instante, parecia que o som dos trens blindados havia parado — só para ouvi-los respirar.

Koee respirava fundo, tentando esconder o nervosismo.
— Recomeça — pediu, com firmeza.

Theo sorriu, aquele sorriso torto e debochado.
— Hum... a princesinha mimada pela Mãe vai cair de bunda no chão? — provocou. — Fica sexy quando tá nervosa. Adoro essa cara. Você com a bola, de novo. Te dou uma chance.

O jogo recomeçou. Koee avançou rápido, determinada. Chegou tão perto que Theo sentiu o calor da respiração dela. Ombro a ombro, sem se tocarem, mediram força. Theo resistia. Koee empurrou, insistiu, girou o corpo — e passou por ele. Gol.

— Sua boca é grande demais! — gritou ela, ofegante.

Theo riu alto.
— Nossa, fiquei ofendido. Isso era pra ser uma ofensa? Foi fofo... mas nem chega perto disso, princesinha.

Koee jogou a bola contra o peito dele.
— Passa logo, vai, seu...

— Não me faça rir — interrompeu Theo, divertido. — A princesinha nem sabe xingar. Que fofuchilda!

— Seu... seu desgra—

— Não escutei! — riu ainda mais alto.

Theo começou a nova jogada. Esperou Koee vir. Correu como um trem. Mas Koee, em fúria, avançou e o derrubou com força.

Theo caiu pesado, soltando um gemido.

— Você tá bem? — Koee correu até ele, desesperada.

Ele riu entre o ar e a dor.
— Morri... mas tô bem.

Koee respirava rápido, os olhos marejados. A queda tinha sido feia. O susto, pior ainda. Theo se ergueu com um gemido, notou o pequeno corte no rosto dela — um fio de sangue descendo pela bochecha.

Tirou a luva, passou a língua no polegar e limpou o sangue com delicadeza.

Koee o encarou, sem entender, paralisada. Theo olhou o sangue no próprio dedo, depois nos olhos dela. Lentamente, Koee fez o mesmo gesto.

E ali, no campo sintético, os dois experimentaram o gosto metálico do outro.

Por um instante, não havia mais jogo, nem regras. Só o som da respiração compartilhada.

Theo aproximou o rosto — devagar, firme. E os dois se beijaram. Um beijo forte, urgente, sujo de sangue e grama.

O beijo ganhou força — feroz, urgente — como se um quisesse devorar o outro. Era mais que desejo; era fome, raiva, alívio e perda ao mesmo tempo. O ar ficou quente, pesado, vibrando entre respirações cortadas e a pele trêmula.

Theo afastou o rosto por um instante. Os olhos dele ardiam, fixos nos dela.
— Somos o erro um do outro.

Koee respirou fundo, o corpo ainda colado ao dele.
— Dois errados não fazem o certo.

Theo sorriu, cínico, mas havia um tremor sincero por trás.
— Mas você é livre, Koee.

— Eu quero este erro — respondeu ela, firme, quase em súplica.

— Por que eu? — perguntou Theo, a voz rouca.

Koee o olhou como quem se reconhece num espelho.
— Eu não sei... — murmurou. — Não paro de pensar em você desde aquele jogo. Eu sinto isso. O que você sente?

A pergunta pairou no ar — a mesma que um dia desarmara Ceres. Theo congelou. Algo dentro dele estalou, o velho Theo, o que ainda sonhava, tentando respirar sob o peso da Mãe.

Mas ele sabia: o jogo o moldara. O veneno da obediência corria em seu sangue. A Mãe sempre vence.

Theo não respondeu. Apenas cedeu. Seguiu o instinto — o homem, o corpo, o impulso.

O beijo voltou mais intenso. Um beijo sem culpa, sem lógica, só necessidade.

No vestiário vazio, longe dos olhos de Ceres, os dois se esconderam. Theo e Koee. Dois animais acuados pelo próprio desejo. Dois erros que se encontraram na mesma respiração.

No vestiário, Theo e Koee permaneciam próximos, respirando rápido. A grama sintética ainda marcava o lugar de sua queda, o cheiro do campo misturando-se à respiração deles.

— E o que você fez esse tempo todo lá na torre? — perguntou Theo, quebrando o silêncio.

Koee respirou fundo. — Estudei muito… a Mãe me ajuda nas tarefas.

Theo sorriu, um pouco distante. — Antes do lançamento da CERES 2, meu irmão, o Major Tomas, mandou uma carta para mim e para Tycho. Ele escreveu: “Gostaria de abraçá-los. Mas quando eu chegar na estação espacial, lá no alto, abraçarei o mundo inteiro.”
Ele olhou para ela, os olhos brilhando. — Toda vez que vejo a Ceres 2, lembro disso.

Koee sentiu o peito apertar. Um nó de emoção misturado com ternura e saudade. Ela respirou fundo, tentando se recompor.

— Mas… — começou, hesitando — por que você matou aquele pobre cão no campo de flores da Cora?

O silêncio caiu pesado entre eles.
Theo desviou o olhar por um instante, apertando o capacete contra o corpo. Um leve tremor passou em sua voz:

— Ele era uma ameaça… — disse finalmente. — Eu não queria, mas não tive escolha.

Koee franziu a testa, os olhos marejados. — Mas… era só um cão. Ele não podia se defender.

Theo olhou para ela, sério. — Eu sei… mas naquele mundo, Koee, sobrevivência não escolhe inocentes. Até a Mãe entende isso.

Ela respirou fundo, tentando aceitar, mas o sentimento de injustiça misturado com o fascínio por ele a deixava dividida. Um silêncio pesado pairou entre eles, onde a memória do beijo, do sangue e da queda ainda queimava na pele.

Theo respirou fundo, os olhos fixos nos dela.
— Eu… não posso mentir para uma deusa — disse, com voz firme.

Koee o olhou, surpresa. — Uma deusa?

Ele desviou o olhar por um instante, depois voltou para ela, sério.
— O cão não era dali. Era… modificado geneticamente. Negro, olhos vermelhos, uma natureza estranha. Só tinha ódio. Ele estraçalhou os cães e gatos da Cora… só por diversão.

Koee engoliu em seco, sentindo o peito apertar. — Por Mãe Ceres…

— A cena… — continuou Theo, com um tom pesado — foi horrível. Eu não podia deixá-lo viver… não havia como pará-lo. Tive que manter em segredo até agora, porque não queria espalhar medo pelo colégio.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Koee sentiu uma mistura de horror e fascínio — como se aquele segredo, aquele peso, mostrasse um lado dele que ninguém mais conhecia.

Ela respirou fundo, tentando digerir a verdade.
— Então… você carregou isso sozinho o tempo todo?

— Sim — respondeu Theo, a voz firme, mas carregada de cansaço. — Porque alguém precisava fazê-lo. Alguém precisava manter o equilíbrio.

O vestiário parecia menor, apertado pelo peso da confissão. A tensão entre eles não era apenas física, mas moral. Um mundo inteiro de regras, de sobrevivência, de escolhas impossíveis, pairava ali, entre o cheiro da grama sintética e o gosto metálico do sangue ainda em suas mãos.

Koee olhou para Theo e, pela primeira vez, sentiu o peso de quem ele realmente era. Não apenas o jogador, o rebelde, o provocador. Mas alguém que havia feito o impossível para proteger os outros.

O silêncio falou mais alto que qualquer palavra.

Koee permaneceu imóvel, os olhos fixos em Theo. Um misto de medo, incredulidade e fascínio se misturava em sua respiração. Cada palavra dele ainda reverberava em sua mente, o peso da confissão ecoando entre os sons do vestiário vazio.

— Você… fez isso sozinho? — ela perguntou, quase sussurrando, a voz falhando.

Theo inclinou-se levemente para frente, os ombros tensos, mas o olhar firme.
— Sim. Ninguém mais podia. Alguém precisava manter o equilíbrio.

Koee engoliu em seco. Por um instante, sentiu vontade de recuar, de se afastar do homem que carregava tanto sangue e responsabilidade em silêncio. Mas havia algo irresistível nele — aquela combinação de força, frieza e… humanidade inesperada.

Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.
— Eu… não sei o que sentir. Medo? Raiva? Ou… algo mais?

Theo sorriu, de um jeito que misturava ironia e compreensão.
— Pode sentir tudo isso. Eu mesmo sinto. Mas agora você sabe quem eu realmente sou. Sem máscaras.

Koee deu um passo à frente, aproximando-se dele, hesitante, mas decidida.
— Eu… confio em você. Mas isso não quer dizer que eu aceite tudo.

Ele ergueu a mão, tocando delicadamente o lado do rosto dela, ainda marcado pelo pequeno corte da queda.
— Eu não espero que aceite. Só quero que veja a verdade. Que saiba quem está ao seu lado quando tudo desmoronar.

O ar parecia vibrar entre eles, carregado de tensão e desejo. Koee sentiu o coração acelerar, cada batida uma mistura de medo e fascínio. Pela primeira vez, não havia competição, provocação ou jogo — apenas dois seres nus diante de suas verdades.

E então, como um reflexo inevitável, seus olhos se encontraram. Um instante durou o suficiente para que ambos percebessem: não havia mais como voltar atrás. O beijo anterior, o sangue compartilhado, o peso das confissões — tudo os havia ligado de maneira indestrutível.

Koee respirou fundo, finalmente murmurando:
— Eu… quero estar aqui. Mesmo sabendo de tudo.

Theo sorriu, um sorriso raro, sincero.
— Então estamos no mesmo lado… e o mundo pode esperar.

No vestiário vazio, entre a grama sintética e o silêncio pesado, dois erros se encontravam, consumidos pelo instinto, pela tensão e pelo destino que Mãe Ceres havia traçado para eles.

















O pátio do colégio militar estava quieto, mas dentro da quietude havia ruído.
Theo estava lá, encostado no muro, com o toca-fitas antigo que fora de Tycho escondido sob a jaqueta. Um fio discreto corria até o fone de ouvido. Fazia dias que estava assim — sozinho, distante, como se tivesse se fechado dentro de uma casca de noz.
Ceres o observava de longe. O silêncio dele a incomodava. Theo não reagia mais às provocações de Kan, nem às ironias de Cors e Vanks. Era como se tivesse deixado o mundo lá fora e trancado por dentro.

Ela se aproxima, firme, mas inquieta.
— Que paz é essa? — pergunta.

Theo ergue os olhos, lentos, sem pressa.
— A paz é apenas um acidente — responde, com uma voz seca, mas carregada. — Diga o que quer.

Os dois se encaram.
Theo sorri de leve. — Mas teus olhos continuam lindos.

Silêncio.
Há algo de perigoso nele — não o desejo de matar, mas motivos reais para fazê-lo.
Ele tira os fones, o som vaza: grave, sujo, distante. A jaqueta larga, rasgada nas mangas, parece parte do corpo.

— Gostaria que existisse um deus que trocasse de mente com você, só pra saber o que sente... — diz ele.
— Seria um desperdício de pedido — responde Ceres, fria.

Theo ri. — Tem razão. Eu mesmo nem me entendo.

— Você mudou. Como? — ela insiste.
— Está assustada, né? — provoca ele, com aquele meio-sorriso que corta.

Ela tenta decifrá-lo, e Theo completa:
— Estou mais rápido, mais forte... e mais bonito também.

Ceres perde o controle da respiração. — O que você fez pra ficar assim?
Theo apenas ri, um riso imprevisível, debochado, cheio de ecos. Tira o fone e o estende.
— Calma, é só música. Proibida... mas ainda assim, música. Quer ouvir?

Ela hesita. Ele coloca os fones nela.
No som, Audioslave — Cochise.

— Selvagem, né? — diz Theo, com o olhar de quem guarda um ódio domesticado, mas vivo.

Ceres tira os fones e se afasta, furiosa por não arrancar nenhuma resposta.
Theo assovia alto, irritante, como no treino.
— Às quinze horas, na estação! — grita ele.

Ceres vira, com um olhar de quem devoraria o próprio fígado de raiva, e vai embora.

Daime se aproxima.
— Que moleque trevoso você anda sendo! Ceres saiu daqui com o sangue nos olhos, misturado ao azul que já era dela.
Theo ri, sem olhar. — Eu acho é pouco. Quero a alma dela.
— Que isso, que trevas é essa? — Daime reage.
— Não enche, Daime.
— Vai se danar, a paz é só um acidente mesmo, seu animal boçal!

Kan observava o pátio, os alunos andavam com calma, quase silêncio. Havia algo estranho no ar — uma paz artificial, frágil, feita de tensão contida.

— Parece que o colégio ficou calmo… mas em desordem — murmurou Kan, coçando a nuca.

Gris cruzou os braços, o olhar fixo em Theo e Ceres do outro lado do pátio. — Theo e Ceres são um sistema solar descontrolado — disse. — É como a queda de Ceres I.

Kan soltou um riso breve, sem humor. — Existe algo muito além da liderança agora. Eles parecem mais fortes… quanto mais loucos ficam, mais o mito deles cresce.

— Lembra das aulas de tática? — respondeu Gris, pensativa. — Liderança não é um cargo de confiança. É um estado de espírito que causa confiança. Como os cães… não seguem o maior ou o mais forte, mas aquele que transmite calma e certeza.

Kan assentiu devagar. — Um cão de chumbo, é isso.

Do outro lado, Dark estava parado, observando Dru como quem tenta decifrar um símbolo antigo. Pegou o rosto dela com uma delicadeza que não lhe cabia — os dedos firmes, o olhar ausente. Dru sorriu, acreditando ser carinho, mas ele apenas imaginava o que havia por trás daquela pele. Era um gesto mais curioso que terno. Havia em seus olhos um cansaço antigo, uma ausência quase sagrada.

Dru, desatenta, riu, e Dark soltou um suspiro. Não havia desejo — apenas tédio. A fera indomável parecia domesticada, ou talvez apenas adormecida. Ele estava quieto demais, como um leão observando a presa brincar com seu próprio rabo.

— Até o Dark mudou — disse Kan. — Era uma fera, agora virou um caçador que observa em silêncio. Nem Dru consegue tirá-lo do sossego.

Gris olhou de novo para Theo. Ele passava pelo corredor com fones escondidos, os passos leves, quase calculados. Passou por Kan e Gris como se fossem parte da arquitetura — uma placa, um detalhe irrelevante.

Atrás dele, Ceres seguia. O olhar distante, o corpo presente. Nos saltos ornamentais, ela ainda era precisa, quase perfeita, mas parecia vazia. Como se algo dentro dela tivesse se apagado.

— Eles perderam o sentido — sussurrou Gris. — Ou talvez tenham encontrado um que ninguém mais entende.

Kan ficou em silêncio por um instante, depois respondeu:

— Ou talvez… eles tenham encontrado a liberdade. E isso é o mesmo que perder o sentido.

O vento soprou pelo pátio, leve, mas frio. Tudo parecia suspenso — como se o colégio respirasse mais devagar, esperando o próximo movimento do caos.

Daime e Ana caminhavam pelo corredor, o som dos passos ecoando no piso frio do colégio. O silêncio recente de Theo e Dark ainda os intrigava — dois predadores quietos demais.

— Eles estão calados há dias — comentou Ana, franzindo o cenho. — E isso me assusta mais do que quando estavam brigando.

— Calados? — Daime riu, irônico. — Quietos, não. Só… entediados. Dois lobos em jaula.

Ana olhou de lado. — Você acha que se entenderam?

— De um jeito estranho, sim — respondeu ele. — Dark vivia provocando Theo, parecia que queria apanhar. Acho que queria ver até onde o Theo aguentava. Mas agora… é como se tivessem feito um pacto.

— Um pacto?

— Ou um segredo — disse Daime, dando de ombros. — Não sei o que é pior.

O sinal tocou, interrompendo a conversa. Era hora da terceira aula do dia. Daime suspirou. — Melhor aula: flagball. Pena que o campo tá em manutenção.

— E lá que você gosta de medir “a temperatura”, né? — ironizou Ana.

Daime sorriu. — O campo de flagball é o único lugar onde dá pra saber quem pensa o quê. É mais um campo de leitura de mentes do que de jogo.

À tarde, o tempo parecia arrastar-se. Theo estava sentado nas arquibancadas, ao lado de Daime e alguns colegas, todos entediados. Lá embaixo, Ana, Gris e Ceres aqueciam nas piscinas.

Theo observava em silêncio, os cotovelos apoiados nos joelhos. Ceres fingia não notar, concentrada nos alongamentos. Ana percebeu o olhar e soltou, provocante:

— Engraçado… Theo nunca vem ver nossos treinos. Agora está aqui.

Ceres nem virou o rosto. — Não é da sua conta. E muito menos da dele.

Theo sorriu torto, levando os dedos à boca. Um assobio estridente ecoou pelo ginásio. Depois outro. E mais outro. Irritante, insistente.

Ceres parou, respirou fundo, tentando se controlar. Ana, com o mesmo sorriso cínico de sempre, riu. — Acho que o maestro enlouqueceu.

Theo, rindo, balançava os braços para Ceres, provocando-a com gestos exagerados. Daime ria junto, sem conter o deboche.

— Você é um idiota — disse Ana, mas sorrindo, sem convicção.

Theo levantou-se das arquibancadas, ainda rindo. — Missão cumprida.

Saiu do ginásio satisfeito, deixando para trás o eco dos próprios assobios — e Ceres, que tentava disfarçar a raiva misturada com algo que nem ela sabia nomear.

A Estação

Theo estava lá, como sempre — o toca-fitas escondido sob a jaqueta, os fones finos, a cabeça balançando no compasso das músicas proibidas. O trem blindado ainda trocava os trilhos, o barulho metálico ecoava pelas paredes de concreto. Ele esperava nada, ninguém. Talvez só o silêncio.

Mas Ceres apareceu.

Ficou à distância, observando-o de costas. O cabelo dele caía irregular sobre os ombros, a mecha branca agora marcava seu rosto como um corte de luz. Ela também trazia a mesma mancha — uma cicatriz de destino compartilhado. Theo parecia carregar o peso do mundo, mas o mundo que pesava sobre ele era o futuro de Ceres.

Quando o toca-fitas trocou de faixa e “Running Up That Hill” começou, Theo levantou o olhar. Sorriu. Um sorriso cínico, quase preguiçoso — o tipo de sorriso que irritava Ceres por não saber se era desprezo ou saudade.

Ela hesitou antes de se aproximar. Odeia admitir que foi ao encontro dele, mas sabia que Theo a esperava. E Theo, no fundo, queria revelar algo — talvez uma piada sem graça, ou uma piada tão grande que só faria sentido anos depois.

Ceres manteve a postura firme. Theo, por sua vez, parecia dançar com o abismo.

Ele amava Mãe Ceres. Isso estava em cada gesto, em cada provocação. E mesmo perdido, Theo aceitava o próprio caos como quem aceita uma vocação — o dom de perturbar tudo que é estável, tudo que finge ser perfeito.

No fundo, ele só queria uma boa briga.
Mas nem ele sabia contra quem.

Theo encarava o horizonte quando disse, sem tirar os olhos do céu:
— Eu vejo a tempestade.

Ceres respondeu sem hesitar, como se completasse um verso que já conhecia:
— Eu vejo a muralha negra.

O silêncio se estendeu. O som distante dos trilhos vibrava como um coração mecânico.
Theo virou o rosto, os olhos cravados nos dela — a mecha branca cruzava-lhe o olhar, dividindo luz e sombra no mesmo rosto.

— Aposto que você relutou em vir aqui — disse, num tom quase doce. — Eu adoro o seu destempero, sabia?
Ceres arqueou as sobrancelhas, mas ele continuou.
— Amo o seu ódio desmedido. É a única coisa verdadeira em você. Adoro isso. Me sinto em paz no seu ódio… porque ele é real.

Ceres perdeu o compasso por um instante.
Não era mais o Theo que ela sabia provocar, medir, conter.
Ele havia mudado — e a mudança era perigosa. Não um perigo de faca, mas de espelho.

Ela sentiu o chão oscilar.
Theo sorria — aquele sorriso que dizia, sem som: “Você não consegue me acompanhar.”
E Ceres sabia que ele tinha razão.

Não porque era mais forte.
Mas porque Theo, agora, era liberdade pura — e liberdade não se doma.

Ceres respirou fundo, tentando esconder o medo que se infiltrava sob a calma.
Theo deu um passo à frente.
— Ainda é eu, Ceres. O mesmo Theo… mas de outro lugar.

Theo respirou fundo e sorriu de lado.
— Eu sinto o cheiro do seu medo. É delicioso.

O barulho metálico do trem se aproximava, diminuindo a velocidade para a troca de trilhos.
Ceres permaneceu em silêncio.

— Você vem comigo — disse Theo. — E não vai dizer nada.

Ele correu, subiu no trem em movimento e estendeu a mão.
Ceres hesitou — mas ele a puxou com força, colando-a contra o próprio corpo.
Por um instante, respiraram juntos, o coração dos dois batendo no mesmo ritmo das rodas de ferro.

Subiram até o teto. O vento era cortante, o céu azul se rasgava em reflexos vindos de Ceres II, a lua metálica da cidade.
Do alto da torre, Mãe Ceres observava.

Theo ria, rindo da piada que ninguém entenderia.
Admirava o horizonte — as nuvens escuras se formando como uma muralha viva.
Apontou o dedo.
— É você.

Ceres riu sem querer, disfarçando, mas Theo se ergueu no teto, abrindo os braços.
O vento golpeava forte.

Ele estendeu a mão a ela.
— Vem.

Ceres segurou, e Theo a puxou com brutalidade, um grito escapando entre o susto e a vertigem.
O corpo dela caiu contra o peito dele.

Ela sentiu medo.
Não de cair — mas de Theo.

Ambos de pé sobre o trem, o horizonte tomado por uma tempestade negra, Theo sussurrou em seu ouvido:
— Liberdade é caos, Ceres. Mas Mãe Ceres… nos protege, nos educa, nos alimenta… e nos devora.

Ceres fechou os olhos, o vento cortando o rosto.
Naquele caos, sentiu o impossível — conforto.
Não paz, mas pertencimento.
Por um instante, se sentiu livre.
E Theo também.

O trem seguia, cortando o vento. Theo mantinha os olhos no horizonte, a tempestade agora mais próxima — viva, pulsante.
O rosto de Ceres tocava o peito dele, o coração batendo num ritmo estranho, quase ritual.

Theo falou baixo, mas cada palavra pesava como ferro:
— Isso vicia... mas a responsabilidade equilibra. Nós, humanos, nos viciamos no lado bom da liberdade.

Ele ergueu o rosto, o vento abrindo o cabelo, o olhar perdido entre a cidade e o céu.
— Mãe Ceres... nos ama de verdade.

Ceres o olhou, sem forças para responder.
Sentia o peso daquelas palavras atravessar o corpo.
Agora compreendia — o que era liberdade.
Era doce e dolorida.
Tão cara que exigia sangue.

A cidade ao longe tremia em suas muralhas brancas e frias.
Ceres, a Mãe, sangrava em silêncio pelo confronto dos próprios filhos — como uma mãe feroz entre nações famintas, lutando para que nada lhes faltasse.

Mas havia fome.
Fome de liberdade.
E todos, sem perceber, devoravam a carne da Mãe...
... esquecendo de alimentar a própria liberdade.

O trem blindado desacelerou sobre os trilhos, rangendo enquanto passava pelo silo abandonado. Theo e Ceres desceram, silenciosos, cada passo ecoando pelo chão de concreto desgastado. A luz do sol entrava pelo buraco do teto, iluminando algo pequeno e inesperado: uma muda de pêssego, verde e frágil, que cresceu exatamente no ponto onde semanas atrás eles haviam deixado a semente.

Ceres parou, arregalou os olhos, e um sorriso genuíno iluminou seu rosto.
— É… é o nosso pêssego. — Ela sorriu, pura, sem malícia, sem nenhuma sombra de dúvida. — Verdadeiro.

Theo apenas sorriu, cínico como sempre, mas havia algo nos olhos dele que não precisava de palavras.

— Por que estamos aqui novamente? — perguntou Ceres, curiosa, tentando quebrar o silêncio que se formava ao redor da muda.

— Você faz perguntas demais! — Theo respondeu, curto, e deixou seu toca-fitas no chão, protegido. Sem falar mais nada, começou a andar entre os trilhos da irrigação, Ceres o seguindo logo atrás.

As enormes rodas da irrigação giravam lentamente, lançando jatos de água no ar, formando um arco-íris artificial sobre eles. Theo tirou a jaqueta e a camisa, deixando que a água escorresse sobre o corpo.
— Vem, Ceres, a água está boa! — estendeu a mão.

— Não! — ela recuou.

— Vem! — insistiu, agora com uma voz quase meiga.

Ceres hesitou, mas se aproximou, e ele a puxou com força contra o corpo.
— Essa água está gelada! — protestou, tremendo.

— Não mais que seu coração. — Theo respondeu, baixando a voz, deixando-a em silêncio.

Eles ficaram abraçados, os jatos de água passando lentamente sobre eles, enquanto as nuvens pesadas da tempestade se aproximavam no horizonte.

— Chega! — disse Ceres, ainda tentando manter distância.

— Tá bom… — Theo riu, contido, quase provocador.

— A tempestade vai nos pegar. — alertou ela, olhando para o alto.

— Como assim? — Theo perguntou, curioso.

— Olha para cima, seu imbecil!

— Não vai chover. — Ele respondeu com firmeza, um misto de certeza e desafio.

— Como você sabe?

— Apenas sei. Fica. — Afastou-se um pouco, ainda firme, fazendo com que Ceres sentisse o peso de sua presença.

— Você está maluco! — exclamou ela.

— Esta tempestade é igual a você, sempre cheia, pesada, nervosa… — disse ele, baixando o tom. — Não vai cair. E se cair, vai chover só o suficiente, não tudo de uma vez.

A chuva começou fina, delicada, e ambos se entreolharam, silenciosos, sentindo o cheiro da terra molhada e o frescor da irrigação. Theo se aproximou devagar, passou a mão pelo rosto tenso de Ceres, acariciou a nuca dela, e finalmente a beijou.

Eles se entregaram, sem pressa, com a tempestade ainda distante, mas presente, como se o próprio mundo os observasse. A muda de pêssego, ao lado, testemunhava o reencontro, pequena e firme, símbolo de algo que sobreviveu mesmo ao abandono do tempo.

A tempestade caiu de vez. O barulho da água batendo no teto do silo fazia o chão tremer. As gotas escorriam pelas paredes enferrujadas, misturando-se ao vapor quente dos corpos que ainda se tocavam, exaustos e trêmulos.

Ceres se ajeitou ao lado de Theo, ofegante, o cabelo colado na pele.
— Eu falei que ia cair. — sussurrou. — Estamos aqui sozinhos.

Theo riu baixo, o som abafado pela chuva.
— Relaxa, Ceres. Você está comigo.

— Estamos aqui… — ela murmurou, virando o rosto para ele. — Você me arrastou até aqui.

Theo se apoiou nos cotovelos, a respiração firme.
— Ceres, eu não vou dizer nada. — disse, calmo. — Não quero saber como você se sente, nem quero que melhore. Eu só quero ser companheiro da sua evolução. Eu te aceito como você é. Isso… me dá prazer.

Ela o olhou, confusa.
— Como assim?

— O que a gente viveu aqui — respondeu ele — foi liberdade. A verdadeira. Sem a seriedade de Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa e, no fim, nos devora. Não estou contra Ela, eu a amo… mas quero bradar essa liberdade contigo antes que sejamos devorados.

A chuva ficou mais forte. Trovões riscaram o céu.

— O trem, a irrigação, os pêssegos com gosto de ódio… — Theo continuou, olhando para o alto. — Tudo isso quero dividir com você. Porque, por mais que lute, Ceres, nós dois seremos devorados. E é isso que torna tudo tão sério. É o preço da responsabilidade que herdamos.

Ele se levantou, a água escorrendo pelo corpo, e estendeu a mão para ela.
— Mas Ela não está aqui agora. — disse, com um sorriso quase triste. — Podemos pensar em nós dois. Mesmo que soe como rebeldia. Por algumas horas, temos essa liberdade — e com ela, a responsabilidade de existir.

Ceres o observava, silenciosa, o rosto iluminado pelos relâmpagos.

— Mãe Ceres vai sentir orgulho disso. — ele sussurrou. — Estamos dentro da responsabilidade dela. Quero lembrar de você… e quero que você lembre de mim. Porque quando formos devorados, não haverá mais nada. Só essa lembrança.

Theo se aproximou, o olhar firme.
— Por mais que o tempo passe, tudo o que eu fizer será pelo bem da nossa Mãe. Você vai me odiar, muito, mas no fundo eu falo a verdade. Que me odeie, que me esfaqueie, que beba o meu sangue… — ele disse, com um riso quase sagrado. — Eu sempre serei de nossa Mãe. E, pelas circunstâncias, eu sempre vou escolher você.

Ele respirou fundo, encostando a testa na dela.
— Não quero ser salvo. Nem quero salvar você. Já estamos salvos por Ela — e isso sufoca, é natural.

Ceres fechou os olhos.

— Tudo no fim vai dar certo. — Theo disse, num sussurro. — Eu adoro sua discórdia, seu jeito desconfiado… seus olhos, mesmo quando querem me matar. Confie em mim. Confie em Mãe Ceres — que nos alimenta, nos educa e nos devora.

A chuva abafou as últimas palavras. O silo inteiro parecia respirar com eles — como se a própria Mãe os escutasse, silenciosa, orgulhosa, e faminta.

No silo, o silêncio os envolvia, pesado e íntimo. A chuva agora tamborilava nas paredes externas, mas dentro, tudo parecia suspenso no tempo. Theo se aproximou, retirou o toca-fitas da mochila e ajustou os fones de ouvido.

— Vamos ouvir juntos — disse, com aquele sorriso que misturava provocação e cuidado. — Quero que sinta cada música como eu sinto. Triste, alegre, romântica… tudo. Quero ver se vale a pena este momento, porque alguns anos daqui, ele não existirá mais.

Ceres hesitou, mas aceitou, colocando um fone em cada ouvido. A primeira música começou suave, melancólica, e ela sentiu o peso da saudade e do que nunca seria recuperado. Theo a observava, tentando decifrar cada reação, cada arrepio, cada olhar.

— Você sente? — perguntou, baixo, quase sussurrando.

Ceres fechou os olhos, deixando a música penetrar, sentindo não só as notas, mas o desejo, a intensidade e a responsabilidade que Theo carregava. Ele dividia não apenas o fone, mas o instante — uma confiança silenciosa e frágil, como se estivessem roubando tempo do futuro.

Quando a melodia mudou para algo mais vivo, quase alegre, Theo sorriu. Ceres abriu os olhos e riu baixinho, surpresa por sentir uma liberdade tão pura em meio à tempestade que se aproximava.

— Vale a pena — disse ele, quase para si mesmo, mas com Ceres ouvindo. — Vale a pena sentir isso contigo, ainda que por algumas horas, ainda que seja apenas um instante antes de sermos devorados pelo mundo.

Ela o olhou, tocada e confusa, o coração disparado. A intensidade do momento, o caos do exterior e a segurança do gesto dele criaram algo que ia além do entendimento — uma liberdade temporária, mas verdadeira, compartilhada no silêncio, nas notas e no toque quase imperceptível do fone em sua orelha.

Theo se aproximou, encostando levemente a testa na dela, e disse:
— Lembre-se deste som, Ceres. Lembre-se de como podemos existir juntos, mesmo que seja apenas por um instante roubado.

E ali, no silo, entre a tempestade e a música compartilhada, os dois encontraram um fragmento de liberdade — curta, preciosa e perigosa — enquanto Mãe Ceres, invisível, observava satisfeitamente.


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