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No silêncio úmido dos vestiários, cada um sozinho, a luta ainda corria nas veias.

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No silêncio úmido dos vestiários, cada um sozinho, a luta ainda corria nas veias.

Theo sentia o corpo marcado, hematomas que ardiam como lembranças, o braço assinalado pela mordida que lembrava o território tomado e a entrega de Ceres. Cada gota de sangue lavada no ralo aumentava a dor, mas também lembrava a intensidade do momento, a força de quem jamais se curvaria.

Do outro lado, Ceres olhava para seu reflexo, pele pálida riscada de roxos, lábios feridos, mas nenhum sinal de derrota. Em cada marca, em cada hematoma, havia entrega, loucura contida, prazer sombrio em se perder e, ao mesmo tempo, se reconhecer em Theo.

O vestiário não era apenas um lugar de higiene: era um espaço para processar a batalha, para sentir a tensão residual, o poder e a intimidade brutal que só eles compartilhavam.

A batalha havia terminado, mas o eco da selvageria permanecia — um fio invisível conectando-os, feito de dor, sangue e reconhecimento.

O mundo fora daqueles muros não importava; ali, na solidão de seus vestiários, ambos absorviam o que ninguém mais poderia entender.


Nos alojamentos separados, a noite caía pesada, interrompida apenas pelo som das sirenes de alerta das 10 horas.

No feminino, Ceres repousava com uma serenidade quase assustadora, como se a luta não tivesse deixado marcas, como se nada tivesse acontecido. Mas mesmo em sua aparente calma, o corpo ainda carregava os sinais da selvageria, e nos olhos, um eco distante da loucura que havia se soltado momentos antes.

No masculino, Theo gemia de dor. Cada movimento despertava os hematomas roxos, a costela inferior latejava, a cabeça doía sob as ataduras e o antebraço direito trazia a marca da mordida, agora coberta por uma grossa proteção de pano. Segurar Ceres, controlar a própria força, ainda lidar com Dark no ambulatório… a resistência de Theo havia sido testada ao limite.

O silêncio dos alojamentos não era paz, mas o rescaldo de uma batalha intensa, tanto física quanto emocional. O eco da força, da entrega e da selvageria permanecia entre eles, invisível, mas palpável. Ambos respiravam em mundos separados, processando o que acontecera, conscientes de que algo havia mudado para sempre.

O refeitório inteiro percebia. Havia algo diferente no ar. Não era só os hematomas, nem o silêncio carregado de tensão. Era a forma como Theo e Ceres se olhavam, como se um fosse a lâmina e o outro, o amolador. Nenhum dos dois recuava.

Theo largou a colher, respirando fundo entre uma pontada de dor na costela. Fixou os olhos em Ceres, o braço enfaixado apoiado sobre a mesa.
— Você podia ter feito melhor. — disse com um meio sorriso, irônico.

Ceres ergueu lentamente os olhos da bandeja, o lábio partido repuxando num sorriso cruel.
— Ah, Theo… você sempre acha que eu seguro alguma coisa. — respondeu, a voz baixa e firme. — Se eu quisesse, você não estaria sentado aí. Estaria deitado numa maca ao lado do Dark.

Theo deixou escapar uma risada contida, que imediatamente lhe roubou o ar. Apertou as costelas com a mão livre, ainda assim mantendo o olhar preso nela.
— E ainda assim, você perdeu. — disse, provocando.

Ceres inclinou levemente a cabeça, como quem saboreava o veneno.
— Eu nunca perco. Nem quando sangro. — sua língua passou pelo canto do lábio ferido. — Você sabe disso.

O silêncio da mesa era sufocante. Daime observava com os olhos arregalados, entre assustado e fascinado. Dru, distante, apenas confirmava o que já sabia: aquela relação não podia ser compreendida, apenas temida.

Theo aproximou-se um pouco da mesa, como quem lançava um desafio silencioso.
— Você adora me ver sofrer, não é?

Ceres inclinou-se também, o rosto pálido manchado pelos hematomas.
— Não. — disse em tom frio, quase íntimo. — Eu adoro te quebrar e ver você voltar para mim, mais forte.

O olhar dos dois se cruzou, firme, arrogante. Era um pacto sem palavras: poderiam se destruir a cada dia, mas no fundo se completavam naquela simbiose de ódio e desejo. Inseparáveis, perigosos, leais apenas um ao outro.

E todos em volta entenderam. Theo e Ceres não eram apenas guerreiros. Eram um mito vivo em formação. Dois predadores que jamais se deixariam domesticar.

Dru estava atônita. O refeitório parecia cheio, mas ao mesmo tempo vazio, como se apenas aquela mesa existisse. Seus olhos iam de Theo a Ceres, e o que via a deixava em choque: Theo, todo enfaixado, exalando dor a cada movimento; Ceres, serena, com hematomas roxos sobre a pele pálida, ignorando o próprio sofrimento como se fosse parte de sua natureza.

Dru se imaginava no lugar dele — se fosse ela quem tivesse enfrentado Ceres, já estaria morta, quebrada em mil pedaços. Ainda assim, Theo tinha se posto entre elas, tinha tomado a dor para si. Por ela.

Mesmo quando todos estavam contra Dru — até mesmo quando ela escolheu ficar ao lado de Dark, num romance doentio e disfuncional — Theo nunca a abandonou. Ele havia sido leal. Era por isso que a culpa a consumia agora: Theo se sacrificara, mas não para vencer Ceres. Não. Porque Ceres não era como Dark. Ceres e Theo eram um só, duas metades da mesma fúria, muralha e tempestade, complemento e veneno.

Ceres cruzou o olhar com Dru. Por um instante, Dru estremeceu, esperando a fúria que sempre vinha. Mas nada aconteceu. Ceres simplesmente a ignorou, como se ela fosse invisível. E isso dizia tudo: o pacto estava selado.

Dru respirou fundo. Sentia que não podia mais se aproximar de Theo — não daquela forma antiga, de paixão. Ceres era dele, e ele era dela. Mas algo permanecia: a amizade, o gesto que a tinha libertado de novo, quando ninguém mais acreditava nela.

Theo, sentindo o olhar dela, virou-se por um instante. Sorriu, mesmo entre a dor, como quem dizia: não se preocupe, eu aguentei. E então seguiu seu caminho.

Daime, que acompanhava tudo de perto, arqueou as sobrancelhas. Algo nele percebia que havia mais do que hematomas e olhares trocados. Ceres estava calma demais. Dru estava livre demais. Isso não fazia sentido.

— O que você fez, cara? — perguntou, apoiando-se na mesa, a voz carregada de incredulidade. — Fez pacto com um demônio?

Theo soltou uma risada curta, que virou uma careta de dor.
— Só quando respiro. — respondeu.

Ana se aproximou lentamente de Daime, ainda um pouco tímida. Viu o estado dele, as muletas encostadas à parede, e sentiu um calor inesperado.
— Como está indo o tratamento? — perguntou, sua voz baixa mas cheia de cuidado.

Daime sorriu com seu jeito irreverente.
— Indo bem, minha gata. — disse, dando um tapinha no banco. — Senta aqui com a gente.

Ana sentou, e então percebeu Theo à frente. O choque foi inevitável: enfaixado, os olhos fundos, a respiração curta, o braço direito imobilizado. Parecia ter saído de uma guerra — e, de certa forma, tinha mesmo.

Daime não perdeu tempo.
— Viu, Ana? O amor fez isso com ele. — disse, rindo. — Olha como homem sofre.

Ana riu sem jeito. Theo tentou rir também, mas imediatamente levou a mão às costelas.
— Não me faz rir, caralho. — disse entre dentes, com um meio sorriso de dor.

Daime arregalou os olhos, teatral:
— Já pensou se uma enfermeira chega aqui e diz que você tá grávido da Ceres? Você ia pra Pietà, ia ter consulta com as freiras e, do nada, suas tetas iam crescer pra dar leite!

Ana explodiu numa gargalhada. Theo tentou segurar, mas o riso escapou, um som meio rouco, meio gemido de dor.

— Cala a boca, Daime. — disse, ainda rindo, com uma lágrima no canto do olho de tanto segurar.

Daime apoiou o queixo nas mãos e olhou para Theo como quem saboreava cada segundo.
— Eu adoro te ver assim, desgraçado. — disse, rindo. — Sofrendo e rindo ao mesmo tempo. Que delícia.

Ana balançava a cabeça, sorrindo, mas por dentro sentia um aperto ao ver Theo daquele jeito. Era um momento estranho: um pequeno oásis de riso no meio do caos, onde até a dor parecia compartilhada.

Theo se levantou com cuidado.
— Preciso ir na enfermaria. Tomar mais remédio pra dor — disse, a voz arrastada pelas costelas.

Daime e Ana se despediram com trocadilhos e risadas. Ana lançou a Theo um olhar preocupado por dentro do riso; Daime, como sempre, zombeteiro e afiado. Theo sorriu com dor e fez menção de sair.

No corredor, a luz fluorescente esticava sombras longas. Kan apareceu encostado no batente, o tipo de rival que cheira a liderança: confiante, observador, prático. Era rival de capitão no Flagball e já liderava os rapazes do colégio com a autoridade de quem sabe que tem voz.

— Amores brutos — cutucou Kan, olhando de Theo para Ceres e voltando — Ela vai te matar, sabia? Passou por aqui sem olhar pra ninguém. Fria demais. Como você lida com ela?

Theo riu, um som curto entre dor e cinismo.
— É meu charme com perfume de carne... e sangue.

Os dois riram — Theo gemendo no final da risada, o corpo lembrando cada impacto. Kan olhou para ele com respeito cálido e uma ponta de cálculo: ali havia um homem que suportava o insuportável. Diferente de Dark, Cors ou Vanks, que só latem, Kan via em Theo uma muralha de carne que não cede.

— Tem algo no ar hoje — disse Kan, quase sussurrando. — O ar está mais leve. Até a Ceres parece mais calma.

Theo bateu com o punho no próprio peito, um gesto teatral de sacrifício.
— Dei meu sangue por isso.

Ambos sorriram do duplo sentido. Kan ofereceu, meio provocando:
— Quer que eu fale com a Ceres pra aliviar as coisas?

— Nem fudendo — Kan negou rápido, sorrindo. — Esse problema é seu. Prefiro lidar com Cors e Vanks; eles me perseguem e me irritam. Você e a Ceres… ninguém se mete. Todo mundo sabe dessa relação de vocês. Não é segredo.

Kan olhou Theo de frente, avaliando.
— Você parece machucado por fora, mas por dentro ainda é muralha.

Theo retribuiu o olhar, ríspido.
— Guarde seus elogios. Vai precisar de energia e bravatas se quiser me enfrentar. Eu também vou te quebrar.

Ambos riram novamente, o riso sendo uma armadura e uma provocação ao mesmo tempo. Kan escancarou um sorriso desafiador:
— Se a Ceres não fizer isso antes.

Trocaram um último olhar — mistura de admiração e ameaça — e seguiram para direções opostas: Kan rumo ao auditório, Theo mancando para a enfermaria. O corredor ficou com o ruído dos passos, e o colégio voltou, como sempre, a ser um lugar onde alianças e perigos se moldavam no cotidiano.

Daime e Ana deixaram a mesa e caminharam por um corredor menos iluminado. Mal haviam se distanciado quando deram de cara com Ceres, parada como se fosse parte da parede. O olhar dela era o mesmo de sempre: frio, indiferente, como se nada no mundo pudesse tocá-la.

Daime travou. Por um segundo, o silêncio ficou pesado entre os três. Então ele explodiu, sem filtro:
— Não engulo essa pose de olhar que devora almas! — disparou, com a voz cortante. — Sorte sua o Theo se importar contigo. Ele é o único. Eu quis que ele matasse o Dark naquela briga, juro que quis. Mas foi o Theo — leal, burro e forte. Um dia ele vai romper tudo isso. Você é parte dessa motivação maluca dele.

Ceres não moveu a expressão. O ódio latente enchia o espaço, mas a face continuava impassível.

— Não tô te ameaçando — continuou Daime, sem dar trégua — tô avisando: se importa com quem sangra por você. Sei que gosta de atormentar a Dru, mas gaste essa energia cuidando de quem realmente te deu carne e sangue pra ter algum pedaço de paz aqui. Você tá louca pra revidar, eu sei. Use esse ódio pra proteger quem te protege.

Ceres mordeu o lábio, a fúria contida como uma mola pronta pra estourar. Saiu dela, por um instante, um brilho feroz — depois nada. Só a parede de gelo.

— Um ex-aleijado falando — cuspiu ela, seca, tentando reduzir Daime ao ridículo.

— Um ex-aleijado que tem razão também — rebateu Daime, implacável. — Você tem mais a perder aqui do que ele. Eu não sei liderar, mas reconheço um quando vejo.

Sem esperar resposta, Daime e Ana viraram o corredor e seguiram. As preocupações de Ana eram do tipo que se lê na face: medo, pena, compreensão. Daime, por sua vez, ia calmo — explosivo mas honesto como sempre.

Ceres ficou ali, imóvel. A porta fechou como um bater de prensa, e a solidão retomou o corpo. As palavras de Daime, rudes como socos, ecoaram dentro dela com um efeito que nem a própria sabe medir. Theo estivera ao lado dela — sempre — até na fúria mais cega. Ela se lembrava da noite: de quando se perdeu, de como mordeu e bebeu, de como sentiu, pela primeira vez, a calma do outro lado daquela selvageria. E agora ouvir piadas desprezíveis, ver a ironia cruenta nos olhos de Daime, doeu.

Daime dizia verdades que estalavam: eram duras, mas certeiras. E, por trás do orgulho e da raiva, Ceres soube admitir, só para si, num silêncio que ninguém veria: o desgraçado tem razão.

Ela limpou a boca com as costas da mão, tocou a pele ainda marcada e deu um passo. Não para ir atrás deles. Para dentro dela, algo se reorganizava. Não carinho. Não rendição. Uma decisão fria, possivelmente tão violenta quanto o resto — mas agora com um novo fio: guardar aquela possessão por Theo com a mesma brutalidade com que ele a guardara para si.

Ceres caminhava pelo corredor. As luzes oscilavam, os ecos dos passos dela se misturavam aos alarmes longínquos do colégio. A cada passo, o corpo latejava, lembrando que ela também sangrava.

Mas não tanto quanto ele.

Theo sempre sangrou. Sempre foi o primeiro a ficar entre ela e o golpe, entre ela e o mundo, entre ela e ela mesma.
Theo, o idiota que suportava. Que aturava o caos, as ofensas, os acessos de fúria.
Theo que carregava os segredos dela — e os de Ceres eram pesados, úmidos, difíceis de tocar sem se sujar.

Ele entregou um amigo para protegê-la das pixações no refeitório. Matou um cão com uma violência que ela mesma não entendeu — e nunca perguntou o porquê. Sabia que havia um motivo, e que o motivo era ela.
Theo matou invasores, matou por ela, lutou por ela.
Theo suportou a perda do irmão, a traição de Dru, o peso de cada pecado que ela fingia esquecer.

Theo ria até das piadas do Daime — talvez para não chorar.
Theo suportava a fúria dela… e ainda a protegia dela mesma.

Ceres diminuiu o passo. O corredor parecia mais longo agora.
Ela sabia o que Daime quis dizer.
Sabia e odiava saber.

Ele a chamara de fria, mas o frio era a forma dela não se despedaçar.
Theo, por outro lado, era calor demais — calor que derretia, que feria, que deixava marcas.

Por um instante, quis voltar. Pedir desculpas. Dizer algo simples.
Mas simples não existia entre eles.

Então respirou fundo e mudou o curso, indo em direção à enfermaria.
Cada passo um peso.
Cada lembrança, um espinho.
E, no meio do corredor, pensou — sem voz, sem rosto, apenas um sussurro dentro dela:

"Ele sangra e ainda me chama de vida."

Ceres ergueu o queixo, e o som metálico da sirene voltou a dominar o ar.
O pacto, enfim, pulsava dentro dela — não como culpa, mas como condenação.

Ceres ficou na entrada por um tempo, a silhueta recortada pela luz fria do corredor. Do outro lado do vidro da enfermaria, Theo encostado na cadeira, a seringa cravada no braço, os olhos semi-fechados — embotados pelos remédios, mas com a memória da noite passada gravada em cada músculo. Não havia ninguém ali além deles; o resto do colégio era um rumor distante.

Ela atravessou o vidro e, sem alarde, tocou o ombro dele. O gesto foi automático, íntimo como acostumar a mão a uma cicatriz. Theo reagiu no mesmo reflexo que o fizera no chão: mobilizou o corpo, apoiou a mão nas próprias costelas, como se ancorasse a si mesmo. Respirou fundo, pesado.

— Calma… — murmurou Ceres, a voz quase sufocada pela gravata que ainda carregava como um traço de máscara. — Sou eu. Calma, Theo. Sou eu.

Ele, grogue, abriu os olhos como se despertasse de um sonho em que ela era tempestade. A dúvida pairou, difusa, entre o sono e a dor.

— Você? O que… o que está fazendo aqui? — a voz dele saiu baixa, distante.

Ceres sentou na cadeira ao lado, perto o bastante para que o braço onde a mordida fora deixada ficasse ao alcance dela. Olhou para o golpe que marcara a pele de Theo e, por um momento, a máscara de calma caiu: havia administração do medo, havia curiosidade.

— Por que você sangra por mim? — perguntou ela, com a sinceridade de quem descobre uma fresta no próprio peito. — Eu te machuco e você fica do meu lado. Perdeu o irmão e continua firme. Está aqui e continua firme. Me ensina a ser assim. Eu… eu quero ser como você.

Theo a ouviu, sem entender direito se aquilo era pedido, ordem ou confissão. No olhar dela, ele se perdeu — não apenas em Ceres, mas no nome que ela carregava, no eco da Mãe Ceres que moldara o mundo deles. Havia ali algo primordial: não só desejo, não só medo, mas uma necessidade de espelho.

Ele falou sem saber se era resposta ou bênção:

— Não sei como, Ceres. Não sei ensinar. Eu… eu fico. Eu fico porque alguém tem que segurar você antes que você se quebre ou quebre tudo ao redor.

Ceres apertou os olhos. A voz dela saiu mais dura, quase surpreendida por si mesma:

— Você fez isso — apontou para a mordida, para as bandagens. — Você deixou que eu mordesse. Você carrega isso com orgulho?

Theo tocou o lugar com a ponta dos dedos, como quem reconhece um troféu e uma ferida ao mesmo tempo.

— É uma lembrança sua — disse ele. — Um horário. Um aviso. Um mapa. Carrego isso porque te proteger é… minha maneira de amar. Não é bonito. Não é limpo. Mas é o que sei fazer.

Ela riu, um som curto que misturou incredulidade e dor:

— Como eu pude gostar disso? — confessou, a surpresa vazando. — Como pude te ferir e — no fundo — gostar?

Theo olhou para ela com a calma de quem já havia decidido qual ser seu lugar no mundo.

— Porque no mesmo momento em que me fere, você me devolve. — murmurou. — Você me quebra e me chama de volta. Isso é o pacto. Somos dois que não se deixam soltar. Você bebe meu sangue, Ceres, e eu deixo. Não porque quero ser vítima, mas porque é a medida do que somos: muralha e tempestade.

Por um instante o corredor inteiro pareceu suspenso. A enfermaria — cheiros, panos, luzes — encolheu até virar apenas o espaço entre ambos. Ceres aproximou a mão, hesitou e pousou a palma sobre o antebraço dele, sobre a cicatriz da mordida. O contato foi breve, quase cerimonial.

Nenhum pedido de desculpas foi pronunciado. Nenhuma explicação conseguiu traduzir a intensidade daquele gesto. Só o silêncio pesado, tão denso quanto o sangue que já correra entre eles, preenchia a sala.

Theo deixou escapar um pequeno sorriso, dolorido e verdadeiro.

— Fique — disse ele, baixo. — Só fique.

Ela ficou, e na quietude que se seguiu havia algo que não era ternura nem guerra, mas uma aliança que nenhum dos dois ousava nomear: uma simbiose inteira, perigosa e absoluta.

Theo apoiou a mão na borda da cadeira, o corpo uma armação de dor. Olhou para Ceres com a mesma calma que usava para segurar muralhas contra tempestades.
— Você é como uma tempestade lá longe — disse ele, devagar. — Negra, pesada, densa. Passa por cima e às vezes nem chove. Quando chove, chove o necessário. Mas quando você perde o controle… ai.

Os olhos de Ceres brilharam com algo que não era só raiva: havia prazer, curiosidade, fome. Ela se inclinou para mais perto, como quem busca entender o próprio veneno. Theo manteve-se firme, a muralha que ela sempre encontrou.

— Por que somos assim? — perguntou ela, quase como se tentasse se convencer mais do que perguntar. — Por que no fundo eu gosto disso, desse lado irracional?

Theo sorriu, um sorriso seco que parecia cortar mais que qualquer lâmina.
— A Mãe quer isso — falou ele, com a certeza de quem já foi moldado por ordens maiores. — Ela é implacável. Pense: de tantos colégios, por que você veio parar aqui? Você sabe de onde vem. Sabe quem é seu pai. Mãe Ceres tem planos maiores pra você — justamente porque você carrega esse sangue. Ela quer espelhamento. Ela junta os nossos cacos, as nossas falhas, e faz de nós o que precisamos ser.

Ceres mordeu o lábio, achando naquilo uma explicação e uma acusação ao mesmo tempo. Theo continuou, firme:
— Fazemos pela Mãe. Você tem o nome dela. Você gosta disso — mesmo quando finge negar. Você me manipula, e eu gosto — você me faz sangrar, e eu gosto. Ficaremos assim pela eternidade: nunca juntos como o mundo chama “juntos”, mas presos um ao outro, torturando-nos por estarmos sempre distantes. Não cedemos. Somos arrogantes demais pra isso.

Ela olhou para as próprias mãos, ainda com o leve tremor do estrago da noite.
— Sabemos o que somos. Mãe Ceres quer filhos fortes. Nós a amamos. — A voz saiu quase num sussurro, duro. — No fundo eu quero ser punida por você, como se você fosse a intenção dela. Eu… eu te fodo pensando na Mãe e em mim — vingança e devoção ao mesmo tempo. Eu gosto disso. Não quero parar. E não quero que você pare.

Theo fez um movimento lento, como quem assina um pacto invisível.
— Você pode questionar. Pode tentar fugir dessa lógica. Mas a verdade é esta: a Mãe quer que sejamos líderes — não para mandar, mas porque temos o espírito. Você sente isso, Ceres. Mesmo quando não admite. E mesmo que eu precise te quebrar — se for preciso — eu o farei. Porque essa é a moeda que a gente conhece: dor pela ordem; sangue pela devoção.

Os olhos dela se encheram de algo próximo à reverência. Havia loucura ali, sim, mas havia também reconhecimento: duas peças gêmeas de um tabuleiro que ninguém mais ousava tocar.

No silêncio que caiu depois, a enfermaria parecia menor, como se o mundo inteiro coubesse naquele instante entre dois corpos marcados. Eles não pediram perdão. Não prometeram cura. Reafirmaram apenas aquilo que sempre foram: muralha e tempestade, ligados por sangue, por dever e por desejo — e pela certeza de que a Mãe, fria como era, sorriria com a ordem que geravam.


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