O Caco Humano
O corredor do Colégio Central de Ceres amanhecia com orvalho artificial, o chão ainda úmido e a luz branca demais. Havia um silêncio suspenso antes da sirene. Theo caminhava devagar, o braço enfaixado, a respiração curta. Os olhares o seguiam — não de curiosidade, mas de cálculo. Em Ceres, ninguém perguntava o que já sabia.
No fundo do corredor, Cors estava encostado na parede, o olhar em brasa. Ao lado, Vanks observava tudo, sem expressão — apenas esperando o caos começar.
— Fiquei sabendo que você apanhou de mulher… a fraca da Ceres — disse Cors.
Theo não parou. Passou por ele como quem atravessa uma sombra. Cors o empurrou contra a parede; o som ecoou, seco. Os estudantes se calaram de imediato, formando um semicírculo invisível em torno deles.
Theo, ainda preso pelo colarinho, ergueu os olhos devagar.
— Vai bater em quem está debilitado, na frente de todo mundo?
Fez uma pausa.
— Você é melhor que isso, Cors.
Outra pausa.
— Espere eu ter condições. Vai bater em cachorro morto? Procure o Kan. Ele está em melhores condições.
Cors tremeu de raiva. O punho subiu, mas o professor Ikar surgiu entre os dois num movimento rápido, separando-os.
— Acabou o espetáculo. Sala, agora — disse o professor, a voz fria e cortante.
Cors recuou, mas o olhar ficou preso no de Theo. Não havia ódio ali, havia algo mais perigoso — inveja disfarçada de desprezo.
Theo ajeitou o colarinho amassado e murmurou:
— Até segunda ordem, eu sou um caco humano.
Pausa.
— A gente resolve em campo.
O professor o empurrou levemente, mandando que seguisse.
Vanks, encostado na parede, riu baixo, movendo os lábios sem som: “Fracassado. Líder de merda.”
Theo percebeu, respondeu com um sorriso cínico, o tipo de sorriso que diz “eu sei”, e entrou na sala.
No final do corredor, Ceres observava tudo. Viu o corpo dele curvado, o dedo deslocado, o andar vacilante. Não sentia culpa — culpa era luxo —, mas algo nela pesou. Sabia que havia passado do limite.
“Forte”, pensou, “mas não é dois.”
Ela entrou em outra sala. A câmera ficou no corredor vazio. O sangue seco de Theo ainda marcava a parede onde Cors o prendera.
O Silêncio da Sala
A sala de aula estava mergulhada na luz translúcida de Mãe Ceres — fria, exata, impessoal.
Os alunos entravam em fila, sem se olharem. O som dos passos substituía qualquer conversa.
Theo entrou por último. Ainda sentia o peso do corredor, o colarinho amarrotado, o sangue seco no canto do lábio. Sentou-se na penúltima fileira, como quem deseja ser esquecido.
Logo depois, Cors e Vanks entraram. Não havia coordenação entre eles, mas se moviam como um só corpo. O silêncio entre os dois era pacto.
Cors sentou-se uma fileira atrás de Theo; Vanks ao lado. Entre eles, o ar vibrava.
O professor Ikar escreveu na tela holográfica:
História de Ceres — O valor do sacrifício individual.
Ninguém respirou fundo.
Theo ergueu os olhos, leu a frase, e sorriu de leve — cínico, cansado.
Cors sussurrou, sem olhar:
— Bonita lição pra um covarde.
Theo não reagiu. Continuou fitando o quadro, as palavras do professor. Apenas os dedos tremiam debaixo da mesa.
Vanks se inclinou, quase sussurrando só para Cors:
— Olha o herói aí… sangue azul ainda escorrendo.
Cors segurou a risada, mas ela escapou. O professor girou o olhar — breve, cortante. O silêncio voltou.
Theo falou baixo, sem virar:
— Continuem. Quero ver até onde vai essa coragem sem plateia.
Cors encostou na cadeira, sentindo o golpe — não o físico, mas o outro, o que desarma por dentro.
Olhou para Vanks, tentando sorrir. O riso morreu antes de sair.
A aula seguiu.
O tema era sacrifício.
Ceres estava ausente, mas parecia observá-los de algum lugar.
Na tela, a frase se completou:
Em Ceres, a força não é vencer. É suportar o que o outro não suporta.
Theo leu.
A câmera imaginária fechou em seus olhos.
O reflexo da palavra “suportar” brilhou em suas pupilas.