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Parte fragmentada - ainda em desenvolvimento 1

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Após semanas internado no centro médico de Ceres, Theo finalmente retornou. Dark, porém, não estava em melhores condições — ferido, abatido pela briga violenta em que Theo, em um acesso de fúria, quase o matou. Dru interveio, acertando uma cadeira no exato momento, impedindo a tragédia. Theo e Dark sempre representaram forças da natureza opostas; um antagonismo que se inflamava a cada conflito. A invasão e o sequestro que os levou a Arcádia haviam deixado cicatrizes profundas. Só Theo, Dark e Ceres retornaram vivos à fronteira; o irmão mais novo de Theo permanecia desaparecido, ou talvez morto. A culpa corroía Theo — ele se via falho, um protetor incapaz, um irmão péssimo.

O trem blindado se aproximava, carregando mantimentos e insumos para o colégio. Mais adiante, numa esquina entre as árvores e o complexo do colégio, Dru se escondia. Pela primeira vez desde o incidente da cadeira, Theo e Dru se encontraram frente a frente.

Dru tremia, assustada e atormentada. Nas últimas semanas, Ceres a pressionara de todas as formas — física e mentalmente — por ter intervido contra Theo, seu melhor amigo. A relação de Dru e Theo, antes íntima, havia se fragmentado com a chegada de Ceres, a garota de pele pálida, olhos azuis e temperamento explosivo. Dru compreendia a simbiose disfuncional entre Theo e Ceres: um muralha, uma tempestade, líderes do colégio e iguais em arrogância. Agora, Dru estava sozinha, assustada não apenas com Theo, mas com a possibilidade de que Ceres a visse como traidora.

— Theo… eu… eu sinto muito… — gaguejou Dru, lágrimas escorrendo.

Theo a observou, calmo, como se encarasse algo inesperado e frágil:

— Não, Dru. Não vim aqui para brigar. Vim apenas para agradecer… você me impediu de matar Dark. Não que eu não quisesse, mas não posso romper a linha que a Mãe quer. Obrigado.

Dru engasgou com a surpresa.

— Que?

— Não se preocupe. Mesmo assim, você me ajudou. Teu rosto diz que Ceres não pensa assim; ela te enxerga como traidora.

Dru soluçou, mas permaneceu em silêncio. Theo não se aproximou, mantendo a distância de antes, mas sua voz tinha uma sinceridade sem julgamento:

— Aceito suas escolhas. Sei que você deve gostar de Dark, mesmo do jeito que ele é. Tenho que respeitar isso. Mal cheguei e te encontrei aqui… embora esperasse que estivesse.

Dru sentiu um alívio inesperado, algo que não sentia há semanas — não havia julgamento, apenas compreensão. Theo sorriu, cínico, mas sem maldade. Dru correspondeu com um sorriso em lágrimas, mas tudo desmoronou quando ela percebeu o que estava atrás dele.

Ceres surgiu como um espectro, saída de um inferno próprio. Seus olhos eram tempestade pura, a mecha branca que destacava-se como a de Theo irradiava intensidade. Não havia amistosidade em seu olhar; só a escuridão que sempre a definira.

Ceres avançou alguns passos, os olhos gelados como lâminas. Cada movimento seu parecia medir o espaço, controlar a atmosfera ao redor. Theo sentiu o mesmo frio que sempre surgia quando ela aparecia, uma mistura de desafio e atração que o deixava inquieto. Dru recuou, engolindo o medo e a culpa, ciente de que qualquer gesto em falso poderia desencadear algo terrível.

— Então… finalmente se reencontram — disse Ceres, com a voz cortante, mas carregada de sarcasmo. — Theo, sempre tão rápido em perdoar os outros… mas lento para se perdoar. E você… Dru. Acha mesmo que uma cadeirada pode apagar meses de falha?

Dru engoliu em seco, mas antes que pudesse responder, Theo interveio, o tom mais firme que podia sustentar:

— Ceres, não toque nela. Ela fez o que pôde. Eu sei disso.

Ceres ergueu uma sobrancelha, um sorriso frio surgindo nos lábios:

— Ah… o defensor. Sempre o mesmo. Mas não pense que isso muda algo. Dru vai aprender… ou pelo menos sofrer tentando não ser inútil.

A tensão entre Theo e Ceres era palpável, como duas tempestades prestes a colidir. Ele deu um passo à frente, tão próximo que o calor dela quase queimava, e ainda assim mantinha o olhar fixo, desafiador.

— Você acha que pode quebrar alguém só porque quer? — Theo disse, com um sorriso cínico, tão arrogante quanto o dela. — Eu sei o que você é, Ceres. Mas não hoje.

Ceres desviou o olhar por um instante, e a linha entre provocação e desejo se tornou quase indistinta. Um sussurro de vento trouxe o cheiro dela, metálico e intenso, e Theo sentiu uma estranha mistura de raiva e atração, o mesmo efeito que sempre acontecia quando eles se enfrentavam.

— Hoje ou amanhã… Dru vai entender o que significa desafiar a Mãe — disse Ceres, recuando um passo, mas mantendo o controle absoluto da situação. — E você… Theo, continuará me olhando e tentando se convencer de que pode ser diferente. Mas sabe tão bem quanto eu que somos iguais demais para isso.

Dru respirou fundo, sentindo-se pequena e vulnerável entre as duas forças. Ela não era apenas uma amiga: era um campo de batalha. Um lugar onde Theo e Ceres travavam suas guerras de arrogância, desejo e poder. E, no centro disso, ela só podia tentar sobreviver.

Theo deu um passo atrás, respeitando a distância que Ceres impunha, mas sem retirar o olhar. Dru, por sua vez, sentiu-se dividida entre alívio e terror: Theo estava ali, mas Ceres também. E aquela presença era mais devastadora do que qualquer cadeirada.

Ceres deu um passo à frente, sua presença preenchendo todo o espaço. Ela parou perto de Dru, inclinando-se levemente, o olhar penetrante e cruel.

— Sabe, Dru… — disse Ceres, com uma calma que gelava os ossos — eu roubei Theo de você. E você… não fez nada. Por quê? Porque é fraca. Sempre foi. Sempre será.

Dru estremeceu, o corpo pequeno e tremendo, mas não conseguia desviar o olhar. Cada palavra de Ceres queimava como ácido.

— Eu conheço o corpo dele — continuou Ceres, a voz baixa e firme, quase íntima — cada movimento, cada respiração. E você, aqui… só observando. É patético.

As lágrimas de Dru escorriam livremente agora. Ela sempre fora vulnerável, carente de afeto, usada por Ana para conseguir coisas que Ana queria. Nunca foi respeitada, nunca foi desejada de verdade. Tudo que tinha era medo e uma sensação constante de insuficiência.

— Você acha que alguém se importa com você? — Ceres continuou, um sorriso cruel se formando nos lábios — Ninguém gosta de você, Dru. Nunca gostou. E aqui está, sozinha, assistindo enquanto eu e Theo… bem, você sabe.

Theo sentiu a pontada de algo entre raiva e impotência. Ele queria intervir, dizer algo que parasse Ceres, que protegesse Dru de sua própria crueldade, mas sabia que qualquer movimento em falso poderia piorar tudo. Ele estava limitado pela regra silenciosa que Ceres impunha — e pelaquilo que os dois compartilhavam: um respeito sombrio, uma guerra constante entre poder e desejo.

Dru caiu de joelhos, o corpo pequeno sacudindo em soluços. Ela não podia lutar fisicamente; não podia fazer nada além de ouvir. Mas dentro dela, algo começou a se formar: uma mistura de medo, humilhação e raiva silenciosa. Ela sabia que Ceres queria quebrá-la, explorar cada fraqueza… mas talvez, apenas talvez, isso pudesse acender algo nela.

Ceres se afastou um passo, mantendo os olhos fixos em Theo, desafiadora e orgulhosa:

— Agora você vê, Theo? Ela sempre foi fraca. E ainda assim, aqui está, olhando para nós. Isso… é diversão. Isso é poder. Isso é o que significa sobreviver nesse colégio.

Theo respirou fundo, o peito pesado. Ele sentiu uma tensão sexual que sempre surgia quando Ceres se aproximava, a adrenalina misturada à raiva e ao desejo. Mas, acima de tudo, sentiu a necessidade de proteger Dru, mesmo que estivesse preso nesse jogo cruel.

Dru, por sua vez, finalmente olhou para Theo, a voz quebrada:

— Theo… faça alguma coisa…

Ele apenas apertou o punho, engolindo em seco. Podia muito bem intervir e salvar Dru — mas sabia que qualquer tentativa poderia desencadear algo ainda mais sombrio de Ceres. E, no fundo, ele precisava manter a linha que a Mãe exigia, mesmo que isso significasse assistir Dru ser desmontada aos poucos.

O silêncio se espalhou pelo canto escondido entre as árvores. As árvores tremiam com o vento, mas o verdadeiro furacão estava ali, entre eles três.

Ceres avançou, a fúria condensando-se em cada músculo. Antes que Dru pudesse reagir, a mão de Ceres se ergueu para acertá-la.

— Sai! — Theo gritou, movendo-se como um relâmpago. Ele bloqueou o soco com a guarda fechada, os braços endurecidos como aço. O impacto reverberou por seus ossos.

— Theo… — Dru começou, mas ele a interrompeu, firme.

— Sai daqui, Dru. Agora. — Sua voz era baixa, mas carregada de autoridade e firmeza — Ceres não vai mais te atormentar. Mas entenda: o que acontece aqui, fica aqui. Ninguém vai saber. Nenhum pedido de ajuda, nenhum testemunho. É uma conversa de sangue, particular. Não importa o que aconteça depois.

Ceres cerrou os dentes, quase explodindo de raiva.

— Você está protegendo uma traidora — disse ela, cada palavra uma lâmina — uma amiga sua que ousou me desafiar.

Theo manteve a postura, sem se intimidar.

— Se Dru não estivesse aqui… eu teria matado Dark. — A voz dele era baixa, mas carregava o peso de cada decisão — Você também queria vê-lo morto.

Ceres estreitou os olhos, aproximando-se, como se cada palavra de Theo fosse um insulto pessoal.

— Duas vezes, Theo… você poderia ter matado ele duas vezes. Na primeira, na Fronteira de Ceres em Arcádia, teria sido perfeito. Mas você… você carregou ele nas costas mesmo depois de ser alvejado. E mesmo assim… Dark me provocava. Tolerou… tolerou um desgraçado que merecia morrer.

Theo não recuou. Seus olhos, frios como gelo, refletiam o tormento e a determinação.

— Sim. Tolerar. Porque não importa a provocação, não importa o quanto ele mereça… há uma linha que não posso romper. E você sabe disso, Ceres. — Ele respirou fundo, os punhos cerrados — Dru estava lá, não para atrapalhar, mas para me impedir de fazer algo que você mesma não poderia controlar.

Ceres recuou apenas um passo, os olhos faiscando. Havia tensão, desejo e raiva misturados em cada centímetro de seu corpo. Ela sabia que Theo tinha razão, mas odiava admitir, odiava que alguém, especialmente Dru, tivesse interferido.

Dru, ainda tremendo, conseguiu recuar alguns passos, o coração disparado. Pela primeira vez, sentiu que Theo a protegeria, mesmo que isso significasse enfrentar Ceres.

O silêncio que caiu sobre o trio era quase sufocante. O vento passava pelas árvores, mas ninguém se mexia. Cada respiração parecia medida, cada olhar carregava séculos de conflito, desejo e violência contida.

— Lembre-se — disse Theo finalmente, os olhos fixos em Ceres — aqui não termina. Mas ela não será mais sua vítima.

Ceres apertou os lábios, a fúria ainda pulsando, mas agora contida. Por enquanto.

Theo respirou fundo, o corpo ainda pulsando com cada impacto de Ceres, mas sua mente clara. Ele baixou a guarda lentamente, deixando os braços caírem ao lado do corpo.

Ceres hesitou, confusa, os olhos faiscando como tempestade prestes a explodir. Mas Theo não recuou. Avançou um passo, mão aberta, e a empurrou com firmeza — não para ferir, apenas para afastar. O corpo de Ceres caiu no chão de maneira desmoralizante, espalhando poeira e folhas ao redor.

— Nem bati em você — disse Theo, provocador — Apenas usei a mão para te afastar. — Ele se inclinou levemente, o olhar fixo nos olhos azuis dela — Fraca… você nunca ganharia de mim de verdade.

Ceres rosnou, ofegante, a humilhação e a fúria queimando juntas. Theo continuou, a voz firme, cortando o ar:

— Mostre sua força. Mostre seu ódio. Eu quero sentir. Mas, para mim, é pouco. Quero mais. Quero ver quem você realmente é.

Ele deu mais um passo, aproximando-se, mantendo o controle absoluto.

— Eu poderia te dar meu sangue, do jeito que você quer… mas cai pra dentro. — Ele fez uma pausa, olhos fixos nos dela, a respiração firme — Não tenho medo do que vejo nos seus olhos. Vejo você… como caça a ser abatida.

Ceres ergueu a cabeça, o olhar faiscando, cada músculo tenso. Theo sorriu, provocador, desafiador:

— Mostre-me a verdadeira Ceres… aquela que ninguém jamais viu. —

O chão parecia vibrar sob a intensidade do momento. Ceres, ainda caída, respirava fundo, tentando controlar a tempestade dentro de si. Mas Theo sabia que ela estava lá, inteira, vibrando com ódio, desejo e desafio — e por um instante, tudo o que restava era a guerra silenciosa entre eles dois.

Dru, escondida a alguns metros, sentiu seu coração disparar. Nunca tinha visto Theo assim — nunca tinha sentido o peso de sua presença misturado à fúria contida de Ceres. E sabia, instintivamente, que aquele momento não era apenas um confronto físico: era um ritual de poder, intimidade e dominância que mudaria tudo entre eles.

Ceres ganhou fôlego, mais furia, mais ódio. Cada golpe agora carregava uma força quase sobre-humana. Num instante, um chute certeiro acertou a costela de Theo, fazendo-o cambalear, e o polegar foi deslocado com um estalo seco.

— Aaaah! — Theo gritou de dor, mas em seus olhos havia mais excitação que medo. — Isso mesmo, Ceres… sangue no olho, gosto de sangue na boca.

Com mãos firmes, ele reajustou o polegar no lugar, rangendo os dentes de dor e prazer contido. Ceres, agora insana, explodiu com força total, batendo e batendo, bufando como um animal irracional. Não era mais apenas Ceres; era uma fera enlouquecida, sedenta de poder e violência.

Theo, calmo e focado, conseguiu pegar Ceres por trás, em um mata-leão perfeito, cruzando as pernas em sua cintura. Ambos caíram sentados no chão da mata, Ceres rosnando como uma criatura impossível de conter.

— Você perdeu, Ceres… — Theo provocava, a voz baixa e firme — Como um bebê pronto para dormir. Não tinha para onde fugir.

Ceres, selvagem, puxou o braço dele e mordeu com força brutal, rasgando a pele. Theo não soltou, sentindo o gosto metálico do sangue em sua boca. Ela sugava, literalmente, como se quisesse extrair sua força vital.

Com um movimento controlado, Theo afrouxou a gravata, permitindo que Ceres continuasse, quase em transe. Aos poucos, a fera parecia se acalmar, sugando o sangue, deixando escapar apenas roncos e gemidos de fúria contida.

Quando finalmente cessou, Theo e Ceres ainda sentados no chão, ofegantes, se olharam. O silêncio pesado foi preenchido pelo gosto do sangue e da adrenalina. Então, quase instintivamente, Ceres tocou os lábios nos dele, e o beijo aconteceu: intenso, caótico, carregado de ódio, desejo e uma conexão que nenhum dos dois poderia negar.

Ceres, atônita, com a boca ainda manchada de sangue, não sabia se odiava ou desejava aquele momento, mas algo havia mudado entre eles. E Theo, mesmo sentindo a dor do ataque e a adrenalina pulsando, sabia que a guerra entre eles estava longe de terminar — mas, por enquanto, havia um entendimento silencioso, selvagem e absoluto.

Dru correu por entre as árvores, mas não conseguia tirar os olhos do que havia acabado de testemunhar. A cena do sangue, a violência, a entrega brutal de Theo e Ceres… tudo a deixou horrorizada. Seu coração batia descompassado, e uma sensação de medo e repulsa se misturava a uma estranha compreensão: aquilo não era apenas luta, era um ritual, uma conexão que ela jamais entenderia completamente.

Ela se afastou, escondida, soluçando baixinho, tentando processar o que acabara de ver. Pela primeira vez, entendeu que Theo não era feito para relações comuns. Sua intensidade, sua ferocidade, seu controle sobre si e sobre os outros… nada disso combinaria com alguém frágil ou tímida. E Ceres… Ceres era igual a ele em tudo: louca, intensa, irresistivelmente perigosa. Não havia lugar para terceiros, não havia espaço para sentimentos comuns.

Enquanto Dru observava de longe, Theo e Ceres permaneceram no beco, sozinhos, em silêncio pesado e carregado. O cheiro de sangue misturava-se à adrenalina. E então, lentamente, eles se entregaram um ao outro — não com ternura delicada, mas com a intensidade crua de quem entende o poder, o risco e a fúria que compartilham. Cada toque, cada respiração era uma afirmação: ninguém mais deveria se intrometer, ninguém mais poderia controlar aquilo.

Dru se afastou mais, compreendendo que aquela relação não era apenas sobre desejo ou raiva. Era sobre iguais, sobre poder, sobre um fio tênue entre destruição e conexão. E naquele instante, ela soube que Theo e Ceres não poderiam, e nem deveriam, ser separados.

Ela deixou o beco, o coração pesado e os olhos marejados. Havia medo, havia choque, mas também uma estranha aceitação: aqueles dois eram tempestade e muralha, e qualquer um que tentasse intervir, por mais bem intencionado que fosse, correria risco de vida.

E assim, no silêncio do beco, Theo e Ceres permaneceram entregues um ao outro, uma união selvagem, intensa e perigosa — uma conexão que só eles poderiam entender.

O beco ficou silencioso, apenas o vento e o eco da respiração pesada preenchendo o espaço. O chão ainda estava marcado pelo confronto, folhas espalhadas e a poeira misturada ao sangue. Theo e Ceres permaneceram ali, frente a frente, olhos fixos, cada um reconhecendo no outro a mesma força indomável.

Ceres respirava com dificuldade, o corpo ainda tenso, mas havia algo nos olhos dela — uma espécie de transe selvagem, uma fome de intensidade que só Theo conseguia provocar. Ele a olhou, calmo, firme, e aproximou-se devagar, com uma mão tocando seu ombro, depois deslizando para a cintura, sentindo a musculatura tensa sob os dedos.

— Vem — disse Theo, a voz baixa, rouca — não há ninguém aqui. Só nós dois.

Ceres inclinou-se para ele, a respiração misturando-se à dele, os lábios manchados de sangue roçando os dele por um instante antes do beijo. Não era delicadeza; era fúria, desejo, poder e entrega total. Cada movimento era carregado de raiva contida e paixão, uma dança brutal de dois iguais que só se entendem no confronto.

Ele segurou Ceres com firmeza, sentindo o corpo dela relaxar apenas levemente contra o seu, como se a fera tivesse encontrado seu equivalente. E, no beijo, havia tudo: sangue, dor, prazer, raiva e uma conexão que não precisava de palavras.

Ceres, ainda atônita, deixou que aquele momento a consumisse. Seus dedos afundaram nas costas de Theo, como se quisesse agarrar não apenas o corpo dele, mas a própria força dele. Theo, por sua vez, manteve o controle, absorvendo cada gesto, cada impulso, cada explosão de ódio e desejo dela, sabendo que aquele era um momento de reconhecimento mútuo, quase ritual.

O mundo ao redor deixou de existir. Não havia beco, não havia sangue, não havia perigo — só a intensidade crua, selvagem, de dois seres que se encontram não para se dominar, mas para se reconhecer. A entrega não era fragilidade; era poder compartilhado, uma tempestade contida no toque, no olhar, na respiração entrecortada.

Quando finalmente se afastaram levemente, ofegantes, os olhos de Ceres encontraram os de Theo. Ambos sabiam que ninguém jamais poderia entender aquilo. Ninguém deveria intervir. Era deles, apenas deles. E, mesmo na fúria, na loucura e no desejo, havia respeito e entendimento absoluto: aquele vínculo era indestrutível, selvagem e perigoso demais para ser tocado por qualquer outro.


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