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Capítulo 5: Café nas costas.

hyan_amorim

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Quinta-feira, 20/02/2025



Meu coração estava disparado. Ariel, quase adormecido em meus braços, murmurava palavras desconexas... e mesmo assim, conseguia mexer comigo como ninguém. Eu não entendia o que estava acontecendo comigo, só sabia que aquela sensação era intensa, e estranhamente boa.

- O que fizeram com o meu irmão?! - a voz de Ariana me tirou do transe. Ela apareceu na porta, chocada ao me ver com Ariel nos braços.

- Ele está muito bêbado... - respondi, sentindo um certo peso na consciência, mesmo sem saber por quê.

- Esse cachaceiro! Amanhã ele vai me pagar por essa. - resmungou ela, pegando Ariel com delicadeza e passando os braços dele em volta do pescoço.

- Então... eu já vou indo. Boa noite. - murmurei, com a voz mais baixa do que o normal. Me afastei, mesmo querendo ficar.

- Volte em segurança. - disse Ariana, entrando com ele.

Entrei no carro. Fechei a porta. O silêncio caiu como uma avalanche. Encostei a cabeça no volante e respirei fundo. O peito doía de algo que eu não conseguia explicar. Levei a mão ao coração e, sem pensar, murmurei:

- Por que você faz isso comigo, Ariel...?

Sorri. Um sorriso pequeno, bobo... mas sincero.

Cheguei em casa e fui recebido como se tivesse levado a tempestade comigo. Meu pai estava na sala, me esperando com os olhos pegando fogo. O silêncio no ambiente era tão tenso que dava pra ouvir cada batida do meu coração.

- Como você se atreve a fazer uma coisa dessas?! - ele explodiu, e a voz dele ecoou pelas paredes como um trovão.

Respirei fundo. Já esperava por isso.

- Então... você já ficou sabendo. - falei num tom resignado, tentando manter a calma.

- A gravação da sua agressão está em todos os lugares! - ele continuou, completamente fora de si. - Por sua causa, o estrangeiro cancelou o contrato!

Senti meu sangue ferver.

- A culpa é minha?! - rebati, olhando direto nos olhos dele. - Ele tentou agarrar o Ariel! Isso o vídeo não mostra, né?!

- Mas isso não era problema seu! - ele rebateu, sem um pingo de empatia. - Devia ter deixado aquele rapaz se virar sozinho!

Travei o maxilar.

- Ele estava sendo assediado. Eu não podia simplesmente virar as costas. - disse com firmeza, mesmo sabendo que ele não se importava com isso.

- Agora você está com fama de violento! - ele cuspiu as palavras como veneno. - Um dos nossos principais parceiros cortou relações por causa disso. O estrangeiro é amigo pessoal dele! Eu pensei que podia confiar em você, Daniel... mas você só me dá desgosto.

Ele virou as costas e saiu da sala, me deixando ali, no meio do silêncio mais barulhento que já ouvi.

Fiquei parado. Os lábios pressionados, o olhar no chão. O peso da culpa me cercava... mas arrependimento? Não. Isso, eu não sentia.

Sexta-feira, 21/02/2025

É de manhã, e o caos se instalou na empresa. Meu pai convocou uma reunião de emergência - o clima está tão pesado que parece até cena de novela das nove.

- Chamem o Ariel. - diz meu pai com seriedade.

- O Ariel? Mas por quê?! - pergunto, confuso e tenso.

- Ele também está envolvido nessa confusão. É justo que participe da reunião. - responde meu pai com aquele tom de "não discuto, só decreto".

Minutos depois, o secretário do meu pai aparece... com o Ariel. Ele entra parecendo uma criança chamada na diretoria.

- Estou aqui, senhor. - diz Ariel, com a voz meio trêmula.

- Sente-se, Ariel. - ordena meu pai. Ariel me olha de relance, claramente pedindo socorro com os olhos, e se senta devagar, encolhido na cadeira.

- Você está aqui há pouco tempo, mas já conseguiu se envolver em muita confusão. - dispara meu pai. Ariel abaixa a cabeça, ouvindo calado como um aluno em apuros.

De repente, o secretário interrompe:

- Senhor, a assessoria do estrangeiro está em contato. Eles querem divulgar uma nota oficial.

- E o que eles disseram? - pergunta meu pai, impaciente.

- Eles afirmam que tudo não passou de um ensaio para um curta-metragem... - responde o secretário, hesitando. - ...em que o namorado defende o outro de um assédio.

Eu dou uma risada irônica.

- Se ele tá apelando pra isso, é porque tá com medo que descubram que ele realmente tentou agarrar o Ariel.

- Bom, se for isso, já ajuda a aliviar a sua barra, Daniel. - diz meu pai, aliviado.

- Senhor, eles já soltaram a nota... e, bom... parece que o público está adorando o casal. - completa o secretário, quase se divertindo com a situação.

- Ai meu Deus. - murmura Ariel, afundando na cadeira.

- Eu tenho uma ideia! - diz meu irmão, todo animado. - E se usarmos toda essa repercussão e fizermos um comercial com o Daniel e o Ariel? Dizemos que tudo não passou de uma jogada de marketing!

- Isso é... brilhante! - diz meu pai, já sorrindo como se tivesse ganhado na loteria.

- Mas, senhor... - tento protestar, sentindo o calor subir no rosto.

- Vocês dois causaram todo esse alvoroço, agora vão ter que consertar juntos. - decreta meu pai, encerrando a reunião com um estalar de dedos metafórico.

Eu olho para Ariel. Ele está tão vermelho quanto um tomate maduro.

E eu... bem, talvez eu também esteja.

Acabei de almoçar e agora estou na minha sala, com o notebook aberto, lendo as últimas notícias. A empresa soltou uma nota confirmando a versão do estrangeiro - ótimo, agora somos oficialmente um casal de novela mexicana. Só que não.

Penso no tal comercial... Um vídeo com o Ariel. Um minuto. Sessenta segundos. Eu consigo... eu acho.

De repente, batem na porta.

- Senhor, eu trouxe seu café. - diz Ariel, do outro lado.

- Pode entrar. - respondo, tentando soar natural, mas já me ajeitando na cadeira como um adolescente pegando a crush chegando.

Ariel entra com aquele sorriso que... droga. Que sorriso é esse? Meu coração dá uma leve acelerada. Só um leve.

- Aqui, senhor. - diz ele, colocando o café na minha mesa com delicadeza.

- Um... cappuccino? - digo, reparando na xícara. Há um coração desenhado na espuma. Um coração. Ele desenhou um coração!

- É que não consegui trazer seu café de manhã, então preparei algo especial agora. - diz ele, com um brilho no olhar.

- Obrigado, Ariel. - respondo enquanto dou um gole. Está realmente delicioso. Claro que está.

- Senhor, só se fala do ocorrido de ontem... e do comercial. - comenta ele, um pouco desconfortável.

- É só um comercial bobo de alguns segundos. O foco principal é divulgar o café, não a gente. - tento minimizar, mas no fundo, estou em pânico.

- A assessoria do estrangeiro entrou em contato comigo hoje cedo... disseram que sentem muito pelo ocorrido. - diz Ariel, coçando a nuca.

- Aquele idiota nem teve a decência de pedir desculpas pessoalmente. - rebato, com raiva contida.

- Tudo bem, senhor. Eu não quero ver aquele estrangeiro nem em figurinha de WhatsApp. - responde Ariel, cruzando os braços. Tento não rir.

De repente, a porta se abre. Minha secretária entra com uma pilha de papéis.

- Senhor, preciso que assine estes documentos. - diz ela, já colocando a papelada em cima da mesa.

- Ah... claro. - respondo, forçando um sorriso.

- Bom, então... eu já vou indo, senhor. Não quero atrapalhar o seu trabalho. - diz Ariel, já se retirando com aquele sorrisinho de despedida.

E lá vai ele.

Droga. Justo agora? Por que ela tinha que entrar com esses papéis? Tinha que ser nesse momento. O melhor momento do meu dia.

Finalmente o expediente acabou. Estou dirigindo e passo de carro pela frente da parada de ônibus. Mas... droga. Cheguei tarde demais. O Ariel já pegou o ônibus.

- Que droga... - murmuro, batendo levemente no volante.

Essa era a minha última chance de vê-lo hoje. Agora, só segunda-feira. Segunda-feira parece tão longe.

Sigo o caminho pra casa, frustrado. Chegando lá, encontro meu irmão esparramado no sofá, como sempre, com a cara enfiada no celular. Assim que me vê, ele se anima e se levanta com um papel na mão.

- Daniel, aqui está o roteiro do comercial. - diz ele, entregando o papel como se fosse um presente de aniversário.

Ele me dá um sorrisinho de canto. Está claramente se divertindo com tudo isso.

- Você tá se divertindo, não tá? - digo, arqueando uma sobrancelha.

- Um pouco. Vocês dois criaram uma legião de fãs na internet. - responde ele, rindo. - Isso vai impulsionar muito as vendas.

- Já entregaram ao Ariel também? - pergunto, tentando soar casual, mas falho miseravelmente.

- Claro! Ele já recebeu. As gravações são segunda-feira, então... prepara-se. - diz ele, piscando.

- Mas já?!

- Temos que aproveitar enquanto ainda está em alta! - responde ele, como se fosse um expert em marketing viral.

Suspiro, pego o roteiro e subo para o quarto. Segunda-feira. Ariel. Comercial. Um milhão de olhos assistindo. Eu, fingindo ser romântico... sendo que talvez... talvez eu nem esteja fingindo tanto assim.

Segunda-feira, 24/02/2025

É de manhã e estamos nos arrumando para a gravação do comercial. Montaram um cenário fofo de cozinha, com tudo em tons pastel. Eu passei o fim de semana inteiro treinando essas falas. Algumas delas... bem, eu sempre quis dizer pro Ariel, mas nunca tive coragem. Agora finalmente terei essa chance. Pena que ele vai achar que é só atuação.

- Nos seus lugares, Daniel e Ariel! - grita o diretor.

Eu e Ariel nos posicionamos. Vamos gravar uma cena onde cozinhamos juntos. Cena romântica de casal... com legumes. Inacreditável.

- Ação! - grita o diretor.

Abraço o Ariel por trás, daquele jeitinho clichê de comédia romântica. A gente começa a cortar legumes sincronizados como se fosse "Ratatouille - A Versão Romântica".







- Eu tô com uma fome de leão. - digo, tentando manter a voz natural, mas meu coração tá batendo feito tambor de escola de samba.



- Tenho duas notícias: uma boa e uma ruim. - responde Ariel com um sorriso que faz o tempo parar.



- Qual é, bebê? - solto, e quase morro por dentro. Chamar o Ariel de "bebê"?! Eu nunca tive coragem na vida real!

- A ruim é que a comida ainda vai demorar... - diz ele, enquanto caminha até a cafeteira com um charme natural que daria inveja em protagonista de dorama.

- Mas a boa é que tem café, e ele vai te ajudar a esperar... meu amor.

Ele fala "meu amor" e eu quase engasgo com o ar. Isso devia ser ilegal. Mereço um Oscar só por não desmaiar nessa hora.

Ele me entrega uma xícara.

- Que café delicioso! - digo, tomando um gole como se fosse o melhor café da galáxia.

- Esse café é incrível. Tem um gostinho suave, parece que abraça por dentro. - diz Ariel, também tomando um gole.

- Tão suave quanto você. - solto sem pensar. O texto pedia, mas eu queria mesmo dizer.

- E forte... forte como meu amor por você. - diz ele, sorrindo enquanto mostra a xícara para a câmera.

Silêncio.

- CORTA! - grita o diretor. - Maravilhoso! Perfeito! Uma única tomada! Vocês são ouro puro!

A equipe começa a bater palmas. Ariel dá risada, meio envergonhado. E eu? Estou ali parado, com uma xícara vazia na mão e um coração cheio demais pra explicar.

Se continuar assim, vou ter que gravar mais comerciais só pra ouvir o Ariel me chamar de "meu amor" de novo.

Sábado, 01/03/2025

O comercial foi um sucesso absoluto. As vendas dispararam e meu pai, animado com os lucros e querendo estreitar laços com os funcionários, resolveu organizar uma viagem de fim de semana... na praia! Isso mesmo: sol, mar e planilhas deixadas no escritório.

Acabamos de chegar. O ônibus da empresa trouxe todo mundo, e a animação já começou desde o embarque - teve até karaokê improvisado com microfone de garrafa d'água. Ao chegar, fomos direto para o hotel. Cada funcionário foi se acomodar em seus respectivos quartos. Infelizmente, o destino (ou meu pai) achou justo que eu dividisse o quarto com o meu irmão. Logo hoje. Eu só queria dividir o quarto com... bom, deixa pra lá.

Agora todos estamos reunidos no refeitório do hotel, onde o clima é de descontração total. Pratos tropicais, sucos coloridos e gente de chinelo tirando selfies como se estivessem em um reality show.

- Não se esqueçam que à tarde começam as gincanas! - anuncia meu irmão em tom de animador de auditório.

- Vamos nos dividir em equipes, e a equipe vencedora leva o troféu da Grão UP!

- Já decidiram quais serão os jogos? - pergunta um dos funcionários, empolgado.

- Primeiro vai ser ou futebol ou queimada. - responde meu irmão com um sorrisinho travesso.

- Gente, eu sou péssimo em futebol... um desastre ambulante! - diz Ariel, já fazendo drama.

- Não me faça passar vergonha, Ariel. Pelo menos corre atrás da bola, por favor. - provoca um colega, rindo.

- Até parece! No futebol eu sou um fiasco, mas na queimada ninguém me acerta. Tô igual ninja! - rebate Ariel com orgulho, fazendo um movimento aleatório como se fosse Matrix.

- Peguem os crachás aqui nessa caixa! - avisa meu irmão. - Temos duas equipes: azul e amarela.

Todos correm para pegar o crachá como se fosse sorteio da Mega-Sena. Eu pego o meu: crachá azul. Olho pra frente e... não acredito. Ariel também está com o crachá azul!

Ele ergue o crachá, sorridente, como se tivesse vencido na loteria - e talvez tenha mesmo. Mas ele nem imagina que, no fundo, quem se sente ganhando algo sou eu. Sorrio sem perceber. A equipe azul nunca esteve tão bem representada.

- Vocês podem explorar o local, mas não se esqueçam que o almoço será servido às 11 horas! - avisa meu irmão, com aquele tom de líder de excursão do colégio.

- Ariel, onde você quer explorar primeiro? - pergunta um colega animado.

- Quero ver as pedras! Dizem que a vista de lá é linda. - responde Ariel, com os olhos brilhando.

- Boa sorte então! Eu não vou me enfiar no meio do mato. - rebate o colega, já dando meia-volta como se tivesse fugindo de um urso. Ariel, determinado, vai sozinho pela trilha.

Fico ali parado, assistindo tudo. Será que devo me oferecer pra ir com ele? Mas e se parecer estranho? Não... melhor só seguir de longe.

Ele vai abrindo caminho entre as árvores e, de repente...

- Aaahg! - ouço um grito abafado.

Corro sem pensar.

- Ariel?! - chamo, enquanto me aproximo.



- Senhor?! O que faz aqui? - pergunta ele, surpreso, ainda no chão.

- Vim ver as pedras... ué. - respondo, tentando parecer casual enquanto estendo a mão.

Ariel segura minha mão, mas quando tenta se levantar, seu rosto se contorce.

- Ai!

- Você está bem? - pergunto, já preocupado.

- Não é nada... só torci um pouquinho. - responde ele, claramente tentando bancar o forte.

Sem pensar, me agacho e o coloco nas minhas costas.

- Eu te levo.

- Senhor, não precisa! - diz ele, todo sem graça.

- O caminho é só pedra solta, se você insistir em andar, pode se machucar mais. Me deixa ser útil, pelo menos dessa vez.

Ele para de resistir. Apenas se segura em mim, como se confiasse - e, de algum jeito, isso aquece meu peito.





Chegamos ao mirante. O lugar é incrível: o mar lá embaixo, ondas quebrando em câmera lenta, o céu tingido de laranja e dourado. O sol está nascendo, e o silêncio é mágico.



Nos sentamos lado a lado nas pedras. Ariel está com os olhos fixos na paisagem, mas minha atenção está totalmente voltada para ele. O cabelo bagunçado pela brisa, o olhar calmo... Meu coração começa a bater mais rápido, e eu sei exatamente o porquê.



- Eu te amo, Ariel. - penso, mas não digo. Ainda não.



Só fico ali, torcendo para que, de algum jeito, mesmo sem palavras... ele sinta.

#romance

Thoughts

  • MateusVilela

    O Daniel pedindo um Oscar por não desmaiar e o Ariel tranquilão falando meu amor pra câmera. Desconfio que o Ariel não tava atuando nada.

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  • Tiao

    Desde a primeira xícara o café é quem manda nessa história, agora virou até comercial. O pai que chamou o Daniel de desgosto na quinta já tá contando o lucro no sábado, esse homem vira a casaca rapidinho.

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Quinta-feira, 20/02/2025

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