Eu não sabia exatamente quanto tempo havia passado desde que Neithan tentou me acalmar. Tudo o que eu conseguia lembrar eram o rosto assustado do meu irmão e aquela sensação horrível de que eu estava perdendo o controle de mim mesmo outra vez.
Mas, aos poucos, tudo havia se acalmado.
Sentei-me na beirada da cama, passando as mãos pelo rosto enquanto tentava organizar meus pensamentos. Eu estava cansado, muito cansado, e não queria pensar no que havia acontecido. Pelo menos não naquela noite.
Olhei para minhas mãos por alguns segundos, movimentando os dedos lentamente. Pareciam normais. Eu me sentia normal. Até minha respiração havia voltado ao ritmo de sempre.
— Foi só mais uma crise... — murmurei para mim mesmo, tentando acreditar nas próprias palavras.
E eu conhecia meu irmão bem o suficiente para saber que ele não esqueceria tão cedo.
Soltei um suspiro e me levantei para trocar de roupa. Coloquei meu pijama, escovei os dentes e apaguei a luz do quarto, deixando apenas a claridade fraca da lua entrar pela janela.
Antes de me deitar, olhei para a porta.
Uma parte de mim queria ir atras do Neithan para conversar com ele, explicar que eu ainda era o mesmo irmão de sempre. Mas imaginei que ele precisasse de um tempo para assimilar tudo aquilo.
Além disso, eu também precisava descansar.
Deitei a cabeça no travesseiro, puxando o cobertor até os ombros. Aos poucos, meus olhos foram ficando pesados, e os pensamentos começaram a se misturar até que finalmente adormeci.
Ou pelo menos pensei que tivesse adormecido.
Quando abri os olhos novamente, estava em um corredor.
Demorei alguns segundos para perceber que não estava no meu quarto. As paredes eram cobertas por um papel de parede antigo, verde-escuro, que se desprendia em grandes pedaços. Havia quadros tortos espalhados pelas paredes, alguns tão velhos que mal conseguia distinguir os rostos retratados neles.
O chão de madeira estava coberto de poeira e pequenos fragmentos de alguma coisa que eu não conseguia identificar.
Franzi a testa.
— Onde eu estou?
Minha voz ecoou pelo corredor, mas ninguém respondeu.
Olhei para trás. Não havia porta alguma, apenas uma parede escura que parecia se estender por uma distância impossível.
Voltei a olhar para a frente.
No fim do corredor, havia uma porta aberta.
Uma luz avermelhada escapava por ela, iluminando fracamente o chão. Uma névoa fina se espalhava pelo ambiente, tornando difícil enxergar o que havia do outro lado.
Eu deveria ter sentido medo.
Mas, por algum motivo, não senti.
Comecei a caminhar lentamente, observando os quadros enquanto passava por eles. Os rostos pareciam familiares, embora eu não conseguisse me lembrar de onde os conhecia.
Foi então que ouvi uma voz.
— Eithan...
Parei imediatamente.
Conhecia aquela voz.
— Neithan? — chamei, olhando ao redor. — Você está aí?
Nenhuma resposta.
Continuei andando, agora um pouco mais depressa. Quanto mais me aproximava da porta, mais forte ficava a luz avermelhada. O ar parecia frio, e uma sensação estranha começou a apertar meu peito.
Quando finalmente cheguei à entrada, olhei para dentro.
Não havia ninguém.
Apenas um cômodo escuro, com móveis cobertos por lençóis e uma janela aberta ao fundo. As cortinas balançavam lentamente, embora não houvesse vento algum.
Dei um passo para dentro.
Foi quando ouvi a voz novamente.
Dessa vez, ela veio de trás de mim.
— Você não deveria estar aqui.
Virei-me depressa.
O corredor estava vazio.
— Quem está falando comigo?
O silêncio voltou a tomar conta do lugar.
Então, bem devagar, as luzes começaram a se apagar uma por uma, até que somente aquela claridade vermelha permanecesse no fim do corredor.
Olhei para a porta.
Havia alguém parado ali.
Uma figura alta, completamente imóvel, com o rosto escondido na escuridão.
Não consegui distinguir suas feições, mas tive a estranha certeza de que ela estava sorrindo.
— Quem é você? — perguntei, sentindo minha voz falhar.
A figura inclinou a cabeça.
E então ouvi uma frase que fez meu corpo inteiro ficar gelado.
— Você sabe muito bem o que é.
Levei a mão ao peito, tentando entender por que aquelas palavras pareciam tão familiares. Eu queria responder, dizer que aquela pessoa estava enganada, mas minha garganta parecia ter se fechado.
A figura deu um passo à frente.
E, por um instante, seus olhos brilharam em um tom vermelho intenso.
O mesmo tom que eu havia visto nos meus próprios olhos naquela noite.
Afastei-me imediatamente.
— Não...
A figura continuou se aproximando.
— Você pode fingir que é normal, Eithan. Pode sorrir, brincar com seu irmão e dormir como se nada estivesse acontecendo.
Sua voz parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo.
— Mas não pode fugir de quem você é.
Balancei a cabeça, sentindo uma angústia inexplicável tomar conta de mim.
— Cala a boca!
O corredor inteiro pareceu estremecer.
A figura parou.
Então, lentamente, levantou uma das mãos e apontou para mim.
— Pergunte ao seu irmão o que ele viu.
Meu coração disparou.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a luz vermelha se apagou completamente.
Acordei de repente, sentando-me na cama com a respiração acelerada.
O quarto estava escuro e silencioso. Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando compreender onde estava, até reconhecer a escrivaninha, o armário e a janela ao lado da cama.
Era apenas um sonho.
Passei as mãos pelos cabelos e respirei fundo, tentando me acalmar.
— Que sonho idiota... — murmurei.
Olhei para o relógio sobre a mesa. Ainda era noite.
Voltei a me deitar, puxando o cobertor e fechando os olhos, mas a imagem daquele corredor continuava gravada na minha cabeça. Eu conseguia lembrar dos quadros, das paredes destruídas e daquela luz vermelha no fim do caminho.
Principalmente, conseguia lembrar da voz.
Pergunte ao seu irmão o que ele viu.
Virei-me de lado, tentando afastar o pensamento.
Neithan provavelmente estava dormindo. E eu não queria acordá-lo para falar sobre um pesadelo sem sentido.
Afinal, sonhos eram apenas sonhos, não eram?
Fechei os olhos novamente.
Mas, antes de adormecer, uma última lembrança surgiu em minha mente: a figura parada na porta, com aqueles olhos vermelhos idênticos aos meus.
E, pela primeira vez naquela noite, tive medo de voltar a sonhar.