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Neithan...

Seraphine

Conteúdo da publicação

O barulho foi tão alto que me levantei do sofá no mesmo instante.

— Mas que porra foi essa?!

Olhei na direção da escadaria, tentando entender de onde aquilo tinha vindo. Por alguns segundos, a casa permaneceu em silêncio, até que ouvi um ruído estranho vindo do andar de cima.

Meu primeiro pensamento foi Eithan.

Aquele idiota provavelmente tinha inventado alguma maneira nova de me dar dor de cabeça. E, conhecendo meu irmão, eu não descartava a possibilidade de ele ter derrubado metade do quarto enquanto procurava alguma coisa.

Subi as escadas rapidamente, resmungando coisas que prefiro não repetir. Quando cheguei ao corredor, percebi que a porta do quarto dele estava entreaberta.

— Eithan?

chamei, empurrando a porta.

— Que barulho foi aquele, seu imbecil?

Não obtive resposta.

Franzi a testa e entrei.

O quarto estava uma bagunça. Uma cadeira havia caído perto da escrivaninha, alguns livros estavam espalhados pelo chão e a cortina se mexia lentamente, embora a janela estivesse fechada.

Mas não foi nada disso que chamou minha atenção.

Foi meu irmão.

Eithan estava parado perto da janela, de costas para mim, com os ombros tensos e a cabeça ligeiramente inclinada. Seus dedos estavam cravados na madeira do parapeito, como se ele estivesse tentando se segurar para não fazer alguma coisa.

— Ei, estou falando com você.

Ele não se mexeu.

Soltei um suspiro impaciente e dei mais alguns passos.

— Você endoidou de novo, foi?

A pergunta saiu com o sarcasmo habitual, mas morreu na minha boca quando ele virou o rosto.

Parei imediatamente.

Os olhos dele estavam diferentes.

Não era apenas a expressão vazia ou a maneira estranha como me encarava. Havia algo profundamente errado naquele olhar. Suas pupilas pareciam engolidas por uma escuridão avermelhada, e seus lábios estavam entreabertos, revelando dois dentes compridos demais para serem normais.

Fiquei imóvel por alguns segundos.

Depois, soltei uma risada nervosa.

— Muito engraçado, Eithan. Pode tirar essa porcaria que colocou nos dentes.

Ele continuou me olhando.

— Eithan?

Dessa vez, minha voz saiu mais baixa.

Meu irmão inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse tentando compreender quem eu era. Aquele gesto me deixou preocupado com ele, porque eu conhecia Eithan desde que nascemos. Conhecia suas manias, suas expressões e até a maneira como ele costumava sorrir quando estava prestes a aprontar alguma coisa.

Aquela pessoa na minha frente não estava sorrindo.

Estava me observando como se eu fosse um completo desconhecido.

— Neithan...

ele murmurou.

Soltei o ar que nem havia percebido estar prendendo.

— Finalmente. Que diabos aconteceu com você?

Ele abriu a boca, mas não respondeu. Em vez disso, levou uma das mãos ao próprio rosto, apertando os olhos como se estivesse sentindo alguma coisa que não conseguia controlar.

— Vai embora

pediu.

Franzi a testa.

— O quê?

— Vai embora, Neithan!

O grito fez as janelas vibrarem.

Dei um passo para trás por puro reflexo, encarando meu irmão com os olhos arregalados. Eithan nunca gritava comigo daquele jeito. Ele podia ficar irritado, podia discutir, mas aquela voz parecia sair de algum lugar muito mais profundo do que sua garganta.

— o que você pensa que está fazendo seu idiota?

Ele soltou uma risada baixa e estranha, passando a língua pelos lábios. Quando tornou a me olhar, seus olhos pareciam ainda mais vermelhos.

— Eu estou com fome.

Fiquei em silêncio.

— Então vai até a cozinha e come alguma coisa!

respondi, tentando manter a irritação na voz.

— Não precisa fazer esse teatro todo!

Eithan olhou para mim por alguns segundos. Então seus olhos desceram lentamente até meu pescoço.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

— Eithan...?

Ele avançou tão depressa que mal consegui acompanhar o movimento.

Num instante, eu estava perto da porta; no seguinte, minhas costas bateram contra a parede, e as mãos dele seguravam meus ombros com uma força absurda.

— Eithan, me solta!

Irmão não me faça lutar com voce não quero te machucar

— Você não entende

sussurrou.

— Então explica, droga!

Ele aproximou o rosto do meu pescoço.

— Eithan, eu juro que, se isso for alguma brincadeira...

Interrompi a frase quando senti a respiração gelada dele contra minha pele.

Não era uma brincadeira.

— Eithan... sou eu.

murmurei, tentando encontrar alguma coisa familiar naquele rosto.

— Sou eu, seu irmão. Olha para mim.

Por um breve instante, alguma coisa mudou em sua expressão.

Seus olhos piscaram, e a mão que segurava meu ombro afrouxou.

— Neithan?

perguntou, confuso.

— Sim, seu desgraçado! Quem mais seria?!

Ele olhou para as próprias mãos como se não reconhecesse os dedos, depois voltou a encarar meu rosto.

— Eu... não consigo...

Sua voz falhou.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, Eithan soltou meus ombros e se afastou abruptamente, cambaleando até a escrivaninha. Derrubou outro objeto no chão e levou as mãos à cabeça.

E foi naquele instante que percebi que talvez a mãe daquela garota tivesse todos os motivos do mundo para querer ir embora daquela casa.

Thoughts

  • Lucimar

    O Neithan xinga o irmão o capítulo inteiro, de idiota pra baixo, e mesmo assim é a voz dele que traz o Eithan de volta por um instante. Briga de irmão tem essa conta: a ofensa é o jeito de dizer que está ali.

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  • Ovid

    O Neithan mandando o irmão tirar a porcaria dos dentes e ir comer alguma coisa na cozinha é muito de irmão, a gente sempre acha que o outro está aprontando. E aquela mãe da garota no final deve ser a pista de que a casa já tinha visto isso antes, e que o Eithan não foi o primeiro a mudar lá dentro.

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O barulho foi tão alto que me levantei do sofá no mesmo instante.

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