Comida é contrato social:
Comida é contrato social de pertencimento e acolhimento.
Em qualquer ritual humano, ela está presente. Feriados, reuniões de família, churrascos, reuniões de negócios, festas, casamentos e até velórios.
Sentamos diante de uma mesa para dizer, mesmo sem palavras: você pertence aqui.
A comida ensina aquilo que nenhuma filosofia consegue ensinar completamente. Existe uma ontologia antes da própria filosofia: sem comida, não pensamos.
O corpo precisa existir antes que a mente possa discutir o sentido da existência.
Mas existe um problema quando controlamos a comida.
Quando decidimos quem deve comer, também começamos a decidir quem pertence.
Essa pessoa precisa pensar como eu penso para comer?
Precisa seguir o mesmo deus que eu venero?
Precisa seguir quem eu escolhi como inimigo?
Precisa acreditar nas mesmas coisas?
Essa pessoa merece essa refeição?
É aí que começa a escassez.
E, junto dela, a ansiedade do amanhã.
A disputa.
A humilhação.
A guerra.
Porque quando a comida deixa de ser apenas alimento e passa a ser uma recompensa, ela também pode se transformar em instrumento de obediência.
Vivemos, talvez, na melhor era material da humanidade. Nunca tivemos tanta capacidade de produzir, armazenar, transportar e controlar aquilo que colocamos sobre nossas mesas.
E, ainda assim, existem pessoas com fome.
Existem pessoas sem liberdade.
Existem pessoas sem o básico.
Então talvez o problema nunca tenha sido apenas a quantidade de comida.
Talvez também seja a decisão de quem tem o direito de recebê-la.
Politicamente, escolhemos quem deve comer.
E, quando fazemos isso, não estamos apenas distribuindo comida.
Estamos distribuindo pertencimento.
Estamos decidindo quem pode sentar à mesa.
E quem deve permanecer do lado de fora.