O que são hard skills e soft skills?
Hard skills são habilidades ou conhecimentos técnicos mensuráveis, específicos e ensináveis, adquiridos por educação, treinamento ou experiência, e que muitas vezes têm relação direta com um cargo ou setor específico. Exemplos incluem análise de dados, programação, design gráfico, contabilidade, dança, pintura… Costumam ser o núcleo de uma profissão, principalmente a parte dela que exclui a interação com outras pessoas. Por outro lado, soft skills são geralmente definidas como “atributos pessoais, habilidades interpessoais e características desse tipo que entram em ação quando você interage com os outros, como comunicação, trabalho em equipe, adaptabilidade, liderança…”.
Qual é a diferenciação?
Essa diferenciação aparece em vários contextos da vida profissional (acadêmico, corporativo, industrial…), no entretenimento (séries, filmes, livros…) e até na “ciência” e na psicologia (veja Q.I. vs Q.E.). Apesar de o Q.E. não ser tão popular, nos últimos ~50 anos o termo vem ganhando popularidade, principalmente desde 1995, quando foi popularizado por Inteligência Emocional. Neste livro, Goleman traz que a inteligência emocional é tão importante quanto o QI para o sucesso, inclusive nos aspectos acadêmico, profissional, social e interpessoal da vida da pessoa. O livro em si é um passo na direção certa ao reconhecer a importância das habilidades sociais. No entanto, ele faz isso de um jeito que estabelece uma diferenciação entre soft skills e hard skills, afirmando implicitamente que elas são muito mais separadas do que pareceriam. Como as diferenciamos, chegando a tentar medi-las separadamente com QE vs QI, ficamos inclinados a pensar que podemos só nos destacar em uma delas e ser perdoados por apresentar lacunas graves na outra. Isso limita severamente o nosso crescimento e a nossa realização, não só como um todo, mas também naquela em que escolhemos focar, já que essas habilidades são complementares e sinérgicas, não opostas.
Todos nós já vimos essa diferenciação em algum momento da vida, em graus variados. Por exemplo, muitas vezes na escola, alunos que focam obsessivamente em tirar as melhores notas acabam estagnados nas habilidades sociais e muitas vezes não chegam a se destacar na vida profissional, muitas vezes por um senso limitado de curiosidade, capacidade de lidar com ambiguidade, comunicação com outras pessoas... Em contextos profissionais, vemos inúmeros exemplos de gente focando em ficar melhor nas suas hard skills sem perceber que o que as segura são as “políticas que não jogam”. A expectativa de que o trabalho delas “vai falar por si só”, a comunicação confusa da sua expertise aos parceiros… A falta de soft skills é uma receita fantástica para a frustração na carreira. A comunicação, em especial, é um multiplicador de força tão grande que praticamente conta como um truque de vida para quem já vai bem o suficiente nas habilidades técnicas, hard. Ela permite que você lide com conflitos com seus chefes, clientes, colegas de time e construa ótimas relações ao fazer isso. Muitas das suas melhores relações provavelmente vão surgir de situações em que você inicialmente estará no lado oposto de um conflito com uma pessoa.
Com ótimas habilidades de comunicação, você consegue conduzir a conversa para que os dois lados entendam e se solidarizem um com o outro. Para a maioria dos profissionais, isso permite que você lide com projetos maiores, mais complexos e mais impactantes e faça com que clientes e partes interessadas apoiem as suas necessidades, em vez de as enxergarem como conflitantes com as deles. Seus “fre-inimigos do trabalho” não vão mais focar em proteger os interesses deles se virem que não têm necessidade disso, já que você já está se esforçando para enxergar a discordância pelo ponto de vista deles. Eles vão, na maioria das vezes, usar a energia tentando enxergar o conflito pelo seu e costumam confiar mais em você.
Por outro lado, passar a vida focando só nas soft skills bate numa parede tão grande quanto depender principalmente das hard skills. A maioria das pessoas adora trabalhar com colegas agradáveis que escutam com atenção, entendem e mostram uma atitude construtiva e positiva. Elas adoram até o ponto em que esses mesmos colegas vivem estragando o trabalho, perdendo prazos, gerando resultados de baixa qualidade que outra pessoa tem que consertar… Por melhor que você seja em lidar com gente, no fim das contas há um trabalho que precisa ser feito. Embora as soft skills te levem longe na carreira, você deveria pensar nelas como multiplicadoras de força das suas conquistas por meio das suas hard skills.
Então, como pensar nas soft e hard skills?
O entendimento mais popular que eu vejo é o de que é a soma dessas habilidades que compõe a nossa eficácia geral (Eficácia = HardSkills + SoftSkills), o que nos permite focar só em uma e ficar inteiramente acomodados com a outra, e ainda assim atingir certo. Uma fórmula melhor, ainda que simplista, é a seguinte: Eficácia = HardSkills*SoftSkills. Se a isso somarmos o fato de que a maioria das habilidades (hard ou soft) tem retornos decrescentes sobre o tempo investido, então dá para entender por que não é ideal focar exclusivamente em uma à custa da outra.
É difícil passar de 8 para 10 em qualquer habilidade, e muito mais fácil passar de 1 para 8. Ser 8 em soft e hard skills resulta em Eficácia= 8*8=56. Agora imagine outra pessoa investindo todo o tempo em ser perfeita nas hard skills sem fazer nada pelas soft skills: Eficácia= 10*1 = 10. Embora a conta seja simplista, ela serve para mostrar o valor de investir nas áreas que estão atrasadas, em vez de perseguir retornos cada vez menores tentando virar um 10 em algo em que você já é bom ou de que gosta. Na engenharia, por exemplo, a carreira da pessoa costuma decolar depois que ela enxerga o valor da comunicação, da escrita e da colaboração, em vez de continuar investindo em aprender ainda mais na sua área de especialidade.
Mas, peraí, como a gente chegou aqui então?
Esse modelo mental é popular há mais de meio século. Historicamente, os talentos técnicos e sociais eram amarrados de forma muito mais próxima. A diferenciação entre soft e hard skills começou nas forças armadas dos EUA no fim dos anos 1960 e início dos 1970. Foi desenvolvida para categorizar as várias capacidades exigidas do pessoal militar. Alguns dos primeiros trabalhos sobre o tema vêm do psicólogo Paul G. Whitmore, figura-chave na criação dos termos. “Hard skills” costumavam se referir à “operação de maquinário e armas — tarefas concretas e técnicas, relativamente fáceis de medir”. “Soft skills” eram definidas como capacidades ligadas ao trabalho que envolviam pouca ou nenhuma interação com máquinas. O Comando do Exército Continental dos EUA (CONARC) realizou uma “Conferência de Treinamento em Soft Skills” em 1972 para explorar formalmente o conceito, embora a distinção continuasse sendo considerada vaga, e foi feita uma recomendação de “descontinuar o uso dos termos por causa da possível confusão”. No entanto, a terminologia pegou, como um meme, e continuou sendo usada, ficando ainda mais popular depois de Inteligência Emocional, de Coleman.
Dá para ver essa mesma distinção abrir caminho na cultura popular com filmes/séries que muitas vezes mostram personagens inteligentes fazendo questão de se comportar, muitas vezes de forma contraproducente aos próprios objetivos, como babacas ou completamente fora de sintonia com as “pessoas normais”. Big Bang (Sheldon), House (Dr. House), Death Note (L Lawliet), Gênio Indomável (Will Hunting), Mr Robot (Elliot)… Um exemplo particularmente escandaloso é o de O Jogo da Imitação, em que retrataram Alan Turing como arrogante, insuportável e detestável quando, na realidade, ele era muito gentil e empático. Existem vários TV Tropes que dá para ver demonstrando essa ênfase em Hard Skills vs Soft Skills (exemplo um, dois, três…).
Figuras históricas, comumente tidas como exemplos desses clichês, muitas vezes são ótimos exemplos de habilidade social, demonstrada repetidamente em suas vidas pessoais e profissionais: Leonardo da Vinci – Ele prosperava na vida da corte, era um ótimo conversador, um brilhante performer de música e espetáculos, e cultivava patronos poderosos com seu carisma.
Leonardo da Vinci – Ele prosperava na vida da corte, era um ótimo conversador, um brilhante performer de música e espetáculos, e cultivava patronos poderosos com seu carisma.
Galileu Galilei – muitas vezes retratado como o cientista solitário perseguido pela Igreja, ele passou a maior parte da vida se correspondendo amplamente com intelectuais, aproveitando sistemas de patronato e navegando por uma política complexa dentro da própria Igreja.
Isaac Newton – em geral imaginado como um recluso frio e obsessivo, interessado só em física, ele foi na verdade Mestre da Casa da Moeda, Presidente da Royal Society, em geral alguém que navegou pelas estruturas de poder com bastante sucesso. À parte disso, ele também perdeu um monte de dinheiro numa bolha de ações, o que mostra que ele não era tão bom assim em TODAS as hard skills. Isso me faz sentir melhor por perder grana com ações...
Benjamin Franklin – muitas vezes imaginado como um “inventor excêntrico” em retratos simplificados, ele era imensamente habilidoso socialmente. Foi um grande diplomata na França, um ótimo escritor e uma pessoa muito popular em seu tempo. Ele foi um dos Pais Fundadores por um motivo.
Albert Einstein – muitas vezes reduzido a caricaturas de professor distraído. Na realidade, ele era espirituoso, socialmente carismático, dava palestras públicas pelo mundo todo e era politicamente atuante (direitos civis, pacifismo).
Richard Feynman – assim como Einstein e Franklin, muitos imaginariam um físico ganhador do Nobel como alguém socialmente inepto. Na verdade, ele tinha ótima habilidade de comunicação, o que é fácil de comprovar assistindo a muitas das suas palestras, em que você vai se impressionar com o quão bem ele explica cenários extremamente complexos. Um ótimo exemplo.
J. Robert Oppenheimer – Na vida real, ele era um líder magnético, citava poesia em vários idiomas e inspirava lealdade ferrenha entre alunos e colegas. Embora muitos dos problemas do fim da vida dele venham de erros em interações sociais, isso também é fácil de entender quando se leva em conta o enorme número de interações sociais sobre temas desafiadores que ele teve ao longo da vida. Ele não fracassou politicamente por falta de habilidade, mas sim pela imensa complexidade com a qual teve de lidar.
O oposto também é verdade, em que muitas vezes dá para ver na TV e no cinema o clichê do animal social super habilidoso que não sabe mais nada, que é igualmente exagerado…
Esses clichês definem a nossa própria abordagem à vida e ao jeito de pensar sobre ela. é um dos nossos mecanismos mais antigos de lembrar lições e compartilhá-las com a nossa gente. A divisão entre Hard Skills vs Soft Skills é um clichê altamente difundido na narrativa atual, que não era tão presente nos mitos e nas histórias mais antigas, em que muitas vezes vemos protagonistas exibindo grande habilidade em ambas, sem divisão clara. Por exemplo, um dos heróis gregos mais famosos é Odisseu, hoje conhecido em grande parte por ser um sujeito mentiroso e astuto que enganou Polifemo (o Ciclope) para conseguir libertar a si e a seus homens. No entanto, ele é em grande parte descrito como um dos aqueus (gregos) mais fortes, ótimo em lutar com lança e espada, em nadar, em correr, e o melhor lutador entre os aqueus. Depois da morte de Aquiles, ele lutou e venceu Ájax para ganhar a armadura de Aquiles, mostrando que era o melhor de todos os aqueus na luta. Nessa mesma história (a Ilíada, a Odisseia), a maioria dos heróis é descrita como sendo ótima (ou pelo menos boa) em tudo, numa variedade de coisas que, aos olhos modernos, pareceriam contraditórias. Heróis como Aquiles, o maior guerreiro dos gregos, também são mostrados como músicos, poetas e figuras profundamente reflexivas capazes, homens que podem massacrar no campo de batalha e ainda chorar abertamente por companheiros caídos.
Essa separação foi levada ao extremo na última década com a recente glorificação de transtornos de personalidade que, para a maioria das pessoas, não são diagnosticados clinicamente. Vimos muita gente (principalmente quem trabalha em tecnologia) se dizendo autista/asperger… o que muitas vezes vem acompanhado de manias “fofas” e imaturidade social, das quais se espera que sejam a desculpa para um comportamento grosseiro, egocêntrico e em busca de atenção. O autismo de verdade e seus muitos graus trazem muito sofrimento às pessoas afetadas por ele e às suas famílias e não deveriam ser banalizados como uma coleção de manias que dá para ligar e desligar para chamar atenção para si. A separação entre soft e hard skills se reflete na ciência? A categorização de personalidade mais próxima de ser remotamente científica são os Cinco Grandes Traços de Personalidade. Nenhum corresponde à competência técnica, mas sim mostram como diferentes pessoas desejam viver suas vidas e interagir umas com as outras, e em que proporção do tempo. Nenhum desses traços prevê sucesso em lidar com pessoas. Ser mais extrovertido não te deixa melhor nas soft skills, só te deixa mais insuportável quando você não é bom nelas. Da mesma forma, ser introvertido não te torna automaticamente perspicaz e profundo por padrão. Embora exista certo grau de correlação entre extroversão e soft skills e entre introversão e hard skills, isso muitas vezes ocorre simplesmente por oportunidade. Pessoas extrovertidas têm interações sociais mais frequentes para praticar suas habilidades sociais, e as introvertidas têm mais tempo livre para focar nos próprios interesses, ficando melhores neles. Muitas vezes, o interesse das pessoas introvertidas é justamente observar e entender as outras pessoas, o que leva a um grande entendimento da natureza humana pela propensão a escutar e observar dinâmicas e humores sociais, em vez de expressar os próprios.
Como isso se reflete em termos práticos no dia a dia?
A esta altura provavelmente já dá para ver que eu escrevo da perspectiva de uma pessoa que busca complementar suas hard skills com soft skills, onde dei bem mais exemplos destas últimas, já que elas estiveram mais na minha cabeça, do que das primeiras. Mas tenho visto que esse é o caso mais frequente, em que a cultura atual parece supervalorizar mais as hard skills por causa da medição acadêmica via provas, da medição corporativa via KPIs, da medição da indústria via resultados…
Na minha experiência, eu vi um crescimento muito maior na minha carreira por causa dessa mudança, assim como mais satisfação no meu trabalho E na minha vida pessoal, quando comecei a encarar as soft skills como exatamente isso, habilidades que devem ser desenvolvidas e aprendidas do mesmo jeito que as hard skills. Uma série de percepções que eu gostaria de discutir são as seguintes:
Não subestime a complexidade das soft skills. Na minha experiência, problemas de “hard skills” (no meu caso, Design de Sistemas, Programação…) costumam ser mais fáceis de resolver do que os de “soft skills”. (Mentorar um engenheiro júnior, gerir para cima, definir requisitos com clientes, administrar conflitos de time entre engenheiros muito talentosos que têm certeza de que estão certos…). Problemas de “soft skills” têm um teto ilimitado de complexidade, já que as mentalidades e personalidades dos humanos são muito diferentes umas das outras, ao que você soma os diferentes objetivos que diferentes pessoas têm, mais traços negativos como incompetência, arrogância, política, egoísmo…
Não os enxergue como tão diferentes dos problemas de “hard skills”. Quando você lida com um problema concreto de “hard skill” na sua profissão (por exemplo, consertar uma instalação elétrica, pintar um carro, diagnosticar uma doença…), você está seguindo uma abordagem pessoal de resolução de problemas que você desenvolveu pelo seu treinamento ou pela sua experiência. Muitas vezes, você esclarece o seu objetivo principal (pintar o carro de uma certa cor…), seus padrões (a tinta deve ser de alta qualidade, resistente à água para que a chuva não a tire…), uma série de passos para chegar lá (comprar o material, remover a pintura atual do carro, tirar os riscos primeiro… eu não entendo muito de pintar carro, e isso fica claro), resolve problemas (a tinta não está aderindo direito, por quê? o que essa tinta tem de especial? o que o metal do carro tem de especial?). Problemas de soft skills são iguais. Você esclarece o seu objetivo (eu quero convencer essa pessoa a apoiar a minha ideia, comprar o meu produto, concordar comigo…), padrões (eu não quero mentir para ela, quero continuar tendo a confiança dela depois que isso for fechado), passos (eu deveria escutar primeiro o ponto de vista dela, anotar e refletir, descobrir como posso ajudá-la a conseguir o que ela precisa/quer e então descobrir como mapear isso para o que eu quero, ou talvez adaptar o que ambos queremos para os dois conseguirem algo perto do desejo inicial), resolve problemas (ela não parece querer compartilhar o que realmente quer, precisa. Pode ser que ainda não confie em mim, por quê? Ah, eu sou novo na empresa, por que ela compartilharia isso comigo, talvez eu deva conquistar a confiança dela primeiro…).
Não subestime a importância delas, mesmo que o seu foco principal seja só ficar melhor na sua profissão. As “soft skills” permitem que você alavanque as suas hard skills, das quais você pode se orgulhar tanto, a um grau muito mais impactante. O “melhor” engenheiro, se for socialmente inepto, vai ser só mais um sentado no canto do escritório trabalhando em problemas isolados, porque não sabe liderar, comunicar ou lidar com os outros. Um bom engenheiro com boas habilidades sociais vai ser mais bem ensinado e aprender mais rápido, vai saber fazer perguntas para esclarecer, vai ser procurado com ideias, vai ser posto em posições de liderança porque consegue resolver conflitos, delegar e mentorar com eficácia. Um bom engenheiro vai acabar fazendo ótimos produtos, enquanto o “melhor” vai ficar só resolvendo umas questões bem concretas no fundo do escritório que, com sorte, não o façam interagir com o resto da empresa. A ótima comunicação também permite que você entenda melhor os seus próprios problemas. Como Albert Einstein colocou: “Você não entende algo a menos que consiga explicá-lo para a sua avó.” Explicar coisas difíceis nos torna melhores em entender essas mesmas coisas e em vê-las por diferentes perspectivas, o que costuma ajudar a resolver problemas. Quantas vezes já te aconteceu de, ao descrever os seus problemas para outra pessoa, ser você mesmo quem chega à própria solução enquanto fala?
Conclusão
A realidade é muito mais complexa do que o que costumamos ver na ficção. É fácil cair nessa armadilha de separar soft de hard skills, já que também é emocionalmente satisfatório dizer a nós mesmos que não estamos tendo sucesso porque outras pessoas estão nos segurando, em vez de enxergar isso como um problema que não estamos resolvendo direito. A gente não deveria fazer uma caricatura da própria personalidade com base em clichês e memes, mas sim focar em ficar melhor como humanos no geral. A gente não é inseto, a gente não se especializa a esse ponto.