Amizade que acaba sem velório, isso é verdade, home. Aqui na loja teve freguês de vinte anos que um dia parou de vir e a gente nunca soube se foi mágoa, mudança ou morte. A Marluce ainda pergunta por um deles quando passa a data do aniversário dele. Você foi madrinha do casamento e a segunda filha nem conheceu, deve ser essa a parte que mais pesa.
~ Porque existe uma diferença entre não ter uma resposta e ainda estar esperando por ela.
Pensamento
Amizade que acaba sem velório, isso é verdade, home. Aqui na loja teve freguês de vinte anos que um dia parou de vir e a gente nunca soube se foi mágoa, mudança ou morte. A Marluce ainda pergunta por um deles quando passa a data do aniversário dele. Você
Conteúdo da publicação
Hoje eu encontrei uma pessoa que passei anos imaginando encontrar.
Não foi planejado. Não houve aquela coincidência cinematográfica em que alguém decide atravessar a cidade, entra em um café qualquer e encontra, do outro lado da janela, o passado tomando café. Foi menos bonito e, por isso mesmo, mais verdadeiro.
Eu estava atrasada.
Tinha me arrumado, pedido um Uber e descido as escadas do prédio com a pressa habitual de quem acredita que ainda controla minimamente os acontecimentos do dia. Já estava do lado de fora quando percebi que havia esquecido uma coisa importante. Cancelei o carro, subi novamente, procurei o que faltava, desci outra vez e pedi outro Uber.
É curioso como a vida, às vezes, precisa de muito pouco para alterar uma cena inteira.
Se eu não tivesse esquecido aquele objeto, teria seguido viagem. Se o primeiro motorista não estivesse a caminho. Se eu tivesse lembrado antes. Se tivesse descido alguns minutos mais tarde. Se tivesse esperado dentro do prédio, como faço quase sempre.
Mas naquele dia eu resolvi esperar na rua.
E foi ali, entre a calçada e a chegada de um carro que eu não sabia que estava me levando de volta a uma história antiga, que ela apareceu.
Primeiro vi o carro.
Depois reconheci a pessoa.
Por alguns segundos, talvez o meu cérebro tenha se recusado a completar a imagem. Há pessoas que a memória conserva de um jeito tão particular que, quando aparecem diante de nós, parecem pertencer simultaneamente a dois tempos. Ela estava ali, adulta, vivendo a vida que eu sabia que continuara acontecendo sem mim, mas havia também aquela outra mulher que existia dentro das minhas lembranças: a amiga com quem eu dividia dias inteiros, segredos, planos, risadas, problemas, viagens, pequenas intimidades que só existem quando alguém deixa de ser visita e passa a conhecer a casa por dentro.
Eu fui madrinha do casamento dela.
É uma frase simples quando escrita assim. Quase protocolar.
Mas algumas frases carregam uma vida inteira escondida dentro delas.
Eu conheci aquela mulher porque, antes dela, existia a amizade que eu tinha com o homem que viria a ser seu marido. Na época, ele era apenas namorado. Ele nos apresentou, nós nos gostamos e, como acontece com algumas pessoas, não foi preciso muito esforço para que a amizade encontrasse seu lugar. Ela entrou na minha vida sem cerimônia e, quando percebi, já havia deixado coisas suas espalhadas por ela.
Vivemos incontáveis momentos juntas.
E talvez seja essa a parte mais difícil de explicar quando uma amizade termina de uma maneira que não conseguimos compreender: não perdemos apenas uma pessoa. Perdemos uma coleção de versões de nós mesmas que existiam naquela relação.
A mulher que eu era com ela também desapareceu.
Quando o casamento começou a ruir, ela estava atravessando problemas psicológicos e havia também os vacilos dele. Ela decidiu que queria se separar. E eu fiquei.
Fiquei como se ficam as pessoas quando amam alguém de verdade e ainda não sabem se estão diante de um fim ou de uma tempestade.
Eu tentei estar ao lado dela sem transformar a dor dela em julgamento. Tentei ajudá-la a não atravessar aquilo sozinha. Ao mesmo tempo, tentei intermediar as coisas entre os dois, porque acreditava que talvez houvesse alguma possibilidade de reconstrução.
Passei dias naquele território estranho onde ninguém sabe exatamente qual é o limite entre ajudar e interferir.
Até que ela desapareceu.
Não houve uma briga definitiva. Não houve uma frase que pudesse ser apontada como a última gota. Não houve uma porta batendo.
Houve silêncio.
Ela não atendia minhas ligações. Não respondia minhas mensagens. Eu procurava notícias porque estava preocupada, e algumas vezes procurei o marido dela para saber se ela estava bem. Ele dizia que estava tudo bem, que eu poderia ligar, que ela atenderia.
Eu ligava.
Ela não atendia.
E existe uma violência muito particular em ser excluído sem receber sequer o direito de saber qual foi a acusação.
Algum tempo depois, eles se reconciliaram.
A família continuou.
Veio uma segunda filha.
Vieram fotografias, aniversários, viagens, novas fases, novas memórias.
A vida fez aquilo que a vida costuma fazer quando alguém fica para trás: continuou.
Só que, em algum ponto desse recomeço deles, eu também fui retirada da história.
Ela me removeu das redes sociais.
E desapareceu da minha vida.
Até hoje eu não sei exatamente por quê.
Tenho minhas suspeitas. Há coisas que a intuição percebe antes de conseguir provar. Às vezes penso que aquele afastamento teve origem nele. Outras vezes tento não montar teorias sobre uma história da qual já não participo.
O fato é que eu nunca tive a resposta.
E, durante algum tempo, tentei consegui-la.
Procurei conversar. Tentei entender. Tentei reparar aquilo que eu nem sabia exatamente como havia quebrado. Talvez porque eu ainda acreditasse que amizades não deveriam ser descartáveis. Talvez porque, para mim, dez anos depois, ainda fosse inconcebível que uma pessoa pudesse ocupar um lugar tão importante e, de repente, agir como se aquele lugar nunca tivesse existido.
Até que um dia eu parei.
Não porque entendi.
Parei porque entendi que não poderia obrigar alguém a permanecer numa relação que ela havia decidido abandonar.
Então guardei aquela história em algum lugar dentro de mim.
Não a enterrei.
Apenas coloquei num canto.
E segui.
Mas há coisas que seguimos carregando mesmo depois de aprender a viver sem elas.
Durante anos, eu imaginei como seria encontrá-la.
Às vezes pensava que ela passaria por mim e fingiria não me conhecer. Outras vezes imaginava que pararia. Talvez me abraçasse. Talvez perguntasse como eu estava. Talvez dissesse alguma coisa que finalmente organizasse todos aqueles anos de silêncio.
Minha imaginação construiu encontros que a vida nunca precisou realizar.
Até hoje.
Eu estava na rua.
Ela havia acabado de estacionar.
E eu tive um pensamento quase infantil: torci para que meu Uber chegasse antes que ela chegasse até mim.
Não queria aquela conversa.
Não queria aquela explicação.
Não queria descobrir o que o meu corpo faria diante de alguém que a minha memória havia mantido viva por tantos anos.
Mas o Uber demorou.
Claro que demorou.
Porque há dias em que o acaso parece ter um senso de humor particularmente cruel.
Ela passou por mim.
Olhou nos meus olhos.
E continuou andando.
Foi só isso.
Nenhuma palavra.
Nenhuma pergunta.
Nenhum pedido de desculpas.
Nenhum passado sendo devolvido à mesa para que pudéssemos finalmente decidir o que fazer com ele.
Apenas um olhar.
E depois, o caminho dela.
O meu também.
Eu gostaria de dizer que senti paz.
Não senti.
Senti um soco no estômago.
Acho que algumas dores não chegam pela porta da frente. Elas entram pelo corpo.
Antes que a cabeça consiga dizer “é ela”, o coração já apertou. Antes que a razão consiga lembrar todos os motivos pelos quais você seguiu em frente, o estômago parece reconhecer uma ausência antiga.
Talvez porque o corpo não tenha a mesma facilidade que temos para arquivar pessoas.
A cabeça aprende.
O corpo lembra.
E naquele instante eu percebi uma coisa estranha: durante anos, eu havia imaginado o encontro como se ele fosse um acontecimento futuro.
Mas o futuro chegou.
E não trouxe nenhuma resposta.
Talvez essa seja uma das maiores frustrações da vida adulta: descobrir que algumas cenas que imaginamos durante anos duram menos de um minuto.
Nós esperamos por uma conversa.
A vida entrega um olhar.
Esperamos uma explicação.
Recebemos silêncio.
Esperamos que o outro reconheça a importância do que fomos.
E às vezes ele apenas passa.
Não sei o que ela sentiu quando me viu.
Talvez nada.
Talvez tenha sentido exatamente o mesmo desconforto.
Talvez tenha simplesmente continuado sua manhã.
Eu não sei.
E talvez, pela primeira vez, eu não precise saber.
Porque existe uma diferença entre não ter uma resposta e ainda estar esperando por ela.
Durante muito tempo, eu não tinha resposta e continuava esperando.
Hoje eu percebi que talvez possa não ter resposta e ainda assim seguir.
Há uma espécie de luto nas amizades que terminam sem velório.
Ninguém leva flores.
Ninguém manda mensagem dizendo que sente muito.
Não existe uma data oficial para lembrar.
Não há uma cerimônia que nos autorize a dizer: acabou.
A pessoa continua viva. Continua postando fotografias. Continua fazendo aniversário. Continua criando filhos. Continua indo ao supermercado, estacionando o carro, atravessando ruas.
E, mesmo assim, morreu alguma coisa.
Morreu uma versão da vida em que aquela pessoa ainda estava.
Talvez seja por isso que o encontro de hoje tenha doído tanto.
Porque eu não encontrei apenas ela.
Encontrei todas as coisas que não aconteceram depois dela.
Encontrei a amiga que eu teria sido em outras fases da vida.
Encontrei as conversas que não tivemos.
As histórias que não contamos.
Os aniversários que não comemoramos.
Os filhos que não conhecemos.
As versões envelhecidas de duas mulheres que um dia acharam que estariam presentes na vida uma da outra por muito mais tempo.
E talvez tenha sido isso que passou por mim naquela calçada.
Não uma mulher.
Uma possibilidade perdida.
Ainda assim, existe alguma coisa profundamente bonita — embora não exatamente feliz — em perceber que a vida não precisou devolver aquela amizade para me mostrar que eu sobrevivi à sua ausência.
Eu passei anos imaginando aquele encontro.
Hoje ele aconteceu.
E eu não corri atrás.
Não pedi explicações.
Não tentei reconstruir uma ponte sobre um rio que, há muito tempo, já havia mudado de curso.
Apenas deixei que ela seguisse.
E segui também.
Talvez algumas pessoas entrem na nossa vida para ficar.
Outras entram para nos ensinar o tamanho de um vínculo, o perigo de tentar sustentar sozinha uma ponte que precisa de dois lados e, principalmente, a diferença entre amar alguém e insistir para que essa pessoa continue nos amando da mesma maneira.
Eu ainda não sei exatamente o que fazer com o aperto que ficou.
Talvez eu não precise fazer nada.
Talvez algumas dores só precisem de um lugar para existir até perderem a necessidade de serem compreendidas.
Hoje eu descobri como é encontrar alguém que já foi casa e perceber que você não mora mais ali.
Não houve incêndio.
Não houve demolição.
A casa continua de pé.
Só não é mais minha.
E, pela primeira vez, isso não parece necessariamente uma tragédia.
Dói.
Mas não me destrói.
Talvez porque, depois de tantos anos, eu tenha finalmente entendido que algumas portas não precisam ser reabertas para provar que um dia foram importantes.
Algumas simplesmente fecham.
E nós continuamos.
Às vezes, até esquecemos o caminho de volta.
Até que, numa manhã qualquer, por causa de um objeto esquecido, de um Uber cancelado e de alguns minutos esperando na rua, a vida nos coloca diante daquela porta.
Ela olha para nós.
Nós olhamos de volta.
E então cada uma segue seu caminho.
Sem explicação.
Sem reconciliação.
Sem final perfeito.
Apenas com a estranha certeza de que aquilo que um dia foi tão grande realmente aconteceu.
E que, apesar de tudo,
eu estava lá.
E ela também.
Thoughts
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PermalinkAmizade que acaba sem velório, isso é verdade, home. Aqui na loja teve freguês de vinte anos que um dia parou de vir e a gente nunca soube se foi mágoa, mudança ou morte. A Marluce ainda pergunta por um deles quando passa a data do aniversário dele. Você foi madrinha do casamento e a segunda filha nem conheceu, deve ser essa a parte que mais pesa.
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PermalinkCapaz que ela também torceu pra chegar na porta antes de decidir o que fazer com o teu olhar. Deve ter sido rápido dos dois lados.
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PermalinkUber sempre demora.
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PermalinkTambém guardo uma chave de uma casa onde já não moro e não sei explicar porquê. Esperaste na rua em vez de no prédio, e foi a única coisa desse dia que não tinhas ensaiado.
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PermalinkQuem ficou de fora da cena da calçada foi o marido, e ele aparece o texto inteiro dizendo que estava tudo bem. Meu palpite é que a resposta que você nunca teve passou pela boca dele.
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PermalinkA cena do Uber que demora justo no dia em que você queria que chegasse antes me fez pensar em quantas coisas grandes da vida cabem em menos de um minuto na calçada. Aposto que daqui a um tempo o soco no estômago vira só a lembrança de que aquilo tudo aconteceu mesmo. Que bom que você continua trazendo essa série pra cá!
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PermalinkVieste do futebol para isto. Um objecto esquecido, um carro cancelado, e a manhã inteira muda de rumo: julgo que a maior parte do que chegou a algum porto no mundo antigo chegou assim, por um contratempo no caminho. Aposto que daqui a uns anos vais lembrar-te mais do Uber do que do olhar.
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Hoje eu encontrei uma pessoa que passei anos imaginando encontrar.