E eu nem estou falando de futebol.
Estou falando de pessoas.
Daquelas que passam tanto tempo convencidas de que serão escolhidas que se esquecem de escolher também.
Pessoas que confundem a paciência do outro com permanência. Que recebem afeto como quem recebe luz pela janela: não agradecem, não percebem, não perguntam de onde vem. Apenas acham que estará ali amanhã.
Há gente que vive no depois.
Depois eu elogio.
Depois eu pergunto como foi o dia.
Depois eu marco aquele encontro.
Depois eu demonstro.
Depois eu respondo com a mesma intensidade.
Depois eu vejo se quero.
Depois eu decido.
E talvez não exista palavra mais perigosa para uma relação do que “depois”.
Porque o outro não vai embora no dia em que encontra alguém melhor.
Às vezes, vai embora no dia em que finalmente compreende que está sozinho mesmo acompanhado.
Vai embora depois de perceber que precisa pedir para ser notado.
Depois de entender que o próprio entusiasmo constrange quem não consegue corresponder.
Depois de contar uma coisa importante e receber de volta uma resposta distraída.
Depois de se produzir, chegar bonito, inteiro, disponível — e encontrar alguém tão ocupado consigo mesmo que sequer percebe que havia alguma coisa para ser vista.
Depois de perceber que conhece todos os detalhes da vida do outro, mas o outro mal conhece os seus.
É uma solidão muito particular essa de estar diante de alguém que só sabe falar de si.
Você começa a desaparecer dentro da conversa.
Primeiro, deixa de contar pequenas coisas.
Depois, deixa de contar as grandes.
Até que um dia percebe que aquela pessoa já não sabe mais o que acontece dentro de você — não porque você tenha se tornado misterioso, mas porque ela nunca mais perguntou.
E há uma tristeza imensa em perceber que alguém não deixou de amar você.
Talvez nunca tenha amado o suficiente para sair de si.
Essa é uma diferença que demora para ser compreendida.
Porque não é necessariamente ausência de sentimento.
Às vezes existe desejo, carinho, saudade, admiração.
Mas existe também uma incapacidade quase infantil de deslocar o próprio centro para enxergar o outro.
E gostar de alguém que só consegue enxergar a si mesmo é uma experiência estranha.
Você passa a viver numa espécie de espera.
Esperando que a pessoa perceba.
Que amadureça.
Que tenha iniciativa.
Que olhe.
Que note.
Que finalmente compreenda o que está perdendo.
E, enquanto espera, vai se tornando menor.
Não porque alguém tenha pedido isso, mas porque é cansativo demais continuar oferecendo o coração inteiro quando do outro lado chegam migalhas cuidadosamente justificadas.
Até que acontece uma coisa silenciosa.
Você para.
Não faz anúncio.
Não ameaça ir embora.
Não publica indiretas.
Não fecha a porta com violência.
Apenas para de bater.
E é curioso como algumas pessoas só percebem o silêncio quando ele deixa de ser temporário.
É aí que perguntam:
“Você está diferente?”
Não.
Você apenas deixou de fazer sozinho aquilo que acreditava ser uma construção a dois.
E talvez seja nesse instante que alguém descubra que não existe lugar cativo na vida de ninguém.
Não importa quanto tempo vocês tenham se conhecido.
Não importa quantas histórias existam.
Não importa quantas vezes aquela pessoa tenha dito “eu gosto de você”.
Afeto não se sustenta apenas pelo que se sente.
Existe uma parte dele que precisa ser vivida.
Porque há pessoas que gostam de ter você por perto, mas não gostam o suficiente para cuidar da sua presença.
Gostam de saber que você está disponível.
Gostam da atenção.
Do carinho.
Da admiração.
Da certeza de que, quando quiserem, você estará ali.
Mas isso não é necessariamente amor.
Às vezes é apenas conforto.
E ninguém deveria aceitar passar a vida inteira sendo o conforto emocional de alguém que nunca teve coragem de lhe oferecer um lugar verdadeiro.
Por isso eu não acho que a vida coloque “reservas” no nosso caminho.
Ela coloca pessoas.
Pessoas que chegam enquanto alguém hesita.
Pessoas que perguntam aquilo que você estava acostumado a responder sozinho.
Que percebem o corte de cabelo.
Que lembram do café que você gosta.
Que perguntam como terminou aquela história.
Que fazem planos e, mais importante, fazem questão de realizá-los.
Pessoas que não precisam ser ensinadas a demonstrar interesse porque o interesse, quando é verdadeiro, costuma encontrar seus próprios caminhos.
E talvez seja essa a parte mais melancólica de tudo:
às vezes, alguém passa tanto tempo acreditando que ainda tem tempo que, quando finalmente decide jogar de verdade, o outro já aprendeu a viver sem esperar pela sua vez.
Não houve traição.
Não houve escândalo.
Não houve uma grande ruptura.
Houve apenas uma sucessão de pequenas ausências.
E foram elas que fizeram o outro ir embora.
Então, talvez a frase seja mesmo essa:
jogador que vacila, senta para ver o reserva em campo.
Mas a vida é um pouco mais cruel do que o futebol.
Porque, no futebol, o jogador pode voltar.
Na vida, às vezes, quando você finalmente percebe que alguém era insubstituível, essa pessoa já descobriu que não precisava mais ser escolhida por você.
E está em outro campo.
Inteira.
Jogando a própria vida.
Sem olhar para o banco.