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~ COMA BOLO É ANIVERSÁRIO DE ALGUÉM EM ALGUM LUGAR.

Tatianeturcatti
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Hoje alguém vai soprar uma vela.

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Hoje alguém vai soprar uma vela.

Não importa onde você esteja.

Enquanto você reclama do trânsito, responde um e-mail atrasado ou abre a geladeira pela terceira vez esperando encontrar alguma coisa que não estava lá antes, alguém estará diante de um bolo.

Talvez seja de chocolate.

Talvez tenha cobertura demais, morangos tortos, uma vela comprada às pressas na padaria da esquina.

Haverá alguém cantando parabéns fora do tom.

Uma criança tentando roubar o brigadeiro antes da hora.

Uma mãe dizendo “espera todo mundo chegar”.

Um pai fingindo que não está emocionado.

Alguém vai bater palmas.

Alguém vai rir.

E, em algum canto da mesa, uma pessoa estará olhando para aquilo tudo com aquela expressão de quem não sabe explicar por que uma coisa tão simples consegue apertar tanto o peito.

É estranho pensar nisso.

Neste exato momento, enquanto você lê estas palavras, existem milhares de pequenas celebrações acontecendo sem que o mundo saiba.

Alguém está fazendo aniversário.

Alguém está descobrindo que passou mais um ano.

Alguém está completando vinte.

Quarenta.

Setenta.

Noventa.

Alguém está comemorando o primeiro aniversário depois de uma separação.

O primeiro depois de uma perda.

O primeiro em uma cidade nova.

O primeiro sem uma pessoa que costumava estar na fotografia.

E existe quem esteja comemorando com a casa cheia, rodeado de gente.

Existe quem tenha comprado um bolo pequeno para si mesmo e colocado uma única vela no centro.

As duas pessoas estão celebrando a mesma coisa, mas vivem universos completamente diferentes.

É aí que a gente percebe uma coisa sobre a vida:

quase nunca sabemos o que está acontecendo do outro lado da mesa.

Aquela pessoa que parece distante pode estar tentando não chorar.

A que sorriu para você no elevador pode ter passado a manhã inteira pensando em desistir de alguma coisa.

Aquele colega que hoje parece irritado pode ter acabado de receber uma notícia que mudou o seu dia.

A mulher que passou por você na rua segurando flores pode estar indo ao encontro de alguém ou se despedindo dele.

Nós enxergamos gestos.

Quase nunca enxergamos o contexto.

E mesmo assim, julgamos.

É curioso como somos rápidos para construir versões inteiras sobre pessoas das quais conhecemos apenas alguns segundos.

“Ela é arrogante.”

“Ele é frio.”

“Ela não se importa.”

“Ele mudou.”

Talvez não tenha mudado.

Talvez você apenas não saiba o que aconteceu antes de encontrá-lo.

Existe uma humildade enorme em admitir:

eu não sei.

Eu não sei o que aquela pessoa está enfrentando.

Eu não sei qual batalha ela venceu hoje.

Eu não sei qual notícia recebeu.

Eu não sei há quanto tempo está tentando parecer bem.

Eu não sei quem ela perdeu.

Eu não sei do que está com medo.

E quando a gente aceita que não sabe, alguma coisa muda na maneira como atravessamos o mundo.

Ficamos menos apressados para condenar.

Mais disponíveis para compreender.

Mais cuidadosos com aquilo que dizemos.

Porque começamos a perceber que cada pessoa está carregando uma história que não cabe na aparência que apresenta.

Pense no bolo.

Ele parece apenas um bolo.

Farinha, açúcar, ovos, chocolate.

Mas pode significar uma infância inteira.

Pode lembrar uma avó.

Uma receita passada de geração em geração.

Pode representar o primeiro aniversário depois de conseguir um emprego.

Depois de sair de uma relação abusiva.

Depois de terminar uma faculdade.

Depois de sobreviver a um ano que quase ninguém soube o quanto foi difícil.

É por isso que as coisas pequenas nunca são apenas pequenas.

Uma ligação de cinco minutos pode impedir alguém de se sentir sozinho.

Um “chegou bem?” pode significar cuidado.

Um café oferecido sem motivo pode devolver dignidade a uma manhã ruim.

Um abraço pode dizer aquilo que nenhuma explicação conseguiria.

A vida é feita dessas coisas.

Não das grandes cenas que imaginamos que um dia vão justificar nossa existência.

Mas dos pequenos gestos que acontecem enquanto estamos ocupados tentando chegar a algum lugar.

E talvez esse seja um dos maiores enganos da vida adulta:

a gente passa tanto tempo esperando a ocasião certa para ser feliz que deixa de perceber quantas ocasiões já estão acontecendo.

Esperamos viajar.

Esperamos ganhar mais dinheiro.

Esperamos encontrar alguém.

Esperamos emagrecer.

Esperamos mudar de emprego.

Esperamos a casa ideal.

Esperamos a sexta-feira.

Esperamos as férias.

Esperamos “quando tudo estiver bem”.

Enquanto isso, alguém corta um bolo numa cozinha pequena e está genuinamente feliz porque quatro pessoas que ama estão sentadas ao redor da mesa.

A felicidade não pediu um cenário melhor.

Nós é que pedimos.

E talvez precisemos reaprender a celebrar aquilo que existe antes de transformar tudo em algo que ainda não existe.

Comemorar o café quente.

O amigo que respondeu.

A mãe que ligou.

O corpo que levantou da cama.

O trabalho que, apesar de cansativo, sustenta alguma coisa.

A conversa que fez você rir.

A música que apareceu no momento certo.

O domingo sem grandes acontecimentos.

A pessoa que permaneceu.

A coragem de começar outra vez.

Porque há uma coisa que ninguém nos ensina:

a vida não fica extraordinária quando tudo dá certo.

Ela fica extraordinária quando aprendemos a reconhecer o valor do que já está acontecendo.

Enquanto você lê, alguém está soprando uma vela.

E isso significa que alguém chegou até aqui.

Mais um ano.

Mais uma volta.

Mais algumas cicatrizes.

Mais algumas pessoas amadas.

Mais coisas perdidas.

Mais coisas descobertas.

Mais uma oportunidade de olhar para a própria vida e decidir o que merece continuar.

Talvez aniversário seja menos sobre completar anos e mais sobre perceber o que fizemos com eles.

Quem esteve conosco.

Quem deixamos pelo caminho.

O que aprendemos.

O que ainda insistimos em carregar.

O que já podemos finalmente deixar ir.

Por isso, quando encontrar alguém amanhã, não tenha tanta pressa de definir quem essa pessoa é.

Você está olhando apenas para uma fotografia de uma história inteira.

E histórias merecem mais delicadeza do que fotografias.

Seja gentil.

Pergunte.

Escute.

Ofereça presença.

Celebre as pessoas enquanto elas estão aqui.

Não espere o velório para falar da importância de alguém.

Não espere a despedida para agradecer.

Não espere a ausência para perceber a presença.

Não espere o aniversário para lembrar alguém de que ela é querida.

Porque, em algum lugar, enquanto você lê isto, alguém está diante de um bolo.

E talvez a maior beleza de tudo seja saber que, em meio a bilhões de vidas acontecendo ao mesmo tempo, cada uma delas contém alguma coisa que nunca mais se repetirá exatamente daquela maneira.

Uma mesa.

Um bolo.

Algumas pessoas.

Uma vela.

Uma canção desafinada.

E aquele instante.

Só aquele.

A vida está acontecendo enquanto você espera que ela comece.

Então, antes de voltar para a pressa, olhe ao redor.

Veja o que está acontecendo na sua própria mesa.

Pode ser que você já esteja diante do bolo que passou anos esperando encontrar.

Agora me conta: quem é a pessoa que você não quer esperar perder para finalmente dizer o quanto ela importa?

Thoughts

  • Marina

    Mas e a gente que tá lendo agora? Qual é o bolo pequeno que tá acontecendo na sua mesa neste exato momento?

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  • EncontroDeQuinta

    Jantar de quinta é meu bolo pequeno. Nove anos do mesmo jeito. Nem eu acredito haha

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  • rgomes85

    Quando você começou a fazer diferente? Teve um momento que percebeu?

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  • mesapradois

    Acordei pra isso tarde, mas concordo com tudo. Passei anos esperando a hora certa pra ser feliz, e as coisas importantes já tavam aí o tempo inteiro. Agora congelo comida pra dois porque continuo fazendo como sempre.

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  • dezanosjuntos

    A parte do bolo na cozinha pequena com quatro pessoas mexeu comigo. É exatamente isso.

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  • denovonao

    Mas quem é a pessoa na sua mesa agora? Tipo, de verdade mesmo?

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  • cafeDeSegunda

    Segunda com café é exatamente o que você descreveu. Não é grande coisa, mas salva tudo.

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  • Tania_R

    E quando você finalmente reconhece que está tendo a sua própria batalha invisível? Como é essa percepção enquanto tá vivendo?

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  • soarespolaco

    Texto excelente, traz boas sensações, causa emoção em quem lê e ótima escrita e desenvoltura da história. Parabéns.

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