Há pessoas que atravessam a vida colecionando respostas.
Eu sempre desconfiei delas.
As respostas têm um estranho hábito de encerrar as coisas. As perguntas, não. As perguntas deixam a porta entreaberta. Obrigam a gente a continuar vivendo.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido olhar para o mundo apenas como ele se apresenta.
Sempre me interessou mais aquilo que escapa.
O instante em que alguém muda o tom da voz sem perceber. A demora entre uma mensagem enviada e outra respondida. O motivo de uma lembrança sobreviver por décadas enquanto um dia inteiro desaparece da memória. A razão de algumas ausências ocuparem mais espaço do que certas presenças.
A vida parece feita de acontecimentos.
Mas, para mim, ela sempre foi feita do que acontece por baixo deles.
Escrever nunca foi uma escolha estética.
Foi uma maneira de não permitir que o invisível morresse sem testemunha.
Há sentimentos que desaparecem porque ninguém lhes dá linguagem. Há pensamentos que passam por nós como um vento e, se não forem escritos, jamais saberemos que existiram.
Não espere encontrar aqui respostas.
Nem fórmulas para viver melhor.
Eu não escrevo para ensinar. Escrevo porque a realidade, quando observada com atenção suficiente, deixa de ser realidade e se torna mistério.
E talvez seja esse o único compromisso destas páginas: permanecer tempo bastante diante de uma pergunta até que ela revele algo que não revelaria a quem tivesse pressa.
Se você chegou até aqui, talvez também desconfie de que a vida acontece menos nos grandes acontecimentos do que nos pequenos desvios.
Se for assim, esta conversa já começou antes mesmo da primeira palavra.