Talvez porque escrever seja uma espécie de mentira bonita.
No papel, tudo parece caber.
A dor ganha parágrafos. A saudade encontra uma palavra suficientemente bonita para não parecer desespero. O medo, quando escrito, deixa de ser um abismo e passa a ser apenas uma frase. Até aquilo que, enquanto vivido, nos desmonta por dentro, depois de escrito parece ter alguma espécie de ordem.
É curioso.
Eu posso escrever sobre a falta sem precisar admitir o quanto ela me faz falta. Posso escrever sobre o amor sem precisar me colocar diante dele. Posso transformar uma ferida em metáfora e, por alguns minutos, acreditar que compreendê-la é quase a mesma coisa que curá-la.
Não é.
Escrever sobre a vida é mais simples que viver porque, quando escrevo, eu sei onde colocar as coisas.
Na vida, não.
A vida não respeita pontuação. Não espera a gente terminar de entender o que sente para apresentar o próximo acontecimento. Não pergunta se estamos preparados. Ela simplesmente acontece — às vezes no meio de um café, às vezes numa terça-feira qualquer, às vezes na boca de alguém que vai embora justamente quando a gente começava a acreditar que, dessa vez, talvez ficasse.
E não há borracha.
Essa talvez seja a parte mais difícil de viver: não poder voltar para a frase anterior.
Na escrita, posso recomeçar um parágrafo. Posso cortar uma palavra, mudar o tom, reconstruir um personagem, inventar outro final. Posso até apagar tudo e fingir que aquilo nunca existiu.
A vida não me concede essa delicadeza.
Ela guarda.
Guarda os silêncios que eu deveria ter quebrado, os abraços que eu deveria ter dado, as palavras que chegaram tarde, as pessoas que eu amei errado, as que amei certo demais e as que nunca souberam.
Guarda até aquilo que eu gostaria de esquecer.
Talvez seja por isso que eu escreva tanto.
Não para explicar a vida.
Mas para suportar o fato de que nunca vou conseguir explicá-la completamente.
Escrevo porque algumas coisas doem menos quando encontram uma linguagem. Porque há sentimentos que, quando não encontram palavras, começam a procurar outras saídas dentro da gente.
E talvez escrever seja isso: não uma tentativa de colocar a vida em ordem, mas de fazer algum sentido enquanto ela continua desarrumando tudo.
Porque no fim, existe uma diferença brutal entre saber escrever sobre o amor e saber amar.
Entre saber falar sobre coragem e ter coragem.
Entre entender a solidão e conseguir atravessá-la.
Entre escrever que é preciso partir e, finalmente, fechar a porta.
A literatura pode me ensinar muitas coisas sobre a vida.
Mas ela não pode vivê-la por mim.
E talvez essa seja a única página que eu ainda não aprendi a escrever:
aquela em que, em vez de transformar o que sinto em palavras,
eu simplesmente sinto.
Sem metáfora.
Sem explicação.
Sem saber onde isso vai dar.
Só vivendo.