Há coisas na vida que a gente escolhe.
A profissão.
A cidade onde vai morar.
O café que prefere tomar de manhã.
Às vezes, até a pessoa com quem decide dividir os domingos.
Mas há coisas que não são escolhidas.
Elas simplesmente nos encontram.
Talvez o futebol seja uma delas.
Porque ninguém, de verdade, escolhe um time. O time é que, em algum momento misterioso da infância, olha para você e diz: é você.
E pronto.
Não adianta mais.
Você pode até tentar explicar. Dizer que foi seu pai. Seu avô. Um irmão. Um amigo. Que ganhou uma camisa quando tinha cinco anos. Que viu um jogo na televisão. Que alguém gritou um gol perto de você e aquilo ficou.
Mas talvez nenhuma dessas coisas seja a causa.
São apenas as circunstâncias.
Porque paixão não costuma pedir licença à razão.
Ela chega antes.
Quando percebemos, já estamos envolvidos.
E talvez seja justamente por isso que existam tantos torcedores capazes de lembrar exatamente onde estavam quando o time fez um gol, mas não consigam lembrar o que almoçaram naquele mesmo dia.
O futebol tem essa capacidade absurda de transformar noventa minutos em memória para uma vida inteira.
E eu não sei explicar quando o Flamengo começou em mim.
Talvez tenha começado antes de mim.
Porque o Flamengo já existia muito antes de eu aprender a dizer seu nome.
Em 1895, seis jovens se reuniram na Praia do Flamengo para fundar um grupo de regatas. O clube nasceu nas águas da Baía de Guanabara, quando o remo ainda era uma das grandes paixões do Rio de Janeiro. A primeira embarcação, a Pherusa, naufragou durante uma travessia. Depois veio a Scyra. Vieram as primeiras vitórias. Vieram as dificuldades. E vieram também as cores que hoje parecem ter sido inventadas pela própria natureza: vermelho e preto.
O futebol só chegaria depois.
Em 1911, jogadores que deixavam o Fluminense encontraram no Flamengo a possibilidade de criar uma seção de futebol. Em novembro daquele ano, nascia oficialmente o departamento de esportes terrestres rubro-negro. O clube que aprendera a vencer na água começava a descobrir que também poderia incendiar a terra.
É curioso pensar nisso.
O Flamengo começou no mar.
Talvez por isso tenha aprendido tão cedo que nenhuma paixão verdadeira permanece parada.
Ela precisa de movimento.
Precisa de correnteza.
Precisa, de vez em quando, quase naufragar para descobrir que ainda sabe nadar.
Talvez seja essa a primeira coisa que o Flamengo ensina sobre amar: não existe amor sem risco.
E nós, flamenguistas, sabemos disso.
Sabemos porque o Flamengo não nos prometeu apenas vitórias.
Se tivesse prometido, seria pouco.
O Flamengo nos deu a coisa muito mais perigosa e muito mais bonita: a possibilidade de sentir.
Sentir demais.
Sentir quando ganha.
Sentir quando perde.
Sentir quando o juiz apita.
Quando a bola bate na trave.
Quando o jogo parece perdido.
Quando o impossível, por algum motivo que a lógica não consegue explicar, resolve vestir vermelho e preto.
Nelson Rodrigues, que entendia de futebol como poucos entenderam, escreveu que o torcedor rubro-negro, diante de um gol adversário, não apenas fica triste: ele “agoniza”.
E talvez seja isso.
Torcer pelo Flamengo é descobrir que existe uma parte de nós que pode sofrer por algo que não podemos controlar.
É uma experiência estranha.
Entregamos nosso coração a onze homens correndo atrás de uma bola e, por noventa minutos, aceitamos que eles decidam se nosso domingo terá céu ou tempestade.
Que espécie de loucura é essa?
Uma das mais bonitas.
Porque ninguém sofre assim por aquilo que não ama.
E ninguém comemora assim aquilo que não sente como seu.
É por isso que a camisa não é apenas uma camisa.
Nelson Rodrigues chegou a imaginar um Flamengo que nem precisasse de jogadores: bastaria a camisa, aberta, diante do adversário.
E talvez ele soubesse de uma coisa que a razão não sabe explicar:
há objetos que deixam de ser objetos quando passam por muitas histórias.
Uma camisa que atravessou gerações já não é tecido.
É avô.
É pai.
É filho.
É uma fotografia antiga.
É uma tarde no Maracanã.
É uma criança que ainda não sabia o que era felicidade, mas já sabia reconhecer aquela combinação de cores.
É alguém que já morreu e que, de alguma maneira, continua vivo quando a torcida canta.
Porque o Flamengo também é isso:
um jeito que os mortos encontraram de continuar participando da nossa alegria.
Talvez seja por isso que a história do clube tenha se tornado tão maior que o futebol.
Na década de 1930, José Bastos Padilha ajudou a transformar o Flamengo em um fenômeno popular, compreendendo que o clube poderia ser mais do que uma instituição esportiva: poderia ser uma Nação. Mário Filho, outro flamenguista ilustre, resumiu essa capacidade de pertencimento numa frase belíssima: “O Flamengo se deixa amar à vontade.”
Que coisa bonita.
Um clube que se deixa amar.
Talvez seja essa a diferença.
Você não precisa ser apresentado ao Flamengo.
Você apenas chega.
Chega pela família.
Pela rua.
Pelo rádio.
Pela televisão.
Pela camisa pendurada no varal.
Pelo grito do vizinho.
Pelo pai que levanta do sofá antes da bola entrar.
Pela mãe que reclama do barulho e, anos depois, sabe cantar o hino inteiro.
Chega sem perceber.
E quando percebe, já está dizendo “a gente”.
Não é mais “o Flamengo perdeu”.
É:
“A gente perdeu.”
É aí que a coisa fica séria.
Porque amar é justamente isso: quando o outro deixa de ser outro.
Quando aquilo que acontece com ele começa a acontecer dentro de você.
Talvez seja por isso que o hino de Lamartine Babo tenha conseguido transformar uma paixão esportiva em uma espécie de declaração de pertencimento. A marcha surgiu nos anos 1940 e se tornou, com o tempo, o hino mais conhecido do clube. E existe nela uma ideia quase absurda de tão profunda: imaginar que a ausência do Flamengo no mundo seria capaz de produzir em nós uma tristeza que ultrapassa o próprio futebol.
Pense nisso por um instante.
Não é sobre perder um campeonato.
Não é sobre deixar de ganhar um clássico.
É sobre imaginar o mundo sem aquilo que, para milhões de pessoas, tornou alguns domingos inesquecíveis.
E talvez seja exatamente aí que mora a paixão.
Porque ninguém teria um desgosto profundo pela ausência de algo que não tivesse ocupado um lugar profundo.
Eu penso que Clarice entenderia isso.
Não porque o Flamengo precise de explicação — ele não precisa.
Mas porque há sentimentos que só podem ser compreendidos quando deixamos de tentar compreendê-los.
Talvez ela perguntasse:
o que exatamente existe dentro de nós quando dizemos “meu time”?
E talvez a resposta fosse desconfortavelmente simples:
Existe uma parte da nossa infância.
Existe a voz de alguém que amamos.
Existe o menino ou a menina que fomos.
Existe a primeira camisa.
O primeiro jogo.
A primeira derrota que doeu de verdade.
A primeira vitória que nos fez acreditar que a vida, por alguns minutos, era perfeitamente justa.
Existem pessoas que já não estão aqui.
Existem lugares que mudaram.
Existem domingos que não voltam.
Mas existe uma coisa que permanece.
O grito.
O vermelho.
O preto.
Aquele instante em que milhares de pessoas, que não se conhecem, respiram como se fossem uma só.
E talvez seja isso que um clube faça de mais bonito:
ele cria uma família entre desconhecidos.
Você entra em um estádio sem conhecer ninguém.
E, de repente, abraça um estranho.
Porque o Flamengo fez um gol.
Por alguns segundos, não existem desconhecidos.
Existe a Nação.
E que palavra perigosa é essa: Nação.
Porque uma nação não é apenas um território.
É uma memória compartilhada.
É uma linguagem.
É um conjunto de símbolos que nos fazem reconhecer uns aos outros.
O Flamengo construiu isso de uma maneira que o futebol, sozinho, talvez não consiga explicar.
A torcida criou até o próprio mascote. O antigo marinheiro Popeye deu lugar ao urubu, símbolo que nasceu de uma provocação e acabou transformado pela própria torcida em orgulho. É quase uma síntese do que é ser Flamengo: pegar aquilo que tentaram usar contra nós e transformar em identidade.
Talvez por isso a nossa história tenha tantas palavras que parecem exageradas.
Nação.
Manto.
Raça.
Glória.
Paixão.
Mas talvez não sejam exageros.
Talvez sejam apenas palavras tentando alcançar um sentimento que é maior do que elas.
Porque quem nunca foi Flamengo pode olhar e pensar:
“É só futebol.”
E está tudo bem.
Nem todo mundo precisa entender.
Há coisas que só podem ser compreendidas por quem já sentiu.
Quem já chorou por causa de um gol.
Quem já ficou em silêncio depois de uma derrota.
Quem já acordou no dia seguinte com a certeza de que, apesar de tudo, continuaria amando.
Porque essa é a parte que ninguém conta sobre a paixão:
ela não depende de reciprocidade.
O Flamengo não sabe quem somos.
Não sabe o nosso nome.
Não sabe das nossas histórias.
Não sabe quantas vezes usamos a camisa para enfrentar um dia difícil.
Não sabe que, em algum momento da vida, aquele escudo nos fez companhia.
E ainda assim, nós amamos.
Talvez amar um clube seja uma das formas mais puras de amor que existem justamente porque não existe garantia.
Você não ama porque vai ganhar.
Você ama porque já pertence.
E pertencer é diferente de vencer.
O Flamengo pode perder.
Pode nos fazer sofrer.
Pode arrancar palavrões que jamais repetiríamos diante da nossa avó.
Pode destruir nosso domingo e devolver nossa alegria numa quarta-feira qualquer.
Pode nos fazer desacreditar e, cinco minutos depois, acreditar novamente.
Mas ele permanece.
Porque a paixão não vai embora quando termina o jogo.
Ela volta para casa com a gente.
Vai para o trabalho na segunda-feira.
Entra na conversa do almoço.
Fica escondida dentro da carteira.
Aparece na camisa.
No adesivo do carro.
Na criança que nasce e, antes mesmo de entender o mundo, já tem alguém dizendo:
“Esse aqui é Flamengo.”
E talvez seja assim que o amor passe de uma geração para outra.
Não por herança.
Por contágio.
Um coração ensinando outro coração a bater diferente.
Foi assim comigo.
E talvez tenha sido assim com você.
Talvez você nem se lembre do dia em que virou Flamengo.
Talvez porque esse dia nunca tenha existido.
Talvez você tenha sido aos poucos.
Como quem se apaixona sem perceber.
Como quem olha para alguém uma vez, depois outra, depois outra — e quando finalmente entende, já não sabe mais imaginar a própria vida sem aquela presença.
É isso.
O Flamengo não entrou na nossa vida como entram as coisas comuns.
Entrou como entram as coisas que ficam.
E talvez por isso eu entenda, finalmente, aquela frase do hino.
Não como exagero.
Mas como medo.
O medo de perder no mundo aquilo que nos ensinou a sentir o mundo.
Porque, no fundo, talvez o desgosto não fosse pela falta do Flamengo.
Fosse pela falta de tudo aquilo que o Flamengo desperta em nós.
A criança.
O pai.
O avô.
O amigo.
O domingo.
A rua.
O estádio.
O abraço.
A lágrima.
O grito.
A esperança.
A memória.
A sensação quase infantil de acreditar que, por algum motivo, hoje vai dar certo.
E talvez essa seja a maior beleza de torcer.
A gente sabe que pode dar errado.
E vai mesmo assim.
A gente sabe que pode sofrer.
E vai mesmo assim.
A gente sabe que uma bola pode bater na trave, que um juiz pode errar, que um campeonato pode escapar, que o herói de ontem pode ser o culpado de hoje.
E vai.
Porque amar não é acreditar que nunca vamos sofrer.
É aceitar que algumas coisas valem a pena mesmo quando podem nos fazer sofrer.
Por isso, quando o Flamengo entra em campo, alguma coisa dentro da gente se levanta.
Não importa a idade.
Não importa o que aconteceu naquele dia.
Não importa se a vida está difícil.
Por noventa minutos, existe uma possibilidade.
E esperança, quando compartilhada por milhões, vira força.
Talvez Nelson Rodrigues tenha compreendido isso quando escreveu que o Flamengo funciona, em determinados momentos, como uma espécie de remédio para as tristezas brasileiras — não resolve a fome, não conserta a vida, mas pode inundar a alma de ânimo.
É por isso que eu não sei explicar ser Flamengo.
E talvez ninguém devesse.
Algumas coisas perdem a beleza quando são explicadas demais.
Prefiro pensar que um dia, em algum lugar, o Flamengo simplesmente me encontrou.
E desde então existe uma parte de mim que veste vermelho e preto mesmo quando estou sem camisa.
Uma parte que canta mesmo quando estou em silêncio.
Uma parte que sofre antes do apito e acredita antes da bola entrar.
Uma parte que sabe que o futebol acaba, mas o amor não.
Porque o jogo termina.
O campeonato termina.
A temporada termina.
Os jogadores passam.
Os técnicos passam.
Os presidentes passam.
Até nós passamos.
Mas alguma coisa permanece.
O escudo.
As cores.
O canto.
A memória.
A Nação.
E essa estranha, bonita e inexplicável sensação de olhar para alguém que você nunca viu na vida, encontrar os olhos dele no meio de uma multidão e saber:
é Flamengo também.
Talvez seja isso que o futebol inventou de mais bonito.
Não onze jogadores.
Não noventa minutos.
Não títulos.
Inventou a possibilidade de milhões de desconhecidos dizerem a mesma palavra como se fosse uma oração.
Flamengo.
E, quando a palavra sai da boca de uma multidão, já não parece nome de clube.
Parece nome de casa.
E talvez seja.
Porque algumas casas têm paredes.
Outras têm endereço.
A nossa tem duas cores.
E quando alguém pergunta por que somos Flamengo, talvez a resposta mais honesta seja a mais simples:
não fomos nós que escolhemos.
Foi ele.
E, desde então, como diz o hino, uma vez Flamengo — para nós — nunca foi apenas uma vez.
Foi para a vida inteira.