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~ SEU RESPEITO POR SI MESMO PRECISA SER MAIOR QUE A VONTADE DE SER AMADO.

Tatianeturcatti
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Ontem, uma amiga me contou que recebeu flores de alguém que, um dia, soube exatamente como fazê-la se sentir importante — e depois soube exatamente como fazê-la se sentir descartável.

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Ontem, uma amiga me contou que recebeu flores de alguém que, um dia, soube exatamente como fazê-la se sentir importante — e depois soube exatamente como fazê-la se sentir descartável.

Era a mesma pessoa.

As flores chegaram depois de uma história de ausências, desencontros e uma espécie de irresponsabilidade afetiva que não precisa de nome para deixar marcas. E, junto com elas, veio uma palavra que, até então, ele nunca havia dito:

“Saudade.”

Ela me contou isso com aquele brilho perigoso de quem tenta não criar expectativas, mas já criou.

Eu ouvi.

Depois perguntei:
“E você vai fazer o quê com isso?”

Ela disse que não conseguia ser indiferente.

E talvez esse seja um dos maiores problemas que confundimos com amor: acreditar que, para nos protegermos, precisamos deixar de sentir.

Não precisamos.

Você pode sentir saudade e ainda assim não voltar.
Pode amar e ainda assim ir embora.
Pode se importar e, mesmo assim, fechar a porta.
Pode tremer por dentro e continuar dizendo não.

Indiferença nunca foi requisito para o amor-próprio.

Às vezes, respeito por si mesmo é justamente sentir tudo e, ainda assim, escolher a si.

Porque existe uma diferença enorme entre aquilo que uma pessoa diz sentir e aquilo que ela é capaz de sustentar.

Flores são bonitas.

Saudade também.

Mas nenhuma das duas apaga o que aconteceu antes delas.

E talvez seja preciso falar sobre isso porque, em algum momento da vida, quase todos nós já confundimos um gesto bonito com uma mudança profunda.

Uma mensagem depois de meses de silêncio.

Um “sinto sua falta” vindo justamente de quem nunca soube permanecer.

Um pedido de desculpas depois que percebeu que poderia nos perder.

Uma ligação de madrugada.

Um “dessa vez vai ser diferente”.

E nós, que passamos tanto tempo esperando por alguma demonstração, às vezes nos emocionamos não porque aquilo seja suficiente, mas porque finalmente recebemos aquilo que queríamos ter recebido desde o começo.

É aí que mora o perigo.

A carência não mente exatamente.

Ela apenas aumenta o volume daquilo que gostaríamos de ouvir.

Por isso, às vezes, precisamos sair um pouco da emoção e fazer uma pergunta menos romântica e mais honesta:

Como essa pessoa me faz sentir na maior parte do tempo?

Não pense no beijo.

Não pense na saudade.

Não pense na noite bonita.

Pense no dia seguinte.

Como você fica depois?

Em paz ou em dúvida?

Leve ou ansioso?

Seguro ou tentando interpretar cada palavra?

Você dorme melhor ou passa a noite reconstruindo conversas na cabeça?

Você se sente amado ou constantemente tentando merecer amor?

Porque talvez o amor não devesse ser medido apenas pela intensidade do que sentimos quando alguém está perto, mas também pela qualidade de quem nos tornamos quando essa pessoa entra na nossa vida.

Há relações que nos dão borboletas no estômago e tiram o chão dos pés.

E há uma diferença entre frio na barriga e falta de segurança.

Nem todo desejo merece acesso.

Nem toda saudade merece reencontro.

Nem todo pedido de desculpas merece uma nova oportunidade.

E nem toda pessoa que volta merece encontrar a mesma porta aberta.

Isso não significa transformar o outro em vilão.

Significa parar de transformar a si mesmo em vítima.

Talvez ele realmente esteja com saudade.

Talvez tenha percebido o que perdeu.

Talvez tenha mudado.

Talvez as flores sejam sinceras.

Mas a questão nunca deveria ser apenas o que ele sente.

A pergunta também é:

o que acontece com você quando ele entra novamente na sua vida?

Porque existem pessoas que chegam trazendo flores e deixam destroços.

E existem pessoas que não precisam fazer grandes declarações porque a presença delas já não exige que você sobreviva emocionalmente à ausência.

Amor não deveria ser uma negociação permanente entre esperança e sofrimento.

Bell Hooks escreveu sobre o amor como uma prática: amar não é apenas sentir, mas agir de maneira coerente com esse sentimento.

E talvez seja justamente isso que precisamos aprender.

Não basta alguém dizer que ama.

É preciso observar o que essa pessoa faz com o amor que diz sentir.

Cuidado é comportamento.

Respeito é comportamento.

Responsabilidade afetiva é comportamento.

Presença também.

E, principalmente, mudança é comportamento.

Palavras podem abrir uma porta.

Mas são as atitudes que decidem se alguém merece continuar dentro.

Talvez você também esteja vivendo alguma coisa parecida.

Talvez seja uma mensagem que você está esperando.

Uma pessoa que reapareceu.

Um ex que descobriu a saudade justamente quando você começou a esquecê-lo.

Um amigo que só percebeu sua importância quando você deixou de procurá-lo.

Um familiar que só demonstra carinho quando sente que está perdendo seu acesso.

Ou talvez seja você quem continua insistindo em alguém porque ainda não conseguiu aceitar que aquilo que desejava daquela pessoa talvez nunca tenha existido da maneira como imaginou.

Então eu queria lhe dizer uma coisa com carinho, mas sem passar a mão na sua cabeça:

pare de escolher pessoas apenas porque elas escolheram você em algum momento.

Escolha também pelo que elas fazem você sentir.

Pelo que despertam em você.

Pela tranquilidade que trazem.

Pela pessoa que você consegue ser ao lado delas.

Porque ser desejado é bom.

Ser procurado depois de ter sido perdido alimenta o ego.

Receber flores é bonito.

Ouvir “saudade” depois de tanto tempo pode tocar lugares que você achava que já estavam curados.

Mas ser amado de verdade deveria ser mais do que ser lembrado quando alguém sente sua falta.

Deveria ser ser cuidado enquanto está presente.

E talvez maturidade emocional seja isso:

entender que você não precisa ser indiferente para se proteger.

Você só precisa se lembrar de si.

Quando alguém voltar, antes de perguntar “será que dessa vez vai dar certo?”, pergunte:

“Eu quero voltar a ser quem eu era quando estava com essa pessoa?”

Porque algumas pessoas não voltam para reconstruir.

Voltam porque perceberam que a porta ainda abre.

E cabe a você decidir se ela continua aberta.

Não escolha entre ele e você.

Escolha você.

Não porque o outro necessariamente não mereça uma segunda chance.

Mas porque você também merece uma segunda chance — de viver algo que não precise doer para parecer intenso, de receber um amor que não precise ser implorado, de dormir sem interpretar silêncios, de não precisar diminuir suas necessidades para caber na disponibilidade de alguém.

No fim, talvez amar a si mesmo seja menos sobre se achar incrível e mais sobre não permanecer onde você precisa se abandonar para ser amado.

Então, se algum dia você estiver diante de alguém que desperta sua saudade, sua vontade, seu desejo e todas aquelas emoções que parecem maiores do que a razão, respire.

Sinta.

Mas não esqueça de olhar para trás.

Não para alimentar ressentimentos.

Para lembrar da história inteira.

Porque uma flor não deve ter o poder de apagar um jardim inteiro em chamas.

E porque, às vezes, a escolha mais amorosa que você pode fazer não é aceitar quem finalmente decidiu voltar.

É agradecer pelo que viveu, guardar as flores — se quiser — e continuar caminhando.

Seu respeito por si mesmo precisa ser maior que a vontade de ser amado.

Inclusive pela pessoa que você mais queria que tivesse escolhido você.

Inclusive quando ela finalmente escolhe.

Porque, antes de qualquer pessoa chegar, partir, voltar ou sentir saudade, existe alguém que precisa continuar sendo sua casa:

você.

Thoughts

  • Marina

    ser desejado depois de ter sido descartado é viciante e isso ninguém fala, é tipo ler um personagem que finalmente te notar

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  • EncontroDeQuinta

    Voltam porque a porta abre, mas a gente esperava que ela tivesse fechado.

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  • rgomes85

    Comportamento é ação. Bell hooks tá certa. A gente gasta muito tempo decifrando palavras quando deveria só olhar pro que a pessoa faz

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  • mesapradois

    A ausência de alguém nos molda tanto quanto a presença. Você acha que é por isso que volta não é nunca igual?

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  • dezanosjuntos

    A parte de 'nem toda pessoa que volta merece encontrar a mesma porta aberta' é madura demais, ninguém diz isso

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  • denovonao

    aquele ciclo de volta-não-volta-volta é tão real que é assustador, já tive amigas que voltam com o mesmo ex tipo a cada estação

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  • cafeDeSegunda

    Quando alguém ama mas não age como se amasse, é disso que você tá falando. Isso aqui me machucou de um jeito

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  • Tania_R

    Aquele 'como você fica depois?' Todo dia me vejo fazendo essa conta e às vezes a resposta me assusta. Você descobre coisas assim?

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