Carregando…

~ Eu tenho muitos jeitos de amar. Alguns eu reconheço; outros ainda não sei nomear.

Tatianeturcatti
Pública 0 conversa 0 pensamento 58 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Hoje eu estava conversando com meu irmão e, no meio de uma conversa qualquer, me ocorreu uma coisa que me pareceu grande demais para caber numa conversa qualquer: eu amo esse homem de um jeito que…

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Hoje eu estava conversando com meu irmão e, no meio de uma conversa qualquer, me ocorreu uma coisa que me pareceu grande demais para caber numa conversa qualquer: eu amo esse homem de um jeito que às vezes me assusta.

É um amor de preocupação.

Um amor que, se fosse necessário, me faria dar a vida sem precisar pensar a respeito. E talvez essa seja uma das coisas mais estranhas sobre o amor: existem pessoas pelas quais nós não precisamos decidir se morreríamos. O corpo responde antes da consciência. Há vínculos que não passam pela razão. A gente simplesmente sabe.

E então fiquei pensando que talvez passemos a vida inteira descobrindo que existem muitos amores dentro da palavra amor.

Porque dizemos “eu te amo” como se estivéssemos falando de uma coisa só.

Não estamos.

Existe o amor entre irmãos, esse amor feito de uma intimidade quase involuntária, de memórias que ninguém mais possui, de brigas que passam e de uma espécie de pacto silencioso: se o mundo inteiro for embora, eu ainda sei de onde você veio.

Existe o amor de amizade, que é uma escolha. E talvez por isso seja tão bonito. O amigo não nasceu dentro da nossa casa, não carrega necessariamente o nosso sobrenome, não foi colocado na nossa vida pela biologia. Em algum momento, entre tantas pessoas possíveis, duas pessoas se encontram e alguma coisa diz: fica.

Existe o amor dos filhos pelos pais, que começa antes mesmo de sabermos nomeá-lo. E existe o amor dos pais pelos filhos, esse amor que parece não obedecer às medidas comuns da existência. Um amor que, dizem, é quase sublime — embora eu ainda não o conheça.

Existe o amor de avó, que parece ter aprendido a ternura depois de atravessar a vida.

Existe o amor de neto, que talvez seja uma das primeiras maneiras pelas quais descobrimos que alguém pode amar a nossa existência sem exigir que sejamos nada além de nós mesmos.

Existe o amor de tia, que é uma coisa curiosa: a criança não saiu de dentro de você, mas em algum momento o coração decide que isso é apenas um detalhe biológico. E você passa a olhar para aquele pequeno ser com uma espécie de responsabilidade que ninguém lhe deu, mas que você aceitou assim mesmo.

Existe o amor dos sobrinhos, dos primos, da família que vai se espalhando pelas árvores genealógicas e, sem perceber, criando raízes dentro de nós.

Existe o amor romântico, talvez o mais celebrado de todos, justamente porque foi transformado em história, música, filme, promessa, literatura. O amor que chega acompanhado de desejo, expectativa, futuro. O amor que nos faz querer dividir uma vida, uma cama, uma casa, um domingo, uma doença, uma velhice.

E há tantos outros.

O amor que sentimos por um amigo que atravessou conosco uma fase difícil.

O amor por alguém que já morreu e continua ocupando espaço na nossa memória.

O amor por uma criança que nos chama pelo nome errado e, ainda assim, parece saber exatamente quem somos.

O amor que nasce quando cuidamos de alguém.

O amor que descobrimos quando sentimos medo de perder.

O amor que permanece mesmo depois que a relação termina.

Talvez a vida seja justamente isso: uma sequência de encontros que vão aumentando o nosso vocabulário afetivo.

Quando somos pequenos, conhecemos alguns poucos nomes.

Depois, crescemos e vamos desbloqueando outros.

Primeiro aprendemos o amor de quem nos cuida.

Depois descobrimos o amor dos irmãos.

Mais tarde, o amor dos amigos.

Então alguém nos atravessa de uma maneira diferente e descobrimos o amor romântico.

Um dia nascem sobrinhos e descobrimos que o coração tem quartos que ainda não conhecíamos.

Um dia perdemos alguém e descobrimos que existe também uma forma de amar através da ausência.

E talvez seja isso que significa amadurecer: não necessariamente ficar mais sábio, mais forte ou mais seguro.

Related posts