Hoje eu estava conversando com meu irmão e, no meio de uma conversa qualquer, me ocorreu uma coisa que me pareceu grande demais para caber numa conversa qualquer: eu amo esse homem de um jeito que às vezes me assusta.
É um amor de preocupação.
Um amor que, se fosse necessário, me faria dar a vida sem precisar pensar a respeito. E talvez essa seja uma das coisas mais estranhas sobre o amor: existem pessoas pelas quais nós não precisamos decidir se morreríamos. O corpo responde antes da consciência. Há vínculos que não passam pela razão. A gente simplesmente sabe.
E então fiquei pensando que talvez passemos a vida inteira descobrindo que existem muitos amores dentro da palavra amor.
Porque dizemos “eu te amo” como se estivéssemos falando de uma coisa só.
Não estamos.
Existe o amor entre irmãos, esse amor feito de uma intimidade quase involuntária, de memórias que ninguém mais possui, de brigas que passam e de uma espécie de pacto silencioso: se o mundo inteiro for embora, eu ainda sei de onde você veio.
Existe o amor de amizade, que é uma escolha. E talvez por isso seja tão bonito. O amigo não nasceu dentro da nossa casa, não carrega necessariamente o nosso sobrenome, não foi colocado na nossa vida pela biologia. Em algum momento, entre tantas pessoas possíveis, duas pessoas se encontram e alguma coisa diz: fica.
Existe o amor dos filhos pelos pais, que começa antes mesmo de sabermos nomeá-lo. E existe o amor dos pais pelos filhos, esse amor que parece não obedecer às medidas comuns da existência. Um amor que, dizem, é quase sublime — embora eu ainda não o conheça.
Existe o amor de avó, que parece ter aprendido a ternura depois de atravessar a vida.
Existe o amor de neto, que talvez seja uma das primeiras maneiras pelas quais descobrimos que alguém pode amar a nossa existência sem exigir que sejamos nada além de nós mesmos.
Existe o amor de tia, que é uma coisa curiosa: a criança não saiu de dentro de você, mas em algum momento o coração decide que isso é apenas um detalhe biológico. E você passa a olhar para aquele pequeno ser com uma espécie de responsabilidade que ninguém lhe deu, mas que você aceitou assim mesmo.
Existe o amor dos sobrinhos, dos primos, da família que vai se espalhando pelas árvores genealógicas e, sem perceber, criando raízes dentro de nós.
Existe o amor romântico, talvez o mais celebrado de todos, justamente porque foi transformado em história, música, filme, promessa, literatura. O amor que chega acompanhado de desejo, expectativa, futuro. O amor que nos faz querer dividir uma vida, uma cama, uma casa, um domingo, uma doença, uma velhice.
E há tantos outros.
O amor que sentimos por um amigo que atravessou conosco uma fase difícil.
O amor por alguém que já morreu e continua ocupando espaço na nossa memória.
O amor por uma criança que nos chama pelo nome errado e, ainda assim, parece saber exatamente quem somos.
O amor que nasce quando cuidamos de alguém.
O amor que descobrimos quando sentimos medo de perder.
O amor que permanece mesmo depois que a relação termina.
Talvez a vida seja justamente isso: uma sequência de encontros que vão aumentando o nosso vocabulário afetivo.
Quando somos pequenos, conhecemos alguns poucos nomes.
Depois, crescemos e vamos desbloqueando outros.
Primeiro aprendemos o amor de quem nos cuida.
Depois descobrimos o amor dos irmãos.
Mais tarde, o amor dos amigos.
Então alguém nos atravessa de uma maneira diferente e descobrimos o amor romântico.
Um dia nascem sobrinhos e descobrimos que o coração tem quartos que ainda não conhecíamos.
Um dia perdemos alguém e descobrimos que existe também uma forma de amar através da ausência.
E talvez seja isso que significa amadurecer: não necessariamente ficar mais sábio, mais forte ou mais seguro.