Carregando…

~ Morrerei incompreendida, mas fiel a mim

Tatianeturcatti
Pública 0 conversa 0 pensamento 56 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Talvez uma das coisas mais solitárias de existir seja descobrir que, por mais que você explique, algumas pessoas nunca chegarão até onde você está.

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Talvez uma das coisas mais solitárias de existir seja descobrir que, por mais que você explique, algumas pessoas nunca chegarão até onde você está.

Não por falta de palavras.

Há coisas que não cabem nelas.

Você pode contar a história inteira, voltar ao começo, explicar as pausas, justificar os silêncios, mostrar as feridas, apresentar as circunstâncias, oferecer a alguém o mapa inteiro de quem você é — e, ainda assim, a pessoa enxergará apenas aquilo que consegue compreender.

Porque ninguém nos vê exatamente como somos.

As pessoas nos veem a partir do que carregam.

Do que viveram.
Do que perderam.
Do que temem.
Do que aprenderam a chamar de amor.
Do que precisaram esconder em si mesmas para continuar vivendo.

E talvez seja por isso que eu tenha desistido, aos poucos, dessa necessidade infantil de ser compreendida por todos.

Eu já quis muito.

Quis que entendessem por que eu fui embora quando ainda amava.
Por que permaneci quando deveria ter partido.
Por que algumas coisas me atravessam tão profundamente.
Por que preciso de silêncio quando o mundo pede respostas.
Por que às vezes pareço distante quando, na verdade, estou sentindo demais.
Por que não consigo oferecer de mim aquilo que meu coração não reconhece como verdadeiro.

Eu quis que olhassem para mim e dissessem: agora eu entendi.

Mas hoje penso que talvez essa frase seja uma das maiores ilusões que alimentamos durante a vida.

Porque ser compreendida é, muitas vezes, esperar que o outro atravesse uma distância que só nós podemos atravessar.

E há distâncias que ninguém atravessa.

Então eu parei de me explicar.

Não porque tenha deixado de me importar.

Mas porque compreendi que existe uma diferença imensa entre ser incompreendida e estar errada.

Nem tudo aquilo que o outro não consegue entender precisa ser corrigido em nós.

Há escolhas que parecerão egoísmo para quem sempre confundiu amor com sacrifício.

Há limites que parecerão frieza para quem se acostumou a ter acesso irrestrito à nossa alma.

Há partidas que parecerão ingratidão para quem nunca precisou escolher entre permanecer e desaparecer dentro de si.

Há silêncios que serão interpretados como desprezo quando, na verdade, foram a última forma encontrada de não dizer algo que ferisse.

E há versões nossas que algumas pessoas simplesmente precisarão inventar para conseguir conviver com o fato de que não somos aquilo que imaginaram.

Eu já fui muitas coisas na boca dos outros.

Difícil.
Intensa.
Fria.
Sensível demais.
Distante.
Exigente.
Complicada.
Livre demais.

Talvez eu seja um pouco de tudo isso.

Talvez não seja nada.

Talvez eu seja apenas alguém que passou tempo demais tentando ser decifrada e, cansada de oferecer traduções de si mesma, decidiu finalmente viver no idioma em que nasceu.

E existe uma liberdade estranha nisso.

A liberdade de não precisar convencer.

De não transformar cada escolha em uma defesa.
De não transformar cada sentimento em uma prova.
De não transformar cada ausência em uma explicação.
De não transformar a própria existência em um tribunal onde os outros são juízes e você passa a vida tentando provar que é inocente.

Eu não quero mais ser inocente.

Quero ser inteira.

E ser inteira significa aceitar que algumas pessoas me amarão pela metade porque só conseguirão alcançar a parte de mim que lhes é familiar.

Significa aceitar que algumas pessoas irão embora acreditando que me conheciam.

Significa aceitar que, em determinadas histórias, eu serei a vilã porque essa é a versão necessária para que alguém consiga dormir em paz.

E tudo bem.

Há uma idade em que a gente entende que não pode controlar a memória que deixará nos outros.

Podemos apenas cuidar da pessoa que fomos enquanto estivemos ali.

É isso que me importa agora.

Não quero ser lembrada como alguém que agradou a todos.

Quero poder olhar para a mulher que fui e reconhecer nela alguma coisa que não tenha sido negociada.

Quero saber que, quando a vida me apertou contra a parede, eu não abandonei completamente quem eu era para continuar sendo aceita.

Que, quando precisei dizer não, eu disse.

Que, quando precisei partir, eu parti.

Que, quando amei, amei sem a covardia de fingir indiferença.

Que, quando doeu, eu não transformei minha dor em espetáculo.

Que, quando errei, tive coragem de olhar para o erro sem precisar inventar uma versão mais bonita de mim.

Porque talvez maturidade seja isso:

não chegar ao ponto em que todos finalmente nos compreendem,

mas chegar ao ponto em que já não precisamos disso para continuar.

Eu sei que serei incompreendida.

Talvez muitas vezes.

Talvez por pessoas que amo.

Talvez justamente por aquelas de quem eu mais gostaria de ser entendida.

E essa talvez seja a parte mais difícil.

Mas existe uma tristeza muito maior do que ser incompreendida:

ser compreendida por todos e desconhecida por si mesma.

Eu não quero esse tipo de paz.

Não quero uma vida construída sobre a aprovação de quem olha de fora.

Não quero passar a existência inteira aparando minhas arestas para que ninguém se corte, diminuindo minha voz para que ninguém se incomode, escondendo meus desejos para que ninguém precise confrontar os próprios.

Eu quero a difícil paz de saber quem sou.

Mesmo quando ninguém entender.

Mesmo quando interpretarem errado.

Mesmo quando me julgarem.

Mesmo quando eu perder pessoas por não conseguir mais caber naquilo que esperavam de mim.

Porque, no fim, haverá uma única pessoa com quem eu precisarei permanecer até o último instante.

Eu.

E quando chegar a hora em que tudo aquilo que construí desaparecer das mãos, quando os nomes perderem importância, quando as opiniões dos outros já não tiverem força alguma sobre mim, quando restar apenas a mulher que existiu por trás de todos os papéis que desempenhou, eu quero que ela me reconheça.

Quero que ela diga:

você não acertou sempre.

Você não foi perfeita.

Você não foi compreendida.

Mas você foi fiel.

E talvez seja isso que eu chame de uma vida bem vivida.

Não a vida em que todos entenderam quem eu fui.

Mas aquela em que, apesar de tudo, eu não precisei me abandonar para que alguém ficasse.

Se eu tiver de morrer com alguma coisa, que seja com a certeza de que não morri de mim mesma antes.

Morrerei incompreendida, talvez.

Mas, enquanto houver uma parte de mim capaz de escolher,

morrerei fiel a mim.

Related posts