A Lidi corta o cabelo curto e isso é contado duas vezes: primeiro como penitência, umas páginas depois como aviso, sem arrependimento nenhum. Fiquei com a impressão de que nem ela decidiu ainda qual das duas foi, e foi isso que me fez gostar mais dela do que do Ayr.
Mais que uma Esperança; uma Promessa
No fim daquela tarde, antes dos testes do GFG, o saguão de convivência estava morno — vozes baixas, passos ritmados, o cheiro de café que parecia mais ritual do que alimento. Ayr procurou Adual…
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Pensamento
A Lidi corta o cabelo curto e isso é contado duas vezes: primeiro como penitência, umas páginas depois como aviso, sem arrependimento nenhum. Fiquei com a impressão de que nem ela decidiu ainda qual das duas foi, e foi isso que me fez gostar mais dela do
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No fim daquela tarde, antes dos testes do GFG, o saguão de convivência estava morno — vozes baixas, passos ritmados, o cheiro de café que parecia mais ritual do que alimento. Ayr procurou Adual entre os grupos, e quando o encontrou, aproximou-se com algo de urgente e suave ao mesmo tempo. Havia uma calma que não combinava com o resto do lugar: era a calma de quem tem uma decisão para cumprir.
— Queria me despedir — disse Ayr, olhando Adual nos olhos. — E te pedir um favor.
Adual arregalou-se, surpreso.
— Despedir? Por quê? O GFG é amanhã, você volta depois...
Ayr sorriu de canto, segurou a mão de Adual com firmeza, como se transferisse ali um pouco de coragem.
— Gostei de te conhecer. Um amigo de outro país e de outra cultura. — A voz dele era curta, direta, mas havia calor. — Me faça uma coisa: quando voltar para Fiúme, diz pro Annes que eu sou… que eu sou o irmão dele. Que eu vou ser o segundo piloto. Que vou dominá-lo — física e psicologicamente. Que essa rixa é pessoal. Tenho que limpar minha honra.
Adual ficou em silêncio por um segundo, processando — meio incrédulo, meio divertido com a audácia do rapaz.
— Você fala sério? — perguntou. — Eu sou o segundo piloto dele, sim. Mas dizer isso... é delicado.
Ayr riu, um riso curto, cortante e sem arrogância.
— Não se preocupe com a delicadeza. Você era só um teste pra saber quem é quem aqui. Era óbvio demais — como Ron diz: números não mentem.
Adual sorriu, daquela mistura de espanto e admiração por quem colocava a honra à frente do medo.
— Vai por mim... — começou, mas Ayr o interrompeu com um aperto na mão, firme, definitivo.
— Faça isso por mim. E não fale como rival — fale como irmão. Dá mais medo assim.
Os dois riram, e o riso quebrou o resto da tensão ao redor. Por um instante, eram dois estrangeiros trocando uma confidência num território de vespas, onde todo gesto era medido e toda palavra podia virar munição.
Ayr recuou um passo, respirou a atmosfera do complexo como quem engloba um novo mundo. Havia promessas no ar — não promessas vazias, mas compromissos postos como pedra sobre pedra. Ele virou-se e foi embora, a figura magra se afastando com o passo decidido de quem já imaginava o som do motor antes de a máquina existir.
Adual observou até desaparecer, e, por um segundo, a sensação que ficou foi de que aquilo não era só um adeus: era um prenúncio.
Ayr sai dos corredores do complexo com a postura de quem carrega um destino.
No silêncio de fim de tarde, atravessa o hall até a grande janela de vidro, que vai do teto ao chão, e observa o grid de largada ao longe.
Uma chuva fina cai — aquela que ele chama de “molha-bobo”: não encharca, mas satisfaz quem gosta de andar na chuva.
Mais ao fundo, nuvens carregadas se acumulam, riscadas por clarões que iluminam o céu.
Ayr para, respira fundo, e quase instintivamente ergue a mão esquerda, contando os segundos entre o clarão e o trovão:
— Um. Dois. Três. Quatro.
O som estoura no horizonte. Ayr sorri de lado.
— Caiu a 1.372 metros daqui.
Seu olhar fica mais pesado quando aperta contra o peito a pequena medalha que carrega no pescoço.
No verso, gravado com cuidado:
“Me leve para morar em teus sonhos.”
Por um instante, o corredor, a chuva e o trovão desaparecem.
Ele se lembra das instruções do briefing sobre o GFG — o teste de amanhã.
Do lado do grid, aquela estrutura se erguia como um presságio: uma esfera negra, de mármore, colossal, imóvel, tão perfeita que parecia uma estátua feita para um novo deus.
Ayr se sentiu pequeno diante daquilo.
Na sua mente, uma palavra ecoou: “Jess.”
E junto dela, a lembrança do irmão que nunca conheceu, mas cuja existência sempre sentiu.
Agora, por ironia do destino, poderiam se encontrar — ou se destruir.
Outro clarão rasga o céu. Ayr conta de novo, baixo, quase em transe:
— Um. Dois. Três.
O trovão chega como um rugido.
Quando Ayr pisca, já está lá dentro.
O GFG o envolve.
Não era apenas um simulador — era como se o mundo ao redor tivesse se dissolvido, e o chamado do trovão o tivesse puxado para o centro do monstro cósmico que devora sonhos.
O GFG se acende. A luz branca invade os olhos de Ayr.
Mas sua mente está em outro lugar.
Ele não está mais ali. Está em um campo de trigo, quatro anos antes, nos arredores do colégio militar, na periferia de Ceres. Ao fundo, a Torre da Mãe Ceres se ergue, solene, perto da fronteira com Arcádia.
Chove uma chuva fina, a “molha-bobo” que ele tanto gosta.
O garoto de 16 anos conta baixinho, como um ritual:
— Um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito.
O estrondo vem grave, como um grito dos deuses. Ayr sorri sozinho.
— Caiu a 2.744 metros daqui — diz, sem hesitar.
E então ela aparece.
Jess.
Quatorze anos. Um olho verde, outro azul. O uniforme cinza-escuro encharcado de chuva. Os cabelos castanhos ondulados grudados no rosto. Os outros alunos haviam sido dispensados quando a energia caiu. Mas não eles.
— Sonhando de novo com a velocidade? — ela pergunta, com um meio sorriso.
— Sim… com os meus sonhos.
— Como sabe que quer isso? Você só tem dezesseis anos.
Ayr respira fundo, olha o horizonte.
— Não sei. Mas é algo que sinto. É… inexplicável.
Jess apoia o queixo no ombro dele, olhando na mesma direção.
— “Me leve para morar em teus sonhos…” — ela sussurra, quase rindo, repetindo a frase gravada na medalhinha que Ayr sempre carrega no peito.
Ele vira o rosto, os lábios quase se tocam.
— Só você mesmo, hein, Jess…
Ela se afasta um passo, o observa. Outro clarão corta o céu. Ambos contam juntos.
— Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis.
O estrondo explode — e Ayr desperta.
Mas o som não vem mais do céu.
Vem do GFG rugindo ao seu redor.
Ron, Dan e mais um engenheiro trocam olhares atônitos na sala de controle.
Os monitores mostram números absurdos.
— Ele está… calmo demais — diz Dan, quase sussurrando.
Ron cerra os dentes. A telemetria indica o impossível: Ayr está extraindo aderência de um simulador. Aquilo não deveria existir.
— Aumenta a dificuldade — ordena Ron. — Quero ver até onde vai.
As variáveis do GFG são alteradas: menos downforce, mais vibração, mais instabilidade. O “saco de maldades” de Ron.
Ayr mantém o semblante sério, inabalável.
Cada curva é um corte preciso.
Cada volta, uma afirmação.
98%. 99%.
— Ele não está domando o carro… — murmura Dan, incrédulo. — Ele está… fundido a ele.
Os gráficos mostram algo que só Michà conseguia alcançar — e ainda assim Ayr sobe 2% além, onde ninguém ousava chegar.
No cockpit, Ayr fecha os olhos por um segundo.
Em sua mente, o campo de trigo ainda dança ao vento.
E Jess ainda está lá, repetindo:
“Me leve para morar em teus sonhos.”
O GFG estronda novamente.
O som ecoa como trovão, e Ayr não está mais ali.
Ele está de volta ao colégio.
Dessa vez, em cima de um trem blindado que corta o horizonte.
As nuvens escuras anunciam tempestade, máquinas agrícolas blindadas trabalham ao longe.
Um clarão rasga o céu.
— Um. Dois. Três. Quatro. Cinco…
Outro raio. Mas agora próximo demais.
A apenas seis metros do trilho.
Ayr vê o traço do raio se formar até o chão, como se o tempo desacelerasse.
Ele sente o mundo em câmera lenta.
O trem avança, mas ele tem a sensação de que corre junto com o relâmpago.
De que anda na velocidade dele.
O estrondo final o joga para outro lugar.
Agora está no refeitório.
Jess está ao seu lado.
Ela empurra um pedaço de bolo na direção dele.
— Quer? — ela sorri. — Sei que está morrendo de fome. Você vive cabulando aula pra ficar na sala de mecânica mexendo nesses motores velhos.
Ayr sorri de canto.
— O que você vê nesses motores? — Jess insiste.
Ele fica em silêncio por um segundo, buscando palavras.
— Não sei… só tenho um instinto. Mexo, troco peças, lubrifico, remonto… e, quando finalmente funcionam, é como…
Ele faz uma pausa, o olhar distante.
— …como dar à luz um filho. Um filho de aço. Um milagre. Dar vida a algo que parecia morto.
Jess o observa com admiração.
— Sim… você é um sonhador — diz ela, e limpa com delicadeza a mancha de graxa no rosto dele.
Por um instante, Ayr esquece o mundo.
Os olhos de Jess — um azul, outro verde — parecem examiná-lo como uma obra-prima a ser restaurada.
A boca dela entreaberta, a respiração doce, o coração de Ayr acelerado.
— Pronto! — diz ela, rindo. — Agora sim. Aproveita o último pedaço de bolo que guardei só pra você.
Ele segura o bolo, mas não consegue parar de olhar para ela.
O som do GFG se mistura ao trovão distante.
Ayr volta ao presente.
Close no rosto dele.
Os olhos ainda fixos, como se ainda estivesse vendo Jess.
Um leve sorriso no canto da boca.
Ron percebe algo diferente na telemetria.
— Olha isso — diz, quase em sussurro para Dan.
As linhas no monitor estavam… perfeitas.
Nenhum pico de estresse, nenhuma variação cardíaca além do esperado.
Era como se Ayr estivesse… meditando, mas a 300 km/h.
— Ele está em fluxo absoluto — Dan murmura.
— Não… — Ron responde, com um arrepio na voz. — Isso é além do fluxo. Ele está em sintonia com o carro.
Ron, curioso, aumenta gradualmente a dificuldade no simulador.
O GFG começa a transferir mais carga, alterar a distribuição de freio, simular desgaste extremo de pneus.
Ayr não reage externamente.
Apenas ajusta no volante, a mão firme, e continua no mesmo ritmo — agora mais rápido.
Dan arregala os olhos.
— Isso é impossível…
— Não, Dan… — Ron sorri, quase assustado. — Isso é Ayr.
A telemetria marca 99,2%.
Uma marca que nem Michà tinha conseguido.
No cockpit, Ayr respira fundo e, por um instante, sussurra algo para si mesmo, inaudível no rádio.
Ron abaixa o volume para tentar ouvir.
Ayr, com voz calma, repete:
— Me leve para morar em teus sonhos.
Ron e Dan trocam um olhar silencioso.
Algo ali tinha acabado de mudar.
O garoto não estava só pilotando — ele estava vivendo o carro.
E, para a AVEX, isso era ao mesmo tempo um milagre… e um problema.
O som do GFG se mistura ao trovão.
Ayr está de novo no campo de trigo, o céu carregado de nuvens negras.
Os clarões cortam o céu como lâminas.
Ayr corre.
Corre como nunca.
Os pés afundam na terra molhada, o coração dispara.
Ele olha para trás — o trem blindado avança constante, imponente, e em cima dele está Jess.
Jess — com medo, mas sorrindo — levanta, abre os braços e acena para Ayr.
O vento bagunça seus cabelos, os relâmpagos iluminam seu rosto.
De repente, um solavanco.
Jess perde o equilíbrio.
Ela cai.
Tudo fica em câmera lenta.
Ayr grita, corre mais rápido, se joga nos trilhos.
O mundo inteiro silencia, exceto o som da própria respiração.
Ele alcança Jess.
Ela está sangrando, frágil, os olhos de cores diferentes ainda brilhando.
Jess — com um último sorriso, quase um sussurro:
— “Me leve para morar em teus sonhos…”
Ayr aperta a medalha no peito, lágrimas misturadas com a chuva.
Um raio cai a poucos metros, o campo de trigo pega fogo, o céu inteiro parece rugir.
CORTE BRUSCO PARA O PRESENTE
O GFG desacelera.
Os monitores apitam, indicando o fim da sessão.
Ayr para o carro no centro da plataforma.
Silêncio.
Ele tira o capacete devagar.
De repente, se curva para frente e vomita dentro do cockpit.
Os técnicos correm, mas Ayr levanta a mão — não quer ajuda.
Ele sai do GFG sozinho, pálido, suado, o corpo tremendo.
Ron e Dan ficam em silêncio.
Eles sabem que acabaram de ver algo mais do que apenas talento.
Ayr não era só um piloto — ele era um homem que carrega um fantasma, uma promessa e uma fúria que nenhum simulador pode conter.
O GFG silenciou aos poucos, exalando um zumbido grave, quase orgânico, como se a própria máquina estivesse recuperando o fôlego. Ayr saiu do cockpit devagar, o capacete na mão, o semblante endurecido. Caminhou pelo corredor sem olhar para trás.
Ron e Dan ficaram sozinhos na sala de controle. As telas ainda mostravam os últimos gráficos de telemetria, linhas que pulsavam em cores vivas. O ruído dos ventiladores era o único som no ambiente.
Dan quebrou o silêncio primeiro, a voz baixa, quase um sussurro:
— Isso não é normal. Nem a Michà consegue chegar tão fundo.
Ron passou a mão pelo rosto, como se precisasse se certificar de que estava acordado.
— Não… — murmurou. — Isso não é só talento. É outra coisa.
Dan se virou para ele, os olhos carregados de uma preocupação que raramente mostrava.
— Eu estava no rádio. Ele não reagiu ao que fiz. Não reagiu ao aumento de dificuldade. Ele simplesmente foi. Como se o carro fosse uma extensão dele.
Ron apoiou as mãos na mesa e ficou imóvel por alguns segundos.
— Eu conheço esse olhar — disse por fim, num tom mais grave. — Vi uma vez, no rosto da Michà. Mas Ayr… Ayr está em guerra.
Dan prendeu a respiração.
— Guerra com quem? Com os outros pilotos… ou com ele mesmo?
Ron desviou o olhar para o corredor escuro por onde Ayr havia desaparecido. O silêncio pesou entre os dois.
— Se ele realmente for o que eu penso… — Ron expirou lentamente. — Temos um problema. Ou um monstro.
Do lado de fora, um trovão estourou no céu, profundo e distante, como se confirmasse as palavras de Ron.
Ayr saiu do GFG como se tivesse deixado um pedaço de si lá dentro. O suor escorria do pescoço para o macacão encharcado. Cambaleou ao descer do cockpit, vomitou ao lado, e caiu de joelhos.
Os médicos correram. O barulho do GFG, que antes era ensurdecedor, virou um zumbido distante. Ayr foi deitado na maca com movimentos rápidos e treinados.
— Efeitos normais. — disse um dos médicos, sem alarde. — Deixem-no descansar, até o fim da tarde vai estar melhor.
Ron e Dan trocaram olhares. Era impossível dizer se estavam aliviados ou ainda mais preocupados. Ayr tinha ido além do que esperavam — talvez além do que ele mesmo suportava.
Michà observava em silêncio, braços cruzados, o queixo ligeiramente erguido, com aquela expressão fria de quem já tinha visto novatos brilharem e desaparecerem antes mesmo da primeira corrida.
Quando Ayr foi empurrado para fora da sala, meio consciente, os olhos semicerrados se encontraram com os de Lidi.
O estalo foi imediato.
Ela viu Ayr ali, pálido, vulnerável — e o passado a puxou de volta, cinco anos antes.
Raika.
O nome veio como um soco no estômago.
Raika caída na pista de kart, a curva manchada de pó de borracha e sangue.
Os fios longos de cabelo saindo pelo capacete, espalhados no asfalto como uma coroa despedaçada.
A briga.
Os gritos.
A pancada seca do soco que Lidi deu.
O silêncio depois.
Os silenciadores chegando, as duas ainda se provocando, cuspindo insultos.
Lidi sentiu o estômago se revirar.
Raika nunca mais voltou a ser a mesma.
E ela mesma também não.
Foi ali que cortou o cabelo curto — uma penitência silenciosa, um lembrete cruel de que, no fundo, ela tinha ido longe demais.
O barulho da maca se afastando trouxe Lidi de volta ao presente. Ayr estava indo para a enfermaria.
Era apenas o começo, mas a lembrança queimava como se fosse agora.
Raika tinha saído do kart furiosa.
Jogou o capacete no chão com tanta força que rachou a viseira.
Lidi nem se moveu — só apoiou o próprio capacete no assento e cruzou os braços, o canto da boca erguido.
— Lenta. — disse, seca, com o tom que sabia que Raika odiava.
Raika partiu para cima sem pensar.
Os chefes de equipe gritaram, mecânicos correram, mas já era tarde — a primeira troca de socos tinha começado.
Raika era fogo.
Explosiva, sem técnica, mas com força bruta.
Lidi era gelo.
Cada soco dela era preciso, direto, sem gritar.
Quando Raika a empurrou contra o pneu de proteção, Lidi girou o corpo, prendeu o braço da rival e a derrubou na grama.
Foi ali que Raika chutou, desesperada, atingindo a lateral de um dos chefes que tentava separá-las.
— Loucas! — alguém gritou. — Parem com isso!
Ninguém conseguiu.
Lidi acertou um soco seco no rosto de Raika.
O barulho foi abafado, mas todo o kartódromo ouviu.
Raika caiu de costas, sangue escorrendo do nariz, e ficou olhando para o céu, atônita.
O silêncio veio pesado.
Até os outros pilotos, que antes riam e provocavam, recuaram.
Um deles murmurou:
— Caralho… ela apagou a Raika.
Os silenciadores chegaram — seguranças da federação, frios, profissionais.
Separaram as duas, colocaram-nas em lados opostos da sala de interrogatório.
Mesmo assim, continuaram se provocando.
— Você só ganha porque trapaceia. — Raika cuspiu, com o lábio inchado.
— Eu ganho porque você é lenta. — respondeu Lidi, quase sorrindo.
As provocações continuaram, baixas, venenosas, enquanto os chefes tentavam acalmar o clima.
No fundo, todos sabiam: nada ia acabar ali.
As duas seriam rivais para sempre — na pista, fora dela, no olhar.
Foi naquela semana que Lidi cortou o cabelo curto.
Não por arrependimento.
Mas como um aviso.
Uma forma de dizer ao mundo — e a si mesma — que não ia baixar a cabeça.
Voltamos ao presente.
O corredor estava silencioso.
Ayr já tinha desaparecido para dentro da enfermaria.
Lidi piscou, tentando dissipar a lembrança.
Apenas Dan percebeu como ela estava tensa — os ombros rígidos, a mão fechada em punho.
Era só o começo, e Lidi sabia: aquela temporada ia trazer tudo de volta.
Ron chamou o nome dela pelo rádio.
— Lidi, sua vez.
Ela não respondeu de imediato.
Apenas levantou-se devagar, com a calma de quem já estava pronta há horas.
Havia algo em sua presença — uma aura de gelo, calculada.
Lidi vestiu o macacão cinza-escuro sem pressa, o tecido se ajustando ao corpo como uma segunda pele.
Pegou as luvas e as encaixou dentro do capacete, um gesto mecânico, quase militar.
Ron e Dan trocaram olhares. Era difícil acreditar que aquela mulher tinha apenas vinte anos.
Os instrutores abriram caminho, mostrando o corredor iluminado.
O teto era alto, as paredes brancas e lisas, sem janelas — a limpeza clínica fazia o ambiente parecer mais um laboratório de química do que uma sala de testes.
Tudo ali tinha um peso cerimonial, como se cada passo fosse um rito de passagem.
Mais adiante, Lidi entrou na sala esférica de concreto.
Era quase uma catedral branca, com o GFG no centro.
O outro GFG estava lacrado — Ayr havia usado horas antes, e os protocolos de segurança ainda estavam sendo cumpridos.
Lidi lembrou-se do que os engenheiros tinham dito: apenas três GFG existiam no mundo, dois ali em Ceres e um em Fiúme.
Ela estava prestes a usar o principal, o mais avançado.
Não havia espaço para falhas.
Os técnicos a guiaram até o cockpit.
O cheiro de metal e plástico novo misturado ao leve aroma de desinfetante fazia o ar parecer mais frio.
Ela entrou sem hesitar, sentou-se, encaixou o corpo na posição de pilotagem.
Os cintos de cinco pontas foram presos com precisão cirúrgica, uma trava de cada vez.
Um dos técnicos inclinou-se e, quase sussurrando, desejou boa sorte.
Lidi não respondeu.
Apenas fixou os olhos na projeção à sua frente.
O cockpit se fechou com um som pesado e surdo.
O mundo lá fora deixou de existir.
No rádio, a voz de Ron soou firme, mas com uma ponta de expectativa:
— Lidi, você já sabe o procedimento. Vamos começar com voltas lentas, depois vamos subir gradualmente o nível de dificuldade. Confirme quando estiver pronta.
Lidi respirou fundo uma única vez.
— Pronta.
Ron olhou para Dan através do vidro da sala de controle.
Dan assentiu.
Não havia como negar: aquela garota estava gelada, e ao mesmo tempo prestes a explodir.
Dan iniciou os sistemas do GFG. O ronco eletrônico da máquina preencheu a sala, ecoando como um coração artificial prestes a entrar em sincronia com o corpo de Lidi.
Ron observava a tela principal, cada gráfico, cada linha vital subindo com precisão quase matemática.
Lidi entrou na primeira volta como se estivesse decorando um manual — precisa, fria, sem movimentos desnecessários. Não era rápida, mas era perfeita.
Ron e Dan se entreolharam. Era como se ela estivesse em casa.
— Parece que ela só precisava de um volante — murmurou Dan.
— E de um motivo para vencer — completou Ron.
Os sensores mostravam estabilidade absoluta. Batimentos controlados, respiração profunda. Lidi não apenas pilotava — ela resolvia uma equação em tempo real.
Ron pediu para aumentarem a dificuldade. Seu famoso “saco de maldades” entrou em ação: pneus escorregadios, simulador mais nervoso, pista virtual ligeiramente irregular.
Lidi reagiu como se tivesse previsto cada detalhe.
— Níveis acima de 90% — informou Dan, surpreso.
— Isso não é tudo — respondeu Ron. — Ela está guardando pneus. Está pensando na corrida inteira.
Subiram para 95%. Ainda assim, ela parecia não sentir o peso do carro. Seus olhos, fixos no horizonte virtual, eram dois blocos de gelo.
— Queremos ver até onde vai, Lidi — disse Ron pelo rádio. — Vamos te dar pneus macios e mexer na asa dianteira. Hora de mostrar do que é capaz.
Lidi não respondeu. Só apertou mais o volante e iniciou o aquecimento. Volta após volta, sua precisão se transformava em velocidade.
O painel mostrava picos de 96… 97%. Ron sorriu.
— Se temos uma Donzela de Aço — disse ele, em voz baixa — acho que acabamos de encontrar a Guerreira de Gelo.
Dan riu, mas seus olhos estavam grudados na tela.
— E Ayr? Que nome você daria a ele?
Ron hesitou.
— Ainda não sei. Ele pilota por instinto. É como se a máquina falasse com ele.
Na última volta, Lidi fez algo inesperado: inclinou levemente a cabeça, quase como se estivesse se divertindo. Quando cruzou a linha final, soltou um pequeno suspiro e um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios.
Ron percebeu.
— Ela gostou — disse, cruzando os braços.
Dan concordou.
— E se ela gostou, é melhor todo mundo se preparar.
O cockpit abriu. Lidi retirou o capacete devagar, sem pressa, e olhou diretamente para Ron.
— Está pronto para me dar algo mais difícil? — disse, seca, mas com o brilho de desafio nos olhos.
Ron apenas sorriu.
— Sempre.
Lidi caiu de joelhos, o corpo inteiro tremendo, e vomitou no chão metálico. O som ecoou no silêncio pesado do GFG. O gosto amargo e metálico ficou preso na garganta, misturado ao sangue.
Uma das marcas a ergueu pelos braços, arrastando-a pela baia até a enfermaria. Lidi estava meio inconsciente, a visão turva, os sons se transformando em zumbido.
No caminho, lembranças vinham em flashes:
Raika gritando.
O som seco de um soco.
O cheiro de ferro no ar.
As duas na detenção, cada uma em uma cela.
Mesmo castigadas, o ódio continuava queimando. Mãe Ceres odiava ver suas filhas brigando, mas não tolerava que se matassem — o ódio, no entanto, era mantido vivo, nutrido como se fosse uma chama necessária.
“Chorem, sangrem, cresçam.”
“As filhas de Ceres não quebram, se forçam até dobrar o mundo.”
A frase ecoava como se viesse de um alto-falante invisível, ou talvez fosse só a própria mente de Lidi repetindo o que ouvira na instrução.
Na enfermaria, deitada, o corpo pesado, ela pensou em Raika de novo. Pensou no dia em que ela chegasse à AVEX INFINITY TEAM. Pensou em Ayr — o novato — que já parecia melhor que ela. E pensou na Michà, a Donzela de Aço.
O maxilar de Lidi se contraiu. O gosto de sangue e bile escorrendo pela boca não era só nojo — era promessa.
— Donzela de Aço? — murmurou, cuspindo no chão. — Até aço se dobra.
A enfermaria estava silenciosa, exceto pelo bip do monitor cardíaco.
Lidi, ainda pálida, abriu os olhos e viu Ayr na maca do outro lado, deitado com o soro no braço.
Ele notou o olhar dela e sorriu. Não um sorriso provocador — era confiante, como se nada pudesse derrubá-lo.
O sorriso de alguém que tinha acabado de domar o GFG.
— Bom treino — disse Ayr, com a voz calma, quase irônica.
Lidi franziu o cenho, a raiva queimando no peito.
— Vai se foder — cuspiu, ainda deitada.
Ayr riu, sem se ofender.
— Somos da mesma equipe, Lidi. Querendo ou não, vamos ter que aprender a correr juntos.
Ela respirou fundo, tentou se levantar, o corpo ainda pesado, o soro puxando seu braço para baixo.
— Eu não preciso de amigos — respondeu com frieza. — Quer um amigo? Compra um cachorro.
— Ou você aprende a trabalhar em equipe — rebateu Ayr, tranquilo — ou vai ficar vendo minha traseira na pista.
Lidi se levantou de repente, o corpo frágil tremendo, e arrancou a mangueira do braço. Segurou o tubo do soro como se fosse um chicote.
— Se eu te pegar dormindo, eu te enforco com isso — rosnou, os olhos brilhando de raiva.
Ayr não recuou. Continuava sorrindo.
Ele sabia do passado dela com Raika. Tinha visto a briga, tinha visto o sangue.
— Não é lenta — disse Ayr, com a voz baixa. — Mas é tão estúpida quanto ela.
O silêncio que se seguiu foi quebrado quando a porta da enfermaria se abriu.
O médico-chefe entrou, os passos ecoando no piso.
— Chega — disse, a voz firme. — Se querem se matar, façam isso lá fora. Aqui dentro, vocês são profissionais.
Ambos ficaram parados, respirando pesado.
— Mais uma cena dessas e vocês serão desqualificados — continuou o médico. — Cada palavra, cada gesto, está sendo registrado. Desde o colégio, tudo está no relatório.
— Amanhã vocês vão se sentar na frente de Ron e explicar se têm maturidade para pilotar ou não.
Lidi largou o tubo do soro no chão. Ayr virou o rosto para o teto, segurando o riso.
Nenhum dos dois disse mais nada, mas o ar ficou pesado como chumbo.
Eles estavam quietos.
Mas se odiando em silêncio.
Ickx esperava sentado no banco metálico, os olhos fixos no chão.
O som das rodas da maca ainda ecoava pelo corredor branco.
Lidi passara por ele, pálida, com o soro balançando ao lado.
A cena não era exatamente animadora.
Ron surgiu logo depois, prancheta em mãos.
O olhar dele, sempre firme, não era de reprovação, mas de quem queria medir até o mais discreto gesto.
— Vamos, Ickx. Sua vez.
O piloto respirou fundo e se levantou. O corpo estava tenso, mas a expressão continuava calma.
Ron percebeu e sorriu de leve.
— O GFG não é uma corrida comum — explicou enquanto caminhavam pelo corredor. — Ele é mais intenso que qualquer supercarro.
Não se trata de vencer voltas. É um teste de estresse.
A máquina foi feita para exagerar cada sensação, cada medo, cada instinto. É aí que vemos quem vocês são de verdade.
Ickx assentiu em silêncio.
No fundo, já sabia que estava prestes a atravessar algo que nenhum treino de pista poderia antecipar.
Ron levantou a prancheta.
— Sua ficha é a mais curiosa de todas.
Sem traumas. Sem explosões de ego. Sem sombra de rivalidade.
Um piloto normal, exemplar no comportamento.
Calmo, sereno, calculista.
Mas com desempenhos consistentes em categorias inferiores.
Metódico, eficiente.
Ickx ergueu uma sobrancelha, intrigado.
— Isso é bom ou ruim? — perguntou.
Ron sorriu, mas não respondeu de imediato.
— Depende. A normalidade pode ser sua maior força… ou sua maior fraqueza.
Num grid cheio de egos inflamados, um homem que não se abala pode ser temido.
Mas também pode ser usado.
Ickx entendeu a indireta.
Não era apenas sobre guiar.
Era sobre informações, sobre psicológico, sobre resistir à manipulação.
Um piloto que fala demais podia virar munição contra os outros.
Um piloto que fala de menos podia ser descartado.
Ele também percebeu algo: não havia mais candidatos circulando pelo complexo.
Talvez já fosse o último.
Talvez fosse reserva.
Ou talvez Ron estivesse soltando informações falsas, apenas para testá-lo.
Era impossível saber.
Ickx manteve o mesmo semblante sereno.
Melhor não reagir. Melhor ouvir. Melhor absorver.
Antes de entrarem no salão do GFG, Ron parou diante de Ickx.
O corredor branco refletia a luz fria, e por um instante o silêncio pareceu pesar mais do que o som das máquinas ao fundo.
— Você era companheiro da Raika, não era? — perguntou de repente.
Ickx demorou meio segundo para responder. O nome trazia lembranças que ele não gostava de revisitar.
— Sim — disse por fim, mantendo a voz neutra.
Ron o encarou, como quem media mais do que palavras.
— Ouvi falar sobre a reconstituição do couro cabeludo dela…
Quase perdeu tudo naquele acidente com a Lidi.
Ickx assentiu devagar.
— Ficou uma cicatriz atravessada entre a sobrancelha e a testa.
Foi bem reconstruído, não ficou feio.
Raika… ela carrega como lembrança.
Ron cruzou os braços, firme.
— Era para Raika estar no seu lugar hoje.
Mas por causa das advertências… não pude arriscar.
Já tenho problemas demais para resolver.
Preciso de alguém centrado.
As palavras caíram como um peso invisível.
Ickx não respondeu, mas entendeu.
Ele não estava ali apenas por talento, mas porque representava o equilíbrio que a equipe precisava.
Ron então abriu a porta do salão do GFG.
— Venha. — sua voz agora soava quase paternal. — Preciso de alguém com mentalidade de adulto.
As provas são de quatro horas intensas.
Só comunicação e disciplina mantêm um carro na pista por tanto tempo.
Ickx respirou fundo e o seguiu.
Dentro, o coração já acelerava.
Sabia que não competiria apenas contra a máquina, mas contra os fantasmas que corriam ao lado dele.
Ron repousou a prancheta sobre a mesa de vidro da cabine de comando. À sua frente, as fichas abertas — Raika e Lidi — pareciam ganhar vida própria, disputando sua atenção como chamas que lambiam o papel. A cicatriz de Raika, um risco oblíquo entre a sobrancelha e a testa, conferia-lhe um ar feroz, de guerreira que transformou a dor em marca de orgulho. Poderia ter apagado o sinal com cirurgias, mas preferiu carregá-lo como insígnia.
Ao lado, Lidi exibia uma frieza quase tangível, estampada até na fotografia. Olhar fixo, postura rígida, a aura de quem não pede perdão nem oferece desculpas. Ron sentiu o peso do papel nas mãos, como se cada folha ardente tentasse transmitir a história que não se apagava, as rivalidades e segredos ainda vibrando entre elas.
— Maldição... — murmurou, sem conseguir disfarçar. — Vocês ainda brigam até no silêncio do papel.
Ele se inclinou sobre a mesa, absorvendo cada detalhe, cada sombra e vinco das fichas, como se pudesse decifrar o caráter delas antes mesmo de ouvir suas vozes. O cockpit, com os instrutores ao redor e o barulho contido dos motores, parecia desaparecer, deixando apenas o calor das histórias prestes a se encontrar.
No GFG, Ickx ajustava o cockpit com concentração absoluta. Ron, de pé ao lado, decidiu iniciar o teste.
— As primeiras voltas são para você entender o carro e o próprio GFG. Depois, aí sim, pode ir fundo — explicou.
— Tudo bem — respondeu Ickx, firme.
Dan, alinhado ao lado, deu um aceno. — Boa sorte, Ickx.
As voltas começaram, precisas e constantes. Ickx mantinha a performance entre 90 e 92%, sem titubear. Na sala de controle, Ron se inclinou sobre os monitores, observando os assistentes, e comentou com Dan:
— Ele parece ser o piloto mais normal, sabe? Sem traumas visíveis.
— A FMAX reduziu de cinco para quatro horas, você viu? — continuou Ron. — A associação de pilotos acha arriscado demais por causa da fadiga.
— Você é das antigas, né? — disse Dan, com um meio sorriso. — Adora adrenalina. Mas você gostava da tortura dentro do carro. Calor de 180 graus, nada de mordomia, tecnologia ou não.
— Sadomasoquista — retrucou Ron, com um brilho nos olhos. — Muitos pilotos morriam. Quase sem segurança. Mas era a era dourada. O medo de morrer era real… mas o de vencer, maior ainda.
Enquanto isso, Ickx completava volta após volta, constante e calculado.
— Ele mantém assim porque a maioria não é assim — comentou Ron, quase para si mesmo.
— Você não é das antigas — disse Dan, sorrindo com ironia. — FMAX não é autorama. Aqui, a corrida é para quem quer morrer… sem querer morrer de verdade. Um parque de diversão enferrujado. A diversão está no medo, no desafio de controlá-lo, sabendo que vai sair vivo.
Ron assentiu, olhando para o piloto. Ickx, alheio ao drama histórico da FMAX, parecia apenas concentrado em vencer a si mesmo e ao carro. Mas, para Ron, ali, no calor do cockpit e na tensão da corrida, estava escrita a essência daquilo que ele chamava de verdadeira adrenalina.
Ron balançou a cabeça, admirando a precisão de Ickx.
— Exatamente. Essa é a verdadeira corrida. O resto é só brinquedo.
Ron começou seu saco de maldades nas voltas seguintes. Sem frear, empurrando o carro ao limite, com pneus já gastos. Ickx percebeu imediatamente:
— Estou sem downforce… a traseira está sacudindo! E os pneus estão graining!
— Faltam três voltas antes do box — respondeu Ron, com um sorriso contido. — Vamos colocar o jogo de pneus médios.
— Quero duros — insistiu Ickx.
— Médios. Confia em mim.
Ickx entrou no box virtual do GFG, trocou os pneus e voltou para mais quinze voltas, no máximo. Já na pista, começou a reclamar novamente:
— Esses pneus estão deformando, preciso dos duros!
— Três voltas, só três voltas — respondeu Ron, firme.
Na sala de controle, Ron comentou com Dan:
— Ele sabe economizar pneus. Não é só velocidade, é eficiência. Mantém o carro crítico sob controle. Na verdade, ele deveria ter abandonado a prova… mas não.
Dan arqueou a sobrancelha.
— Parece até que ele leu a sua mente.
Ron sorriu de lado, com a satisfação de quem tinha planejado tudo: os pneus médios que ele deu a Ickx eram, na verdade, pneus duros disfarçados, feitos para longa duração e consistência. Ickx, por ser tão jovem e perspicaz, percebeu e se adaptou — mostrando que, embora novo, já tinha a cabeça de um veterano.
Ron chamou Ickx para o box virtual e trocou os pneus pelos duros. Assim que voltou à pista, Ickx começou a equilibrar o carro com precisão quase cirúrgica. Não era questão de velocidade pura, era consistência sem erros. Cada curva, cada aceleração, cada ponto de frenagem era calculado — o nível de eficiência subiu para 96%.
Vinte e cinco voltas depois, todas consistentes, Ron ordenou:
— Vou te dar novos setups. Mesmo que isso não aconteça nas provas, quero que você vá mais rápido. Mais intenso. É para isso que serve o GFG — elevar o piloto ao limite.
Ickx assentiu, sabendo que a verdadeira corrida não estava apenas no tempo, mas em manter a mente e o carro sob controle, enfrentando cada mudança como se a própria pista testasse sua resistência.
Ickx manteve 95% de eficiência, mas com uma consistência impressionante. O carro obedecia a cada comando, calmo, quase previsível. Ron chamou-o para o box virtual. Ickx entrou, trocou para pneus macios e recebeu setups novos. Alguns segundos depois, estava de volta à pista.
Como um relógio, Ickx funcionava com precisão absoluta. Em pouco tempo, atingiu 96%, mantendo a consistência. Quinze voltas rápidas, seguras, sem um único deslize.
A telemetria mostrava algo quase hipnótico: as direções do volante eram quase idênticas às das treze voltas anteriores. Pequenas nuances, quase imperceptíveis, surgiam a cada curva, ajustando o carro com delicadeza e precisão. Cada movimento parecia calculado, meticuloso, como se o tempo e o espaço se dobrassem à disciplina do piloto.
Ron, observando os gráficos, não pôde deixar de sorrir. Não era apenas habilidade; era controle absoluto, e Ickx parecia saber disso melhor que qualquer veterano.
Thoughts
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PermalinkOuvi a vida inteira em mesa de bar a mesma conversa que o Ron teve com o Dan sobre a era dourada, calor de 180 graus e piloto morrendo, só que com outro esporte no lugar do carro. Todo homem da minha idade jura que o perigo de antigamente era mais honesto. O Dan respondeu melhor do que eu teria respondido.
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PermalinkA Lidi corta o cabelo curto e isso é contado duas vezes: primeiro como penitência, umas páginas depois como aviso, sem arrependimento nenhum. Fiquei com a impressão de que nem ela decidiu ainda qual das duas foi, e foi isso que me fez gostar mais dela do que do Ayr.
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PermalinkOs 1.372 metros do Ayr são exatamente quatro segundos de som, e os 2.744 do campo de trigo são oito. O menino conta certo desde os dezesseis! Me pareceu que é por isso que ele aguenta o GFG tão calmo: passou a vida medindo a distância até o perigo. Vai postar a continuação com a vez da Michà?
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PermalinkArriégua, capítulo comprido e eu fui até o fim sem largar! A frase da medalha vai aparecendo em todo canto: no pescoço do Ayr, na boca da Jess no trigo, no rádio do GFG e por último com ela sangrando nos trilhos. Quando ele sussurra aquilo a 300 por hora, entendi pra onde ele está indo tão rápido: pro lugar onde a Jess ficou. E o recado pro Annes, de irmão que ele nunca conheceu, ganha outro peso depois disso. Tenho pra mim que essa rixa vai virar outra coisa quando os dois se virem na pista.
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